RESGATE
20 de março de 2013

Cai a tardeCai a tarde 2

 

(Na foto acima, Orlando, meu camelo azul da cor do mar, companheiro de pedaladas & paisagens nos fins de tarde.)
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cai a tarde & não há quem o retarde (o cair da tarde).

cai a tarde, e o cair da tarde, não há quem o faça tardar a chegar, não há quem faça a tarde alongar-se, prolongar-se, não há quem faça o cair da tarde chegar ainda mais tarde, e não há quem faça a tarde tornar-se tarde novamente, não há quem nem o que: “re-tarde”, não há quem nem o que reedite a tarde.

cai a tarde, que, ao cair, me invade com seus efeitos & delírios cromáticos.

cai a tarde & não cai à parte. cai a tarde, que, ao cair, não cai separadamente de tudo que abriga. cai a tarde e, junto com ela, o canto de pássaros & os hibiscos vermelhos também caem, também escondem-se, também desaparecem, dos nossos ouvidos & das nossas vistas.

(no cair da tarde, onde caem o canto de pássaros & hibiscos vermelhos? para onde fogem, que dimensão habitam?…)

tarde de outono; tarde de começo de outono… folhas ainda nas árvores — as folhas não caíram das árvores assim como a tarde, que cai do pé do dia.

sem alarde, cai a tarde & o que com ela cai (o canto dos pássaros, os hibiscos vermelhos). e não cai pela metade (ao cair, a tarde não cai separadamente de tudo que abriga).

cai mais esta tarde de sol, finda, encerra-se. cai a tarde e, com ela, tudo o que é dia, o que é manhã.

num desenlace: noite.

cai a tarde, acéfala no céu, sem a sua cabeça coroada pela luz solar, cai a tarde, acéfala no céu quase já escuro, sem qualquer possibilidade de resgate, de retorno, de reconquista, sem qualquer possibilidade de que seja reeditada, de que: re-tarde.

(cai a tarde & não há quem retarde o cair da tarde.)

que a tarde caia caiando — pintando colorindo ornando — o fim do dia com seus delírios cromáticos.

(e que se edifiquem outras tantas!)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Até agora. autor: Régis Bonvicino. editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.)

 

 

RESGATE

 

Cai a tarde
e não há quem o retarde
o cair da tarde
Cai a tarde

que, ao cair, me invade
Cai a tarde
e não cai à parte
Cai a tarde de sábado

na tarde, de canto de pássaros e
hibiscos vermelhos
caem onde?
tarde de outono

tarde de começo de outono
folhas ainda nas árvores
as folhas não caíram das árvores
cai a tarde

e o que com ela cai
sem alarde
cai a tarde
e não cai pela metade

cai mais esta tarde de sol
cai a tarde e com ela a manhã
num desenlace
noite

cai a tarde
acéfala no céu já quase escuro
sem qualquer possibilidade
de resgate

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DESABAFO: ACORDA, BRASIL!
6 de dezembro de 2012

Décio Pignatari

(O poeta Décio Pignatari.)
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Escreveu (muitíssimo bem) o poeta Régis Bonvicino:

“A morte do poeta paulistano Décio Pignatari, ocorrida esta semana em São Paulo, aos 85 anos, produziu uma série de manifestações na imprensa, como seria de se esperar. O surpreendente foi o tom nostálgico que marcou a maioria delas, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, também se acentuava certa modernidade essencial de Pignatari. Alguns afirmaram que seu ‘espírito inovador’ faz falta à poesia atual, outros, que Pignatari jamais foi reconhecido como deveria, não tendo, por exemplo, recebido prêmios literários.”
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Um DESABAFO de PAULO SABINO:

sinceramente, às vezes eu não entendo o Brasil. Quer dizer que, agora, depois de falecido, todas as loas & todos os reconhecimentos a Décio Pignatari? De um dia pra outro, todos os salves à obra do poeta?

Vem cá: e quando vivo? e quando entre nós, por que a falta de tantas homenagens & matérias de jornal?

Sabe o que acho? CARETICE, MEDO, INVEJA, por parte de quem compõe a elite literária, CARETICE, MEDO, INVEJA, dos que encabeçam os prêmios & críticas literários. Puxa vida, um poeta de tão altas capacidades… capacidades, aliás, reconhecidas por todos que, de algum modo, mexem com literatura (vide a comoção diante da morte do poeta).

E me pergunto: por que fingir menosprezo, por que fingir certa falta de importância, a uma obra tão cheia de requintes, como é a obra do Décio, enquanto Décio estava vivo, entre nós? Nem 1 prêmio literário com obra tão vasta & festejada? COISA BESTA, ABSURDO PEQUENO, ATITUDE MESQUINHA.

Agora que o bardo se foi, agora que não tem mais jeito (infelizmente o processo de ressurreição morreu com o Cristo na cruz), como vai ser? Um “pipocar”, uma enxurrada, de prêmios ao poeta morto?

Agora, poeta sete palmos abaixo da terra, todos os reconhecimentos à sua fantástica obra…

PAÍS DE MERDA!, que não sabe dar valor ao que tem, PAÍS DE MERDA!, que precisa de aval estrangeiro pra reconhecer o que é valoroso no seu território. TRISTE TRISTE TRISTE, HORROR HORROR HORROR…

Na boa: às vezes penso que o BRASIL, melhor: que alguns BRASILEIROS — falando bem diretamente ao meio literário — NÃO MERECEM alguns filhos deste solo, filhos da grandeza de DÉCIO PIGNATARI.

O que acontece agora com o Décio (MORTO) é recorrente no Brasil. E os senhores não fazem idéia da VERGONHA que sinto…

Agora podem me perguntar: se acho importante que finalmente Décio Pignatari seja reconhecido? que receba prêmios & loas? que seu nome, finalmente, ganhe o país?

Acho, acho super importante, e desejo!, e quero!, que isso aconteça.

Mas, porra!, é preciso que o homem morra sem o devido reconhecimento dos próprios pares (digo: jornalistas, críticos & poetas)?

Caralho!, ele fez pela língua portuguesa, Décio foi um poeta BRASILEIRO! Que medo é esse (o de admitir o grande valor & a grande contribuição literária)? que “protecionismo” babaca é esse?

Isso me REVOLTA! Porque sei que, no caso do Décio, assim como em muitos outros casos, tal fingida desconsideração pela sua obra ocorreu por conta de MEDINHOS & INVEJA de parte da classe literária.

A elite intelectual brasileira precisa CRESCER, precisa AMADURECER.

Jornalistas, críticos literários, poetas: UNI-VOS!

O que importa é a BOA poesia. Belezas nasceram para ser COMPLEMENTARES & não EXCLUDENTES!

 A existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas. 
 
Não seria diferente na arte.
 
Pensem a respeito.
 
ACORDA, BRASIL!

RASCUNHO DE VIDA: CAMINHO PARA O LIXO
11 de janeiro de 2012

 
(Morador de rua: pessoa de carne & osso, assim como eu, assim como você)
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fedendo a cigarro & a mim mesmo,
 
cheiro ruim exalado dos maus tempos em que vivemos,
 
cruzo uma avenida larga & áspera ao anoitecer:
 
sirenes, carros, vozes abafadas.
 
numa rua transversal, o cadáver de um cachorro atropelado.
 
tempos de correria, tempos de pressa, tempos de desimportância, tempos de atropelamento.
 
rodas metálicas passam em ritmo lento, fedendo a esgotos & a mim mesmo, que também exalo o esgoto, esgoto em que piso, esgoto sobre o qual montamos as nossas vidas repletas de desejos mesquinhos.
 
eu mesmo fedendo a esgotos, fedendo a um pouco de fogo do isqueiro, eu mesmo fedendo como aquela maçã podre, eu mesmo fedendo, exalando, a música estúpida destes tempos, a música burra das vontades superficiais, a cantilena dos sonhos descartáveis, música que vibra seus acordes dissonantes todas as vezes que saio da segurança da minha casa ou ao ligar a TV em determinados programas (coisa que não faço).
 
o lixo recolhido exala um cheiro nítido na calçada (cheiro de podridão, cheiro dos tempos que fedem à música estúpida), cheiro na calçada que também fede a sapatos, fede a ratos, ao suor (frio) dos neóns, a cadeiras, a notícias inúteis (sem importância no seu conteúdo) & a mim mesmo, caminhante a gravar seus passos nas calçadas & avenidas, caminhante fedendo seu cheiro sob a lua & junto a narinas (de outros caminhantes) entupidas de gás carbônico.
 
o som do motor do ônibus, com seu rugido rascante & sua contribuição de fumaça poluente, fedendo as mesmas camisas, velhas & surradas, e fedendo a mim mesmo, passageiro que sou das lotações que me transportam por ruas, ladeiras & avenidas, o som do motor do ônibus fedendo a esquinas por onde passa, esquinas que exalam cheiros que fedem a expectativas (tudo fede frente a fatos funestos) que, no entanto, acabam na próxima linha (seja da vida, seja do poema).
 
expectativas que acabam, postas fora, feito lixo.
 
lixo: aquilo que não se considera útil ou propício:
 
plásticos voando baixo, cacos de uma garrafa (pétalas cortantes sobre o asfalto).
 
balde na lixeira: lixo.
 
lixo: os sacos jogados na esquina, os sacos ao lado da cabine telefônica, restos de comida & cigarros no canteiro (feito para árvore), sem a árvore, lixo consentido por toda parte desta cidade que fede, lixo sob o viaduto que, agora, sob o viaduto, se confunde com mendigos.
 
mendigos: pessoas, seres humanos, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você.
 
mendigos: pessoas moradoras de rua, marginalizadas, discriminadas & confundidas com lixo (por muitos) mesmo quando não sob o viaduto, mesmo quando às claras, à luz do dia.
 
os mendigos são odiados por muitos porque fedem as calçadas & porque, ainda que perceptivelmente humanos, ainda que perceptivelmente de carne & osso (assim como eu, assim como você), são confundidos com lixo.
 
num dia, um mendigo encontrado morto. morto a pauladas.
 
não há palavras que denomine a ação contínua de bater: pauladas.
 
não há palavras para pauladas.
 
quando a violência fala mais alto, toda & qualquer palavra se cala. a possibilidade de diálogo é encerrada.
 
pauladas: não há palavras.
 
não há palavras para dizer: morto a pauladas.
 
matar a pauladas um mendigo (uma pessoa, um ser humano, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você) & seus utensílios, aniquilar a pauladas um mendigo & sua sacola, seu cobertor, sua calçada…
 
morto a pauladas.
 
àqueles que se locupletam com o caso, àqueles que se enchem de um prazer que beira o sadismo quando comentam o caso sem pistas, não compreendem que não há palavras para:
 
morto a pauladas.
 
ao falar a paulada, cala-se a palavra.
 
(pancadas não deixam espaço à troca de palavras.)
 
mendigo morto a pauladas na madrugada.
 
de manhã, poça de sangue, feridas na cabeça, e no rosto não há palavras: no rosto, as marcas dos golpes a porrete.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. afinal, pancadas não deixam espaço à troca de palavras.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. sem muito papo: a devida punição aos verdugos!
 
mais respeito à vida! menos valor à música estúpida destes tempos, menos valor aos desejos descartáveis, menos valor aos sonhos mesquinhos! mais valor à delicadeza! mais valor à cooperação mútua!
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Até agora: poemas reunidos. autor: Régis Bonvicino. editora: Imprensa Oficial.)
 
 
 
CAMINHO DE HAMSTER
 
 
Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros
 
vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro
 
atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro
 
fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo
 
o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos neóns
 
a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico
 
o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas
 
exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha
 
 
 
O LIXO
 
 
Plásticos voando baixo
cacos de uma garrafa
pétalas
sobre o asfalto
 
aquilo
que não mais
se considera útil
ou propício
 
há um balde
naquela lixeira
está nos sacos
jogados na esquina
 
caixas de madeira
está nos sacos
ao lado da cabine
telefônica
 
o lixo está contido
em outro saco
restos de comida e cigarros
no canteiro, sem a árvore,
 
lixo consentido
agora sob o viaduto
onde se confunde
com mendigos
 
 
 
RASCUNHO
 
 
Pauladas não há palavras
morto a pauladas não há palavras
para dizer morto
a pauladas
 
matar a pauladas
um mendigo e seus utensílios
sacola, cobertor e calçada
morto a pauladas
 
a lua em quarto minguante
verga
nuvens ásperas encarneiradas
enquanto isso aqueles que
 
se locupletam com o caso
sem pistas
não há palavras
morto a pauladas
 
a corda no pescoço?
de manhã —
poça de sangue —
feridas na cabeça
 
e no rosto
não há palavras
morto a pauladas
não tem conversa não

VIDA, PAIXÃO E PRAGA DE RB
27 de maio de 2011

abaixo,

 
em versos,
 
vida, paixão & praga de rb.
 
abaixo,
 
vida, paixão & praga do poeta régis bonvicino:
 
o poeta, ensimesmado, pergunta-se:
 
para que fazer poesia?
 
para que fazer poesia se o que alcança o poeta é o efeito pouco, se o que consegue o bardo é o efeito pobre?
 
para que a poesia se o poeta é tão-somente um epígono? sim, um epígono, um mero imitador de um grande artista criador ou de um célebre pensador, mostrando-se, até certo ponto, “inocente”, e inútil.
 
o poeta considera-se um “dilutor” — aquilo que se diluiu, tornando-se menos consistente, tornando-se mais “aguado” —, com todas as letras.
 
o poeta também é um dilutor, é inconsistente, quando formula os seus versos, é um dilutor com todas as letras que compõem as palavras que, por sua vez, compõem os versos seus, dilutos (dissolvidos, “aguados”, inconsistentes).
 
o poeta: simples caixinha de eco, um menino de recados (alheios).
 
em vez de “ácido”, em vez de “viajante” como o “lsd”, o poeta destina-se, segundo ele próprio, à água com açúcar, destina-se a “placebo”, destina-se a um “ácido malhado”, “ácido” sem “lsd”. em vez de ácido, no sentido de mordaz, cruel, corrosivo, o que o poeta traça em suas linhas destina-se à expressão “água com açúcar”, isto é, destina-se à bobagem, destina-se à desimportância.
 
portanto, por que a poesia? por que a necessidade de?
 
por quê, se a língua de fogo do poeta, que incendeia & queima & ilumina, é de palha, língua de fogo que não dura, língua de fogo momentânea, passageira?
 
língua que não fala nem cala: falso alarma.
 
então, por que poesia? por que a necessidade de poesia se o poeta se vê como personagem de bijouteria, e não como personagem de valor?, se o poeta se enxerga como palavra já usada, palavra já velha conhecida?, se o poeta se olha como mera, como banal, como trivial, praga (como a tradução da tradução mal acabada)?
 
porque o poeta, filho de um self made man, isto é, filho de um homem que se virou sozinho na vida, filho de um homem vivo, porque ainda não está morto, vivo porque um homem esperto, sagaz, e de uma mulher delicada como alva flor, e tão sensível que se matou, o poeta, único filho do casal, fez da antipoesia de si, ou seja, o poeta fez de tudo o que, nele, não é poesia, o seu exílio, o poeta fez de tudo o que não é poesia o seu lugar distante, o seu porto longínquo, afastado.
 
sendo assim, a poesia tornou-se o seu modo de comunicar-se com o mundo, a poesia tornou-se o elo do poeta com o seu entorno, a poesia é a sua maneira de buscar aproximação com o que o cerca.
 
com a poesia, o poeta se aproxima, o poeta deixa o ostracismo, e se pronuncia:
 
em sua cabeça, a palavra “CARNE”, louca de pedra, fora de órbita, apresenta-se “NACRE”; as letras que formam a palavra (C-A-R-N-E), nesta ordem — “NACRE” —, parecem embaralhadas.
 
porém, de fato, a palavra “CARNE” está “louca de pedra”: pois que a sua forma “fora de órbita”, “NACRE”, é um modo de se referir ao que se chama “nácar”, amplamente conhecido como “madrepérola”, substância calcária que constitui a camada mais interna de uma concha, substância dura feito pedra.
 
o poeta & a sua cabeça na lua: com a cabeça na lua porque o poeta “viaja” nas suas idéias, porque o poeta “viaja” com as suas divagações; com a cabeça na lua também porque a palavra “CARNE”, louca de pedra, fora de órbita, com suas letras embaralhadas, na cabeça do poeta deseja-se “NACRE”, ou seja, na cabeça do poeta a palavra “carne” deseja-se “madrepérola”, carne branca concreta, dura, como a lua, satélite cuja alvura é sempre comparada à alvura do “nacre”, à alvura da “madrepérola”.
 
louca “de pedra”, “fora de órbita”: a palavra “CARNE” deseja-se “NACRE”.
 
continua o poeta. com a poesia, deixa o seu exílio e se pronuncia:
 
pássaro sem asa,
corpo sem cor,
palavra sem pala (sem dica, sem alguma história que a revele, ou que a vele),
primeiro amor sem rima,
música sem musa (sem inspiração),
cinema sem cena,
diário sem dia,
vocabulário sem boca:
 
fica difícil imaginar a existência dessas coisas (pássaro, corpo, palavra, primeiro amor, música, cinema, diário, vocabulário) sem as características citadas, sem as características que acompanham essas coisas, sem as características que dizem respeito a essas coisas (asa, cor, pala, rima, musa, cena, dia, boca).
 
percebam que, também estruturalmente, as coisas não podem existir sem as características acima listadas: a palavra “p – á – s – s – a – r – o”, se não possuir, em si, se não possuir, na sua estrutura, a palavra “a – s – a”, ela não pode existir; a palavra “c – o – r – p – o”, se não possuir, na sua estrutura, a palavra “c – o – r”, não pode existir; as palavras “p – r – i – m – e – i – r – o   a – m – o – r”, juntas, se não possuírem a palavra “r – i – m – a” dentro delas, deixam de existir.
 
desse modo, as coisas relacionadas acima (pássaro, corpo, palavra, primeiro amor, música, cinema, diário, vocabulário), sem as suas respectivas características (asa, cor, pala, rima, musa, cena, dia, boca), não podem existir tanto na realidade mundana como na realidade estrutural (e semântica). 
 
segue o poeta, aproximando-se, com os versos da sua poesia, do mundo que o circunda:
 
um ornato, um jeito de gato; uma bomba de átomo, uma flor de cacto; um vinho tinto cabernet franc, um ready made de marcel duchamp. uma lista de coisas belas & significativas, tão belas & tão significativas quanto a poesia.
 
coisas belas & significativas: como, por exemplo, a lua cheia, que, por seu destaque no imaginário coletivo, desperta curiosidade & fascínio.
 
a lua cheia: cartão-postal do sideral, hotel granito do infinito, velho umbigo do “nihil” antigo (do “nada”, do “vazio” que é a existência mundo afora, galáxias adentro), porto aéreo de novos mistérios.
 
a lua cheia: também tratada como a sucata do universo, tanto em “prosa”, tanto nas conversas & nos desafios políticos sobre que país conquista a lua, como em “verso” — vide o célebre poema “lunes en détresse” (“lua em miséria”, “lua miserável”), do poeta francês jules laforgue —.
 
avança o poeta, dialogando com o seu tempo, dialogando com a vida que o circunda, relevando, por exemplo, o fio de esperança existente entre as figuras de marketing, onde ainda fulgura a palavra “álacre”. 
 
“álacre”: “alegre”, “vivo”, “animado”, “esperto”. se desmembrada (“á / lacre”), a palavra pode desdobrar-se e ser lida como “há lacre”.
 
lacre há entre as figuras/produtos que fulguram no marketing. 
 
lacre: preparado resinoso usado para fechar ou selar, garantindo a inviolabilidade daquilo que o recebe. 
 
o “fio de esperança”: o “lacre” dos produtos vendidos pelo marketing.
 
o “fio de esperança”: o “lacre”, que geralmente é um fio, é uma lâmina, que prende, que oculta, que esconde, a criação (o produto) que vai dentro.
 
atentem às tantas belezas reveladas no diálogo-poesia de régis bonvicino!  
 
beijo todos!
paulo sabino. 
___________________________________________________________________________
 
(do livro: Primeiro tempo. autor: Régis Bonvicino. editora: Perspectiva.)
 
 
 
VIDA, PAIXÃO E PRAGA DE RB
 
 
1
 
o papel nu
a cabeça na lua
a palavra
carne
louca de pedra
fora de órbita
NACRE
 
 
 
2
 
meu pai            um self made man
                                                        vivo
 
minha mãe                          alva flôr
matou-se                         de suicídio 
 
eu            único filho                      fiz
da         antipoesia                de mim 
                                    
                                              meu exílio
 
 
 
3
 
pássaro sem asa
corpo sem cor
palavra sem pala
primeiro amor sem rima
música sem musa
cinema sem cena
diário sem dia
vocabulário sem boca
néctar sem etc
 
 
 
4
 
um ornato
um jeito de gato
 
uma bomba de átomo
uma flor de cacto
 
um batom vermelho
um olhar de espelho
 
uma foto em alto contraste
uma lâmpada de 1000 quilowatts
 
um vinho tinto cabernet franc
um ready made de marchel duchamp
 
 
 
6
 
mini litania
da lua cheia
 
cartão postal
do sideral
 
hotel de granito
do infinito
 
velho umbigo
do nihil antigo
 
go go girl
dos idílios do céu
 
última hóstia
de nossa história
 
porto aéreo
de novos mistérios
 
“lunes en détresse”
EUA ou URSS?
 
em prosa e verso
sucata do universo
 
 
 
7
 
para que
fazer poesia?
 
se em mim
 
diabo
de rabo entre as pernas
que arromba
portas abertas
 
se em mim
 
fio e pavio
do óbvio
 
epígono sim
“inocente” inútil
 
dilutor
 
com todas as letras
 
caixinha de eco
menino de recados
 
robô abobado
 
malhador
de pó refinado
 
em vez de ácido
água com açúcar
em vez de cabelo
peruca
 
língua de fogo
de palha
que não fala nem cala
falso alarma
 
por que
a necessidade?
 
por que
poesia?
 
se sou
 
personagem de bijouteria
palavra de segunda mão
tradução da tradução da tra
 
“no soy nada
nunca seré nada
no puedo
querer ser nada”
 
mera praga
 
 
 
FIO DE ESPERANÇA
 
                       para haroldo de campos
 
 
entre
 
figuras
 
de marketing
 
fulgura
 
ainda
 
a palavra
 
álacre