A CATEDRAL DA DESORDEM
29 de outubro de 2012

(Na foto, a tela “Omaggio a Ettore e Andromaca”, do grego Georgio De Chirico, considerado um dos precursores do Surrealismo na pintura.)
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aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) investimos contra a alma imortal dos gabinetes & sua personalidade burocrática devidamente penteada & engravatada, a carimbar papéis & assinar ofícios em nome do diretor da corporação.

aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) procuramos por amigos que não sejam sérios: loucos confidentes, imperadores desterrados, cafajestes com hemorróidas & todos que detestam os sonhos incolores (sonhos sem graça, sonhos que cheiram à assepsia hospitalar) da poesia das arcadas (poesia das arcadas: arcadismo: na estética árcade, o artista idealizava a vida no campo e se imaginava pastor em contato com a natureza & somente dela vivendo).
 
 nós (eu & os meus) sabemos muito bem que a ternura de lacinhos (a ternura cheia de afetações, repleta de paparicos ignominiosos) é um luxo protozoário (luxo de merda, de pouca valia, que não presta para nada).
 
a vida possui a sua dose de violência. 
 
há de se ter — alguns momentos suscitam — a sua dose de violência na veia, ingerida num gole só: a sede por violência.
 
sede (todos vós) violentos como uma gastrite! sede (todos vós) coléricos como uma neuralgia!
 
abaixo as borboletas douradas! 
 
olhai (todos vós) o cintilante conteúdo das latrinas! mergulhai (todos vós) no conteúdo rico das latrinas!
 
sim, senhores, é preciso estômago se se deseja ver a vida mais de perto, sem floreios, é preciso estômago se se deseja ver o lado da vida onde não cabem passarinhos árvores rios límpidos a correr, lado onde só caberia a flor se a flor: despetalada. 
 
aqui, na nossa catedral, na nossa matriz, só a desordem nos une: ceticamente barbaramente sexualmente.   
 
a nossa catedral está impregnada, está encharcada, do grande espetáculo do desastre (o grande espetáculo do desastre: a vida nos seus pormenores, onde o final de um enredo, como acontece na maioria das vezes, não é feliz nem fácil a sua trajetória).
 
nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a aurora (claridade que aponta o início da manhã) pelo crepúsculo (período que antecede o fim de algo, momento em que se percebe este fim; declínio, decadência), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o tênis (esporte onde os jogadores se enfrentam em lados opostos, sem se tocarem) pelo box (esporte onde os adversários se enfrentam cara a cara, um tentando derrubar o outro com socos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o poço (buraco, cavado na terra, para se extrair algo do subsolo, em geral água fresca) pela fossa (escavação, ou grande câmara subterrânea, em que são despejados e acumulados dejetos; por extensão de sentido: estado ou condição de quem se encontra deprimido, desalentado, triste), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o futuro (tempo que não chegou, que não se sabe se chegará, e que, portanto, não existe) pelo presente (o único tempo que nos cabe, o hoje, o já, o neste instante, o único tempo ao alcance dos dedos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra as responsabilidades (obrigações chatas & criadas ao aborrecimento) pelas sensações (vivências significativas que mobilizam afetos & emoções), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a mecânica (automática, precisa, invariável) pelo sonho (devaneio, fantasia, quimera), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o regulamento (conjunto de prescrições que determinam a conduta de qualquer instituição ou corpo coletivo) pela compulsão (imposição interna irresistível que leva o indivíduo a realizar determinado ato ou a comportar-se de determinada maneira), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra os arcanjos (anjos pertencentes a uma ordem superior, assexuados, que atuam como mensageiros em missões especiais) pelos querubins homossexuais (anjos da primeira hierarquia, que não pertencentes a uma ordem superior), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a lógica (encadeamento coerente de alguma coisa que obedece a certas convenções ou regras, maneira rigorosa de raciocinar) pela magia (fascínio, feitiço, magnetismo), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o cordeiro (pessoa passiva, inocente, facilmente enganada) pelo lobo (pessoa astuta, esperta, dificilmente enganada), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o céu (lugar distante, paraíso longínquo, inalcançável) pela terra (lugar onde pisamos os pés, onde nos encontramos, lugar que, se possível, fazemos de paraíso), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a religião (que julga, que castra, que pune) pelo sexo (que liberta, que anima, que expurga), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o governo (sistema, que percebemos falido, pelo qual se rege um estado) por uma convenção de cozinheiros (profissionais que, com suas iguarias gastronômicas, não só alimentam o corpo como alimentam a alma de satisfação & prazer).
 
nós (eu & os meus), nesta nossa catedral desordenada, aqui, em meio ao caos que é o próprio viver, investimos & nos manifestamos contra tudo que nos impeça de levar a vida da maneira como a vida é: espontânea, ocasional, surpreendente.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Um estrangeiro na legião — obras reunidas volume 1. autor: Roberto Piva. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)
 
 
 
 
A MÁQUINA DE MATAR O TEMPO
 
 
 
Aqui nós investimos contra a alma imortal dos gabinetes. Procuramos amigos que não sejam sérios: os macumbeiros, os loucos confidentes, imperadores desterrados, freiras surdas, cafajestes com hemorróidas e todos que detestam os sonhos incolores da poesia das Arcadas. Nós sabemos muito bem que a ternura de lacinhos é um luxo protozoário. Sede violentos como uma gastrite. Abaixo as borboletas douradas. Olhai o cintilante conteúdo das latrinas.
 
 
 
 
A CATEDRAL DA DESORDEM
 
 
 
A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: “Como são lindos os olhos deste idiota”. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambreta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes dos eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin Artaud, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas sensações, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por De Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pela invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim Europa pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela Magia, contra as magnólias pelos girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés, contra o meio-dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautrémont.
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CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
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(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
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engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!