AUTOASSASSINATO
19 de março de 2010

(por e-mail, mensagem enviada por mim a ronaldo pelli em 04/março/2010.) 
 
ronaldo, meu queridíssimo,
 
vim aqui apenas para dizer que comecei hoje a leitura do “autoassassinato”. estou no capítulo 5, quando xavier interroga a namorada do otávio, ana clara.
 
estou adorando já o comecinho! imagens bem construídas, cenários bem montados, personagens articuladas, trama concisa, já consigo sentir tudo isso no seu livro. e fico muito muito muito feliz. porque você fez por merecer. sinto-me muito contente ao notar o seu amadurecimento — como escritor e homem —. fico até emocionado, juro (rs), quando penso no quanto você cresceu, deu um salto, fez um trabalho interno que muitos — inclusive amigos nossos — deveriam fazer. eu também me vejo assim, acho que dei um salto grande, uma boa amadurecida. é claro, temos sempre um monte de coisa pra melhorar e resolver, somos obras inconclusas, eu sei, mas consigo me sentir satisfeito com o que tenho. e acho que você, se não, deveria se sentir satisfeito também (rs).
 
você é um homem muito bonito, ronaldo. e me contenta o fato de a sua literatura seguir o mesmo caminho.
 
e digo mais: prevejo que o “autoassassinato” ganhará um post-comentário, que também será um post-divulgação da obra, no “prosa em poema”.
 
quem viver verá (rs).
 
é isso, meu lindo & sempre benvindo.
 
queria compartilhar este sentimento que guardo aqui, comigo, por você.
 
grande beijo,
paulinho. 
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no último encontro que tive com o autor dos trechos que seguem, um almoço entre amigos, ele comentou a mensagem acima dizendo que eu lera muito pouco para tais conclusões, que havia muita narrativa pela frente, que o livro precisava manter-se desse modo ainda por muitas páginas. concordei com ele. mas pelo jeito da coisa, pela maneira que as linhas se portavam, e também pelo que era portado pelas linhas, intuía que as minhas conclusões permaneceriam as mesmas no término do livro. e assim o foi.
 
tanto, que aqui está o post-comentário. 
 
ratifico o já escrito sobre o livro: imagens bem construídas, cenários bem montados, personagens articuladas, trama concisa, uma novela policial deliciosa, muito saborosa de se ler. eu recomendo.
 
abaixo, alguns momentos da narrativa. 
 
quem tiver interesse em adquiri-la, vá ao site da obra em questão: http://www.autoassassinato.com.br 
 
vale a leitura. 
 
um beijo em todos.
um especial em você, ronaldo.
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(trechos extraídos do livro: Autoassassinato. autor: Ronaldo Pelli. editora: Multifoco.)
 
“Dentro do seu apartamento escuro e velho, ele está pronto para morrer. Age no automático, concentrado nos seus pensamentos. Segue cumprindo um plano que formulou há meses: tudo deve ser como o imaginado. Ele é o dono do seu destino.”
 
“Clara marcou o encontro em uma travessa no centro da cidade, aos pés da estátua retorcida de Pixinguinha, ao meio-dia. Xavier chega um pouco atrasado, tentando se esconder do sol, mas é complicado vencer a multidão que também quer um espaço à sombra. O calor é inclemente. A umidade é tão alta que dá para imaginar como seria nadar no ar.
 
Xavier vê a menina de longe e fica sem reação. É uma figura que se destaca de toda aquela movimentação. Parece pura e cheirosa, do tipo que acabou de se banhar em flores. Pessoas correm, mulheres falam alto em conjunto, executivos contam sobre o fim de semana, e ela sentada no banco, aos pés daquela figura que se vira para tirar som de um saxofone de pedra. Sozinha, quieta, ela lê um livro com calma. Um halo de primavera, de beleza, de tranquilidade a envolve. Emana uma luz própria, reflete o calor do sol e permanece intocada. Engraxates carregam suas caixas, boys com pastas lotadas, homens distribuem papéis de “compro ouro”, e ela, leve, melíflua, uma pluma que poderia ser levada pelo vento. Na hora, quando a viu, naquele lugar, daquele jeito, destoando de tudo o que a circundava, de tudo o que já tinha visto na vida, Xavier nem se lembrou que ela tinha perdido o namorado havia tão pouco tempo. Nem que sua mulher tinha acabado de abandoná-lo. Muito menos que tinha o dobro da idade dela. Para ele, Clara estava em outra dimensão, onde o tempo não importava.”
 
“Maria Teresa fuma um cigarro atrás do outro, apreensiva e ansiosa. Deseja sair dali o mais rápido possível. Tem um tique que não a deixa quieta: mexe a perna direita sem parar. Sobre o colo, balança a bolsa vermelho sangue — que combina com o vestido vinho de tecido pesado, quente. Em sua cabeça, repete ‘quero ir embora, quero ir embora, quero ir embora’, como se acreditasse que as frases têm o poder de se tornar realidade. Sente-se oprimida pelo ambiente e por toda aquela situação. Não sabe como agir, está acuada e tem noção disso, mas não consegue se controlar. Está perdida dentro dos seus próprios medos.”
 
“Tem um sonho diferente. Está numa rua escura e esfumaçada. Mal é possível enxergar logo adiante. Caminha sem pensar, não vê outra possibilidade nem é dono de todos os movimentos. Não percebe, mas tudo a sua volta está descolorido. O único som que escuta é abafado e distante. Como bumbos medievais tocando em um único e eterno ritmo. De repente, avista um vulto à sua frente. Num ato reflexo, aumenta a velocidade dos seus passos para tentar alcançá-lo. Mas a figura não se aproxima. Não importa se corre: a distância entre os dois é sempre a mesma. Inexplicavelmente diminui o ritmo das passadas. O sujeito permanece onde sempre esteve, à sua frente, a uma distância que é longe e que o impede de tocá-lo. Os dois se movimentam em compasso. Um passo da perna direita de um reflete um movimento idêntico do outro. Em seguida, vira-se para trás. Enxerga outro sujeito. Também não é possível identificar nenhum traço de fisionomia, mas sente como se fosse vigiado desde sempre. Começa a correr na tentativa de fugir, mas não dá certo. O vulto de trás está cada vez mais perto. Seu coração dispara e suas pernas fraquejam. O outro se aproxima mais e em qualquer momento vai agarrá-lo. Sente-se como uma criança fugindo de uma assombração e não consegue deter o medo. Vira-se novamente para frente e avista, num susto, um corpo completamente carbonizado. Nessa hora acorda.”
 
“O prédio onde tudo aconteceu é imenso. Milhares de apartamentos colados uns nos outros, que tornam as pessoas completas estranhas umas para as outras. Na noite da morte de Otávio, era folga do porteiro oficial. Quem cobriu o turno foi o faxineiro do condomínio. (…) Ele afirma que não escutara nada diferente, até quando alguém gritou pelo fogo.”
 
“O detetive pega um papel de dentro do envelope. Letras batidas à máquina. Sangue zero negativo. A perícia ainda não concluiu a causa do incêndio, mas trabalha com a possibilidade apresentada por Clara: uma vela. ‘Ponto pra ela’, pensa Xavier. O buraco que a bala fez no crânio de Otávio confirma que houve um tiro, dado a uma distância entre 30 e 50 centímetros. Acha a distância incomum para um suicídio. Não foi encontrado nenhum arquivo odontológico para identificar a vítima. A dentista a que ele costumava ir disse que as fichas de Otávio sumiram inexplicavelmente. ‘Muito estranho.'”

F. PESSOA SOBRE F. NIETZSCHE
18 de novembro de 2009

Senhores,
 
Os trechos seguem porque, de vez em quando, ao conversar com queridos amigos, estes suscitam vários dos meus questionamentos e questões.
 
Às vezes, percebo que um leitor “leigo”, ao ler um clássico ou autor reconhecido pela “intelectualidade acadêmica”, tende, pode tender, a concordar com TUDO o que dizem as linhas, por sentir o peso do respeito que o “nome” pode ter, como se tudo o delineado fossem dogmas, conceitos com os quais deve-se concordar, como se os conceitos, no livro, fossem sagrados, como se o livro fosse um “livro sagrado”, qual a Bíblia para os cristãos.
 
Só que devemos ter em mente, ao ler qualquer autor, que ele, por mais brilhante, inteligente e divisor de águas que seja, em determinados aspectos pode cometer alguns equívocos, enunciar idéias que mereçam refutação. É o caso, ao meu ver, de quase todos, senão de todos, os autores das Ciências Sociais e Filosofia.
 
Nietzsche, grande filósofo, extraordinário pensador, não foge à regra. Contribuiu muito com a sua obra, defendendo o uso da razão crítica e a extinção do que se projete de forma obscurantista, como ocorre com as religiões cristãs e seus preceitos. Todavia, ao mesmo tempo, junto com as infinitas e imprescindíveis contribuições e achados, eu, por exemplo, lendo alguns trechos de textos ou textos inteiros, possuo uma penca de críticas e reavaliações, uma série de discordâncias.
 
O que pretendo com este texto é somente alertá-los para o fato de que, por mais bacana, respeitado, unânime e bem intencionado o autor, a sua obra deve ser lida com o senso crítico em puro estado de atenção, porque ninguém está aqui, neste mundo, para escrever “bíblias”, isto é, para escrever livros que não possam ser contestados (contestados completamente ou em determinadas idéias), “livros-dogmas”. Afinal, como reter a verdade no olhar?  
 

Por isso, para ilustrar o que escrevi, trago trechos de três textos do genial Fernando Pessoa, apresentados a mim pelo meu super “guru” Antonio Cicero, algumas verificações do bardo, com as quais concordo inteiramente, sobre o pensador em questão. 

Entendam, queridos: não estou, nem desejo, não é esta a intenção, diminuir a importância de nada nem de ninguém, e sim salientar que as leituras, por mais pertinente o assunto, devem ser feitas com cuidado e senso crítico aguçados. Isso tem a ver com a formação nossa, com a construção nossa, com a estruturação das nossas personas.
 
Ronaldo Pelli, meu queridíssimo amigo, meu amado, o Nietzsche, na minha cuca, devo a você, devo a uma conversa que mantivemos há um bom tempo sobre ele. 
 
Beijo em todos!
O preto.
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“‘A alegria’, diz Nietzsche, ‘quer eternidade, quer profunda eternidade’. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento”.

De: PESSOA, Fernando. “Antônio Botto e o ideal estético em Portugal” (1922). In: Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.
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“O ódio de Nietzsche ao cristianismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização.”

De: PESSOA, Fernando. “Prefácio de Ricardo Reis”. In: Páginas íntimas e de auto-interpretação. Lisboa: Ática, 1996.

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“O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento.
Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder (ser).
Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de [um] louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assumpção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui – mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor – a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante).”

De: PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.