SER FELIZ
30 de junho de 2017

(Foto: Thiago Facina)
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dia 24 de junho, dia de são joão, dia de xangô menino, dia do santo festeiro: dia em que este que vos escreve completou as suas 41 primaveras. muitíssimo bem vividas, graças.

não sou pessoa de saudosismos; adoro a vida — e espero continuar assim — no momento em que ela é, no momento presente, no momento atual. acho muito bonito olhar para trás e ver o que este jovem rapaz de 41 anos realizou em prol da poesia e literatura e o que ainda tem a fazer. muita coisa bonita e bacana acontecendo, muita coisa bonita e bacana pra acontecer, muita coisa bonita e bacana pra compartilhar. aguardem.

e, nesta trajetória que me cabe, com tanta coisa a ser realizada, apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho, sigo apostando na flor, no amor, na alegria. aposto no bem-estar.

ser feliz com as minhas realizações e também ser feliz com a felicidade alheia: a felicidade do outro, se dermos espaço a ela, pode contagiar-nos a ponto de aplacar algumas feridas que trazemos. a ponto de aprendermos com quem vive a felicidade apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho. a ponto de percebermos que o nosso umbigo não é tão fundo e que os nossos problemas não são os maiores.

os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro. a vida gosta de quem gosta da vida. eu sou um que gosto.

fique feliz porque outras pessoas estão felizes. porque os filhos de outras pessoas estão em escolas melhores. sorria porque alguém deixou de ser analfabeto. alegre-se por aqueles que também têm ceia. porque o outro pode simplesmente ser você, recebendo de volta tudo aquilo de bom que você, ao longo da sua existência, desejou aos outros.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Flores de alvenaria. autor: Sérgio Vaz. editora: Global.)

 

 

SER FELIZ

 

Fique feliz

porque outras pessoas estão felizes.

Um brinde àquele seu amigo que saiu da fila do
………………….desemprego,
ou que encontrou um novo amor.

Por soldados de uma guerra que não te afeta,
que acabam de se abraçar para selar a paz.
Pelas pessoas que você nem conhece,
mas que já não têm problemas de saúde.

Fique feliz
porque os filhos de outras pessoas estão
em escolas melhores e não mais mendigam nos
………………….semáforos,
e uma pessoa que você nunca viu, e provavelmente
………………….nunca verá,
está dando seu beijo pela primeira vez.

Porque a mãe e o pai de alguém
estão chorando de felicidade vendo seu filho com o
………………….diploma na mão.

Sorria
porque alguém deixou de ser analfabeto.

Pela criança que começou a andar.
Por pais e avós que voltaram a ser criança.
Pelo seu amigo que agora tem mais dinheiro e não
………………….anda mais de ônibus, mas de bicicleta.

Porque alguém ao sul de Angola ou a leste da Tan-
………………….zânia acaba de dizer: eu te amo.
Por todas as pessoas que saíram do aluguel e, mais
………………….feliz ainda,
por aqueles que conseguiram seu teto.

Alegre-se
por aqueles que também têm ceia, ou não,
mas que já não disputam migalhas nas calçadas.
E porque sabe que o Deus em que você acredita
………………….não é seu personal trainer, e ele também
………………….deve atender às orações de outras pessoas.

Fique feliz
em saber que o brilho de outras pessoas
não é aquilo que te traz escuridão, mas a
………………….luminosidade.
Porque o outro pode simplesmente
ser você recebendo de volta
tudo aquilo de bom que você desejou aos outros.

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4ª EDIÇÃO SARAU DO LARGO DAS NEVES — AGRADECER PROFUNDAMENTE
29 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_Junho 4

Sarau Largo das Neves_Junho 1

Luis Turiba & Paulo Sabino

(Na foto, o poeta Luis Turiba.)

Sarau Largo das Neves_Junho 3
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Gente do meu coração,

É tanta coisa, tanta, que nem sei como começar este texto… Talvez dizendo que fiquei acordado até às 6h da manhã, sem conseguir desligar, depois da 4ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), revivendo um tanto do encontro onde comemorei os meus 39 anos, tamanha energia boa, alegre, festiva, que tomou conta de todos & contagiou a praça.

A noite foi linda! As escolhas poéticas, as melhores possíveis, e as leituras foram arrasadoras!

A minha mãe, a cabocla Jurema Armond, está numa alegria só! Quando voltávamos para casa, terminado o sarau, ela disparou: “meu filho, procure cultivar sempre o amor & o carinho dos seus amigos, porque essa turma é bonita demais, você não deve se afastar”. Ela realmente ficou impressionada com a vibração, com a energia, que os participantes conseguiram imprimir & deixar em Santa Teresa.

Estou aqui em puro estado de poesia, que é o estado de graça, que é o estado de felicidade plena, o êxtase decantado & tão-só. Amor da cabeça aos pés!

Eu só tenho a agradecer, profundamente!, a existência de cada um que tornou a noite do dia 25/06 das coisas mais emocionadas que eu já vivi.

Agradecer profundamente & especialmente ao grande & admirado poeta Luis Turiba (na foto), que me deu a honra das suas presença & leitura, recitando o seu lindíssimo poema “Língua à brasileira”.

Agradecer profundamente os livros & cadernos que ganhei, adorei todos!

Agradecer, também profundamente, a presença das pessoas que foram ao sarau & que eu não conhecia & que se emocionaram com tudo aquilo que vivenciamos. Obrigadíssimo, gente nova & querida! Espero que, a partir desta última edição, vocês ajudem a engrossar o caldo!

Viva são João!
Viva a poesia!
Viva vocês, meus amigos, irmãos de jornada!

Mês próximo tem mais!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)

 

 

PROFUNDAMENTE

 

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

SÃO JOÃO XANGÔ MENINO
26 de junho de 2014

São João

Xangô_Mandala

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Meu pai são João Batista é Xangô
É o dono do meu destino até o fim
Se um dia me faltar a fé em meu senhor
Derrube essa pedreira sobre mim
Meu pai são João Batista é Xangô

(Ponto de macumba, recolhido e adaptado por Eli Camargo)

 

 

dia 24 de junho: dia de santo festeiro, dia de festa junina, dia de são joão.

no sincretismo brasileiro, são joão, que é um santo católico, correlaciona-se a xangô, orixá das religiões afro-brasileiras.

por aniversariar justamente no dia 24 de junho, sempre mantive uma atenção especial ao santo & ao orixá homenageados no dia do meu nascimento.

portanto, abaixo, uma compilação de textos mais um poema-canção (com direito ao áudio da canção) que traçam o perfil & contam um pouco dos mitos que envolvem o orixá símbolo do fogo & da justiça.

nascido no dia 24 de junho, considero-me sob a proteção do santo do dia, considero-me sob a proteção do orixá do dia, sob a proteção de são joão xangô menino.

(ah, xangô, xangô menino, da fogueira de são joão: quero ser sempre o menino, xangô, da fogueira de são joão.)

viva são joão!

salve xangô, meu rei senhor!
salve meu orixá!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Orixás, deuses iorubás na África e no Novo Mundo. autor: Pierre Fatumbi Verger. editora: Corrupio.)

 

 

Xangô traduz-se em um arquétipo de pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e conscientes de sua importância real ou suposta. Daquelas que podem ser grandes senhores, corteses, mas que não toleram a menor contradição, e, nesses casos, deixam-se possuir por crises de cólera, violentas e incontroláveis. Das pessoas sensíveis ao charme do sexo oposto e que se conduzem com tato  e encanto no decurso das reuniões sociais, mas que podem perder o controle e ultrapassar os limites da decência. Enfim, o arquétipo de Xangô é aquele das pessoas que possuem um elevado sentido da sua própria dignidade e das suas obrigações, o que as leva a se comportar com um misto de severidade e benevolência, segundo o humor do momento, mas sabendo guardar, geralmente, um profundo e constante sentimento de justiça.

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(do: Dicionário do folclore brasileiro. autor: Luís da Câmara Cascudo. editora: Global.)

 

 

Rei nagô, fundador mítico da cidade de Oyô, Xangô é divindade das tempestades, raios, trovoadas, descargas da eletricidade atmosférica. O fetiche é, logicamente, um meteorito, e a insígnia, a lança e a machadinha de pedra, dupla, a bipene, objeto de culto dos povos do Mediterrâneo desde a Idade dos Metais. Apresenta-se como um homem jovem e forte, ágil, sensual, de caráter dominador e orgulhoso, viril, atrevido, violento mas justiceiro, arrebatando na dança suas devotas atuadas. Suas principais esposas, as mais conhecidas, são: Iansã, Oxum e Obá. Usa contas vermelhas e brancas, pulseira de latão e come galo, bode, caruru e cágado.

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(do livro: Mitologia dos orixás. autor: Reginaldo Prandi. editora: Companhia das Letras.)

 

 

XANGÔ DÁ A OBALUAÊ OS CÃES DE OGUM

 

Xangô era um homem muito popular.
Um dia, na praça, um leproso de nome Obaluaê o procurou.
“Por que não falas comigo?”, perguntou o pestilento.
Xangô respondeu-lhe que seu pai Obatalá
lhe havia dito que naquela terra
ele tinha um irmão de sangue e um irmão adotivo.
E era só com eles que ele queria conversar.
Disse-lhe Obaluaê ser ele o seu irmão por adoção
e que o outro homem  ali presente era seu irmão inteiro.
Esse outro era Ogum, que andava sempre acompanhado
de muitos cães.
Xangô disse a Obaluaê que aquela terra não lhe pertencia,
que seguisse para terras distantes, onde encontraria melhor sorte.
Obaluaê retrucou da dificuldade em seguir caminho
naquelas condições de doença em que se encontrava.

Xangô tomou então dois cães de Ogum e os deu a Obaluaê,
para que lhe servissem de guias e guardiões.
Mas Ogum não gostou de perder os cães e atacou Xangô.
Iniciou-se um conflito de grandes proporções entre os dois.
Desde então, Xangô e Ogum, apesar de irmãos,
tornaram-se eternos e irreconciliáveis antagonistas.
Desde então chamam Ogum de Ogunjá,
que na língua da terra quer dizer Ogum dos Cães.

 

 

XANGÔ INCENDEIA SUA CIDADE ACIDENTALMENTE

 

Xangô governava com rigor a cidade de Oió e redondezas.
Era chamado de Jacutá, o Atirador de Pedra.
Xangô era muito prestigiado em seu reino e em reinos vizinhos,
mas desejava algo mais para instilar medo nos corações dos homens.
Para isso convocou os maiores feiticeiros de Oió
e lhes pediu que inventassem novas fórmulas
para aumentar seu poder.
Xangô não ficou satisfeito com o trabalho dos feiticeiros
e pediu ajuda a Exu.
Exu aceitou a tarefa, pediu uma cabra como sacrifício
e ordenou que dentro de sete dias Oiá fosse buscar o preparado.
Quando chegou o dia combinado, lá foi Oiá à casa de Exu.
Lá chegando, ela saudou Exu
e disse que o sacrifício estava a caminho.
O preparado estava embrulhado numa folha.
Oiá pegou o pacote e partiu.

No caminho, Oiá parou para descansar.
Não contendo a crescente curiosidade,
desembrulhou o pacote para ver o que tinha dentro.
Não havia nada além de um pó vermelho
e ela pôs um pouquinho na boca para experimentar.
Não era bom nem ruim; tinha um gosto diferente.
Oiá fechou novamente o pacote e prosseguiu.
Chegou a Oió e deu o remédio a Xangô, que perguntou:
“Que instruções Exu te deu? Como o remédio deve ser usado?”.
Quando ela começou a falar, saiu fogo de sua boca.
Xangô entendeu que Oiá tinha provado o remédio.
Ficou irado e tentou bater em Oiá,
mas ela fugiu de casa, com Xangô a persegui-la.
Oiá foi para um lugar onde carneiros pastavam.
Escondeu-se entre os carneiros,
pensando que Xangô não a encontraria.
Mas a ira de Xangô era grande.
Ele arremessava suas pedras de raio em todas as direções.
Arremessou-as entre os carneiros, matando-os.
Oiá ficou escondida embaixo dos corpos dos carneiros mortos
e assim Xangô não pôde encontrá-la.

Xangô voltou para casa.
Muitas pessoas de Oió estavam reunidas lá
e clamavam pedindo que Xangô perdoasse Oiá.
A raiva dele abrandou-se.
Mandou seus empregados procurar Oiá e trazê-la para casa.
Mas ele ainda não sabia como usar o preparado.
Quando anoiteceu, ele pegou o pacote de Exu
e foi a um lugar bem alto, de onde podia ver toda a cidade.
Colocou um pouco do pó vermelho na língua
e, quando expirou o ar dos pulmões,
uma enorme labareda jorrou de sua boca,
depois outra e mais outra, sem parar.
As chamas se estenderam por sobre toda a cidade,
lambendo os telhados de palha das casas de seus súditos
e também as dependências do palácio real.
Um grande incêndio tomou conta de Oió.
Tudo foi consumido pelo fogo até as cinzas.
Oió foi destruída e teve que ser reconstruída.
Depois que a cidade ressurgiu de suas cinzas,
Xangô continuou a governá-la.

Em tempos de guerra,
ou quando as coisas o desagradam,
Xangô arremessa as pedras de raio.
E o fogo da boca de Xangô queima seus desafetos.
Os carneiros que morreram protegendo Oiá
das pedras de raio de Xangô não foram esquecidos.
Os devotos de Oiá não comem mais carne de carneiro.

 

 

XANGÔ VENCE OGUM NA PEDREIRA

 

Xangô e Ogum sempre lutaram entre si,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.
Lutaram no começo do mundo e ainda lutam agora.
Ogum usa da sua força física e das armas que fabrica,
Xangô usa da estratégia e da magia.
Ambos são fortes e valentes,
ambos são guerreiros temidos.
Mas só uma vez Xangô venceu Ogum na luta.
Numa disputa que travaram por Iansã,
ora a batalha pendia para um lado,
ora pendia para o outro.
Ninguém conseguia prever o final,
ninguém podia apostar quem seria o vencedor.
Foi então que Xangô apelou para a astúcia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Conduziu a batalha como quem se retirava
e, sem que Ogum percebesse, Xangô o atraiu para a pedreira.
Foi então que Xangô apelou para a magia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Quando Ogum estava bem no pé da montanha de pedra,
Xangô lançou seu machado oxé de fazer raio
e um grande estrondo se ouviu.
Com o trovão veio abaixo uma avalanche de pedras
e as pedras soterraram o desprevenido Ogum.
Xangô vencera Ogum naquele dia,
única vez que alguém venceu Ogum.
Mas esses dois filhos de Iemanjá seguem lutando ainda,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.

 

 

XANGÔ CONQUISTA IANSÃ NA GUERRA CONTRA OGUM

 

Um dia Xangô e Ogum se colocaram frente a frente,
no campo de batalha:
lutavam pela conquista de Iansã.
Ogum veio furioso, vestido em sua armadura metálica
com todo tipo de proteção.
Ele trazia muitas armas, vinha carregado de ferro
e era impossível vencê-lo numa luta corpo a corpo.
Ele era todo armadura.
Xangô veio sem nada,
porque sempre fez tudo por impulso
e nunca soube como se organizar corretamente.
Sua única arma era uma pedra que carregava na mão.
Então Xangô jogou a pedra em Ogum e ele pegou fogo.
A pedra de Xangô era o corisco, um meteorito que solta chamas,
era a pedra de raio, edum ará.
Com sua magia Xangô derrotou Ogum e ganhou Iansã.
Ogum foi um orixá guerreiro, feroz,
sempre caçando nas florestas, lutando para sobreviver.
Xangô foi um orixá briguento
e soube brigar tanto como Ogum.
Mas Xangô, ao contrário de Ogum, soube desfrutar da boa vida.

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(Autor dos versos: Toninho Nascimento.)

 

 

A DEUSA DOS ORIXÁS

 

Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar
Mas, Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar

Iansã penteia os seus cabelos macios
Quando a luz da lua cheia clareia as águas do rio
Ogum sonhava com a filha de Nanã
E pensava que as estrelas eram os olhos de Iansã

Mas, Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar
Mas, Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar

Na terra dos orixás o amor se dividia
Entre um deus que era de paz e outro deus que combatia
Como a luta só termina quando existe um vencedor
Iansã virou rainha da coroa de Xangô

Mas, Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar
Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Claridade. artista & intérprete: Clara Nunes. canção: A deusa dos orixás. autor dos versos: Toninho Nascimento. autor da música: Romildo S. Bastos. gravadora: EMI.)

LENDA DE SÃO JOÃO: O MEU TALISMÃ
24 de junho de 2014

Fogueira de São João

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acorda, joão!

acorda, meu santo! hoje é dia de festa, meu menino!

hoje, 24 de junho, é o seu dia & o meu aniversário. exatas 38 primaveras vencidas.

38 primaveras vencidas & muito a agradecer à vida as oportunidades & chances de amadurecimento, de crescimento, muito a agradecer à vida pelas experiências & andanças trilhafora.

acorda, joão, que eu também quero ser batizado nas águas do rio de janeiro!

êta, menino sapeca, capeta! dispara, espoleta!

êta, menino ladino, porreta, danado, divino!

acorda, são joão, e, no dia da tua festa, faz o menino levado saltar de dentro da velha & do velho enferrujado, faz o menino levado saltar de dentro de todo & qualquer enferrujado, mas não faz muita zoada!

joão dorme seu sono em paz, e, se acorda assustado, nem sei do que é capaz… sei não, com a sua fogueira, fogueira de sua festa, incendeia o mundo, e até o meu coração.

acorda, joão, meu santo menino, que eu também quero contigo brincar!

acorda, meu santo, acorda, são joão xangô menino! (xangô, na mitologia afro-brasileira, é o orixá do fogo & da justiça.)

minha boca saliva porque tenho fome, e essa fome é uma gula voraz que me traz cativo, que me traz preso, amarrado, atrás do genuíno grão da alegria, que destrói o tédio & restaura o sol.

no coração do meu corpo, existe um porta-jóia. dentro dele, um talismã sem par, que anula o mesquinho, o feio & o triste, mas que nunca resiste a quem bem o souber burilar.

minha sede não é qualquer copo d’água que mata. essa sede é uma sede que é sede do próprio mar. e tal sede só se desata se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia.

(o mar, meu amante maior para todo o sempre.)

sonho colher a flor na maré-cheia vasta; eu mergulho & não é ilusão quando volto, triunfante, feliz, com a fronte coroada de sargaço & sal.

coragem grande é poder dizer sim. dizer sim à existência mundana, com todos os dissabores dentro.

e eu digo: sim.

sim, quem, dentre todos vocês, minha sorte quer comigo gozar?

a quem interessar comigo minha sorte gozar: sigamos juntos nesta bela jornada que é a viagem pelos versos.

salve a poesia!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia total. autor: Waly Salomão. editora: Companhia das Letras.)

 

 

LENDA DE SÃO JOÃO

 

Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão
Êta menino sapeca capeta
Dispara espoleta
Êta menino ladino porreta danado divino
Acorda, São João, e faz o menino levado
Saltar de dentro da velha
E do velho enferrujado
Mas não faz muita zuada
João dorme seu sono em paz
E se acorda assustado
Nem sei do que é capaz
Sei não, incendeia o mundo
E até o meu coração
Sapeca mandureba na fogueira
E acabou-se a brincadeira
Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão

 

 

TALISMÃ

 

minha boca saliva porque tenho fome
e essa fome é uma gula voraz
que me traz cativo
atrás do genuíno grão de alegria
que destrói o tédio
e restaura o sol
no coração do meu corpo
um porta-joia existe
dentro dele um talismã sem par
que anula o mesquinho, o feio e o triste
mas que nunca resiste
a quem bem o souber burilar

sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

Minha sede não é qualquer copo d’água que mata
essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
essa sede é uma sede que só se desata
se minha língua passeia
sobre a pele bruta da areia
sonho colher a flor na maré-cheia vasta
eu mergulho e não é ilusão
não, não é ilusão
pois da flor-de-coral
trago no colo a marca
quando volto triunfante
com a fronte coroada de sargaço e sal
sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?