SER FELIZ
30 de junho de 2017

(Foto: Thiago Facina)
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dia 24 de junho, dia de são joão, dia de xangô menino, dia do santo festeiro: dia em que este que vos escreve completou as suas 41 primaveras. muitíssimo bem vividas, graças.

não sou pessoa de saudosismos; adoro a vida — e espero continuar assim — no momento em que ela é, no momento presente, no momento atual. acho muito bonito olhar para trás e ver o que este jovem rapaz de 41 anos realizou em prol da poesia e literatura e o que ainda tem a fazer. muita coisa bonita e bacana acontecendo, muita coisa bonita e bacana pra acontecer, muita coisa bonita e bacana pra compartilhar. aguardem.

e, nesta trajetória que me cabe, com tanta coisa a ser realizada, apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho, sigo apostando na flor, no amor, na alegria. aposto no bem-estar.

ser feliz com as minhas realizações e também ser feliz com a felicidade alheia: a felicidade do outro, se dermos espaço a ela, pode contagiar-nos a ponto de aplacar algumas feridas que trazemos. a ponto de aprendermos com quem vive a felicidade apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho. a ponto de percebermos que o nosso umbigo não é tão fundo e que os nossos problemas não são os maiores.

os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro. a vida gosta de quem gosta da vida. eu sou um que gosto.

fique feliz porque outras pessoas estão felizes. porque os filhos de outras pessoas estão em escolas melhores. sorria porque alguém deixou de ser analfabeto. alegre-se por aqueles que também têm ceia. porque o outro pode simplesmente ser você, recebendo de volta tudo aquilo de bom que você, ao longo da sua existência, desejou aos outros.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Flores de alvenaria. autor: Sérgio Vaz. editora: Global.)

 

 

SER FELIZ

 

Fique feliz

porque outras pessoas estão felizes.

Um brinde àquele seu amigo que saiu da fila do
………………….desemprego,
ou que encontrou um novo amor.

Por soldados de uma guerra que não te afeta,
que acabam de se abraçar para selar a paz.
Pelas pessoas que você nem conhece,
mas que já não têm problemas de saúde.

Fique feliz
porque os filhos de outras pessoas estão
em escolas melhores e não mais mendigam nos
………………….semáforos,
e uma pessoa que você nunca viu, e provavelmente
………………….nunca verá,
está dando seu beijo pela primeira vez.

Porque a mãe e o pai de alguém
estão chorando de felicidade vendo seu filho com o
………………….diploma na mão.

Sorria
porque alguém deixou de ser analfabeto.

Pela criança que começou a andar.
Por pais e avós que voltaram a ser criança.
Pelo seu amigo que agora tem mais dinheiro e não
………………….anda mais de ônibus, mas de bicicleta.

Porque alguém ao sul de Angola ou a leste da Tan-
………………….zânia acaba de dizer: eu te amo.
Por todas as pessoas que saíram do aluguel e, mais
………………….feliz ainda,
por aqueles que conseguiram seu teto.

Alegre-se
por aqueles que também têm ceia, ou não,
mas que já não disputam migalhas nas calçadas.
E porque sabe que o Deus em que você acredita
………………….não é seu personal trainer, e ele também
………………….deve atender às orações de outras pessoas.

Fique feliz
em saber que o brilho de outras pessoas
não é aquilo que te traz escuridão, mas a
………………….luminosidade.
Porque o outro pode simplesmente
ser você recebendo de volta
tudo aquilo de bom que você desejou aos outros.

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SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 3º CICLO: JULIANA LINHARES, MIHAY, HELIO MOULIN E SALGADO MARANHÃO — MÃE DA MANHÃ (GILBERTO GIL)
18 de abril de 2017

(Os participantes desta 3ª etapa do projeto: em pé, Juliana Linhares e Salgado Maranhão; sentados, Helio Moulin e Miray junto ao Guilherme Araújo e à Gal Costa — Foto: Rafael Millon)
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“Bravo, Paulo Sabino. Aqueceram-me o coração sua desenvoltura e alta voltagem poética. Grato. Abs. RCAlbin”.

(Ricardo Cravo Albin — musicólogo & membro da Academia Carioca de Letras — ACL)

 

“Que massa que o Helinho vai tocar contigo [Mihay]! Adorei.”

(Tulipa Ruiz — cantora e compositora)

 

 

Alô Alô! Alegria Alegria!

Aqui para anunciar os participantes da 3ª etapa de encontros do projeto “Somos Tropicália”, em homenagem aos 50 anos do movimento que chacoalhou a música popular brasileira. O projeto vem reunindo, desde fevereiro, mensalmente, artistas da nova geração da nossa música, para a releitura das canções tropicalistas, com poetas consagrados, para a leitura de textos/poemas de bossa tropicalista.

Para esta edição de abril, o imenso prazer de receber só feras: a atriz e cantora Juliana Linhares (cantora e integrante da banda “Pietá” e do projeto “Iara Ira”, ao lado das cantoras Júlia Vargas e Duda Brack), o cantor, compositor e videomaker Mihay (o Mihay já cantou com o Chico César, excursionou com o João Donato, e tem, no seu segundo disco, participação da Tulipa Ruiz, Mariana Aydar, do Robertinho Silva, Kassin, e do próprio João Donato, entre outros), o instrumentista-violonista Helio Moulin (o Hélio é filho do monstro violonista e guitarrista da música popular brasileira e do jazz Helio Delmiro, que tocou com Elis Regina, Clara Nunes, Milton Nascimento, a diva da música norte-americana Sarah Vaughan, entre outros), e o poeta vencedor do prêmio Jabuti de poesia (o mais importante prêmio literário, pelo seu belíssimo livro “Ópera de nãos”) Salgado Maranhão.

Tudo divino-maravilhoso! Certeza de mais noites lindas para a música e para a poesia! E toda essa maravilhosidade “di grátis”!

Depois deste texto sobre o “Somos Tropicália”, um poema-canção que não é tropicalista porém foi composto por um mestre tropicalista e cantado pela musa tropicalista — Gilberto Gil e Gal Costa. Isso porque a Juliana Linhares, que é a grande cantora e intérprete que terei o prazer e a honra de receber no projeto, no espetáculo “Iara Ira”, canta com a Julia Vargas e a Duda Brack o poema-canção da publicação, poema-canção que é o meu preferido do álbum em que foi lançado, “O sorriso do gato de Alice”, da Gal. A Juliana, a Julia e a Duda abrem o “Iara Ira” com este poema-canção.

Sobre o “Somos Tropicália”: espalhem a notícia! Compartilhem a boa nova!

Esperamos todas e todos!

 

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Juliana Linhares, Mihay, Helio Moulin e Salgado Maranhão / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 26/04 (4ª-feira) e 27/04 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre

Link do evento no Facebook: http://www.facebook.com/events/1881892262099199/
Página do projeto no Facebook: http://www.facebook.com/somostropicalia/
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(Extraído do livro “Gil — todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, editora Companhia das Letras.)

 

para Gal Costa & Juliana Linhares

 

 

gilberto gil fez este poema-canção para gal costa, que foi dedicado à mãe da cantora, mariah costa penna, amiga do poeta-compositor & que havia morrido há pouco tempo.

a perda de uma pessoa que muito se ama, a que mais se ama, a grande amiga, aquela que sentimos ser a única pessoa a fazer absolutamente tudo & qualquer coisa para o bem-estar da cria, dos filhos: uma dor profunda, uma tristeza abissal, o recolhimento, o luto, a escuridão.

meu canto em momentos de escuridão é o meu grande amparo. minha voz é meu amparo em momentos difíceis.

minha voz, que é um aro de luz da manhã, que é um aro de luz que nasce do dia, voz solar, iluminada, voz brilhante, num momento de dor, de perda de alguém tão caro, a minha voz brota na gruta da dor.

mãe da manhã, mãe do raiar do dia, mãe da luz nascente do dia, mãe maria, mãe de todos nós, eu faria de tudo pra conservar vosso amor.

uma espécie de súplica, de pedido, à mãe da manhã, à mãe do raiar do dia, à mãe da luz nascente do dia, à mãe maria, à mãe de todos nós: pra conservar vosso amor, mãe da manhã, eu faria de tudo — a cada ano, eu faria uma romaria, eu faria uma oferenda, eu faria uma prenda, eu daria a vós uma flor. faria uma romaria, uma oferenda, uma prenda, daria uma flor — tudo para conservar o amor da mãe da manhã.

assim, na minha existência, a cada instante, teria direito a um grão, a um momento, a um pedaço, de alegria — e todos os grãos de alegria, por conservar o amor da mãe da manhã, seriam lembranças do vosso amor, lembranças do amor que a mãe da manhã me dedica.

santa virgem maria — mãe maria, mãe de todos nós —, vós que sois mãe do filho daquele que nos permite o nascer do dia, vós que sois mãe do filho daquele que nos possibilita a vida, daquele que nos determina a morte, santa virgem maria, mãe da manhã, mãe da luz, mãe solar: abençoai minha voz, meu cantar.

na escuridão da nostalgia causada pela perda de alguém que muito se ama, pela perda de alguém que nos é tão importante, tão caro, dai-nos a luz do luar.

na noite, na escuridão, na dor, na perda, no momento difícil: luz, sempre. seja qual for: solar ou lunar: luz, quero luz.

mãe da manhã, que assim seja.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Gil — Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

MÃE DA MANHÃ

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia

Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: O sorriso do gato de Alice. gravadora: BMG Ariola. artista e intérprete: Gal Costa. canção: Mãe da manhã. autor: Gilberto Gil.)

É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

É TUDO AMOR
2 de dezembro de 2014

Samambaia

(É tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança: na foto, uma samambaia, planta preferida do meu pai, o primeiríssimo Paulo Sabino)
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se entre nós, no primeiro dia do último mês do ano (01/12), o responsável por trazer à luz da vida este que vos escreve, o primeiríssimo paulo sabino, venceria as suas 72 primaveras.

2014: este ano, exatos 10 anos sem a presença dele.

2014: este ano, exatos 10 anos com a presença dele apenas em mim: no meu gestual, na minha alegria de vida, no meu bom-humor, na delicadeza que busco no trato dispensado aos meus demais irmãos de terra: na minha memória.

2014: há exatos 10 anos, o grande paulo sabino, o primeiríssimo, partia deste mundo para tornar-se uma estrela-guia no meu trajeto noite adentro, estrela-guia na obscuridade em que se projeta a existência.

o que há de melhor, em mim, eu devo a ele. tanto devo, que, hoje, o que, antes, foi uma saudade demasiadamente doída, 10 anos depois da sua partida transfigurou-se em lembranças doces. por vezes melancólicas, porém muito doces na sua composição.

filho de um violonista baiano & de uma catarinense, foi envolvido com a música, especificamente com o samba, desde que me entendo por gente (envolveu-se por 10 anos com uma escola de samba do rio de janeiro).

adorava viajar de carro, adorava passeios ao ar livre (o parque do flamengo foi dos seus cenários prediletos), adorava cinema (foi ele quem me apresentou almodóvar, lá atrás, quando o diretor espanhol nem sonhava com o sucesso que alcançou).

adorava dançar em casa, e se acabava quando eu, fascinado por sua presença alegre, iluminada, punha, na vitrola, determinadas canções que o faziam rodopiar pela casa com o seu sorriso farto, de quem nasceu para a amorosidade.

ele foi um apaixonado pela língua portuguesa & admirava & apostava no meu talento para com as letras, desde que me dedico à poesia & à interpretação de poemas.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança, um traço do seu rosto, o fluido passo de uma dança, uma canção — na vitrola antiga — que foge em meio à bruma.

é tudo amor: é tudo o que há na ponta de uma lança que nos fere como áspera verruma (verruma: instrumento de aço que tem a sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta, usado para abrir furos), pois todos sabemos, como já versejou o poetinha, que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz, todos sabemos que o amor é a coisa mais triste quando perdido, e, quando fere, quando machuca, ninguém mais se apruma, ninguém mais se endireita, nem que o gáudio — nem que a alegria, o contentamento — da vingança — quando perde-se um amor & o sentimento torna-se mágoa — conserte o furo, a ferida, que o amor causou.

o amor é tudo & apenas o que não se alcança, porque não se pode compreender plenamente o amor: nenhuma definição existente sobre o amor consegue conter o que seja o amor em sua plenitude: ao amor cabe o imponderável, ao amor cabe o inexplicável.

o amor é o que, às vezes tão próximo, se esfuma & escorre mais depressa do que a espuma com que as ondas tecem sua trança de água & sal.

o amor é a chaga que, sendo fugaz, sendo efêmera, passageira, perdura & nos dói como um mal que não tem cura.

o amor é tudo isso & um pouco mais: o amor não possui forma, fórmula, cheiro, cor, cara, peso, tamanho. por mais bem escrita a definição, não existe definição que comporte todo o matiz, todo o colorido, que o amor carrega, que o mais nobre dos sentimentos agrega.

mas seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo com admirações tamanhas que do amor & seu abismo não se consiga mais sair.

pai, por tudo, por tanto, esta singela homenagem nesta primeira década sem a sua presença física, com você aceso em mim. uma chama que nunca se extinguirá neste peito. não há vento ou tempestade capaz de apagá-la, não há intempérie capaz de miná-la.

chama eterna, como eterno o meu amor por você.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.

salve o primeiríssimo paulo sabino!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino, o filho.
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(do livro: Essa música. autor: Ivan Junqueira. editora: Rocco.)

 

 

É TUDO AMOR

 

É tudo amor, e mais coisa nenhuma
de que sequer se guarde uma lembrança,
um traço, o fluido passo de uma dança,
uma canção que foge em meio à bruma.
É tudo o que há na ponta de uma lança
que nos fere como áspera verruma
e, quando fere, ninguém mais se apruma,
nem que o conserte o gáudio da vingança.
É tudo e apenas o que não se alcança,
o que, às vezes tão próximo, se esfuma
e escorre mais depressa do que a espuma
com que tecem as ondas sua trança.
É a chaga que, sendo fugaz, perdura
e nos dói como um mal que não tem cura.

CDA EM PROSA
18 de setembro de 2014

CDA em prosa

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CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: um dos poetas da minha vida, um dos maiores da língua portuguesa.

e, como grande poeta, foi um apaixonado pela palavra.

tamanha paixão permitiu, portanto, que o mestre de itabira não só versejasse com a desenvoltura que lhe foi característica como também proseasse com a mesma sofisticação empregada aos versos.

a palavra em drummond: seja prosa, seja poesia: própria, peculiar, autêntica.

a palavra em drummond: seja prosa, seja poesia: ensinamentos para o bem viver & para o bem escrever.

aqui, um tanto de cda em prosa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(trechos de entrevistas extraídos do livro: Encontros — Carlos Drummond de Andrade. organização: Larissa Pinho Alves Ribeiro. editora: Azouge Editorial.)

 

 

O poeta é um homem qualquer, apenas municiado de técnicas de expressão verbal para exteriorizar emoções e ideias que são peculiares ao gênero humano em graus diferentes e mais ou menos conscientes. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Seu relacionamento com o balconista, com o caixa do banco, o deputado, o médico, é o de todas as pessoas. Meu processo de elaboração poética não tem nada de especial. Parece que foi Paul Valéry quem disse que o primeiro verso é ditado pelos deuses e os demais saem da cabeça da gente. Eu sinto, às vezes, vontade de fazer um poema sobre determinado tema, e um ou mais versos me vêm sem premeditação ou concentração. Os outros se encadeiam num estado de certa efervescência emocional, que pode durar minutos e talvez meia hora, se tanto. Depois, o espírito trabalha mais friamente, mais consciente de que é preciso desenvolver a trama iniciada sem querer. Isso pode ou não ter consequência. Se não tiver, desisto, porque não quero sofrer com um projeto que não conduz a nada. Mas a provocação de um tema, ditada por outra pessoa, pode também conduzir à criação, se ele bole conosco e quando se relaciona com veladas preocupações que guardamos, sem intenção de explorá-las.

*****

 

Eu leio pouco. Releio muito. Releio sempre Machado de Assis, que é uma cachaça na minha vida. Devia dizer o meu uísque, não? Mas não, é a minha cachaça. Releio os poetas franceses, os clássicos portugueses.

*****

 

Não separo autor da obra. Acho isto impossível. Apenas acho que a obra pode e deve circular independentemente da pessoa física do autor.

*****

 

Ao escrever sobre um fato, estou necessariamente “vivendo”, na medida do possível, esse fato ou tentando vivê-lo de acordo com a minha natureza.

*****

 

Não costumo escrever sem emoção. Podem achar que a minha poesia é demasiado fácil, demasiado assim, lacrimogênia; eu produzo emoção, eu quero comover, mas a realidade é que eu não sei fazer poesia pensada, não tenho capacidade para isso.

*****

 

Considero-os [os novos autores] com o máximo de simpatia, porque o espetáculo da vida em movimento e desenvolvimento é sempre bom de se ver. Mas não posso levar a sério as tentativas esporádicas para fazer dos novos um partido literário em luta com os mais velhos. Isso é tolo e não adianta coisa alguma. Querer combater um escritor porque ele já tem vinte anos [de carreira literária] é um índice da maior pobreza: a deficiência da noção de tempo, e da riqueza que pode haver no tempo anulado e sedimentado. Sinto-me perfeitamente moço aos meus quarenta e tantos anos, enquanto vejo por aí alguns rapazes dos mais tenros, vítimas de uma circunspecta mentalidade acadêmica, incapaz de aventura pessoal ou literária, preocupados em organizar a sua glória publicitária e invejando friamente os que se tornaram conhecidos antes deles. Esses novos na realidade são os piores velhos, e esses eu não posso admirar, por maior que seja a minha cumplicidade com a juventude em geral. Desconfio dos que vivem pregando a necessidade de sufocar influências, mas continuam docilmente influídos. Por mim, sempre aconselhei os que me procuram a não continuar a experiência dos mais velhos, e mesmo a reagir contra ela. Mas fazer política em torno desses assuntos, atacar os escritores de gerações anteriores para tomar conta da posição que eles ocupam, como se houvesse uma posição material a conquistar, e a vida literária se fizesse em termos de corrida de cavalos, isso é ridículo e triste.

*****

 

A palavra para mim é tudo. Minha ferramenta de trabalho e o produto desta ferramenta. Não desconfio dela, mas de minha capacidade de usá-la com a propriedade, o rigor e a sutileza que o trabalho literário deve exigir do escritor.

*****

 

Sou inteiramente otimista. Sem deixar de ser pessimista com relação à vida. Uma vida que se passa no meio de bombas nucleares e outras bombas menores, eu acho que não é, realmente, uma coisa muito alegre. Mas a gente vai fazer o possível para viver bem, viver em harmonia, em paz com os outros. E acho que a poesia preenche essa finalidade. A poesia faz bem. Ela cria certo contato, certa conveniência com as pessoas. Desde o namorado para a namorada, como desde o amigo para o inimigo, para a pessoa que recebe uma mensagem fraterna e, talvez, se torne menos inimigo.

*****

 

Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma. Não tenho religião, não tenho partido político. Vivo em paz com a minha consciência.

*****

 

Tenho uma profunda saudade e digo mesmo: no fundo, continuo morando em Itabira, através das minhas raízes e, sobretudo, através dos meus pais e meus irmãos, todos nascidos lá e todos já falecidos. É uma herança atávica profunda que não posso esquecer.

 

PRINCIPALMENTE: A VOZ DO MAR
17 de abril de 2014

O mar & sua voz

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sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas. por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe.

com isso, fui me afeiçoando aos privilégios, aos florilégios (às coleções de flores devidamente escolhidas), às vilegiaturas (às férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, na praia, na montanha, no deserto), que me couberam neste reino — que é a vida — etéreo (sublime, magnífico, elevado, e também vaporoso) & ao mesmo tempo deletério (aviltante, insalubre, danoso).

a vida, sabe-se, possui a sua faceta exuberante como também a faceta cariada, feia, cheia de tristezas.

além disso, neste reino que é a vida, etéreo & deletério, o esquecimento é tão inevitável quanto a vida & a morte é toda feita de mistério.

a vida é uma coisa da qual não se pode dispor. não conhecemos o suficiente para saber, apreender, o que é a existência mundana & universal — a morte, para nós, ainda é um mistério, não se sabe muito a respeito dela, para onde vamos, se é que vamos para algum lugar além das nossas sepulturas, nem nunca podemos ter a apreciação total das nossas próprias vidas, pois, pelo caminho, vamos deixando acontecimentos para trás, justamente porque o esquecimento é tão inevitável quanto a vida.

procuro ouvir a minha sorte, procuro ouvir o que me destina o destino (será que existe destino?), nos meus búzios, como o — poeta olavo — bilac ouvia suas estrelas (vide o poema feito pelo poeta, “ouvir estrelas”), coisa que nunca ouvi, mas compreendi (a minha sorte), mesmo não tendo credo acreditável, mesmo não tendo crença crível, mesmo não tendo credo no qual se possa confiar & acreditar.

assim, bicho homem sem credo no qual se possa confiar & acreditar, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras (na vida, sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas, e, por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe), cujo arquiteto (o arquiteto dessa arquitetura de quimeras que é a vida: “deus”, ou como quer que se chame a força criadora do universo) talvez fosse cego (construindo tal arquitetura às escuras), ou gênio (construindo tal arquitetura com total entendimento do que construía), ou talvez fosse, simplesmente, ausente (simplesmente inexistente, e a vida, um grande capricho do acaso).

neste reino etéreo & deletério, fundo a minha voz, inauguro o meu canto: na nave língua em que me navego, só me navego “eu”, como “nave”, sendo língua.

(“navego”: na palavra em destaque, duas outras palavras cabem, duas outras palavras formam a palavra “navego”: “nave” + “ego”, que é o mesmo que “eu”. é na língua que posso, através das palavras, me fazer “nave”, e, com elas, o “ego” “navego”.)

na nave língua em que me navego, língua na qual em/barco, só me navego “eu” (“ego”), como “nave”, sendo língua.

a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.

me navego em língua, “nave” & “ave”.

(“navego”: na palavra em destaque, além de caberem as palavras “nave” & “ego”, uma outra também cabe: “ave”.)

em língua me navego, “nave” que me permite viajar caminho afora, “ave” que me leva em suas asas, na minha tentativa de vôos altos por sobre a vida.

eu sou sol, luz, eu esplendo, eu resplandeço, eu brilho intensamente, sendo sonhador (afinal, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras), eu, sendo esplendor, sendo brilho intenso, eu espelho especiaria, sou como o conjunto de temperos que dá aroma & sabor, eu, navegante (dos mares da vida), sou o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes, o antinavegador porque nunca me aventurei a descobertas ultramarinas, o antinavegador porque nunca me prontifiquei a vencer os mares em busca de reinos perdidos & tesouros inexplorados, eu, que dobrei & venci o cabo da esperança (sentimento de quem confia na realização daquilo que deseja), eu, que desinventei o cabo das tormentas (das tempestades violentas, das situações conturbadas & perturbadoras), eu, que inventei o vento que me carregou nas minhas andanças, eu, que inventei a “taprobana”, a ilha que só existe na minha ilusão (“taprobana” é o nome pelo qual a ilha de sri lanka era conhecida na antigüidade), eu, que inventei a ilha que não há, talvez “ceilão”, sei lá (“ceilão” foi como a ilha de sri lanka foi denominada até 1972), eu, que inventei o mapa, o astrolábio, a embarcação, a rota, só sei que fui em busca dos meus interesses & sonhos & nunca mais voltei.

me derramei & me mudei em mar — virei a sua voz, me transformei no seu canto, só sei que me morri de tanto amar na aventura das velas caravelas (por todo o fascínio que sempre me despertaram as grandes navegações & suas expedições mundo afora), só sei que morri de tanto amar em todas as saudades de aquém-mar, em todas as saudades que ficam, que permanecem, na parte de cá, neste lado daqui, de quem nunca se lançou em aventuras de além-mar, de quem, viajando em sonhos & desejos, fundou o seu edifício neste reino etéreo & deletério, fundou o seu edifício sobre essa arquitetura de quimeras, cujo arquiteto talvez fosse cego, ou gênio, ou, simplesmente, ausente.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas reunidos. autor: Geraldo Carneiro. editoras: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.)

 

 

PRINCIPALMENTE

 

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício
sobre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

 

 

A VOZ DO MAR

 

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o antinavegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar

DESEJO INCONTIDO: O AMOR & O TEMPO
12 de março de 2014

RM 1

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para r.m.

 

no amor, nada, além do amor, importa.

o tempo não faz a menor diferença: voa ou se arrasta, dependendo, única & exclusivamente, da maré do amor.

o meu amor, eu o deixei fisicamente no domingo passado. hoje, quarta-feira. nem três dias ainda completos. a saudade, a vontade, o desejo, tudo me leva a crer que eu o deixei numa estação longínqua, para uma viagem, há meses atrás.

a urgência de amor é tamanha que tudo o que se quer é tê-lo fisicamente o máximo de vezes, tudo o que se quer é a sua cara limpa, lavada, banhada em luz, abrilhantando o ambiente, tudo o que se quer é sua presença feita de boca, cheiros, toques, olhares, sussurros & prazeres, a todo o instante, sem preocupações com o tempo que corre para fora do seu círculo.

o meu amor é uma preciosidade sem fim em tão pouco tempo…

mas o que, de fato, importa?

o amor não mede tempo: a ele, tempo é nada.

pois, no amor, nada, além do amor, importa.

ao amor, “não existe mais concessão: eu só digo sim mesmo quando digo não”.

beijo todos!
paulo sabino.
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(Autor: Paulo Sabino.)

 

 

DESEJO INCONTIDO

 

Ser o seu colorido
Arder em febre de amor descomedido
Ferir a noite taciturna
E repousar sobre a rosa noturna

AS APARÊNCIAS ENGANAM
11 de novembro de 2013

Fogo & Gelo

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(Esta é uma das coisas mais lindas que a música popular poderia ter feito por mim, por nós. E, nesta fase, tudo muito à flor da pele, é assim: coloco para escutar, e choro choro choro – rs.)
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As aparências enganam os que odeiam & os que amam: pois o amor & o ódio se tocam em suas extremidades: um amor, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento: oceano sem água.

O ódio, em caso de amor, só existe porque, no fundo do ser, existe algum sentimento resguardado pelo outro.

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na fogueira das paixões: os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.

Se a combustão os persegue, as labaredas & as brasas são o alimento (aquilo que faz viver), o veneno (aquilo que faz morrer), o pão, o vinho seco (a bebida quente, que aquece & inebria, e que é, ao mesmo tempo, rascante): a recordação dos tempos idos de comunhão, dos tempos idos de união feliz — sonhos vividos de conviver…

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na geleira das paixões: os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser: não há mais forma de se aquecer… não há mais tempo de se esquentar… não há mais nada pra se fazer senão chorar sob o cobertor…

As aparências enganam os que gelam & os que inflamam: porque o fogo & o gelo se irmanam no outono das paixões: o outono das paixões: tempo de recolhimento, tempo de quietude, tempo de reestruturação do ser: pensar & repensar o relacionamento vivenciado, pensar & repensar se o relacionamento vivenciado vale a pena, e, caso não valha mais, aprontar-se para o porvir: os corações cortam lenha e, depois, se preparam para outro inverno.

Mas, apesar dos pesares, o verão que os unira — que unira os corações agora separados — ainda vive & transpira ali (ainda vive & transpira dentro do ser, na recordação dos tempos idos de comunhão, nos sonhos vividos de conviver): nos corpos juntos, na lareira; na reticente primavera, primavera — estação da floração, do renascimento — ainda hesitante; no insistente perfume de alguma coisa — que não sabemos & não podemos definir ao certo — chamada:

AMOR.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Tunai / Sérgio Natureza.)

 

 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
Não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e depois
Não há nada que os degele
Se a neve cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
Se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e depois
Se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos, na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Elis, essa mulher. artista & intérprete: Elis Regina. canção: As aparências enganam. autores da canção: Tunai / Sérgio Natureza. gravadora: WEA Music.)

VERSOS DE ORGULHO: CHARNECA EM FLOR
24 de abril de 2013

Charneca em flor

(Charneca em flor: charneca: vegetação que cresce em regiões incultas & arenosas, caracterizada por arbustos & plantas herbáceas resistentes.)
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enche o peito da mulher amorosa, num encanto mágico, o frêmito — o balançar, o bramido — das coisas dolorosas, das coisas doídas, das coisas que machucam…

sob as urzes — plantas arbustos que florescem flores brancas — queimadas da mulher amorosa, nascem suas rosas…

(sob as coisas dolorosas, coisas doridas, da mulher amorosa, nasce seu encanto mágico.)

nos seus olhos as lágrimas são apagadas.

anseia, deseja, a mulher amorosa! asas abertas! o que traz dentro de si? ela ouve bocas silenciosas murmurar-lhe as palavras misteriosas que perturbam seu ser como um afago (as palavras misteriosas: desejo, febre, amor…).

e, na febre ansiosa que a invade, a mulher amorosa despe a sua mortalha, despe o seu burel, a mulher amorosa despe as suas vestimentas de luto, de tristeza, e já não é — a mulher amorosa — “sóror saudade”, e já não é — a mulher amorosa — a porta-voz da saudade, e já não é — a mulher amorosa — a religiosa a carregar a saudade no andor.

olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel: a escolha da mulher que já não é “sóror saudade” (a religiosa que carrega a saudade no andor): a proposta — que não é a mesma de antes — da mulher: arder em êxtases de amor: ser a charneca rude a abrir em flor!

por ter os olhos a arder em êxtases de amor, por ter a boca a saber a sol, a fruto, a mel, por ser a charneca rude a abrir em flor, diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal. diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal também porque ninguém tem asas como as suas, porque deus a fez nascer “princesa” entre plebeus, numa torre de orgulho & de desdém.

à mulher amorosa — princesa de um reino para além (do mundo material), alheia aos reles mortais que somos, encastelada em sua torre de orgulho & de desdém — cabe, no seu olhar, os vastos céus; e os ouros & os clarões da vida (a luz do dia, a transparência da água, o frescor do vento, a clareza da cor) são todos seus.

o mundo — o que é o mundo ao amor da mulher amorosa, princesa presa ao seu reino (que fica para além), distante desta nossa vida ordinária?

o mundo ao amor da mulher amorosa: o jardim dos seus versos todo em flor… a seara — extensão de terra cultivada — dos beijos do amado amor, pão bendito em sua boca.

os êxtases os sonhos os cansaços, da mulher amorosa: são os braços do seu amado amor dentro dos seus braços, via láctea (os braços da mulher amorosa) fechando, abarcando, acolhendo, abrigando, cabendo, o infinito (o universo que representa o amado amor para a mulher amorosa, para a sua proposta, não mais a de “sóror saudade”: olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel, a charneca rude a abrir em flor).

(nunca é tarde para mudanças, nunca é tarde para novas propostas.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Florbela Espanca. organização: Maria Lúcia Dal Farra. editora: Martins Fontes.)

 

 

CHARNECA EM FLOR

 

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

 

 

VERSOS DE ORGULHO

 

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

FEITO UM BOLERO: A CANÇÃO PARA ME ENTENDER
6 de novembro de 2012

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no bolso esquerdo,  no bolso do lado esquerdo do peito, levo uma tristeza que se agita, andorinha, lépida & pequenina, quando escrevo.

pois, quando escrevo, agita-se a andorinha chamada tristeza, lépida & pequenina, e, com ela, agitam-se algumas saudades, alguns dissabores, quando escrevo.
 
no entanto, juro, os senhores devem perceber, sou alegre & rio tanto & mais sempre que me atrevo. e, nesse quesito, considero-me bem atrevido.
 
amo. e amo sempre, esperançoso, reincidente abelha, insistente & repetitiva abelha (animal que trabalha incansavelmente, com cuidado, esmero & atenção), amo industrioso, amo caprichado, esmerado, amo & tenho trabalho (ainda que, no fim das contas, prazeroso).
 
dos abraços, rápidos marinheiros, marinheiros que chegam & partem logo (visto o breve tempo de um abraço), deles (dos abraços) ficam, no ar, algumas formas breves: um revoar de plumas, um revoar de travesseiros, um revoar de formas breves & leves & confortáveis. mas o peso deles (dos abraços), o peso que eles (os abraços) adquirem dentro de nós, é de chumbo & sal.
 
no vivenciar o mundo, minucioso, perco a exatidão do mundo. no vivenciar o mundo, detalhista, perco a precisão, perco a clareza, perco a nitidez do mundo, pois, no vivenciá-lo, percebe-se que o mundo são dúvidas, incertezas, caminhos possíveis, escolhas. no vivenciar o mundo, percebe-se que o mundo, sobretudo, é errância. ninguém sabe ao certo o que nos aguarda ao dobrar a próxima esquina.
 
em meus olhos desatentos, guardo apenas imprevistas surpresas de janela, guardo, em meus olhos distraídos, apenas inesperadas surpresas de quem assiste ao passar da vida (não somente como um ator social, não somente como um ser atuante, mas também como um espectador distanciado) & uma inocência de menino à espera, grávido de sonhos, de vontades, menino grávido de vida.
 
menino grávido de vida, decreto que, hoje, o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje, que os cabelos brancos do poeta sejam prata, metal precioso, as rugas, rios de muitas águas, cada poro do poeta seja um lago. hoje, que sejam potáveis & frescas as águas oferecidas pela fonte poética.
 
hoje, que beijem leve, longamente o poeta; hoje, que passeiem pelo corpo do poeta como um parque (de diversões), fonte de prazeres a quem dele se sirva.
 
hoje foi decretado que o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje o poeta vestirá aquele riso grande & inocente.
 
hoje o poeta vai provar algodão-doce, mel rosado, beber chuva passageira sentado a uma mesa na calçada.
 
hoje o poeta será tanto & tantas vezes (feliz) que, dele, hão de dizer, penalizados: “é criança ainda, ou bolero”.
 
hão de dizer, sentindo pena, que hoje o poeta é criança ainda, hão de dizer que hoje o poeta é inocente, fantasioso, onírico, cheio de energia para traquinices, ou hão de dizer que hoje o poeta é feito um bolero: ritmo de origem espanhola, chegou à américa latina por cuba & é dedicado àqueles que amam com despudor, é dedicado àqueles que amam livres de recatos & amarras, que amam sem nenhuma vergonha de dizer, com todas as sílabas, seus sentimentos.
 
hoje o poeta é feito um bolero: a canção para bem entendê-lo: ritmo dedicado àqueles que amam despudoradamente, ritmo dedicado ao amor livre de recatos & amarras.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Olhos de cadela. autora: Ana Mariano. editora: L&PM Editores.)
 
 
 
CANÇÃO PARA ME ENTENDER
 
 
No bolso esquerdo, levo uma tristeza
que se agita, andorinha, quando escrevo.
No entanto, juro, sou alegre e rio
tanto e mais, sempre que me atrevo.
 
No amor, dizem, sou incongruente.
Mas amo. Amo sempre, esperançosa,
reincidente abelha, amo industriosa,
em dias alternados, amo insistente.
 
Dos abraços, rápidos marinheiros,
ficam no ar algumas formas breves,
um revoar de plumas, travesseiros.
Mas é de chumbo e sal o peso deles.
 
A exatidão do mundo perco, minuciosa.
Guardo apenas, em meus olhos desatentos,
imprevistas surpresas de janela
e essa inocência de menina à espera.
 
 
 
FEITO UM BOLERO
 
 
Que meus cabelos brancos hoje sejam prata,
as rugas, rios de muitas águas,
cada poro meu seja um lago.
Que me beijem leve, longamente
e passeiem meu corpo como um parque.
Hoje meu poema será festa, feriado comemorativo.
Vestirei aquele riso grande e inocente.
Vou provar algodão-doce, mel rosado,
beber chuva passageira sentada a uma mesa na calçada.
Hoje serei tanto e tantas vezes
que de mim hão de dizer, penalizados:
é criança ainda ou bolero.