PASSARINHÃO
30 de setembro de 2016

gaviao

(Gavião)
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O texto abaixo, em negrito & entre aspas, foi escrito pelo querido xará Paulo Almeida:

 

“O ‘Coletivo Chama’ nos convocou [Mais e Melhores Produções e Marketing, empresa do Paulo Almeida] para cuidar do lançamento do seu primeiro CD ‘Todo Mundo é Bom’. Um trabalho muito potente e com várias possibilidades de leitura. São muitos os recortes e muitos os motivos para ficarmos atentos a esse trabalho.

Tarefa difícil abrir caminhos para um trabalho tão profundo e tão bem produzido.

Lancei uma ideia maluca, que foi prontamente comprada por todos do coletivo que estavam naquela reunião: que convidássemos compositores, atores, literatos, editores, poetas, músicos, para uma audição aleatória de uma das faixas do CD seguidas de comentários sobre o que ouviram. Essas audições e comentários seriam filmados.

Convocamos um timaço para registrar suas impressões. Para nosso espanto, a maioria aceitou sem pestanejar.

Assim, temos comentários faixa a faixa de um disco muito saboroso.”

 

Deixo pra vocês o vídeo do qual participei, vídeo da faixa “Passarinhão”, falando sobre a faixa com um timaço (honra & alegria): com a atriz Clarice Niskier, com o pianista & compositor André Mehmari, com o professor de música da UniRio Josimar Carneiro, com a cantora Áurea Martins & com o cantor & multi-instrumentista Domenico Lancellotti.

Vale o play pra ouvir a faixa & pros comentários!
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Passarinhão: além do diálogo que o poeta-compositor mantém com o gavião, que ronda a sua localidade, assombra o seu quintal, o gavião, no poema-canção, é a personificação/personalização de um sentimento ruim, de um mau agouro, que sobrevoa o ser do poeta-compositor: passa, gavião; não arranha o coração do poeta-compositor; não assombra o seu quintal.

Passa, gavião. Por que tu, passarinhão, te aninhaste debaixo do pensamento do poeta-compositor, dentro de alguma dor do poeta-compositor, com teu rumor de rapina & teu silêncio de tumor, teu silêncio de algo que mata por dentro?, passarinhão ávido pra atiçar um sofrimento no poeta-compositor.

Sai, sai, passarinhão. Faz favor, tem compaixão.

O ovo gorado do passarinhão já agourou o poeta-compositor. O canto triste do gavião calou de dor a voz do poeta-compositor. Acabou que tu, passarinhão, ficaste mais vivo que a vida do próprio poeta-compositor, e o medo de viver, de amar, empalhou o poeta-compositor. Acabou que tu, gavião, penetraste o pesadelo do poeta-compositor, pássaro-invasor.

Passarinhão, larga o poeta-compositor & segue a trilha do acauã, abandone o quintal do poeta-compositor, para que a manhã rebrilhe na sua casa-ser.

Sai, sai, volta, não. Passa, passa, gavião, a fim de o poeta-compositor alcançar a sua redenção, a sua proteção, a sua salvação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. artista: Coletivo Chama. álbum: Todo mundo é bom. canção: Passarinhão. música: Thiago Thiago de Mello. letra: Thiago Amud. comentários: Paulo Sabino, Domenico Lancellotti, Áurea Martins, André Mehmari, Josimar Carneiro, Clarice Niskier.)

 

PASSARINHÃO   (Thiago Amud)

Passa, passa, gavião
Todo mundo é bom e mau
Não me arranha o coração
Não assombra meu quintal
Passo-preto, passado que não passou
Que tambor te encantou?
Que ato, que palavra oculta te perpetuou?
O teu olho vazado me divisou
Tua venta ventou
Teu bico bicou bem o músculo que atrofiou
Por que te aninhaste debaixo do meu pensamento
Dentro de alguma dor
Com teu rumor de rapina e teu silêncio de tumor
Ávido pra me atiçar um sofrimento?
Sai, sai, passarinhão
Bacurau mudou de tom
Faz favor, tem compaixão
Todo mundo é mau e bom
Passo-preto, espantalho não te espantou
Tiro não te matou
Que crime dormido em meu sangue te maravilhou?
O teu ovo gorado já me agourou
Teu canto me calou
Ficaste vivo mais que a vida, o medo me empalhou
Por qual razão desconhecida botaste tocaia?
Praga ou desamor?
Tu que és metade uma harpia, metade és um estupor
Tu que penetraste o meu pesadelo, meu invasor
Passa noite, passa arribação
Passa a terçã
Passa, passa, gavião
Me larga e segue a trilha do acauã
Que a manhã rebrilha
Sai, sai, volta não
Passa, passa, gavião
Redondilha, redenção

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JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS
16 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

Estrada Real_Diamantina (MG)

(O sertão)
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João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

A ARTE DOS VERSOS
21 de julho de 2015

Plantação de couve

(Plantação de couves.)
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Um convite aos navegantes: nesta quinta-feira, 23 de julho, a 5ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Na frente do bar Alquimia. As leituras & declamações começam às 20h30, mas a concentração, para uns drinques & um bate-papo animado, a partir das 19h. Aguardando todos!
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Para Antonio Cicero, que me fez lembrar o poema

 

 

toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui, na maneira como esta mulher, dos arredores de cantão, na china, ou dos campos de alpedrinha, em portugal, rega quatro ou cinco leiras, rega quatro ou cinco canteiros, de couves: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz a planta bonita & viçosa: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz o poema: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água & intimidade com a terra, mão certeira & intimidade com os nutrientes do poema, com aquilo que o alimenta (a palavra, o vocabulário, as formas poéticas, as brincadeiras lingüísticas), e empenho do coração (a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção, com os versos).

assim se faz a planta bonita & viçosa, assim se faz o poema: mão certeira & intimidade com os nutrientes, com aquilo que os alimenta, e empenho do coração — a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. autor: Eugénio de Andrade. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A ARTE DOS VERSOS

 

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

SEI LÁ, NÃO SEI…
9 de junho de 2015

Cine Olaria_PB

Cine Olaria_2015

(Na primeira foto, o Cine Olaria, em funcionamento, como o conheci na infância & parte da adolescência; na segunda foto, o Cine Olaria nos dias atuais, desativado & abandonado.)
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Dias atrás, pensei com os meus botões: se existe uma vantagem em nascer em bairro do subúrbio, bairro periférico, portanto, bairro mais pobre, e eu enxergo outras tantas vantagens, é a oportunidade, mais contundente, de entender, através da razão & do sentimento, que a riqueza material — a grana, as ações, as apólices — nada tem a ver com a riqueza de sentimentos que se pode ter para doar.

Toda vez que escuto este poema-canção, toda vez que leio os seus versos, me vem à cabeça Olaria, bairro onde, depois de nascido (no Estácio) & saído do hospital, fui morar.

Um suburbano coração.

Os versos deste poema-canção me vêm à cabeça porque, quando penso em determinada área de Olaria, área que não acho esteticamente bonita mas que ao mesmo tempo acho bela, feliz, aprazível ao olhar, consigo me ver nas linhas poéticas, me espelho na voz do poeta, me digo nos versos do poema-canção.

Porque determinados lugares, que, a princípio, não agradam esteticamente, podem conter uma atmosfera, uma sintonia, uma espécie de “calmaria” & “alegria”, indescritíveis, que não estão na arquitetura, que não estão propriamente na “matéria”, nas construções avistadas.

Em Olaria, a poesia, feito o mar, se alastrou; e a beleza de um lugar no bairro, para entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê; a vida é um pouco mais do que o percebido pelos olhos, a vida é um pouco mais do que o tocado pelas mãos, a vida é um pouco mais do que o pisado pelos pés.

A beleza de certo local do lugar não me parece “palpável”, “material”. Eu vejo, sinto, percebo, determinado trecho de Olaria em todo o poema-canção.

A incerteza, a dúvida, o desconhecimento da razão de tamanho sentimento por um lugar, em Olaria, que esteticamente seria julgado como feio: sei lá, não sei… Não sei se, toda a beleza de que lhes falo, sai tão-somente do meu coração. Em Olaria, a poesia, num sobe & desce constante, anda descalça, de pé no chão, pobre, primordial, ensinando um modo novo de viver, de sonhar, de pensar, e sofrer.

Olaria: a sua calmaria, o seu silêncio, as suas muitas ruas de casarões, a sua face interiorana, a sua face feia & feliz, a sua pobreza, a sua despreocupação, me formam, me moldam, me conduzem.

Olaria é tão grande que nem cabe explicação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

FAVELA: é controvertida a origem deste vocábulo. Pode ter vindo do latim “favilla”, cinza quente, ou de “favu”, o conjunto de alvéolos de uma colmeia, que também se chama cortiço. Nos dois casos, alude-se, por metáfora, a conjuntos de habitações precárias. Quanto à origem, na clássica oposição entre cru e cozido, que segundo alguns teóricos definiu as civilizações, a cinza quente lembra o fogo feito no chão, com o fim de assar ou cozinhar. Os antecessores dos modernos fogões a gás ou elétricos, feitos de ferro, substituíram os fogões de pedra. Mas entre uns e outros dominou um tipo especial de fogão de correntes, afixadas num tripé ou no teto das cozinhas. Ganchos apropriados serviam para que panelas e chaleiras fossem ali dependuradas, embaixo das quais crepitava o fogo do chão, depois tornado brasa e cinza. Vistos de longe, pelas frestas dos barracos ou ao ar livre, onde também eram feitos, esses fogos teriam dado àquele amontoado de casas a aparência de uma colmeia. Outra explicação para o significado de habitação popular é dada por Antenor Nascentes e acolhida pelo “Dicionário Houaiss”: na campanha de Canudos, os soldados ficaram instalados no Morro da Favela, localidade daquela região assim chamada porque ali havia grande quantidade da planta que leva este nome (favela). Quando voltaram ao Rio de Janeiro, “pediram licença ao Ministério da Guerra para se estabelecerem com suas famílias no alto do Morro da Providência e passaram a chamá-lo Morro da Favela.”
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(autor: Hermínio Bello de Carvalho.)

 

 

SEI LÁ, MANGUEIRA

 

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá…
Sei lá, em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei…
Não sei se toda a beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe e desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De sonhar, de pensar e sofrer

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei, não…
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

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(do site: Youtube. do álbum: Cantoria. canção: Sei lá, Mangueira. versos: Hermínio Bello de Carvalho. música: Paulinho da Viola. intérprete: Caetano Veloso. Participação especial: Paulinho da Viola / Chico Buarque. gravadora: Biscoito Fino.)

COISA EM SI
16 de maio de 2015

Ovo
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toda & qualquer coisa é composta de outras tantas coisas.

não existe “coisa em si”.

toda & qualquer coisa forma uma identidade. identidade que se forme, que se molde, que se construa, sem que tenda para alguma coisa, sem que sofra a influência de alguma coisa, sem que penda para algum lado, sem que dependa de alguma outra coisa, não existe.

tudo tende, pende, depende.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: tende / pende / depende.

palavra puxa palavra.

o mar, que molha a ilha, molha o continente.

o ar que se respira traz o que recende, o que exala, o que se espalha. o ar que injetamos nos pulmões é o mesmo que, livre, toca o cheiro das coisas & o traz, de longe, até nós.

tudo é rente, é próximo, é contíguo. tudo é tangente, é tocável, é acessível. tudo é inerente, é dependente, é inseparável.

tudo é rente, tangente, inerente.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: rente / tangente / inerente.

palavra puxa palavra.

não existe coisa assim: isenta, sem ambiente, coisa partida do seu próprio pó, sem mistura, coisa sem sombra na parede, coisa sem margem ou afluente que a alcance, que a toque: as coisas existem & necessariamente, obrigatoriamente, estabelecem inter-relações: não há coração sem mente, não há paraíso sem serpente. não existiria som se não houvesse o silêncio. não haveria luz se não fosse a escuridão.

a vida é mesmo assim: dia & noite, não & sim.

“coisa em si” inexiste.

só existe o que se sente, só existe o que é percebido através dos sentidos. uma coisa, mesmo que exista, se não for sentida por nós, isto é, se não for percebida por nós, essa coisa não existe para nós. para que exista para nós, portanto, as coisas precisam, as coisas dependem, as coisas necessitam, as coisas carecem, existir, antes, para os nossos sentidos.

tudo tende, pende, depende. tudo é rente, tangente, inerente.

não existe “coisa em si”.

a miscigenação, a mistura, a mesclagem, a influência, a tendência, a confluência, sempre foi & sempre será o caminho de toda & qualquer coisa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: ET  Eu  Tu. poemas: Arnaldo Antunes. fotos: Marcia Xavier. editora: Cosac & Naify.)

 

 

coisa em si
não existe

tudo tende
pende
depende

o mar que molha
a ilha molha
o continente

o ar que se
respira traz
o que recende

coisa em si
não existe

tudo é rente
tangente
inerente

pedra
assemelha
semente

sol nascente:
sol poente

coisa em si
não existe

mesmo que
aparente

coisa em si
coisa só
partida do seu
próprio pó

sem sombra
sobre
a parede

sem mar
gem
ou afluente

não existe
coisa assim

isenta
sem ambiente

não há coração
sem mente

paraíso
sem serpente

coisa em si
inexiste

só existe
o que se
sente

CERIMONIAL: ALEGRIA SEM NOME
22 de janeiro de 2015

Ilhas Cagarras_Rio de Janeiro
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eu vou, no cerimonial da vida, no ritual que me cabe viver, colhendo, com unção, apanhando, com suavidade, com macieza, os dias, conforme tu, vida que me cabe viver, os confias à minha mão sempre disposta a alcançá-los: leves vestes, roupas confortáveis (os dias que tu, vida que me cabe viver, confias à minha mão), que enfio, que visto, quando o coração me despe, quando o coração me desnuda.

quando me despe o coração, quando me desnuda o coração, visto, enfio, os dias que me cabem como roupas leves, confortáveis: pois quando me desnuda o coração, o que resta de mim, nu, é o mais espontâneo & genuíno sentimento de carinho pela vida, pelas coisas que me cercam.

despido pelo coração e, justamente por isso, enfiado nas vestes leves que os dias me aprontam.

vestido das leves vestes que são os dias que tu, vida que me cabe viver, confias à minha mão, ouço-a chegar: é uma leve breve voz na superfície do dia.

ouvi-la lembra países, porque países lembram idiomas, e idiomas lembram vozes distantes, vozes que não nos são próximas, vozes desconhecidas, suspensas no ar: ei-la que vem nupcial, ei-la que vem carregada de amor, sobre o grande rumor do mar.

a leve breve voz não mancha o pensamento, a paisagem.

nada comove as águas paradas, as águas aquietadas, da manhã: silvos, caracóis, canas & vimes: nenhuma voz comove a tranqüilidade das águas matinais.

vejo-a morrer — a leve breve voz — nos pauis, nos pântanos (regiões ribeirinhas cobertas por águas paradas), onde inauguro gestos esquecidos: um arco desenhado pelo braço, um movimento feito com a cabeça, um jeito de corpo.

alegria sem nome lhe chamo. “alegria sem nome” chamo a voz nupcial que atravessou o pensamento, a paisagem, sem manchá-los, “alegria sem nome” lhe chamo & não conheço outro nome para ela.

“alegria sem nome” é o seu nome: uma leve breve voz desconhecida que vem sobre o grande rumor do mar, nupcial, carregada de amor, sabe-se lá por quê, sabe-se lá de onde, sabe-se lá para quem. nada disso importa.

importa é termos os olhos, os ouvidos & o coração abertos às tantas vozes leves & breves presentes na colheita que tu, vida que me cabe, confias à minha mão, ofertando-me, por conseguinte, alegrias que não precisam, que não devem, ser nomeadas.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Aquele grande rio Eufrates. autor: Ruy Belo. editora: 7Letras.)

 

 

CERIMONIAL

 

Eu vou colhendo com unção os dias
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração

 

 

ALEGRIA SEM NOME

 

É uma leve breve voz
à superfície do dia
Ouvi-la lembra países
Ei-la que vem nupcial
sobre o grande rumor do mar
Não mancha o pensamento a paisagem
Nada comove
as águas paradas da manhã:
silvos caracóis canas e vimes
Vejo-a morrer nos pauis
onde inauguro gestos esquecidos
Alegria sem nome lhe chamo
e não conheço para ela nenhum outro nome

PESSOANA
20 de agosto de 2014

Fernando Pessoa_Jovem

(Na foto, o poeta português Fernando Pessoa.)
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uma poesia, uma apresentação textual, “pessoana”, uma poesia, uma apresentação textual, à maneira de (fernando) pessoa:

quando não sei o que sinto, quando não compreendo o que sinto, quando não consigo apreender um sentimento através da razão, sei que o que sinto é (exatamente) o que sou: só o que não meço não minto.

em mim, só o que não consigo medir, só aquilo que não consigo conter, que não consigo calcular, mensurar, analisar, definir, é o que sou exatamente: pois tudo o que consigo medir, tudo o que consigo conter, que consigo calcular, mensurar, analisar, definir, não é o que eu sou mas a interpretação que faço do que sou, através da razão. sendo o que meço, o que controlo, o que calculo, o que mensuro, o que analiso, o que defino, uma interpretação do que sou & não o que eu sou exatamente, a interpretação que alcanço de mim é já, em si, uma inverdade, uma falsidade, uma mentira:

porque passível de muitos erros. porque toda & qualquer interpretação de toda & qualquer coisa nunca será a “coisa em si”.

a interpretação de um sentimento nunca será exatamente o que o sentimento é.

sem a interpretação, sem o entendimento do sentimento, resta apenas o sentimento em si: sem interpretação, não minto: somente sinto.

mas tão logo identifico, tão logo decodifico, tão logo reconheço, o “não-lugar” onde estou, tão logo identifico, decodifico, reconheço, o tipo de desencontro em que me encontro, decido que ali não fico, decido não mais me encontrar em “determinado” desencontro, pois onde me delimito, pois onde me “determino”, já não sou mais o que sou (só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto) mas tão-somente me imito.

de ponto a ponto, de lugar a lugar por onde vou, sem planejar, traçando os meus passos ao sabor da simples vontade de caminhar, rabisco o mapa de onde não vou, pois só vou por trilhas que desconheço a rota, só vou por trilhas que não sei onde vão dar, só sigo o mapa que silencia o caminho da mina & do tesouro, ligando de risco em risco, isto é, ligando de perigo em perigo, e também ligando de linha em linha (de versos, de prosa), meus equívocos favoritos (o caminhar a esmo, naturalmente, propõe diversos tipos de perigos, diversos tipos de riscos, de equívocos, de erros, que, com o tempo, acumulo em riscos, acumulo em linhas poéticas, acumulo em linhas de prosa), até que tudo que sou é um acúmulo de escritos, de textos por onde me enxergam os senhores, penetrável labirinto em cujo centro não estou (os textos que escrevo não são exatamente o que eu, paulo sabino, sou) mas apenas me pressinto, apenas me percebo, apenas me desconfio, mero signo, mero fenômeno que representa algo diferente de si mesmo: um simples mito.

e, como todos, eu minto meu mito.

(quando não sei o que sinto, sei que o que sinto é o que sou exatamente, pois não há os erros de avaliações, não há os erros de projeções.)

(e a vida, o caminhar, é pura errância, porque a vida é pura interpretação, a vida é pura linguagem, a vida é pura simbologia…)

(só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Trovar claro. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PESSOANA

 

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.