AGRADECER & ABRAÇAR
13 de janeiro de 2015

Agradecer e abraçar_Maria Bethânia______________________________________________________

Domingo passado (11/01) foi dia de comemorar ao lado dela. Na verdade, foi dia de comemorar de frente para ela.

A grande responsável por me apresentar a arte poética completa, neste 2015, 50 anos de carreira, comprometida, unicamente, com as suas verdades.

Para quem espera, esperava, um espetáculo no estilo “50 anos de carreira & seus grandes sucessos”, a decepção pode ser grande.

Maria Bethânia comemora os seus 50 anos de estrada & canto com mais um grande — e belíssimo! — show, costurando as canções a partir dos assuntos/temas que vai alinhavando em cena. Por isso, como sempre faz, sempre fez, os grandes sucessos entram a fim de dar integridade à espinha dorsal do espetáculo, os grandes sucessos entram a fim de garantir a sustentabilidade necessária aos assuntos/temas abordados.

Não se trata, portanto, de uma compilação desenfreada dos “hits” de carreira: Bethânia não canta “Olhos nos olhos”, não canta “Terezinha”, não canta “Explode coração”, nem “Ronda”, “Sonho meu”, “Negue”, “Mel”, “Anos dourados”, “Grito de alerta”, “Esse cara”, “O lado quente do ser”, “Fera ferida”. Os sucessos que entraram, entraram para compor a linha dramática que norteia o seu show comemorativo, intitulado “Agradecer e abraçar” (título homônimo à canção gravada no álbum “A força que nunca seca”).

A primeira parte do espetáculo — as primeiras canções — revela a sua relação com a carreira de intérprete & cantora: abre com “Eterno em mim”, do mano Caetano (“em mim o eterno é música e amor”), deságua em “Dona do dom”, do Chico César (feita especialmente para ela & por ela gravada no álbum “Maricotinha”), navega, emblemática, por “Começaria tudo outra vez”, do grande amigo Gonzaguinha (“começaria tudo outra vez / se preciso fosse, meu amor”), e segue dando emoção a tudo aquilo que sempre a comoveu no seu percurso artístico, clarificando ao público que muito se orgulha do caminho traçado através das suas escolhas.

Não faltam homenagens à sua terra & à sua gente (“Motriz”), aos seus pais & ao seu povo (“Tudo de novo”), à água, elemento de sua fascinação (“Eu e água”), à viola caipira, uma das suas adorações, ao grande poeta que adoçou a Bahia & a embalou, Dorival Caymmi (“Doce”), à Oxum mais bonita, mãe Menininha do Gantois (“Oração de Mãe Menininha”), e ao amor, é claro, uma das suas facetas mais célebres & festejadas.

Bethânia recita, entre outros, textos de Clarice Lispector, Waly Salomão & Fernando Pessoa, poeta da sua vida.

O auge de “Agradecer e abraçar” é quando, já no final, Bethânia canta a sua versão de “Non, je ne regrete rien”, sucesso na voz de uma das suas divas, a francesa Édith Piaf, acompanhada de uma tradução lindíssima dos versos da canção, cujo mote é o fato de não se arrepender de nada que tenha vivido. A tradução é recitada, como um poema. É tudo tão forte, tão carregado de simbolismo, que os espectadores aplaudem Bethânia de pé ainda no meio da canção. E isso, eu soube, aconteceu também na primeira noite. Arrebatador. (Aqui, me parece que, de alguma forma, Bethânia, discretamente, homenageia Cássia Eller, que, para surpresa de todos à época, gravou “Non, je ne regrete rien” no seu último álbum & que, das mais jovens, das cantoras surgidas na década de 90, é a sua cantora preferida.)

“Agradecer e abraçar” é mais um “depoimento” artístico de uma das grandes vozes deste país.

Mostra que quem nasceu para rainha nunca perde a majestade.

Agradecer & abraçar: ao fim do espetáculo, nada pedi. Só agradeci.

Mentira. Pedi, sim: mais 50 anos de carreira.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: A força que nunca seca. artista: Maria Bethânia. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

 

 

AGRADECER E ABRAÇAR

 

Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar
Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abracei o mar
É festa no céu, é lua cheia, sonhei
Abracei o mar

E na hora marcada “Dona Alvorada” chegou para se banhar
E nada pediu
Cantou pro mar
(E nada pediu)
Conversou com o mar
(E nada pediu)
E o dia sorriu

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar
E nada pedi
Entreguei ao mar
(E nada pedi)
Me molhei no mar
(E nada pedi)
Só agradeci
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A força que nunca seca. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Agradecer e abraçar. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

UMA ALEGRIA EXCELSA PRA VOCÊ: ABRAÇAÇO, O SHOW
25 de março de 2013

Caetano Veloso_Abraçaço

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O show da nova turnê do Caetano, Abraçaço, realizado sábado (23/03), no Circo Voador (Rio de Janeiro), foi do caralho!

No palco, continua cheio de vigor & disposição. É bom, bonito, feliz, ver o homem velho feito um menino, desferindo suas novas & antigas canções.

O show, vigoroso em sua possança, não esconde o estado emocional atual do poeta-compositor — na verdade, a minha leitura do espetáculo diz que Caetano, no fundo, ainda que intuitivamente, quer demarcar, definir, afirmar, com suas composições, este seu momento.

Não podemos esquecer que dona Canô, mãe & mulher de primordial importância na sua formação (sob todos os aspectos), faleceu há pouquíssimo tempo.

Então, ainda que haja espaço garantido à alegria excelsa (tudo mega-bom, giga-bom, tera-bom!), o espaço à melancolia & tristeza não foi poupado.

Um dos momentos mais emocionantes, ao meu ver, é quando Caetano canta Mãe, pungente canção gravada por Gal Costa em 1978 para o álbum Água viva, canção que soa, diretamente, como uma homenagem à mãe, à falta dela em sua existência. Chorei baixinho, no meu re-canto escuro.

Outro momento muito emocionante (e emocionado) é quando Caetano canta Reconvexo, canção lançada por Bethânia (feita para Bethânia) no seu álbum Memória da pele. Ao entoar o verso: “quem não rezou a novena de dona Canô”, uma lindíssima enxurrada de palmas era lançada ao poeta-compositor.

Um terceiro momento de bastante emoção é quando o poeta-compositor dispara Um índio em homenagem à aldeia Maracanã. Todos nós — o público — estávamos /estamos muito tocados com todo aquele absurdo ocorrido na desocupação do espaço onde moravam os índios da aldeia, bem próximo ao estádio Maracanã, absurdo envolvendo a polícia militar do estado do Rio de Janeiro & sua truculência, tratando a população civil, completamente desarmada, fosse índio, fosse manifestante, fosse pessoa que simplesmente passava na rua, à base de porrada, cacetete & spray de pimenta. Então, quando Caetano entoa Um índio, esse desbunde de poema-canção, dizendo, antes, o que ele disse sobre a aldeia & o Brasil, com aquela lucidez, cantei a música inteira todo arrepiado, embargando a voz.

Caetano, apesar de passar por um momento difícil de perda, apesar da sua tristeza, está feliz com seu canto, eu sei. Esta turnê, de alguma maneira, com a receptividade & o acolhimento dos espectadores, funciona como um afago, um carinho, do público, àquele com quem cantamos tantas lindas & emblemáticas canções. Um abraçaço da platéia. Isso é muito bonito.

Parti para o abraçaço de peito aberto. O público do Circo Voador também. Show memorável para todos os envolvidos.

Caetano segue firme & forte, cravado no centro da minha sensibilidade, como sempre foi, como sempre será.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. editora: Companhia das Letras.)

 

 

MÃE

 

Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses, não
Imensa solidão

Eu sou um rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração

Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tem amor
Cigarras, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor

Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais, nem vou

Meninos, ondas, becos, mãe
E, só porque não estás
És para mim e nada mais
Na boca das manhãs

Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
E nunca chego a ti
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Água viva. artista & intérprete: Gal Costa. canção: Mãe. autor da canção: Caetano Veloso. gravadora: PolyGram.)