MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES — 80 ANOS — POEMAS & VÍDEO DO RECITAL
17 de janeiro de 2017

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(Na foto, o prédio do Museu Nacional de Belas Artes, localizado no Centro da cidade do Rio de Janeiro.)

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(Adentrando o salão nobre do Museu Nacional de Belas Artes — MNBA — para a cerimônia de 80 anos da instituição.)
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“Querido Paulo Sabino,

Belo Poeta , além de porte elegante,

Meus parabéns pela honra que lhe foi merecidamente conferida.

Teria desejado estar presente para aplaudir a ilustre instituição brasileira e o seu orador oficial.

E sua mãezinha, como está ? Minhas homenagens a ela.

O abraço carinhoso da

Nélida Piñon.”

(Nélida Piñon — escritora integrante da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

A cerimônia pelos 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) foi ótima, tudo correu super bem!

Trabalho bem executado, todos felizes: eu, com o que pude fazer, e os amigos & administradores do museu, pelo resultado da cerimônia. Já fui convidado, inclusive, para outros eventos da instituição (e para evento de uma instituição afim ao museu). Adorei. Às ordens para quando precisar.

Aos interessados, deixo um trechinho do recital de violino & piano, que integrou a cerimônia de comemoração dos 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), na sexta-feira (13/01), da qual tive o imenso prazer de participar como o mestre de cerimônia de todo o evento (este videozinho foi feito por mim).

No vídeo, as musicistas Priscila Ratto (violino) & Katia Ballousier (piano) apresentam uma peça do compositor austro-húngaro Fritz Kreisler, Prelúdio & Allegro. Lindo & emocionante!

E, homenageando a instituição, dois poemas extraídos — não coincidentemente — do livro “Museu de tudo”, do mestre maior João Cabral de Melo Neto.
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segundo o dicionário houaiss, museu é a “instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico etc.”

penso eu que se o museu é uma instituição com tais atribuições, o museu deve suscitar reflexões sobre as sociedades que fundamos & sobre o próprio ato criativo, discutindo, o tempo inteiro, a arte, o seu valor & o ato criativo do que chamamos arte.

paul valéry, poeta, escritor & filósofo francês, no seu romance “monsieur teste”, aborda o “processo de criação artística” & coloca a reflexão sobre o “processo criador” como uma condição intransferível & essencial à própria criação. “monsieur teste” é a personalização do ideal do rigor reflexivo. paul valéry tornou-se, por isso, um símbolo do culto permanente à lucidez.

o museu como “monsieur teste”, permanentemente acordado, aceso, em vigília, insone: uma lucidez que tudo via, como se estivesse exposta à luz qualquer ou como se a lucidez estivesse exposta ao dia claro.

lucidez que, quando de noite, na escuridão, acende detrás das pálpebras o dente — que mastiga & auxilia na articulação dos sons & das palavras — de uma luz ardida, uma luz que queima, que machuca de tão intensa, uma luz nua, sem pele, extrema, pura, e que de nada serve: de nada serve porque a lucidez só serve a quem a tem; é um bem intransferível & irrevogável: porém, luz de uma tal lucidez — luz que queima, que machuca de tão intensa, uma luz nua, sem pele, extrema, pura — que mente que tudo podeis.

e nada pode tal luz lúcida: a lucidez de nada serve porque a lucidez só serve a quem a tem; é um bem intransferível & irrevogável.

assim como de nada serve fazer o que seja.

fazer o que seja, qualquer “objeto artístico” (um quadro, uma foto, um poema), é inútil. não fazer nada é inútil também. mas entre fazer & não fazer, mais vale o inútil do fazer. mas fazer para esquecer que é inútil — não, nunca: nunca o esquecer, nunca esquecer que fazer o que seja, qualquer “objeto artístico” (um quadro, uma foto, um poema), é inútil. fazer o inútil sabendo que ele é inútil fazer, sabendo que ele é realização inútil, e bem sabendo que seu sentido será sequer pressentido (o sentido da realização cabe a quem realiza, apenas ao criador — é um bem intransferível & irrevogável): ele — o fazer inútil — é mais difícil do que não fazer, mas dificilmente se poderá dizer, se poderá falar, se poderá declarar, com mais desdém, mais desprezo, mais arrogância, ou então dizer mais direto ao leitor “ninguém” — afinal, nunca se sabe quem, que leitor, as palavras alcançarão — que o feito, que o realizado inutilmente, o foi para ninguém.

o objeto artístico é confeccionado para ninguém: o artista, quando cria, pensa apenas na sua criação artística, no seu desejo de realização artística, nunca numa função para a sua criação ou para quem tal criação servirá. por isso, na arte não há o sentido utilitário, não há o sentido de utilidade, não há o sentido de útil. na acepção literal, a arte é, portanto, algo inútil, feita por alguém para nada nem ninguém.

ainda assim, uma vez confeccionado o objeto artístico (um quadro, uma foto, um poema), beber da sua fonte inesgotável de intenções desobrigadas.

arte: o mais nutritivo & saboroso alimento anímico.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A INSÔNIA DE MONSIEUR TESTE

 

Uma lucidez que tudo via,
como se à luz ou se de dia;
e que, quando de noite, acende
detrás das pálpebras o dente
de uma luz ardida, sem pele,
extrema, e que de nada serve:
porém luz de uma tal lucidez
que mente que tudo podeis.

 

 

O ARTISTA INCONFESSÁVEL

 

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
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(do site: Youtube. evento: 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes. peça: Prelúdio e Allegro. autor: Fritz Kreisler. piano: Katia Ballousier. violino: Priscila Ratto. local: Rio de Janeiro. data: 13/01/2017.)

COMEÇA O ANO — NADA COMEÇA: TUDO CONTINUA — EM BUSCA DOS DIREITOS À VIDA
5 de janeiro de 2017

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(Fim de 2016)

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(Início de 2017)

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(Mas nada começa: tudo continua)
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costumamos dizer: no dia primeiro de janeiro, começa o ano.

porém, nada começa: tudo continua.

onde estamos, que lugar do mundo ocupamos, que vemos só passar?…

costumamos dizer: a idade passa. o tempo passa. a vida passa. quando, em verdade, somos nós, seres humanos, quem passamos.

somos nós, seres humanos, quem passamos, porque somos nós os seres transitórios, breves, finitos, na rota das nossas viagens no escuro.

o dia muda, lento, no amplo ar; a água nua flui, múrmura (murmurante), em sombras.

o dia, as suas mudanças, o amplo ar, a água nua que flui em sombras: todas essas coisas vêm de longe; só nosso vê-las, só nosso ver essas coisas, teve começar.

em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo (quanto mais mergulhamos na busca do começo do universo, ou mesmo do planeta terra, menos alcançamos tal “começo”, pois ninguém, nenhum de nós, esteve na gênese do mundo para afirmar categoricamente como foi que tudo começou) & o começo também é ausência (já que nunca alcançamos o começo do universo, ou mesmo do planeta terra, tal “começo” faz-se ausência aos nossos olhos & conhecimento). em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo & ausência.

portanto, nenhum ano começa. todo ano é pura eternidade. tudo continua. agora, amanhã, sempre: a mesma eterna idade. a eternidade é o precipício, é o abismo, é o fundo inexplorável, de deus sobre o momento nosso de cada dia vivenciado.

e tudo é o mesmo sendo sempre diferente: na curva do amplo céu, o dia esfria, o dia finda, para a chegada da noite & posterior retorno do dia; a água corre mais múrmura — mais murmurante — & sombria no esfriar do dia.

nada começa: tudo continua & é o mesmo — sendo sempre diferente: e verbo (e palavra, e discurso) o pensamento, como sempre foi desde que começamos a habitar este mundo.

o mundo é mudo. precisamos do verbo, isto é, precisamos do pensamento, da palavra, do discurso, para poder nele — no mundo — habitar.

e precisamos também respeitar o direito à vida de todos que habitamos este planeta. precisamos respeitar as diferenças, respeitar as individualidades, respeitar as vontades. precisamos viver & deixar viver.

que este ano/momento nos venha menos árduo & mais apto a grandes & belas realizações.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia [1918 — 1930]. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

COMEÇA HOJE O ANO

 

Nada começa: tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

[1-1-1923]
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(do livro: Poeta não tem idade. autor: Moraes Moreira. editora: Numa.)

 

 

CORDEL DOS DIREITOS HUMANOS

 

Há mais de sessenta anos
A grande declaração
Um dia foi proclamada,
Para cumprir os seus planos
Percebe cada nação
Que a luta é cerrada

Tivemos algum avanço
Na dança desses processos
Mudanças a passos lentos,
Mas não teremos descanso
Diante dos retrocessos
Até que soprem bons ventos

Desejos e utopias
Sonhos que não têm idade
Anseios que são antigos
Trafegam por estas vias
Lições de humanidade
Dispostas em seus artigos

Respeito e dignidade
Buscando em todos os pleitos
Nascemos livres, iguais
Nas mãos da fraternidade
Assim por Deus fomos feitos
Moldando o barro da paz

E temos capacidades
Pra gozar sem distinção,
E na condição que for,
Direitos e liberdades
De raça e religião
De sexo, língua e cor

Acima de tudo, a vida,
Que seja ela um troféu
Uma conquista incessante
E nunca submetida
A um tratamento cruel,
Desumano ou degradante

Cientes dos seus deveres
Perante a lei sendo iguais
Mesmo que a todo custo,
Que tenham todos os seres
Diante dos tribunais
O julgamento mais justo,

Que venham lá desses templos
As decisões que respondem
Com força e autoridade,
Que sirvam, sim, como exemplos
Para aqueles que se escondem
Nas sombras da impunidade

Queremos todos os elos
Formando a grande corrente
Da solidariedade,
Rumos assim paralelos
Queremos já, é urgente
A nova sociedade

Que, enfim, sentimentos novos
Formando laços estreitos
Estabeleçam a paz,
Guiando todos os povos
À luz dos nossos direitos
Humanos e universais!

“HOMECOMING”
19 de novembro de 2015

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(A cidade do Rio de Janeiro, vista do alto de um avião.)
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“Paulo, meu caro.

Às vezes, depois de passar 2, 3 noites acordado, procurando em vão uma solução melhor, uma maldita palavrinha que seja, para um poema, para uma tradução, eu cedo ao desânimo e penso aqui com meus botões: ‘Cara, por que perder tempo com isso, pra que o esforço extra, aliás, qualquer esforço? Ninguém vai notar a diferença mesmo. Ninguém tá nem aí.’

E aí você, Paulo, vem com seu trabalho, com sua leitura precisa, perspicaz, com algo assim, pra lá de generoso, e, embora eu mesmo não possa (nenhum de nós pode) julgar o (meu) próprio trabalho, a única resposta que posso te dar e a única maneira que tenho de te agradecer é dando (mais) duro, não desanimando, não deixando a peteca cair, passando mais noites em claro atrás daquela palavra (porque alguém nota, sim, a diferença) e tentando (com sorte) fazer algo que preste.

Todo mundo — eu também — quer vender 1 milhão de exemplares, encher um estádio com fãs boquiabertos(as) etc., mas o que mantém a gente escrevendo poesia é uma leitura, um feedback como este seu. Obrigado mesmo e um grande abraço, Nelson”.

(Nelson Ascher — poeta, tradutor & crítico literário)

 

 

homecoming: expressão da língua inglesa que pode ser entendida como “regresso à casa”, “retorno ao lar”.

estar em meu país depois de passar uma temporada longe.

estar em meu país é estar em convívio com uma série de características sócio-culturais que diz respeito ao meu país, às pessoas que nele vivem.

e, estando em meu país, por mais que eu consiga, com certa facilidade, identificar determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país, que é a minha casa, o meu lar primeiro, há sempre algo que, nessa apreensão, nos escapa, acaba imensurável. há sempre algo para além da linguagem, de árdua captura & designação.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é deduzir, num golpe de vista, quem é o quê (se gay ou se opus dei); estar em meu país é ser, desde o primário, desde os tempos remotos, íntimo de alguém antes de ser-lhe apresentado; estar em meu país é dizer quem faz o quê & o que faria caso pudesse (nas mais variadas situações cogitadas ou experiências do cotidiano); estar em meu país é intuir, sem dúvida, quem é quem, como ver quem quer passar por quem.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é vivenciar pré-conceitos, julgamentos infundados, intimidades forçadas, percepções precipitadas, ainda que haja muitas vezes acerto na primeira impressão sobre alguém ou algo.

no entanto, estar em meu país tem “algo mais difícil” que o dom fácil de identificar algumas das suas características sócio-culturais (como as apontadas acima), e esse “algo mais difícil” de ser apreendido & classificado, rotulado, nomeado, é, simplesmente, estar em meu país, esse “algo mais difícil” é, simplesmente, o que não cabe em nenhuma definição do que seja estar em meu país — a única coisa que cabe onde não cabe definição para o meu país é a pura vivência, é habitar, conviver, desfrutar, aventurar-se, inserir-se na vida do meu país, no seu dia-a-dia & pormenores.

em tudo o que resta & rasteja, há sempre o quinhão do indefinível, do inclassificável, do imponderável, do que escapa à linguagem, do que está à mostra somente quando vivenciado sem racionalizações.

(que tenhamos, sempre, o dom fácil de frustrar qualquer estranho que pense saber tudo o que pensamos.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Homecoming”, poema de Nelson Ascher. Em 18/11/2015.)


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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HOMECOMING

 

Estar em meu país
é deduzir num golpe
de vista quem é o quê,
se gay ou se opus dei,

mas isto ainda é fácil,
algo exeqüível quer
nos parques, quer nos becos
de Osasco ou nos de Osaka.

Estar em meu país
é ser, desde o primário,
íntimo de alguém antes
de ser-lhe apresentado,

mas isto, num país
mais incestuoso até
do que a menor das tribos
perdidas, ainda é fácil.

Estar em meu país
é de antemão poder
dizer quem faz o quê
e o que faria caso

pudesse, mas às vezes
parece (e constatá-lo
é fácil) que não há
ninguém fazendo nada.

Estar em meu país
é tanto intuir sem dúvida
quem é quem como ver
quem quer passar por quem,

embora, a rigor, isto
talvez se deva à idade
e, após alguma prática,
nem chegue a ser difícil.

Estar em meu país,
mais que saber por que
qualquer estranho pensa
saber tudo o que penso,

tem algo mais difícil
que o dom fácil de sempre
frustrá-lo e é simplesmente
estar em meu país.

O NETO DE UM EX-CAPITÃO DA AREIA
11 de novembro de 2015

Eu Vovô

(Paulo Sabino, ainda pequeno, e seu avô, o ex-capitão da areia & violonista baiano Waldemar Sabino.)
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o que me motivou a ler o livro que integra esta publicação foi puro sentimento.

meu avô paterno, pai do meu pai, waldemar sabino, foi um baiano de salvador que, sabia eu, fora menino de rua durante uma parte da sua infância, quando morreram seus pais & sua avó enlouqueceu (diz-se que a velha andava descalça pelas ruas do pelourinho, falando sozinha).

no entanto, sabe-se lá por que, talvez pela minha proximidade de neto & por não constituir exatamente a imagem do meu avô como um menino de rua durante parte da sua infância, fiquei surpreso quando, há pouco tempo, minha mãe, a minha cabocla jurema armond, me contou que, segundo o meu avô, até a reviravolta que deu a sua vida por causa do violão & da música, a sua biografia, no período de abandono, quando perambulava pelas ruas de salvador, é a história retratada no livro, do seu grande & admirado conterrâneo, jorge — mais que — amado.

apesar de fictícios os personagens & o grupo, intitulado “capitães da areia” (são meninos que se abrigam no cais do porto de salvador, num trapiche abandonado, de frente prum areal, e que furtam, roubam, ferem, na luta pela sobrevivência diária), jorge amado dá ao seu romance um tom de veracidade através da construção da sua narrativa, tocando, de forma lírica & contundente, num problema que assola o país desde que chamaram estas terras de brasil: as crianças que são socialmente abandonadas, crianças marginais (porque estão à margem da sociedade, não integradas), crianças alijadas dos deveres & direitos de um estado, de uma nação.

para a sorte de waldemar sabino, num dos dias em que andava pelas ruas de salvador, ouviu uma música que vinha de um bar da rua por onde passava. resolveu parar na porta & ficou completamente fascinado pelo violão que tocava, acompanhado por outros instrumentos, alguns sambas-canções. waldemar sabino voltou ao bar todos os dias, e assistia com gosto à apresentação dos músicos, especialmente à do violonista & seu violão. de tanto aparecer & já demonstrando interesse pelo instrumento, o violonista do bar perguntou se ele gostaria de aprender a tocar o instrumento. waldemar sabino fez que sim & logo na seqüência o violonista tornou-se seu “padrinho” (como ele gostava de chamar) & tutor, o dono do violão que en-cantou seu coração. aos dezoito anos resolveu tentar a sorte numa cidade maior, o rio de janeiro. como todo nordestino pobre & artista, passou por muitas dificuldades, até que, mais uma vez, a sorte lhe sorriu: a oportunidade de integrar a orquestra de uma rádio & ter seu ordenado fixo — além dos extras com as apresentações que fazia quando não tocava na orquestra—. assim waldemar sabino comprou sua casa ampla com um belíssimo & enorme quintal, criou & educou seus filhos, e recebeu a família para almoços aos domingos, onde, sempre após as refeições, ele tocava suas canções preferidas — muito dorival (caymmi), muito herivelto (martins), muito ataulfo (alves), muito cartola, e uns tantos boleros.

foi um baiano orgulhoso de sua história & sua terra — até morrer, seus maiores ídolos foram jorge amado & dorival caymmi, e tinha um respeito imenso por joão gilberto.

(herdei a sua coleção de livros do jorge — mais que — amado & alguns dos seus discos do dorival.)

a lembrança maior que tenho do meu avô é a dele com seu violão para tudo que é lugar, levava-o sempre que podia.

ler este romance pela primeira vez quase aos quarenta anos foi um resgate da minha história, de um passado que resultou em mim & nos que chegam em minha família. terminei o livro muito emocionado, com meu avô muito na cabeça, “a sua biografia”, pensando na sua felicidade por ter alcançado um destino feliz, pensando no que poderia ter-lhe acontecido se ele não passasse por aquela ruazinha da sua velha são salvador, não ouvisse os acordes daquele que se tornou o seu maior amante & não tivesse o acolhimento daquele que se tornou seu padrinho.

porque sabemos que o destino de waldemar sabino, infelizmente, não foi o mesmo da imensa maioria dos capitães da areia.

fica a minha homenagem a estes dois belos baianos: ao waldemar & ao jorge, que, mesmo não sabendo, escreveu a biografia do meu avô, do meu eterno & terno capitão da areia.

beijo todos!
paulo sabino.
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(trechos do livro: Capitães da areia. autor: Jorge Amado. editora: Martins.)

 

 

“Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as crianças que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqüenta crianças, sem pai, sem mãe, sem mestre. Nada possuíam além da liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer  e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmolas. E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche. Se espalhavam nas portas dos arranha-céus, nas pontes, nos barcos virados na areia do Porto da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que ninguém sabia tratar. Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo Don’Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio. Nunca, porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando.

E achava que a alegria daquela liberdade era pouco para a desgraça daquela vida.”

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“— Não deixam os pobres viver… Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus. — Sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe-de-santo Don’Aninha. — Não se contentam de matar os pobres à fome. Agora tiram os santos dos pobres… — e alçava os punhos.”

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“— Ainda não vai dizer? — perguntou o diretor do Reformatório. — Isso é só o começo.

— Não — foi tudo o que Pedro Bala disse.

Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos e pontapés. O diretor do Reformatório levantou-se, sentou-lhe o pé, Pedro Bala caiu do outro lado da sala. Nem se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via João Grande, Professor, Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurança de todos dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do Reformatório, libertaria Dora. E se vingaria… Se vingaria…

Grita de dor. Mas não sai uma palavra dos seus lábios.

(…)

Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar de pé, porque não havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia comprimento. Ou se ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo numa posição mais que incômoda. Assim mesmo, Pedro Bala se deitou. Seu corpo dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua só servia para o homem cobra que vira, certa vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escuridão era completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala, deitado como estava, não podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as paredes o impediam. Seus membros doíam, ele tinha uma vontade doida de esticar as pernas. Seu rosto estava cheio de equimoses das pancadas na polícia, e desta vez Dora não estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido.”

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“A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques, que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes, onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do Reformatório e do Orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião, pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros do Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: ‘companheiros’. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro, como o ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava Volta Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade.”

NA CALADA, A SECURA DE UM REI DE MARACATU
16 de junho de 2015

Vendedor de cangas

Maracatu Rural
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o vendedor, na praia, lembra um rei de maracatu em meio ao colorido das cangas.

o manto multicor de um rei de maracatu, o vendedor de cangas em meio ao colorido das peças.

entretanto, apesar da semelhança, o vendedor de cangas samba — dança, agita-se, caminha o seu passo de baile — no compasso da mercadoria que está ali para ser vendida, que está ali para garantir o pão de cada dia, o vendedor de cangas não brinca maracatu.

o vendedor de cangas, em meio ao colorido da mercadoria, trabalha duro, pesado:

afinal, a vida não é alegoria, a vida não é metáfora, não é simbologia (o manto multicor de um rei de maracatu — o colorido das cangas do vendedor).

afinal, a vida não é maracatu (a dança, a música, a alegria), a vida é mandacaru (planta espinhenta, que resiste à secura, à aspereza, do ambiente em que vive).

a vida não é maracatu: é mandacaru. mandacaru lá do nordeste, lá do sertão: tão seco, tão áspero.

o vendedor de cangas, sem dançar maracatu, com sua vida que não é alegoria, é trabalho duro, pesado, tem o semblante carregado por ossos protuberantes & terminações nervosas nada conclusivas, nada definitivas, terminações nervosas abespinhadiças, o semblante coberto de pêlos, que indicam trinta anos ou mais, mas que não chegaram, ainda, a idade de (jimi) hendrix, que morreu aos 27 anos (completaria 28 anos em 2 meses).

o vendedor de cangas, sem dançar maracatu, com sua vida que não é alegoria, é trabalho duro, pesado, tem suporte de óculos & das marcas amargas — as suas vivências em condições precárias de vida — moldado pela poeira pesada, dos seus dias pesados, em meio ao suor dos poros fechados para o riso, fechados para a alegria, fechados para o bem-querer.

como manter os poros abertos ao riso, os poros abertos à alegria, os poros abertos ao bem-querer, se, na calada da noite, o vendedor de cangas se dana?

como manter os poros abertos ao riso, os poros abertos à alegria, os poros abertos ao bem-querer, se, na calada, na surdina, a casa do vendedor de cangas é acordada, em meio à madrugada, pelo bico do coturno estatal — a violência, promulgada pela polícia militar, que invade casas em favelas sem o mínimo de respeito aos moradores — & tem gavetas com peças puídas & armários vazios revirados?

(a justificativa dos policiais militares, para ações tão truculentas, e que acontecem cotidianamente nas favelas, é de que procuram a boca de fumo, local onde drogas — ilícitas — são vendidas. a grande questão é que, na busca pela boca, muitas casas são invadidas arbitrariamente, inclusive a casa do vendedor de cangas.)

como manter os poros abertos ao riso, os poros abertos à alegria, os poros abertos ao bem-querer, se, na calada, na surdina, a casa é acordada, em meio à madrugada, pelo bico do coturno estatal & tem a sua destruição garantida pelo braço legal do estado?

ninguém sabe, ninguém viu (além da boca — de fumo — procurada pela polícia militar), no chão, os dentes fora da boca, os dentes que não são encontrados quando falamos ou sorrimos, os dentes da arcada forjada, inventada, criada, no ódio rangendo revanche, no ódio rilhando vingança.

a toda & qualquer ação, uma re-ação na mesma medida.

afinal: como manter os poros abertos ao riso, os poros abertos à alegria, os poros abertos ao bem-querer, se, na calada, na surdina, a casa é acordada, em meio à madrugada, pelo bico do coturno estatal & tem a sua destruição garantida pelo braço legal do estado?

ninguém gosta de receber, em casa, pessoa inconveniente, que apareça, por exemplo, sem ter sido convidada.

imagine o que seja ter a casa invadida à base de pontapé,  gritos & tapas!…

respeitar para ser respeitado.
cuidar para ser cuidado.
amar para ser amado.

eis a base de tudo.

beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________

(do livro: Dentro da betoneira. autor: Thiago Cervan. apoio cultural: Incubadora de artistas.)

 

 

o vendedor
na praia
lembra um
rei de maracatu
em meio ao
colorido das cangas

o vendedor de cangas
samba no compasso
da mercadoria
e não brinca maracatu:

nego, a vida
não é alegoria

é mandacaru

 

 

SECO

 

o sembante carregado
por ossos protuberantes e terminações nervosas
………………………………………………nada conclusivas

coberto de pelos que indicam trinta ou mais
mas que não chegaram ainda a idade de hendrix

suporte de óculos e marcas amargas
moldado pela poeira pesada em meio ao suor
dos poros fechados para o riso

 

 

NA CALADA

 

a casa acordada em
meio à madrugada
pelo bico do coturno
estatal tem gavetas
com peças
puídas e armários
vazios revirados.
procuram a boca.
vira-latas latem
luzes vizinhas
acendem à procura
de decifrar o enigma.
ninguém sabe
ninguém viu no chão
os dentes fora da boca

arcada forjada no ódio
rangendo revanche

PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA
22 de abril de 2015

Areia & Mar
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o homem, para viver por entre as coisas, antes, precisa pensar as coisas.

o homem, para viver por entre as coisas, precisa nomeá-las, ordená-las, classificá-las, conceituá-las, a fim de que o mundo não lhe seja um completo caos.

o mundo é mudo. o grão de areia não se diz grão de areia, o lago não se diz lago, o mar não se diz mar, o tempo não se sabe tempo: as coisas, no mundo, apenas estão, as coisas apenas são, sem questionar, sem perguntar, sem pressupor, as coisas apenas seguem o seu caminho de coisas.

lagos & rios & mares & pedras não se pensam “fundo” ou “raso”, “grande” ou “pequeno”, “belo” ou “feio”, “rápido” ou “devagar”, “seco” ou “molhado”: somos nós quem pensamos as coisas desse modo, somos nós quem precisamos conceituar, classificar, categorizar, as coisas no mundo mudo, na tentativa de apreendê-las, de ordená-las, de compreendê-las.

o grão de areia ter caído no parapeito da janela é uma aventura nossa, aventura de quem assistiu à queda, aventura de quem imaginou a cena, e não de quem a vivenciou (o grão de areia): para ele é o mesmo que ter caído em qualquer coisa, sem a certeza de já ter caído, ou de ainda estar caindo.

da janela avista-se uma bela paisagem, mas a paisagem não vê a si mesma. existe, neste mundo, sem cor & sem forma, sem som, sem cheiro, sem dor (“cor”, “forma”, “som”, “cheiro”, “dor”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

o fundo do lago não possui fundo, nem margem as suas margens, e sua água, nem molhada nem seca (“fundo”, “superfície”, “margem”, “meio”, “molhado”, “seco”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

nem singular nem plural a onda que murmureja surda ao seu próprio murmúrio, ao redor de pedras nem grandes nem pequenas (“singular”, “plural”, “murmúrio”, “silêncio”, “grande”, “pequeno”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

e tudo isso por debaixo de um céu, por natureza, inceleste, no qual o sol se põe, na verdade, não se pondo, e se oculta, não se ocultando, atrás de uma nuvem insciente, nuvem que oculta o sol sem a consciência de ocultá-lo (“celeste”, “terreno”, “aquático”, “nascente”, “poente”, “ocultar”, “revelar”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

o vento varre a nuvem, onde o sol se ocultava, sem outra razão que a de ventar.

passa um segundo. dois segundos. três segundos. mas são três segundos somente nossos, porque o tempo não se sabe tempo (“passado”, “presente”, “futuro”, “ontem”, “hoje”, “amanhã”, “dia”, “mês”, “ano”: conceitos sem os quais o bicho homem não conseguiria fazer valer a sua existência no mundo).

“o tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes”: a sentença é só um símile nosso, a sentença é só uma metáfora, criada à nossa imagem & semelhança: uma personagem inventada (o tempo mensageiro), a sua pressa imposta (o tempo é sempre o mesmo a passar, não corre nem desacelera), e a notícia inumana (o tempo não é mensageiro de coisa alguma nem tampouco carrega notícia — ele não nos fala, ele não nos escuta, ele não nos enxerga: alheio a tudo & todos).

o tempo passa, parado no tempo, para que passemos, transitórios & perecíveis.

o mundo é mudo. e a experiência humana, um grande delírio detido em palavras.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Wislawa Szymborska. tradução: Regina Przybycien. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA

 

Nós o chamamos de grão de areia.
Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.
Dispensa um nome
geral, particular
passageiro, permanente,
errado ou apropriado.

De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.
Não se sente olhado nem tocado.
E ter caído no parapeito da janela
é uma aventura nossa, não dele.
Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa
sem a certeza de já ter caído,
ou de ainda estar caindo.

Da janela há uma bela vista para o lago,
mas a vista não vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.

Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água.
Nem singular nem plural a onda
que murmureja surda ao seu próprio murmúrio
ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.

E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,
no qual o sol se põe na verdade não se pondo
e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem
…………………………………………………………………..[insciente.
O vento a varre sem outra razão
que a de ventar.

Passa um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Mas são três segundos somente nossos.

O tempo correu como um mensageiro com notícias
…………………………………………………………………..[urgentes.
Mas isso é só um símile nosso.
Uma personagem inventada, a sua pressa imposta
e a notícia inumana.

“CARNELEVAMEN”
13 de fevereiro de 2015

Paulo Sabino_Boitatá Cortejo_Carnaval 2015

(Cortejo do Cordão do Boitatá — 08/02/2015.)
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e eis que, na cidade do rio de janeiro, cidade de cariocas, já é tempo de folia momesca, ainda que a folia momesca, oficialmente, comece no sábado.

blocos de rua, confete, serpentina & purpurina espalhados pelo chão: eis que o tempo das fantasias chegou.

o tempo das fantasias chegou: é carnaval: não me diga mais quem é você: amanhã tudo volta ao normal: as diferenças existentes, hoje, não importam: hoje, eu sou da maneira que você me quer, seja você quem for.

o tempo das fantasias chegou: as fantasias mais revelam que escondem: fantasiados, sentimo-nos livres para realizar desejos encobertos: o que fica guardado durante o ano inteiro, no carnaval, revela-se, ganha destaque, e tudo através das fantasias.

o tempo das fantasias chegou: eu quero saber o seu jogo: eu quero morrer no seu bloco: eu quero me arder no seu fogo.

o tempo das fantasias chegou: deixe a festa acabar: deixe o barco correr: deixe o dia raiar.

(revelamo-nos mais nas fantasias do que na realidade pura & dura.)

(a realidade pura & dura é quem nos põe as máscaras, máscaras utilizadas todos os dias, no convívio social.)

que esta alegria fugaz, que esta ofegante epidemia, que se chama carnaval, encha os nossos corações de força, a fim de seguirmos bem nas nossas andanças, apesar dos pesares, mesmo com todos os dissabores que nos reserva a vida.

que, passado o carnaval, sigamos tomados de uma vertigem que conclame um mundo melhor, menos violento & virulento, para todos nós.

divirtam-se!
até a volta!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras — origens e curiosidades da língua portuguesa. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

CARNAVAL  do italiano carnevale. Primitivamente designava a terça-feira gorda, a partir da qual a Igreja passava a suprimir o uso da carne. Outros estudiosos veem na expressão latina carne, vale (carne, adeus) o étimo mais coerente. Mas carnelevamen, também do latim (prazeres da carne), antes das tristezas e continências da Quaresma, também é uma explicação plausível. Antes de o Carnaval ser a festa que é, chamava-se entrudo (do latim introitu, entrada), porque aqueles três dias são a porta de entrada para a Quaresma. Era pouco mais do que o ato inocente de uns jogarem água nos outros. Bem que muitos estavam precisando de água, pois a higiene pessoal e caseira era deficitária no Brasil de nossos dois Pedros príncipes, que também participavam da folia.

 

 

CARIOCA  do tupi kari’oka, pela composição kara, de kara’iwa, caraíba, homem branco, e oka, casa, casa de branco. A moradia do português, de pedra e cal, foi uma novidade para os índios. As primeiras construções que deram tal qualificação ao habitante do Rio de Janeiro foram erguidas na praia do Flamengo, em 1503, ao lado de um rio que nascia na Tijuca, mas que recebeu também o nome de Carioca. O Largo da Carioca tem este nome porque as águas do rio chegavam ali, no chafariz. Carioca passou a denominar o habitante do município do Rio de Janeiro, e fluminense o do estado. Carioca designa também um tipo de café expresso.
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(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NOITE DOS MASCARADOS

 

Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo

Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Chico Buarque de Hollanda — volume 2. artista & intérprete: Chico Buarque. participação especial: Os 3 Morais. canção: Noite dos mascarados. autor: Chico Buarque. gravadora: Som Livre.)

TRATO DE VIAJANTE: AMANHÃ AO AMANHÃ
16 de dezembro de 2014

Arpoador_Alvorada

(Das pedras do Arpoador, o sol a leste, por volta das seis da manhã.)
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não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

por isso não deixo para amanhã o que posso fazer hoje.

pois amanhã é o amanhã. como diz o dito popular: o futuro a deus pertence.

o importante, portanto, é viver o hoje. quero a preparação do amanhã pelo dia de hoje. vivendo o hoje intensamente, dia após dia, o futuro, inevitavelmente, resultará também em tempo intensamente vivido. a conquista do hoje é a conquista de amanhã.

o “não” é o preparo do “sim”. o “não” é a capacitação, é a aptidão, é a confecção, é a fabricação, do “sim”. dizer “não”, hoje, para muitas coisas, significa, no fundo, dizer “sim” para muitas outras que, no futuro, resultarão em ganhos.

o “não” é o preparo do “sim”. o “hoje” é o preparo do “amanhã”.

quando jovem, isto é, antes, no passado, normalmente as nossas preces, os nossos desejos, eram sempre para o amanhã. projetamos, quando jovem, muito do nosso bem-estar existencial, da nossa alegria de vida, da nossa satisfação íntima, no futuro. e o hoje, isto é, o tempo que era vivido, o presente à época, era uma dança de possíveis, era uma movimentação em prol de algumas possibilidades que nos permitia a idade tenra. as preces, os desejos, ao invés de voltados ao presente, estavam voltados ao futuro.

hoje, tempo presente, homem adulto, não consigo pensar no amanhã, tão cheio de ameaças, tão cheio de intimidações, tão cheio de atemorizações, é o hoje, tão cheio de descrenças & medos. a minha atenção, hoje, é voltada às conquistas de se viver bem o instante que se dá agora, já, neste momento.

tenho frio nesses dias de inverno, dias cheios de ameaças, de intimidações, de atemorizações.

qual a conquista do presente a vida me reserva? um novo poema? uma viagem desejada? um encontro feliz?

qual o saber no amanhã meu dia revelará?

a essas perguntas, hoje, não tenho as respostas. não as tenho e, ainda que quisesse, não as teria.

como, do caminho, só temos os passos, e o futuro a deus pertence (diz o dito popular), proponho um trato de viajante, um acordo de quem está nesta grande viagem que é a vida: ir & voltar para nunca mais.

ir sempre adiante & permitir-se um único retorno: a volta para “nunca mais”, o regresso contínuo & ininterrupto para a certeza de que a vida é feita de partidas, é feita de perdas (a cada passo dado, um a menos na estrada), e de que, por conseguinte, vamos para nunca mais voltar.

chorar o choro do desprezo, o choro do descaso, do desapreço, da indiferença (a vida é perda: a cada passo dado, um a menos na estrada), e instalar, e instaurar, a fatalidade dos desafios (fatalidade difícil de encarar porque traz inseguranças & medos), instalar a fatalidade — dos desafios — por entre as vias & vieses trilhafora.

chamar pelo nome de deus de pouco adianta. na verdade, acho que de nada adianta.

despossuídos, desapossados, destituídos (pois nada se leva deste mundo), mantendo a pose de que possuímos amparo divino, de que possuímos amparo vindo dos céus, de que possuímos amparo logo do espaço escuro mudo, onde nem som se propaga.

e a pose que tentamos manter, isto é, a postura, a afetação, que tentamos sustentar, não diz nada, não diz o que somos (a imensa diferença entre o que parecemos ou pensamos ser & o que realmente somos), se é que, depois de tanta pose, tanta postura, tanta afetação, ainda sobra espaço para o eu, para o que somos verdadeiramente.

não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

sigamos bem. sigamos juntos.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Rastros. autora: Vera Casa Nova. editora: 7Letras.)

 

 

AMANHÃ

 

Não deixo para amanhã
O que posso fazer hoje.
Pois amanhã é o amanhã
Quero a preparação do amanhã
Pelo dia de hoje.
A conquista do hoje
É a conquista de amanhã.

 

O não é o preparo do sim.

 

Quando eu era jovem
Minhas preces eram sempre para o amanhã.
E o hoje era uma dança de possíveis.
Hoje, não consigo pensar no amanhã
Tão cheio de ameaças é o hoje
Tão cheio de descrenças e medos.
Tenho frio nesses dias de inverno
Qual a conquista do presente me reserva a vida?
Qual o saber no amanhã revelará meu dia?

 

 

TRATO DE VIAJANTE

 

Ir e voltar para nunca mais
Refazer caminhos
E gritar
Chorar o choro do desprezo
E instalar a fatalidade
Por entre as vias e os vieses.
Chamar pelo nome de deus
De pouco adianta.
Despossuídos, mantendo a pose.
E tua pose não diz mais nada,
Nem o que tu és,
Se é que ainda és um eu.

ELEGIA (1938)
10 de setembro de 2014

Pessoas na rua

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elegia: poema lírico de tom terno & triste.

uma elegia feita ao ano de 1938 & transportada ao ano de 2014:

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria, sem ânimo, para um mundo caduco, trabalhas sem alegria para um mundo demente, insano, decrépito, onde as formas — formas de trabalho, modelos de relação, estilos de vida — & as ações — o que priorizar, o que valorizar, o que desprezar, o que aniquilar — não encerram nenhum exemplo, onde as formas & as ações não encerram, não contêm, não incluem, nenhum exemplo.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente, praticas sofridamente, triste, angustiado, os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, seres de carne & osso & coração, sentes calor & frio, sentes a falta de dinheiro, fome & desejo sexual.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, enquanto heróis — os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres” — enchem os parques da cidade em que te arrastas & preconizam, recomendam, alardeiam: a virtude (ser bom, aceitando o que é empurrado goela abaixo), a renúncia (abdicar de prazeres pelo trabalho, ainda que sufocante, ainda que asfixante, ainda que opressivo), o sangue-frio (manter a calma diante de toda a calamidade que é a tua vida), a concepção (acreditar & investir na criação, na formulação, na produção, deste mundo caduco).

à noite, se neblina, se chuvisca, se garoa, os heróis (os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres”) abrem guarda-chuvas de bronze, guarda-chuvas tão poderosos que os protegem de todo & qualquer respingo deste mundo, ou se recolhem aos volumes de bibliotecas sinistras, bibliotecas nefastas, maléficas, assustadoras, bibliotecas que ensinam os meandros do ter mais do que ser, do capital, da riqueza, do papel-moeda, das cifras, da especulação financeira.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra (à noite, dormes o teu sono profundo, cansado) & sabes que, dormindo, os problemas, os pesares todos, te dispensam de morrer. mas o terrível despertar (“terrível” porque mais um despertar em que trabalharás para este mundo caduco) prova a existência da “grande máquina” em que o mundo se transformou (provando, assim, a sua grande caducidade) & ele, o terrível despertar, te repõe, pequenino, ínfimo, limitado, em face de indecifráveis palmeiras, palmeiras altaneiras, palmeiras enigmáticas, palmeiras no mundo caduco para quê?

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, caminhas entre mortos (entre os teus, que já partiram deste mundo caduco) & com eles conversas sobre coisas do tempo futuro — teus planos, teus anseios — & negócios do espírito, assuntos que dizem respeito à tua existência. a literatura, arte do livro que te livrou do mundo caduco, arte a que recorreste na tentativa de amenizar dores & dissabores, estragou as tuas melhores horas de amor, e ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear (de semear as tuas horas de amor).

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, entristecido, desanimado, sentindo-se um fracassado: coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva.

coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva: confessar a própria derrota é confessar a derrota de todo um tempo, de todo um sistema, de todo um modelo, de todo um estilo, de toda uma concepção de vida, que, ao adiar a felicidade coletiva, instaura a infelicidade coletiva, instaura o mal-estar do grupo, a tristeza & o desânimo de todo & qualquer ser humano comum, de carne & osso & coração, assim como eu, assim como você, leitor.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, aceitas a chuva, a guerra, o desemprego & a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de manhattan, ilha onde se localiza wall street, rua da ilha célebre, onde se situa a bolsa de valores de nova iorque, a mais importante do mundo, por isso mesmo, ilha considerada o centro nervoso da economia mundial.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas & as ações não encerram nenhum exemplo: por isso, eu & tu, nós, temos que cavar, temos que batalhar, temos que alcançar, maneiras, modos, formas & ações que neutralizem todos os malefícios do mundo demente, insano, decrépito, para o nosso próprio bem, e porque a existência, até onde se sabe, é uma só, e é melhor que a façamos valer a pena, valer as dores & dissabores.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia poética. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

ELEGIA 1938

 

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

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(do site: Youtube. Caetano Veloso interpreta o poema Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade.)

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA DA BALA PERDIDA
10 de junho de 2014

Balas com sangue

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descontentamento pelos gastos exorbitantes com projetos muito mal executados & com toda a (des)organização do mundial de futebol 2014, manifestações, greves, favelas pacificadas à meia boca (depois da cobertura jornalística sensacionalista & piegas da rede globo de televisão, em parceria com a polícia militar do estado do rio de janeiro, na instalação das unidades de polícia pacificadora em algumas comunidades pobres da cidade), favelas pacificadas muito mal & porcamente (todo dia temos notícia de troca de tiros entre policiais militares & traficantes, todo dia temos notícia de balas perdidas, em favelas, a princípio, “pacificadas”), faz-se prudente pedir proteção à santa!

portanto, uma oração:

nossa senhora da bala perdida, mãe, afaste, de mim, essa bala, esse dardo inflamável, essa seta diuturna, seta que se prolonga no tempo, seta duradoura (a porta que tal bala abre, no corpo que atinge, jamais se fecha), nossa senhora da bala perdida, mãe, afaste, de mim, esse terror sem rumo, esse projétil alado & raso, projétil retilíneo que voa longe, pois, já que elas, as balas perdidas, não cessam, que, pelo menos, nos errem.

nossa senhora da bala perdida, rogai por nós, os passantes, os transeuntes, os pedestres, os motoristas, as crianças e, principalmente, as mães: não nos faça alvos fáceis desta chuva de petardo (chuva de peça carregada de material explosivo, portátil) que desaba por sobre a cidade do rio de janeiro, não nos faça alvos fáceis desta chuva de balas perdidas, nossa senhora da bala perdida, rogai por nós, que tal chuva não nos atinja o corpo nem a alma nem os prantos.

eu, que faço o bom combate.

nossa senhora da bala perdida, protegei as nossas vísceras das emboscadas bandidas, dos acertos entre quadrilhas rivais, do fogo amigo (quando um aliado ataca um dos seus) ou da polícia (violenta, corrupta, déspota).

só te peço, ó mãe amiga, santa do cotidiano, poupe-nos o banho de sangue, de passagem tão insana, banho de passagem demente, insensata.

que assim seja, hoje & sempre.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA
DA BALA PERDIDA

 

Mãe,
Afaste de mim esta bala
Este dardo inflamável
Esta seta diuturna
Este terror sem rumo
Este projétil alado e raso
Pois já que elas não cessam
Que pelo menos nos errem

Rogai por nós os passantes
Os transeuntes os pedestres
Os motoristas e as crianças
E principalmente as mães

Não nos faça alvos fáceis
Desta chuva de petardo
Não nos atinja o corpo
Nem a alma nem os prantos

Que veloz, não me alcance
Que sua força não me curve
Que seu fogo não me queime
Que o acaso não me derrube
Eu que diariamente passo
Por favelas becos vielas
Por túneis curvas células
Eu que faço o bom combate

Protegei as nossas vísceras
Das emboscadas bandidas
Dos acertos entre quadrilhas
Do fogo amigo ou polícia

Só te peço oh mãe amiga
Santa do cotidiano
Poupe-nos o banho de sangue
De passagem tão insana