ELEGIA (1938)
10 de setembro de 2014

Pessoas na rua

__________________________________________________________________

elegia: poema lírico de tom terno & triste.

uma elegia feita ao ano de 1938 & transportada ao ano de 2014:

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria, sem ânimo, para um mundo caduco, trabalhas sem alegria para um mundo demente, insano, decrépito, onde as formas — formas de trabalho, modelos de relação, estilos de vida — & as ações — o que priorizar, o que valorizar, o que desprezar, o que aniquilar — não encerram nenhum exemplo, onde as formas & as ações não encerram, não contêm, não incluem, nenhum exemplo.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente, praticas sofridamente, triste, angustiado, os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, seres de carne & osso & coração, sentes calor & frio, sentes a falta de dinheiro, fome & desejo sexual.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, enquanto heróis — os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres” — enchem os parques da cidade em que te arrastas & preconizam, recomendam, alardeiam: a virtude (ser bom, aceitando o que é empurrado goela abaixo), a renúncia (abdicar de prazeres pelo trabalho, ainda que sufocante, ainda que asfixante, ainda que opressivo), o sangue-frio (manter a calma diante de toda a calamidade que é a tua vida), a concepção (acreditar & investir na criação, na formulação, na produção, deste mundo caduco).

à noite, se neblina, se chuvisca, se garoa, os heróis (os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres”) abrem guarda-chuvas de bronze, guarda-chuvas tão poderosos que os protegem de todo & qualquer respingo deste mundo, ou se recolhem aos volumes de bibliotecas sinistras, bibliotecas nefastas, maléficas, assustadoras, bibliotecas que ensinam os meandros do ter mais do que ser, do capital, da riqueza, do papel-moeda, das cifras, da especulação financeira.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra (à noite, dormes o teu sono profundo, cansado) & sabes que, dormindo, os problemas, os pesares todos, te dispensam de morrer. mas o terrível despertar (“terrível” porque mais um despertar em que trabalharás para este mundo caduco) prova a existência da “grande máquina” em que o mundo se transformou (provando, assim, a sua grande caducidade) & ele, o terrível despertar, te repõe, pequenino, ínfimo, limitado, em face de indecifráveis palmeiras, palmeiras altaneiras, palmeiras enigmáticas, palmeiras no mundo caduco para quê?

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, caminhas entre mortos (entre os teus, que já partiram deste mundo caduco) & com eles conversas sobre coisas do tempo futuro — teus planos, teus anseios — & negócios do espírito, assuntos que dizem respeito à tua existência. a literatura, arte do livro que te livrou do mundo caduco, arte a que recorreste na tentativa de amenizar dores & dissabores, estragou as tuas melhores horas de amor, e ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear (de semear as tuas horas de amor).

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, entristecido, desanimado, sentindo-se um fracassado: coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva.

coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva: confessar a própria derrota é confessar a derrota de todo um tempo, de todo um sistema, de todo um modelo, de todo um estilo, de toda uma concepção de vida, que, ao adiar a felicidade coletiva, instaura a infelicidade coletiva, instaura o mal-estar do grupo, a tristeza & o desânimo de todo & qualquer ser humano comum, de carne & osso & coração, assim como eu, assim como você, leitor.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, aceitas a chuva, a guerra, o desemprego & a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de manhattan, ilha onde se localiza wall street, rua da ilha célebre, onde se situa a bolsa de valores de nova iorque, a mais importante do mundo, por isso mesmo, ilha considerada o centro nervoso da economia mundial.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas & as ações não encerram nenhum exemplo: por isso, eu & tu, nós, temos que cavar, temos que batalhar, temos que alcançar, maneiras, modos, formas & ações que neutralizem todos os malefícios do mundo demente, insano, decrépito, para o nosso próprio bem, e porque a existência, até onde se sabe, é uma só, e é melhor que a façamos valer a pena, valer as dores & dissabores.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Antologia poética. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

ELEGIA 1938

 

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

__________________________________________________________________

(do site: Youtube. Caetano Veloso interpreta o poema Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade.)

Anúncios

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA DA BALA PERDIDA
10 de junho de 2014

Balas com sangue

___________________________________________________________________

descontentamento pelos gastos exorbitantes com projetos muito mal executados & com toda a (des)organização do mundial de futebol 2014, manifestações, greves, favelas pacificadas à meia boca (depois da cobertura jornalística sensacionalista & piegas da rede globo de televisão, em parceria com a polícia militar do estado do rio de janeiro, na instalação das unidades de polícia pacificadora em algumas comunidades pobres da cidade), favelas pacificadas muito mal & porcamente (todo dia temos notícia de troca de tiros entre policiais militares & traficantes, todo dia temos notícia de balas perdidas, em favelas, a princípio, “pacificadas”), faz-se prudente pedir proteção à santa!

portanto, uma oração:

nossa senhora da bala perdida, mãe, afaste, de mim, essa bala, esse dardo inflamável, essa seta diuturna, seta que se prolonga no tempo, seta duradoura (a porta que tal bala abre, no corpo que atinge, jamais se fecha), nossa senhora da bala perdida, mãe, afaste, de mim, esse terror sem rumo, esse projétil alado & raso, projétil retilíneo que voa longe, pois, já que elas, as balas perdidas, não cessam, que, pelo menos, nos errem.

nossa senhora da bala perdida, rogai por nós, os passantes, os transeuntes, os pedestres, os motoristas, as crianças e, principalmente, as mães: não nos faça alvos fáceis desta chuva de petardo (chuva de peça carregada de material explosivo, portátil) que desaba por sobre a cidade do rio de janeiro, não nos faça alvos fáceis desta chuva de balas perdidas, nossa senhora da bala perdida, rogai por nós, que tal chuva não nos atinja o corpo nem a alma nem os prantos.

eu, que faço o bom combate.

nossa senhora da bala perdida, protegei as nossas vísceras das emboscadas bandidas, dos acertos entre quadrilhas rivais, do fogo amigo (quando um aliado ataca um dos seus) ou da polícia (violenta, corrupta, déspota).

só te peço, ó mãe amiga, santa do cotidiano, poupe-nos o banho de sangue, de passagem tão insana, banho de passagem demente, insensata.

que assim seja, hoje & sempre.

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________

(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA
DA BALA PERDIDA

 

Mãe,
Afaste de mim esta bala
Este dardo inflamável
Esta seta diuturna
Este terror sem rumo
Este projétil alado e raso
Pois já que elas não cessam
Que pelo menos nos errem

Rogai por nós os passantes
Os transeuntes os pedestres
Os motoristas e as crianças
E principalmente as mães

Não nos faça alvos fáceis
Desta chuva de petardo
Não nos atinja o corpo
Nem a alma nem os prantos

Que veloz, não me alcance
Que sua força não me curve
Que seu fogo não me queime
Que o acaso não me derrube
Eu que diariamente passo
Por favelas becos vielas
Por túneis curvas células
Eu que faço o bom combate

Protegei as nossas vísceras
Das emboscadas bandidas
Dos acertos entre quadrilhas
Do fogo amigo ou polícia

Só te peço oh mãe amiga
Santa do cotidiano
Poupe-nos o banho de sangue
De passagem tão insana

BRASIL: UM IMENSO HAITI
18 de março de 2014

Mulher arrastada por camburão da PMERJ

Aperto no peito

________________________________________________________

ODEIO o tipo de gente que, como o venerável cardeal, vê tanto espírito no feto (e do alto do seu moralismo conclama o absurdo que é a legalização do aborto no país, não importando o número de mortes anuais de mulheres & todo o estrago que essas mortes levam aos mais próximos) & nenhum no marginal (e do alto do seu moralismo conclama a pena capital, pena de morte, no país, não importando o fato de que, num país como o  Brasil, preconceituoso até o pescoço, muitos morreriam injustamente em cadeiras elétricas, e a ineficiência do Estado poderia aumentar).

Tanto espírito no feto & NENHUM no marginal…

O Brasil, em diversos aspectos, soa-me como uma piada pronta de muito mau gosto. O Brasil me enoja em diversas questões. Às vezes tenho dó deste país, tenho pena da mediocridade deste país — e o sentimento estende-se ao mundo em geral.

A fila de soldados (da Polícia Militar), quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos. E, outros, “quase brancos”, tratados como pretos só para mostrar, aos outros “quase pretos” (e são quase todos pretos) & aos “quase brancos” pobres como pretos, como é que pretos, pobres & mulatos, e quase brancos “quase-pretos”, de tão pobres, são tratados.

Na TV, uma mulher pobre, preta, que morava em uma favela no bairro de Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, subúrbio da cidade, é arrastada por um camburão da P.M., como mostra uma das fotos que ilustra esta publicação.

Na TV, um deputado, em pânico mal dissimulado (no fundo, pouco se importando com o assunto), diante de um plano qualquer de educação, que parece fácil & rápido & que representa uma “ameaça” de democratização do ensino de primeiro grau.

O silêncio  sorridente de São Paulo diante da chacina: afinal, presos são quase todos pretos, ou “quase pretos”, ou quase brancos “quase-pretos” de tão pobres.

(E pobres são como podres. E todos sabem como se tratam os pretos.)

E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar, por um momento (seja por causa do carnaval, seja por causa da Copa), voltados para o país. Não importa nada: ninguém é cidadão.

Os direitos civis são violados o tempo inteiro.

O Brasil, em diversos aspectos, é um imenso Haiti. Eu sinto raiva, eu sinto pena, eu sinto cansaço.

Obstruções, trincheiras, impedimentos: são muitas as barreiras: grande o aperto…

(Pense no Haiti, reze pelo Haiti…)

Paulo Sabino.
________________________________________________________

(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. seleção e organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HAITI

 

Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos, pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado
Em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina: 111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
________________________________________________________

(do site: Youtube. videoclipe da canção: Haiti. produção: Conspiração Filmes. música: Gilberto Gil / Caetano Veloso. letra: Caetano Veloso. intérpretes: Gilberto Gil / Caetano Veloso.)

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
28 de fevereiro de 2014

Confetes_Carnaval

 

________________________________________________________

carnaval: eis que chegou: festa pagã, de rua, onde, durante dias (que parecem infindáveis), as pessoas dançam, bebem, brincam & vestem suas fantasias.

a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho, para fazer a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira. a gente se guarda para quando o carnaval chegar.

eu acredito, piamente, que a gente se desnuda mais quando mascarado. eu acredito, piamente, que a gente se revela mais quando acobertado. eu acredito, piamente, que a gente se mostra mais quando fantasiado.

as fantasias mais revelam que escondem.

na verdade, fantasiados, sentimo-nos livres para realizar desejos encobertos. o que fica guardado durante o ano inteiro, no carnaval, revela-se, ganha destaque, e tudo através das fantasias.

a gente se guarda, o ano inteiro, por um momento de sonho, para fazer a fantasia, para quando o carnaval chegar.

paradoxalmente, é no carnaval, travestindo-se, mascarando-se, que o corpo & o rosto estão mais expostos, mais limpos, mais nus.

revelamo-nos mais nas fantasias do que na realidade pura & dura.

a realidade pura & dura é quem nos põe as máscaras, máscaras utilizadas todos os dias, no convívio social.

nas fantasias, revelamo-nos mais porque, nelas, cabem desejos encobertos que permitimos vir à tona somente por causa das máscaras, somente por causa da maquiagem exagerada, caricatural, somente por causa dos personagens encarnados. e com a grande desculpa na ponta da língua: “quem realiza não sou eu, é a personagem. quem quer, quem deseja, é a personagem, quem age é ela, não sou eu”.

então tá bom…

vamos revelarmo-nus!

um ótimo carnaval para quem a carne é de carnaval!

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

 

Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e
não posso pegar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando,
………………………………………….[pensando
Que eu vou aturar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que
………………………………………….[eu vá revidar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra
………………………………………….[gente cantar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem
………………………………………….[dera gritar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Quando o carnaval chegar. gravadora: Universal Music. artistas: Chico Buarque / Nara Leão / Maria Bethânia. canção: Quando o carnaval chegar. autor & intérprete: Chico Buarque.)

DEPOIS DOS NAVIOS NEGREIROS, OUTRAS CORRENTEZAS
12 de fevereiro de 2014

Escravos

________________________________________________________

há pouco tempo, um menino preto & pobre, acusado de furtos/roubos no flamengo, bairro de classe média/média alta carioca, foi posto nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, como “lição” aos demais “marginaizinhos”, a fim de que os furtos/roubos cessem ou diminuam consideravelmente na região.

parte da população aprova a ação, realizada por cidadãos comuns, assim como eu.

o que fizeram ao menino preto & pobre no flamengo, bairro de classe média/média alta da zona sul do rio de janeiro, deixando-o nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, no fundo, é resquício do que mostram, do que revelam, os versos & o videoclipe que seguem.

o brasil ainda é, infelizmente, um país moldado em relações escravocratas.

no rio de janeiro, a mim & a muitos amigos (conversamos sobre o assunto antes mesmo do episódio em questão), isso se evidencia nas relações, por exemplo, entre empregadas domésticas/motoristas particulares & seus patrões, entre babás & mães contratantes, entre porteiros/faxineiros & condôminos.

o outro (a empregada doméstica, o motorista particular, a babá, o porteiro, o faxineiro) não está ali como prestador de serviço. não. o outro (a empregada doméstica, o motorista particular, a babá, o porteiro, o faxineiro) é praticamente uma mercadoria da qual se pode dispor para diversas outras funções & tarefas que não aquelas relacionadas às suas funções trabalhistas.

o que fizeram ao menino preto & pobre no flamengo, bairro de classe média/média alta da zona sul do rio de janeiro, deixando-o nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, no fundo, é resquício do horror apresentado nos versos & no videoclipe que seguem.

o menino preto & pobre & marginalizado é fruto direto das situações retratadas nos versos & no videoclipe que seguem, situações que, nos dias atuais, perduram de modos diferentes (muitas vezes nem tão diferentes, como no episódio em questão), porque o brasil, infelizmente, é um país moldado em relações escravocratas.

o menino preto & pobre & marginalizado, deixado nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, é fruto direto da desigualdade sócio-econômica que plantamos neste país, através das relações escravocratas que ainda existem & insistem.

a parte da população que apóia esse tipo de ação alega que tal ação se trata de “defesa”.

“defesa”? população desarmada “defendendo-se”?

então deixar um menino num poste, nu, exposto, preso pelo pescoço, com parte da orelha cortada, é modo de “defender-se”?

“defender-se”? não, sinto muito, mas isso não tem nada a ver com “defesa”. se o menino estava assaltando/furtando alguém & conseguiu ser imobilizado, a defesa já ocorreu. o que vem a partir da imobilização (que é: prendê-lo a um poste com uma tranca de bicicleta no pescoço, nu, com parte da orelha cortada) já não é “defesa”, isso tem outro nome: trata-se de requinte de crueldade, resquícios de navio negreiro, trate-se de raiva, intolerância, indiferença.

o que eu acho engraçado é que ninguém quer dar-se o trabalho de pensar, profundamente, as razões para que um menino esteja, nas ruas, furtando/assaltando.

o caso do menino preto & pobre deixado nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, evidencia, a todos (até para os que preferem não enxergar), que o brasil, infelizmente, é um país moldado em relações escravocratas.

depois dos navios negreiros, outras correntezas…

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do livro: Antologia dos poetas brasileiros — Poesia da fase romântica. organização: Manuel Bandeira. autor: Castro Alves. editora: Nova Fronteira.)

 

 

TRAGÉDIA NO MAR

(O NAVIO NEGREIRO)

 

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta —
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espuma de ouro…
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro.

‘Stamos em pleno mar… Dous infinitos
Ali s’estreitam num abraço insano…
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?

‘Stamos em pleno mar… Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?…
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço…

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!…
Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade…

Oh! Que doce harmonia traz-me a brisa!…
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! Esperai! Deixai que eu beba
Esta selvagem livre poesia…
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
O vento que nas cordas assobia…

……………………………………………………………………………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?…
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar doudo cometa.

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre a gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas…

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?…
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina…
Resvala o brigue à bolina
Como um golfinho veloz.
Presa no mastro da mezena
Saudosa a bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor.

Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente
— Terra de amor e traição —
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso
Junto às lavas do Vulcão.

O Inglês — marinheiro frio
Que ao nascer no mar se achou —
(Porque a Inglaterra é um navio
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando orgulhoso histórias
De Nélson e de Abuquir…
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir…

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens, que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
… Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu…

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais… não pode o olhar humano,
Como o teu mergulhar no brigue voador…
Porém que vejo aí… que quadro de amarguras!
Que canto funeral!… que tétricas figuras!
Que cena infame e vil!… Meu Deus! meu Deus! que horror!

Era um sonho dantesco… O tombadilho,
Que das luzernas avermelha  o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar…

Negras mulheres suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães.
Outras, moças… mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja… se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali…
Um de raiva delira, outro enlouquece…
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando geme e ri…

No entanto o capitão manda a manobra…
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz, do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar.”

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!…
Qual num sonho dantesco as sombras voam…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam
E ri-se Satanás!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus…
O’ mar! por que não apagas
Coa esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noite!! tempestades?
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?…
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala,
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa musa!
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz,
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão…
Homens simples, fortes, bravos…
Hoje míseros escravos
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas…
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm.
Trazendo com tíbios passos
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael…

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram — crianças lindas,
Viveram — moças gentis…
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus! ó choça do monte!…
Adeus! palmeiras da fonte!…
Adeus! amores… adeus!…

Depois o areal extenso…
Depois o oceano de pó…
Depois… no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede
E cai pra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob a tenda da amplidão…
Hoje o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade!…
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade!
Nem são livres pra… morrer!…
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão…
E assim roubados à morte
Dança a lúgubre coorte,
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus!
Ó mar! por que não apagas
Coa esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?…
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

E existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de Bacante fria!…
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta
Que impudente na gávea tripudia?!…
Silêncio!… Musa! chora, chora tanto,
Que o pavilhão se lave no teu pranto…

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança…
Tu, que da Liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!…
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga
Como um íris no pélago profundo!…
… Mas é infâmia demais… Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca esse pendão dos ares!…
Colombo! fecha a porta de teus mares!…

(São Paulo, 18 de abril de 1868.)
________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Livro. gravadora: PolyGram. canção: O navio negreiro [excerto]. artista & intérprete: Caetano Veloso. participação especial: Maria Bethânia. poema [excerto] de Castro Alves musicado por Caetano Veloso.)

TUDO ESTÁ EM TUDO
13 de janeiro de 2014

Pôr do sol na cidade

________________________________________________________

uma regra que é da vida: podemos, e devemos, aprender com toda a gente.

por acreditar piamente nessa regra, não faço, procuro não fazer, mesmo!, distinção alguma entre os homens: aprende-se com tudo & todos: com letrados & iletrados; com sábios & ignorantes; com intelectuais & indoutos: a vida nos tange a todos.

a vida nos tange a todos: há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães & bandidos, assim como aprendemos com os austeros & responsáveis, há filosofias que nos ministram os estúpidos, assim como nos ministram os eruditos, há lições de firmeza & de lei que vêm no acaso & nos que são do acaso, assim como as lições de firmeza & de lei que vêm no que é estável, no que é sólido, no que é inabalável.

tudo está em tudo: cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.

(aprende-se com tudo & todos: com letrados & iletrados; com sábios & ignorantes; com intelectuais & indoutos: a vida nos tange a todos.)

quando ando só, meu passeio calado é uma conversa contínua com o mundo (com as coisas que vejo, ouço, sinto, percebo, cheiro), e todos nós — homens, casas, pedras, cartazes & céu — somos uma grande multidão amiga (afinal, aprende-se com tudo & todos), acotovelando-se de palavras (os signos que nos possibilitam aprender o mundo) na grande procissão do destino.

tenhamos os sentidos sempre abertos ao que nos traz a vida: lembremos: tudo está em tudo: aprende-se com tudo & todos.

beijo tudo & todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do livro: Livro do desassossego. autor: Bernardo Soares, heterônimo de: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

357.

 

Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.

Em certos momentos muito claros da meditação, como aqueles em que, pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.

Meu passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino.

NADA EM VÃO
8 de outubro de 2013

Paulo Sabino_Estrangeiro de si

 

___________________________________________________________________________________________________

Nada em vão, nada à-toa, no espaço entre mim & você.

Eis, então, que o pedaço de mim — que é só teu — é intento sem tanto, é objetivo sem força maior, é intenção pouca, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(Afinal,) Qual razão é medir o imenso da sede, o que justificaria medir o tamanho incomensurável do desejo, da vontade de alguma coisa, se o senso, se o entendimento, se o juízo (sempre!) cede à sensação?

Hein?…

Ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que te faz volver, que te faz voltar-se, que te faz virar (para mim), ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que me envolve & que verte afeto & afã, que verte amizade & zelo, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(O que vemos no outro é pura ilusão de óptica: sendo quem sou, em nada me pareço: sempre estrangeiro, sempre forasteiro, de mim & do olhar alheio.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do encarte do cd: Cavalo. artista: Rodrigo Amarante. autor: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

 

 

NADA EM VÃO

 

nada em vão
no espaço entre eu e você
no silêncio um grito
o sim e o não

eis então
que o pedaço de mim
que é só teu
é intento sem
tanto intenção

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti

qual razão
é medir o imenso da sede
se cede o senso
à sensação

ilusão
é a veste que
faz-te volver
que me envolve e verte
afeto e afã

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti
___________________________________________________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Cavalo. Artista & intérprete: Rodrigo Amarante. canção: Nada em vão. autor da canção: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

SENDO QUEM SOU, EM NADA ME PAREÇO
13 de setembro de 2013

Paulo Sabino ao pôr do sol

___________________________________________________________________________________________________

para César Guerra Chevrand

___________________________________________________________________________________________________

sendo quem sou, em nada me pareço.

sou tão diferente do que esta carcaça apresenta, que deveria ter aparência mais próxima à estranheza que me forma.

a aparência do paulo sabino não corresponde — exatamente — ao paulo sabino.

o que pensa, o que faz, o que fala, quando só, só pertence ao paulo sabino.

sendo quem sou, em nada me pareço: pois, ao mundo, aos senhores, pareço uma coisa sendo tantas outras…

desloco-me no mundo, transito pelos lugares, como os senhores vêem, ando a passos, com pés no chão, como todos os senhores, e tenho gestos & olhos convenientes, gestos & olhos de acordo com o que socialmente se ambiciona, gestos & olhos propícios ao convívio social, gestos & olhos adequados à normatização da vida, gestos & olhos à aceitação & aprovação alheias, gestos & olhos no intuito de integrar determinadas rodas sociais.

vivenciando assim a vida, desloco-me no mundo, isto é, no mundo me faço, me sinto, deslocado, coloco-me fora do lugar, coloco-me em contexto inapropriado, desafinado com o que realmente sou (para as pessoas, para o mundo, ando a passos, como toda pessoa comum, e tenho gestos & olhos convenientes).

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente (ser fora do padrão, ser estranho às pessoas), e ter olhos a mais (como um ser fantástico, um ser das lendas), olhos visíveis, úmidos?

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente: digo: ser diferente do diferente, ser diferente do que é diferente de mim & que, no entanto, os senhores entendem como o paulo sabino?

não seria melhor ser diferente & ter olhos a mais, olhos que, diferentes destes que tenho (que mascaram, que dissimulam, que encobrem o paulo sabino), fossem visíveis, olhos úmidos ao invés de secos (olhos que não revelam, olhos desidratados, vazios, sedentos)?

não seria melhor ser, ao invés de um tipo convencional, de um tipo adequado às rodas sociais, um pouco de tudo, não seria melhor ser um pouco de anjo & de duende? (duende: entidade fantástica, das lendas, que geralmente usa seus poderes em travessuras para assustar os habitantes de uma casa.)

cansam-me estas coisas que digo aos senhores.

são cansativas — estas coisas que digo aos senhores — porque, em mim, as paisagens se multiplicam, em mim as paisagens aumentam em quantidade, em mim, as visões, os panoramas, se multiplicam, e, multiplicando-se paisagens visões panoramas, o sonho nasce & tece ardis tamanhos, o sonho nasce & tece grandes armadilhas, o sonho nasce & tece astúcias perigosas.

é sonhando, projetando, desejando, que as esperanças — sejam no que for — são renovadas.

cansam-me as esperanças renovadas porque, uma vez renovadas, as esperanças fazem o verso no meu peito repetir-se.

o verso, no meu peito, repetido: verso de paisagens que se multiplicam, verso de sonho que nasce & tece ardis tamanhos, verso com desejo de ser diferente — pois sendo quem sou, em nada me pareço.

cansam-me estas vontades variadas, cansa-me ser assim quem sou agora: múltiplo, diverso, de formas avessas: planície/monte; treva/transparência.

são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino.

(aos senhores, ao mundo, tenho gestos & olhos convenientes. aos senhores, ao mundo, reservo uma sanidade forjada.)

(de perto ninguém é normal.)

cansa-me ser assim quem sou agora: muitos & antagônicos: planície, monte, treva, transparência.

e cansa-me também o amor porque é centelha (partícula ígnea, partícula de fogo, de um corpo em brasa), cansa-me o amor porque é faísca, e queima, e arde, e exige posse & pranto, sal (das lágrimas) & adeus.

ao amor, a sua rima: dor.

o amor que não dói, que não machuca, que não dilacera, não é amor.

cansa-me, por tanto, o amor.

em tudo — nas coisas que vos digo, nas esperanças renovadas, no verso repetido no meu peito, no ser que sou agora, no amor — sempre um cansaço.

ainda assim, ainda que o cansaço perpasse & permeie tudo (as coisas que vos digo, as esperanças renovadas, o verso repetido no meu peito, o ser que sou agora, o amor), os senhores querem, desejam, o verso que aos senhores posso dispor?

se os senhores querem, se desejam, então que assim seja.

mas entendam: viverão suas vidas nesses breus.

pois o verso que aos senhores posso dispor nada esclarece, nada clarifica, nada ilumina: sendo quem sou, em nada me pareço: são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino…

o verso, aqui, não vivencia a luz: o verso versa sua vida nesses breus.

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)

___________________________________________________________________________________________________

Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

NASCE O SOL & NÃO DURA MAIS QUE UM DIA
21 de julho de 2013

Pôr do sol

 

_____________________________________________________________________

nasce o sol & não dura mais que um dia.

depois da luz solar, impreterivelmente, chega a noite escura.

com a chegada da noite, toda a formosura do mundo morre em sombras.

assim como o dia morre com a chegada da noite & suas sombras, a alegria acaba quando chega a tristeza.

porém, se o sol acaba todo dia, por que nascer? por que não dura a formosura da luz solar, que abarca com seus dedos-raios toda a beleza que há?

como a beleza assim se transfigura? por que o mundo, tão belo, encoberto por tristes sombras? por que a alegria, uma hora, acaba em tristeza? por que não perene a felicidade?…

como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, assim se fia, como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, assim se trama, como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, é urdido?…

e também: como o gosto da pena, isto é, como a escrita do poeta, pode fiar, tramar, urdir, criar, algum tecido poético — tecido trançado por palavras — verdadeiramente belo, verdadeiramente feliz, se o mundo é, como se sabe, tramado em tristezas, se no mundo, um dia, as belezas se encerram?…

ainda que desejemos muito que assim não seja, sabemos que falta a firmeza da constância no sol & sua luz, sabemos que a constância não se dá na formosura (tudo, na vida, é transitório: a beleza de um rosto, o amor, a idade, a vida dos amigos), sabemos que na alegria cabe, um dia, uma hora, a tristeza.

o mundo começa pela total ignorância. o conhecimento humano se dá através da transmissão das experiências dos nossos antecessores aos seus sucessores. aqueles que nos antecedem, com as suas vivências, deixam um legado de informações sobre o mundo, permitindo, às próximas gerações, a geração de conhecimentos ainda mais amplos.

hoje sabemos que qualquer dos bens do mundo, por natureza, tem a firmeza somente na inconstância.

hoje sabemos que qualquer dos bens do mundo, por natureza, tem a inconstância como a única constante.

(tudo muda, o tempo todo, no mundo.)

(saibamos aproveitar o transitório & o que ele nos traz de bom & feliz.)

beijo todos!
paulo sabino.
_____________________________________________________________________

(do livro: O canto das musas — poemas para conhecer, ler, recitar e cantar. autores: Aline Evangelista Martins, Cibele Lopresti e Péricles Cavalcanti. organização: Zélia Cavalcanti. autor do poema: Gregório de Matos. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NASCE O SOL E NÃO DURA MAIS QUE UM DIA

 

Moraliza o poeta nos ocidentes do Sol a inconstância dos bens do mundo.

Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas, no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

_____________________________________________________________________

Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em 1633 ou 36 — não se sabe ao certo —, e morreu em Recife, Pernambuco, em 1696. Aos catorze anos foi estudar em Lisboa, Portugal, onde se formou advogado. Lá começou a trabalhar junto à corte, mas desde sempre demonstrou aptidão para as sátiras, forma que o autor mais utilizou. Por zombar de políticos, religiosos e pessoas influentes na sociedade de sua época, foi chamado de Boca do Inferno. Em 1681, depois de colecionar inimizades, foi mandado de volta a Salvador, onde continuou a se portar como um crítico incansável. Indispondo-se com pessoas influentes, terminou exilado em Angola, onde também zombou dos poderosos. Para afastá-lo daqueles a quem ele podia incomodar, foi enviado de volta para Recife, onde morreu um ano depois. Gregório de Matos foi um dos primeiros a usar palavras de origem indígena e africana em suas produções, por isso o estudo de sua obra colabora para a reflexão sobre o momento inaugural da literatura brasileira.

GAYS E HETEROSSEXUAIS INCURÁVEIS
6 de julho de 2013

Drauzio Varella

 

(Na foto, o médico Drauzio Varella.)
_____________________________________________________________________

abaixo,

aos senhores,

lindo & lúcido artigo, do médico drauzio varella, que, entre outras coisas, trata do projeto popularmente conhecido como “cura gay”, projeto aprovado pela comissão de direitos humanos presidida pelo pastor marco feliciano.

texto simples, de fácil apreensão, ao mesmo tempo que é sofisticado, repleto de conhecimento científico.

não deixem de ler!

beijo todos!
paulo sabino.
_____________________________________________________________________

(do jornal: Folha de São Paulo. artigo publicado em: 30/06/13. autor: Drauzio Varella.)

 

 

GAYS E HETEROSSEXUAIS INCURÁVEIS

 

Apesar dos anos vividos, ainda me surpreendo com a estupidez humana.

Os crentes dizem que Deus houve por bem limitar-nos a inteligência, para impedir que bisbilhotássemos seus domínios. Se assim agiu, pena não lhe ter ocorrido impor limites para a burrice dos seres que criou à sua imagem e semelhança.

Um grupo de deputados reunidos na Comissão de Direitos Humanos, presidida por um evangélico sem nenhuma aparência de homem fervoroso, aprovou o projeto conhecido como “cura gay”, que assegura aos psicólogos o direito de aplicar métodos de tratamento destinados a transformar homo em heterossexuais, e de apregoar aos incautos a cura da homossexualidade, práticas condenadas pelo Conselho Federal de Psicologia e por todas as pessoas com um mínimo de discernimento.

Em todos os povos conhecidos, uma parcela de indivíduos em alguma fase da vida experimentou orgasmo por meio da estimulação dos genitais realizada por uma pessoa do mesmo sexo.

A incidência da homossexualidade varia de acordo com o grupo social. Um estudo clássico dos anos 1950 mostrou que em cerca de 60% das populações pesquisadas o comportamento homossexual é aceito sem restrições. Na África, entre os povos Siwan, e no sudoeste do Pacífico, entre os melanésios, virtualmente todos os homens praticaram sexo com outros homens em algum estágio da vida.

As 40% restantes vivem em países nos quais a homossexualidade é objeto de tabu social. As nações industrializadas se enquadram nesse grupo minoritário.

Embora os dados nem sempre confirmem com exatidão, a homossexualidade masculina parece ser duas a três vezes mais prevalente do que a feminina, em todas as sociedades até hoje avaliadas.

A maioria esmagadora dos indivíduos que experimentam orgasmos com pessoas do mesmo sexo são bissexuais. No Ocidente, homossexualidade pura, caracterizada pela ausência de práticas sexuais com o sexo oposto durante a vida inteira, ocorre em apenas 1% da população.

Comportamento homossexual tem sido descrito em répteis, pássaros e mamíferos, animais que na evolução divergiram há mais de 100 milhões de anos. Uma parte dos machos e fêmeas de todas as espécies de aves estudadas têm relações sexuais com indivíduos do mesmo sexo. Em muitas ocasiões, essas práticas terminam em orgasmo de apenas um ou dois dos parceiros.

Nos mamíferos, a maioria das relações homossexuais entre as fêmeas acontece quando uma parceira monta sobre a outra, comportamento já documentado em pelo menos 70 espécies: ratos, hamsters, coelhos, martas, gado, carneiros, cavalos, antílopes, porcos, macacos, chimpanzés, bonobos, leões etc.

Há mais de um século e meio, Charles Darwin nos ensinou que uma caraterística presente em diversas espécies distintas indica que foi herdada de um ancestral comum, portador do mesmo traço. Podemos garantir que o ancestral que deu origem aos vertebrados tinha dois globos oculares, caraterística herdada por todos os animais com esqueleto.

O paralelismo é óbvio, prezadíssimo leitor: se o comportamento homossexual está documentado em animais tão distintos quanto répteis, aves e mamíferos, é porque a homossexualidade é mais antiga do que a humanidade.

Certamente, já existiam hominídeos homo e bissexuais 5 a 7 milhões de anos atrás, quando nossos ancestrais resolveram descer das árvores nas savanas da África. Está coberta de razão a sabedoria popular ao dizer que a homossexualidade é mais velha do que andar a pé.

Sempre houve e haverá mulheres e homens que desejam pessoas do mesmo sexo, porque essa é uma característica inerente à condição humana. Com persistência e determinação, eles podem controlar o comportamento sexual, mas o desejo não. O desejo é uma força da natureza mais íntima de cada um de nós; é água que corre montanha abaixo.

Os fatores genéticos e as interações sociais envolvidas no comportamento sexual são de tal complexidade que só a ignorância crassa é capaz de propor simplificações.

Eu, que sempre coloquei em dúvida a masculinidade daqueles excessivamente preocupados ou ofendidos com a homossexualidade alheia, gostaria de saber em que porta de botequim os nobres deputados ouviram falar que o homossexual é um doente à espera de tratamento psicológico.