“CARNELEVAMEN”
13 de fevereiro de 2015

Paulo Sabino_Boitatá Cortejo_Carnaval 2015

(Cortejo do Cordão do Boitatá — 08/02/2015.)
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e eis que, na cidade do rio de janeiro, cidade de cariocas, já é tempo de folia momesca, ainda que a folia momesca, oficialmente, comece no sábado.

blocos de rua, confete, serpentina & purpurina espalhados pelo chão: eis que o tempo das fantasias chegou.

o tempo das fantasias chegou: é carnaval: não me diga mais quem é você: amanhã tudo volta ao normal: as diferenças existentes, hoje, não importam: hoje, eu sou da maneira que você me quer, seja você quem for.

o tempo das fantasias chegou: as fantasias mais revelam que escondem: fantasiados, sentimo-nos livres para realizar desejos encobertos: o que fica guardado durante o ano inteiro, no carnaval, revela-se, ganha destaque, e tudo através das fantasias.

o tempo das fantasias chegou: eu quero saber o seu jogo: eu quero morrer no seu bloco: eu quero me arder no seu fogo.

o tempo das fantasias chegou: deixe a festa acabar: deixe o barco correr: deixe o dia raiar.

(revelamo-nos mais nas fantasias do que na realidade pura & dura.)

(a realidade pura & dura é quem nos põe as máscaras, máscaras utilizadas todos os dias, no convívio social.)

que esta alegria fugaz, que esta ofegante epidemia, que se chama carnaval, encha os nossos corações de força, a fim de seguirmos bem nas nossas andanças, apesar dos pesares, mesmo com todos os dissabores que nos reserva a vida.

que, passado o carnaval, sigamos tomados de uma vertigem que conclame um mundo melhor, menos violento & virulento, para todos nós.

divirtam-se!
até a volta!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras — origens e curiosidades da língua portuguesa. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

CARNAVAL  do italiano carnevale. Primitivamente designava a terça-feira gorda, a partir da qual a Igreja passava a suprimir o uso da carne. Outros estudiosos veem na expressão latina carne, vale (carne, adeus) o étimo mais coerente. Mas carnelevamen, também do latim (prazeres da carne), antes das tristezas e continências da Quaresma, também é uma explicação plausível. Antes de o Carnaval ser a festa que é, chamava-se entrudo (do latim introitu, entrada), porque aqueles três dias são a porta de entrada para a Quaresma. Era pouco mais do que o ato inocente de uns jogarem água nos outros. Bem que muitos estavam precisando de água, pois a higiene pessoal e caseira era deficitária no Brasil de nossos dois Pedros príncipes, que também participavam da folia.

 

 

CARIOCA  do tupi kari’oka, pela composição kara, de kara’iwa, caraíba, homem branco, e oka, casa, casa de branco. A moradia do português, de pedra e cal, foi uma novidade para os índios. As primeiras construções que deram tal qualificação ao habitante do Rio de Janeiro foram erguidas na praia do Flamengo, em 1503, ao lado de um rio que nascia na Tijuca, mas que recebeu também o nome de Carioca. O Largo da Carioca tem este nome porque as águas do rio chegavam ali, no chafariz. Carioca passou a denominar o habitante do município do Rio de Janeiro, e fluminense o do estado. Carioca designa também um tipo de café expresso.
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(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NOITE DOS MASCARADOS

 

Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo

Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Chico Buarque de Hollanda — volume 2. artista & intérprete: Chico Buarque. participação especial: Os 3 Morais. canção: Noite dos mascarados. autor: Chico Buarque. gravadora: Som Livre.)

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CANÇÃO: POESIA & PROPAGANDA
3 de fevereiro de 2015

Avião (Esquadrilha da Fumaça)_Coração no céu
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na canção que canto, alguns desejos:

que saia, da noite, a última estrela da avareza, que vá embora, da noite, o último brilho da mesquinharia, da usura, da sovinice, e a esperança, e a vontade de uma existência mais sadia, venha arder em nosso peito.

e saiam também, da terra, os rios da paciência, os rios da resignação, os rios da submissão, da renúncia, os rios parados que não nos permitem a navegação. é no mar que a aventura de viver tem as margens que merece: largas, que não se pode enxergar, margens onde não se pode agarrar, a aventura entregue às extensas & profundas águas marinhas, a aventura pondo-se ao sabor do acaso, pondo-se onde o vento decidir ventar.

e saiam todos os sóis que apodreceram no céu dos que não quiseram ver, e saiam todos os sóis que pereceram no céu dos que se recusaram a enxergar o lado feio do mundo — mas que saiam (os sóis que apodreceram no céu dos que não quiseram ver) de joelhos, que saiam conscientes da sua falta, a falta de luz.

e que, das mãos inventivas, das mãos criadoras, das nossas mãos capacitadas, saiam gestos, saiam atitudes, de pura transformação.

entre o real, que são as vivências, e o sonho, que são as projeções, seremos nós a vertigem, seremos nós o desatino, o desvario, a loucura, de pintar o real com as mais variadas cores do sonho feliz de bem-estar a todos.

seja a minha canção, seja a minha voz, a minha poesia, propaganda voraz desses meus desejos:

hei-de mandar arrastar, com muito orgulho, pelo pequeno avião de propaganda, no céu inocente da cidade do rio de janeiro, um dos meus versos, um dos meus mais sonoros & compridos versos:

e certamente será um verso de amor…

(é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesias completas. autor: Alexandre O’Neill. editora: Assírio & Alvim.)

 

 

CANÇÃO

 

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem

 

 

POESIA E PROPAGANDA

 

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor…

REINAUGURAÇÃO
26 de dezembro de 2014

Fogos de artifício sobre o mar______________________________________________________

entre o gasto dezembro, o dezembro desgastado, o dezembro usado, o dezembro que encerra o fim de um ciclo de doze meses, e o florido janeiro, o janeiro em flor, o janeiro repleto de desejos, o janeiro que inaugura o início de um ciclo de doze meses, entre a desmitificação (trazida pelo ano que finda, já gasto) & a expectativa (trazida pelo ano que começa, florido), tornamos a acreditar num futuro melhor, voltamos a ser bons meninos, e, como bons meninos, reclamamos a graça dos presentes coloridos, reivindicamos a dádiva dos presentes desejados.

nossa idade — velho ou moço — pouco importa.

importa é nos sentirmos vivos & alvoroçados mais uma vez, uma vez que ânimo & boa disposição são mais que necessários se se deseja enfrentar a cara feia do mundo cruel, importa é nos sentirmos revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos, a beleza irretocável que vem dos gestos lhanos, dos gestos sinceros, dos gestos puros, dos gestos verdadeiros, e revestidos do profundo instinto de subsistir, de perdurar, de continuar a existir, enquanto as coisas em redor se derretem & somem como nuvens errantes no universo estável, enquanto as coisas em redor findam & somem — como as coisas têm de findar & sumir.

prosseguimos. reinauguramos. abrimos olhos gulosos a um sol diferente — prenhe de desejos luminosos — que nos acorda para os descobrimentos (“o futuro a deus pertence”, diz o dito popular).

esta é a magia do tempo, esta é a colheita particular, a colheita de cada um, a magia & a colheita que se exprimem no cálido abraço & no beijo comungante da virada do ano, a magia & a colheita que se exprimem no acreditar na vida & na doação de vivê-la em perpétua procura & perpétua criação: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

assim, desse modo, já não somos apenas finitos & sós: somos uma fraternidade, somos um território, somos um país (tamanha força creditamos em nós & no outro), que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro & desenvolve na luz o seu frágil, o seu delicado, o seu sensível, projeto de felicidade.

flui a vida como água, pois, como água, a vida se renova, a vida passa & não volta: assim como água, é sempre outra a vida a passar.

se a vida me foge, se de mim a vida parece afastar-se, afago-a em cada esperança nova: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

sigamos bem. sigamos juntos.

um feliz 2015!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

FLUI A VIDA COMO ÁGUA

 

Flui a vida como água,
como água se renova.
Se a vida me foge, afago-a
em cada esperança nova.

 

 

REINAUGURAÇÃO

 

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

DISTRIBUIÇÃO DA POESIA: CONVITE PARA A ILHA
4 de junho de 2014

Ilha Maldivas

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mel silvestre tirei das plantas, sal tirei das águas, luz tirei do céu.

escutai, meus irmãos: poesia tirei de tudo para oferecer à vida, para oferecer à força criadora que move este mundo.

não tirei ouro da terra nem sangue de meus irmãos.

estalajadeiros, que são os donos de estalagem, não me incomodeis.

bufarinheiros, que são vendedores ambulantes de bufarinhas (coisas bobas, insignificantes), e banqueiros, sei fabricar distâncias para vos recuar.

a vida está malograda, está fracassada, está malsucedida, e eu creio nas mágicas da força criadora do universo.

os galos não cantam, a manhã não raiou: a vida está malograda, está fracassada, está malsucedida.

vi navios irem & voltarem (não completando a sua viagem), vi infelizes irem & voltarem (não completando a sua viagem), vi ziguezagues na escuridão: a vida está malograda, está fracassada, está malsucedida.

capitão-mor, governador de capitania hereditária, homem de conhecimentos, onde é o congo? me diz, capitão-mor, governador de capitania hereditária, homem de conhecimentos, onde é a ilha de são brandão?

capitão-mor, governador de capitania hereditária, que noite escura!

(os galos não cantam, a manhã não raiou: a vida está malograda, está fracassada, está malsucedida.)

uivam molossos, uivam cães de aspecto robusto & ameaçador, na escuridão.

ó indesejáveis, ó indivíduos cuja presença não é desejável por mostrarem-se perniciosos aos interesses dos demais irmãos de terra, qual o país, qual o país que desejais?…

(os indesejáveis só sabem denegrir a vida, os indesejáveis só sabem obscurecer os caminhos dos demais irmãos de terra.)

mel silvestre tirei das plantas, sal tirei das águas, luz tirei do céu: só tenho poesia para vos dar.

abancai-vos, meus irmãos!

para vos dar, só tenho: poesia: e um convite para a ilha:

não digo em que signo se encontra esta ilha, não falo sob que forma avista-se a ilha, mas ilha mais bela não há no alto-mar.

o peixe cantor existe por lá.

ao norte dá tudo: baleias azuis, o ouriço vermelho, o boto voador.

a leste da ilha há o gêiser gigante (gêiser: fonte termal que lança no ar jatos de água ou vapor em intervalos regulares), deitando água morna. quem quer se banhar?

há plantas carnívoras sem gula, que amam & não devoram.

ao sul o que há? há rios de leite, há terras bulindo, mulheres nascendo, raízes subindo, lagunas tremendo, coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.

a oeste o que há? não há o ocidente nem coisa de lá: a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.

convido os rapazes & as raparigas para ver esta ilha, correr nos seus bosques, nos vales em flor, nadar nas lagunas, brincar de esconder, dormir no areal, caçar os amores que existem por lá.

o sol da meia-noite, a aurora boreal, o cometa de halley, as moças & moços nativos, podeis desfrutar.

partamos todos, enquanto esta ilha não vai afundar, enquanto não chegam guerreiros das terras, enquanto não chegam piratas do mar.

(os indesejáveis só sabem denegrir a vida, os indesejáveis só sabem obscurecer os caminhos dos demais irmãos de terra.)

as noites! que noites de imenso luar! podeis, todos vós, no céu da ilha, contemplar constelações: a ursa maior, a lira, a órion, a luz de altair, estrelas cadentes correndo no espaço, a estrela dos magos — a tão célebre estrela de belém, que guiou os três reis magos do ocidente até o recanto onde nascera o redentor — parada no ar.

que noites de imenso luar!

e as sestas? e as horas de descanso após o almoço? que sestas! a brisa é tão mansa! há redes debaixo dos coqueirais, sanfonas tocando, o sol se encobrindo, as aves cantando canções de ninar.

partamos todos, que as noites de escuro não tardam, não demoram, a chegar na ilha.

(partamos todos, enquanto não chegam guerreiros das terras, enquanto não chegam piratas do mar.)

partamos todos! mas onde fica a ilha? em que parte exatamente do oceano? então que é da ilha, da ilha mais bela que há pelo mar & onde se pode sonhar com os amores que nunca na vida nos hão de chegar?

o jeito é partir em busca desta ilha, o jeito é partir em busca do meu paraíso aqui na terra, o jeito é partir em busca do recanto que desejo a mim, que desejo ao meu bem-estar, sem mapa ou bússola para orientar. simplesmente partir, singrando os mares da vida.

eu, o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Gilberto Mendonça Telles. autor: Jorge de Lima. editora: Global.)

 

 

DISTRIBUIÇÃO DA POESIA

 

Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escutai meus irmãos: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
Estalajadeiros não me incomodeis.
Bufarinheiros e banqueiros
sei fabricar distâncias
para vos recuar.
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
Os galos não cantam,
a manhã não raiou.
Vi os navios irem e voltarem.
Vi os infelizes irem e voltarem.
Vi homens obesos dentro do fogo.
Vi ziguezagues na escuridão.
Capitão-mor, onde é o Congo?
Onde é a ilha de São Brandão?
Capitão-mor que noite escura!
Uivam molossos na escuridão.
Ó indesejáveis, qual o país,
qual o país que desejais?
Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos meus irmãos.

 

 

CONVITE PARA A ILHA

 

Não digo em que signo se encontra esta ilha
mas ilha mais bela não há no alto-mar.
O peixe cantor existe por lá.
Ao norte dá tudo: baleias azuis,
o ouriço vermelho, o boto voador.
A leste da ilha há o Gêiser gigante
deitando água morna. Quem quer se banhar?
Há plantas carnívoras sem gula que amam.
Ao sul o que há? — há rios de leite,
há terras bulindo, mulheres nascendo,
raízes subindo, lagunas tremendo,
coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.
A oeste o que há? — não há o ocidente nem coisa de lá:
a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.
Convido os rapazes e as raparigas
pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,
nos vales em flor, nadar nas lagunas,
brincar de esconder, dormir no areial,
caçar os amores que existem por lá.
O sol da meia-noite, a aurora boreal,
o cometa de Halley, as moças nativas,
podeis desfrutar. Meninas partamos
enquanto esta ilha não vai afundar,
enquanto não chegam guerreiros das terras,
enquanto não chegam piratas do mar.
As noites! Que noites de imenso luar!
Podeis contemplar a Ursa maior,
A Lira, a Órion, a Luz de Altair,
estrelas cadentes correndo no espaço,
a estrela dos magos parada no ar.
Que noites, meninas, de imenso luar!
E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!
Há redes debaixo dos coqueirais,
sanfonas tocando, o sol se encobrindo,
as aves cantando canções de ninar.
Meninas partamos que as noites de escuro
não tardam a chegar. Então que é da ilha,
da ilha mais bela que há pelo mar
e onde se pode sonhar com os amores
que nunca na vida nos hão de chegar?

PRINCIPALMENTE: A VOZ DO MAR
17 de abril de 2014

O mar & sua voz

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sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas. por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe.

com isso, fui me afeiçoando aos privilégios, aos florilégios (às coleções de flores devidamente escolhidas), às vilegiaturas (às férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, na praia, na montanha, no deserto), que me couberam neste reino — que é a vida — etéreo (sublime, magnífico, elevado, e também vaporoso) & ao mesmo tempo deletério (aviltante, insalubre, danoso).

a vida, sabe-se, possui a sua faceta exuberante como também a faceta cariada, feia, cheia de tristezas.

além disso, neste reino que é a vida, etéreo & deletério, o esquecimento é tão inevitável quanto a vida & a morte é toda feita de mistério.

a vida é uma coisa da qual não se pode dispor. não conhecemos o suficiente para saber, apreender, o que é a existência mundana & universal — a morte, para nós, ainda é um mistério, não se sabe muito a respeito dela, para onde vamos, se é que vamos para algum lugar além das nossas sepulturas, nem nunca podemos ter a apreciação total das nossas próprias vidas, pois, pelo caminho, vamos deixando acontecimentos para trás, justamente porque o esquecimento é tão inevitável quanto a vida.

procuro ouvir a minha sorte, procuro ouvir o que me destina o destino (será que existe destino?), nos meus búzios, como o — poeta olavo — bilac ouvia suas estrelas (vide o poema feito pelo poeta, “ouvir estrelas”), coisa que nunca ouvi, mas compreendi (a minha sorte), mesmo não tendo credo acreditável, mesmo não tendo crença crível, mesmo não tendo credo no qual se possa confiar & acreditar.

assim, bicho homem sem credo no qual se possa confiar & acreditar, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras (na vida, sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas, e, por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe), cujo arquiteto (o arquiteto dessa arquitetura de quimeras que é a vida: “deus”, ou como quer que se chame a força criadora do universo) talvez fosse cego (construindo tal arquitetura às escuras), ou gênio (construindo tal arquitetura com total entendimento do que construía), ou talvez fosse, simplesmente, ausente (simplesmente inexistente, e a vida, um grande capricho do acaso).

neste reino etéreo & deletério, fundo a minha voz, inauguro o meu canto: na nave língua em que me navego, só me navego “eu”, como “nave”, sendo língua.

(“navego”: na palavra em destaque, duas outras palavras cabem, duas outras palavras formam a palavra “navego”: “nave” + “ego”, que é o mesmo que “eu”. é na língua que posso, através das palavras, me fazer “nave”, e, com elas, o “ego” “navego”.)

na nave língua em que me navego, língua na qual em/barco, só me navego “eu” (“ego”), como “nave”, sendo língua.

a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.

me navego em língua, “nave” & “ave”.

(“navego”: na palavra em destaque, além de caberem as palavras “nave” & “ego”, uma outra também cabe: “ave”.)

em língua me navego, “nave” que me permite viajar caminho afora, “ave” que me leva em suas asas, na minha tentativa de vôos altos por sobre a vida.

eu sou sol, luz, eu esplendo, eu resplandeço, eu brilho intensamente, sendo sonhador (afinal, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras), eu, sendo esplendor, sendo brilho intenso, eu espelho especiaria, sou como o conjunto de temperos que dá aroma & sabor, eu, navegante (dos mares da vida), sou o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes, o antinavegador porque nunca me aventurei a descobertas ultramarinas, o antinavegador porque nunca me prontifiquei a vencer os mares em busca de reinos perdidos & tesouros inexplorados, eu, que dobrei & venci o cabo da esperança (sentimento de quem confia na realização daquilo que deseja), eu, que desinventei o cabo das tormentas (das tempestades violentas, das situações conturbadas & perturbadoras), eu, que inventei o vento que me carregou nas minhas andanças, eu, que inventei a “taprobana”, a ilha que só existe na minha ilusão (“taprobana” é o nome pelo qual a ilha de sri lanka era conhecida na antigüidade), eu, que inventei a ilha que não há, talvez “ceilão”, sei lá (“ceilão” foi como a ilha de sri lanka foi denominada até 1972), eu, que inventei o mapa, o astrolábio, a embarcação, a rota, só sei que fui em busca dos meus interesses & sonhos & nunca mais voltei.

me derramei & me mudei em mar — virei a sua voz, me transformei no seu canto, só sei que me morri de tanto amar na aventura das velas caravelas (por todo o fascínio que sempre me despertaram as grandes navegações & suas expedições mundo afora), só sei que morri de tanto amar em todas as saudades de aquém-mar, em todas as saudades que ficam, que permanecem, na parte de cá, neste lado daqui, de quem nunca se lançou em aventuras de além-mar, de quem, viajando em sonhos & desejos, fundou o seu edifício neste reino etéreo & deletério, fundou o seu edifício sobre essa arquitetura de quimeras, cujo arquiteto talvez fosse cego, ou gênio, ou, simplesmente, ausente.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas reunidos. autor: Geraldo Carneiro. editoras: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.)

 

 

PRINCIPALMENTE

 

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício
sobre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

 

 

A VOZ DO MAR

 

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o antinavegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar

VOCÊ & MAIS NADA
7 de março de 2014

RM

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para r.m.

 

carnaval de 2014. 3 de março, segunda-feira momesca, cidade do rio de janeiro.

“saravaço”: depois do bloco percorrer um bom pedaço do seu trajeto, quando noite já, você chegou. e chegou feliz, alegre, inteligente, bem-humorado, chegou cheio de amigos em comum, chegou com as melhores referências.

você chegou, amor. o amor chegou: vida humana em outra vida humana: eu só quero você & mais nada.

não me engana (sei da sua beleza): vem, beleza humana: fica ao meu lado. preciso de amor.

somos dois poemas apaixonados. podemos (& devemos) sonhar.

eu só quero você & mais nada.

vida humana em outra vida humana: que bom seria, será, um dia, nós dois (para sempre grudados, qual desejamo-nos)…

e na cama, ô beleza humana, sonho ao seu lado: preciso de amor.

mil & uma noites de amor: porque você chegou…

(e eu saúdo & festejo & conclamo a sua chegada. que maravilha…)

beijo todos!
paulo sabino.
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(Autores: Fausto Nilo / Pepeu Gomes / Baby Consuelo.)

 

 

MIL E UMA NOITES DE AMOR

 

Eu só quero você
E mais nada

Não me engana
Vem, beleza humana
Fica ao meu lado
Preciso de amor
Outra cena
Somos dois poemas apaixonados
Podemos sonhar

Eu só quero você
E mais nada

Vida humana
Em outra vida humana
Que bom seria
Um dia, nós dois
E, na cama
Ô beleza humana
Sonho ao teu lado
Preciso de amor

Mil e uma noites de amor
Você chegou
Você chegou, amor
Chegou o amor
Chegou
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Masculino e feminino. gravadora: CBS. artista & intérprete: Pepeu Gomes. canção: Mil e uma noites de amor. autores: Fausto Nilo / Pepeu Gomes / Baby Consuelo.)

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
28 de fevereiro de 2014

Confetes_Carnaval

 

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carnaval: eis que chegou: festa pagã, de rua, onde, durante dias (que parecem infindáveis), as pessoas dançam, bebem, brincam & vestem suas fantasias.

a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho, para fazer a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira. a gente se guarda para quando o carnaval chegar.

eu acredito, piamente, que a gente se desnuda mais quando mascarado. eu acredito, piamente, que a gente se revela mais quando acobertado. eu acredito, piamente, que a gente se mostra mais quando fantasiado.

as fantasias mais revelam que escondem.

na verdade, fantasiados, sentimo-nos livres para realizar desejos encobertos. o que fica guardado durante o ano inteiro, no carnaval, revela-se, ganha destaque, e tudo através das fantasias.

a gente se guarda, o ano inteiro, por um momento de sonho, para fazer a fantasia, para quando o carnaval chegar.

paradoxalmente, é no carnaval, travestindo-se, mascarando-se, que o corpo & o rosto estão mais expostos, mais limpos, mais nus.

revelamo-nos mais nas fantasias do que na realidade pura & dura.

a realidade pura & dura é quem nos põe as máscaras, máscaras utilizadas todos os dias, no convívio social.

nas fantasias, revelamo-nos mais porque, nelas, cabem desejos encobertos que permitimos vir à tona somente por causa das máscaras, somente por causa da maquiagem exagerada, caricatural, somente por causa dos personagens encarnados. e com a grande desculpa na ponta da língua: “quem realiza não sou eu, é a personagem. quem quer, quem deseja, é a personagem, quem age é ela, não sou eu”.

então tá bom…

vamos revelarmo-nus!

um ótimo carnaval para quem a carne é de carnaval!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

 

Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e
não posso pegar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando,
………………………………………….[pensando
Que eu vou aturar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que
………………………………………….[eu vá revidar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra
………………………………………….[gente cantar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem
………………………………………….[dera gritar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Quando o carnaval chegar. gravadora: Universal Music. artistas: Chico Buarque / Nara Leão / Maria Bethânia. canção: Quando o carnaval chegar. autor & intérprete: Chico Buarque.)

DO MAR AO SERTÃO
11 de outubro de 2013

Mapa_Estrada RealEstrada Real_Diamantina (MG)_OssadaEstrada Real_Diamantina (MG)

(Nas fotos, a Estrada Real & o seu mapa.)
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“Em meados do século XVIII já eram muitos os caminhos que conduziam às minas de Minas Gerais, mas também muitos eram os seus descaminhos. Para evitar estes descaminhos a Coroa Portuguesa determinou que o ouro e os diamantes deixassem as terras mineiras apenas por trilhas outorgadas pela realeza, que receberam o nome de Estrada Real.

Inicialmente, o caminho ligava somente a cidade de Paraty às províncias auríferas do interior de Minas, a antiga Villa Rica, hoje Ouro Preto (Caminho Velho). No entanto, a Coroa Portuguesa percebeu a necessidade de um trajeto mais seguro e rápido ao porto do Rio de Janeiro, surgindo então o caminho novo.”
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do mar ao sertão: do estado litorâneo do rio de janeiro ao ser-tão do cerrado mineiro, em diamantina: tão rico, tão encantador, tão diverso, tão quente, tão seco.

nos descaminhos, um caminho enfeitado de ouro & cravado de diamante: a estrada real, caminho que liga minas ao rio, estrada utilizada para o escoamento de ouro & diamante encontrados na região.

do rio a minas, de minas ao rio: num rio de minas, de águas doces & claras, o viageiro buscou as riquezas gerais de janeiro a janeiro, o viageiro buscou as riquezas gerais o ano inteiro.

do rio ao minas, de minas ao rio: no trajeto rio-minas, o viageiro buscou as riquezas (das minas) gerais de janeiro (viageiro vindo de lugar chamado rio de janeiro) a janeiro.

nas estradas da vida, carroça & cavalo. da mata (litorânea, no rio) ao cerrado (mais árido, em minas), areia & barro.

na montanha, uma cruz, um “orai por nós” (no topo do paredão de pedra situado na frente da cidade mineira de diamantina, onde começa a estrada real, uma cruz, que à noite se acende, como se abençoando a cidade). na arte (barroca), um “reino a vós”, um reino ao divino, ao deus católico (diamantina é uma cidade que data do período colonial brasileiro, portanto, cidade cercada de arte sacra por todos os lados).

em tudo na cidade de diamantina, os costumes de uma cidade pequena do interior mineiro: no café com maria, um “bom dia, seu joão”. na cozinha, casinha de terra no chão.

“real”, mais que a estrada que leva esse nome, é sua lida, é seu dia-a-dia de lutas, e seu arroz com feijão: a luta dos garimpeiros, repletos de sonhos de riquezas & conquistas, viageiros que saíam do mar (do rio de janeiro) em busca de ser-tão (nas minas gerais).

beijo todos!
paulo sabino.
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(da publicação: Boletim poético Sempre-Viva — edição especial Diamantina. autora do poema: Ana Ribeiro Barbosa. pesquisa & organização: Sílvio Neves. realização: Espaço de Criação Literária do Ponto de Leitura — Milho Verde, MG.)

 

 

DO MAR AO SERTÃO

 

Nos descaminhos
um caminho
de ouro enfeitado
e diamante cravado

Num Rio de Minas
buscou o viageiro
as riquezas Gerais
de Janeiro a janeiro

Nas estradas da vida
carroça e cavalo
da mata ao cerrado
areia e barro

Na montanha, uma cruz
Um orai por nós
Na arte, o sagrado
Um reino a vós

No café com Maria
Um bom dia, Seu João
Na cozinha, casinha
de terra no chão

Real é sua lida
e seu arroz com feijão
Garimpeiros de sonhos
do mar ao sertão

SENDO QUEM SOU, EM NADA ME PAREÇO
13 de setembro de 2013

Paulo Sabino ao pôr do sol

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para César Guerra Chevrand

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sendo quem sou, em nada me pareço.

sou tão diferente do que esta carcaça apresenta, que deveria ter aparência mais próxima à estranheza que me forma.

a aparência do paulo sabino não corresponde — exatamente — ao paulo sabino.

o que pensa, o que faz, o que fala, quando só, só pertence ao paulo sabino.

sendo quem sou, em nada me pareço: pois, ao mundo, aos senhores, pareço uma coisa sendo tantas outras…

desloco-me no mundo, transito pelos lugares, como os senhores vêem, ando a passos, com pés no chão, como todos os senhores, e tenho gestos & olhos convenientes, gestos & olhos de acordo com o que socialmente se ambiciona, gestos & olhos propícios ao convívio social, gestos & olhos adequados à normatização da vida, gestos & olhos à aceitação & aprovação alheias, gestos & olhos no intuito de integrar determinadas rodas sociais.

vivenciando assim a vida, desloco-me no mundo, isto é, no mundo me faço, me sinto, deslocado, coloco-me fora do lugar, coloco-me em contexto inapropriado, desafinado com o que realmente sou (para as pessoas, para o mundo, ando a passos, como toda pessoa comum, e tenho gestos & olhos convenientes).

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente (ser fora do padrão, ser estranho às pessoas), e ter olhos a mais (como um ser fantástico, um ser das lendas), olhos visíveis, úmidos?

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente: digo: ser diferente do diferente, ser diferente do que é diferente de mim & que, no entanto, os senhores entendem como o paulo sabino?

não seria melhor ser diferente & ter olhos a mais, olhos que, diferentes destes que tenho (que mascaram, que dissimulam, que encobrem o paulo sabino), fossem visíveis, olhos úmidos ao invés de secos (olhos que não revelam, olhos desidratados, vazios, sedentos)?

não seria melhor ser, ao invés de um tipo convencional, de um tipo adequado às rodas sociais, um pouco de tudo, não seria melhor ser um pouco de anjo & de duende? (duende: entidade fantástica, das lendas, que geralmente usa seus poderes em travessuras para assustar os habitantes de uma casa.)

cansam-me estas coisas que digo aos senhores.

são cansativas — estas coisas que digo aos senhores — porque, em mim, as paisagens se multiplicam, em mim as paisagens aumentam em quantidade, em mim, as visões, os panoramas, se multiplicam, e, multiplicando-se paisagens visões panoramas, o sonho nasce & tece ardis tamanhos, o sonho nasce & tece grandes armadilhas, o sonho nasce & tece astúcias perigosas.

é sonhando, projetando, desejando, que as esperanças — sejam no que for — são renovadas.

cansam-me as esperanças renovadas porque, uma vez renovadas, as esperanças fazem o verso no meu peito repetir-se.

o verso, no meu peito, repetido: verso de paisagens que se multiplicam, verso de sonho que nasce & tece ardis tamanhos, verso com desejo de ser diferente — pois sendo quem sou, em nada me pareço.

cansam-me estas vontades variadas, cansa-me ser assim quem sou agora: múltiplo, diverso, de formas avessas: planície/monte; treva/transparência.

são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino.

(aos senhores, ao mundo, tenho gestos & olhos convenientes. aos senhores, ao mundo, reservo uma sanidade forjada.)

(de perto ninguém é normal.)

cansa-me ser assim quem sou agora: muitos & antagônicos: planície, monte, treva, transparência.

e cansa-me também o amor porque é centelha (partícula ígnea, partícula de fogo, de um corpo em brasa), cansa-me o amor porque é faísca, e queima, e arde, e exige posse & pranto, sal (das lágrimas) & adeus.

ao amor, a sua rima: dor.

o amor que não dói, que não machuca, que não dilacera, não é amor.

cansa-me, por tanto, o amor.

em tudo — nas coisas que vos digo, nas esperanças renovadas, no verso repetido no meu peito, no ser que sou agora, no amor — sempre um cansaço.

ainda assim, ainda que o cansaço perpasse & permeie tudo (as coisas que vos digo, as esperanças renovadas, o verso repetido no meu peito, o ser que sou agora, o amor), os senhores querem, desejam, o verso que aos senhores posso dispor?

se os senhores querem, se desejam, então que assim seja.

mas entendam: viverão suas vidas nesses breus.

pois o verso que aos senhores posso dispor nada esclarece, nada clarifica, nada ilumina: sendo quem sou, em nada me pareço: são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino…

o verso, aqui, não vivencia a luz: o verso versa sua vida nesses breus.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)

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Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

VERSOS DE ORGULHO: CHARNECA EM FLOR
24 de abril de 2013

Charneca em flor

(Charneca em flor: charneca: vegetação que cresce em regiões incultas & arenosas, caracterizada por arbustos & plantas herbáceas resistentes.)
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enche o peito da mulher amorosa, num encanto mágico, o frêmito — o balançar, o bramido — das coisas dolorosas, das coisas doídas, das coisas que machucam…

sob as urzes — plantas arbustos que florescem flores brancas — queimadas da mulher amorosa, nascem suas rosas…

(sob as coisas dolorosas, coisas doridas, da mulher amorosa, nasce seu encanto mágico.)

nos seus olhos as lágrimas são apagadas.

anseia, deseja, a mulher amorosa! asas abertas! o que traz dentro de si? ela ouve bocas silenciosas murmurar-lhe as palavras misteriosas que perturbam seu ser como um afago (as palavras misteriosas: desejo, febre, amor…).

e, na febre ansiosa que a invade, a mulher amorosa despe a sua mortalha, despe o seu burel, a mulher amorosa despe as suas vestimentas de luto, de tristeza, e já não é — a mulher amorosa — “sóror saudade”, e já não é — a mulher amorosa — a porta-voz da saudade, e já não é — a mulher amorosa — a religiosa a carregar a saudade no andor.

olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel: a escolha da mulher que já não é “sóror saudade” (a religiosa que carrega a saudade no andor): a proposta — que não é a mesma de antes — da mulher: arder em êxtases de amor: ser a charneca rude a abrir em flor!

por ter os olhos a arder em êxtases de amor, por ter a boca a saber a sol, a fruto, a mel, por ser a charneca rude a abrir em flor, diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal. diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal também porque ninguém tem asas como as suas, porque deus a fez nascer “princesa” entre plebeus, numa torre de orgulho & de desdém.

à mulher amorosa — princesa de um reino para além (do mundo material), alheia aos reles mortais que somos, encastelada em sua torre de orgulho & de desdém — cabe, no seu olhar, os vastos céus; e os ouros & os clarões da vida (a luz do dia, a transparência da água, o frescor do vento, a clareza da cor) são todos seus.

o mundo — o que é o mundo ao amor da mulher amorosa, princesa presa ao seu reino (que fica para além), distante desta nossa vida ordinária?

o mundo ao amor da mulher amorosa: o jardim dos seus versos todo em flor… a seara — extensão de terra cultivada — dos beijos do amado amor, pão bendito em sua boca.

os êxtases os sonhos os cansaços, da mulher amorosa: são os braços do seu amado amor dentro dos seus braços, via láctea (os braços da mulher amorosa) fechando, abarcando, acolhendo, abrigando, cabendo, o infinito (o universo que representa o amado amor para a mulher amorosa, para a sua proposta, não mais a de “sóror saudade”: olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel, a charneca rude a abrir em flor).

(nunca é tarde para mudanças, nunca é tarde para novas propostas.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Florbela Espanca. organização: Maria Lúcia Dal Farra. editora: Martins Fontes.)

 

 

CHARNECA EM FLOR

 

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

 

 

VERSOS DE ORGULHO

 

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.