TESE SOBRE NADA: UMA CALIGRAFIA DO IMAGINÁRIO
5 de março de 2013

Caligrafia do imaginário

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Há alguns dias, peguei o livro Metalíngua, do querido amigo, o poeta gaúcho Alexandre Brito, a fim de reler alguns dos seus poemas.

No mesmo dia em que peguei o Metalíngua para reler, coincidentemente, recebi um e-mail do Alexandre Brito me recomendando a leitura dos poemas de um poeta por ele admirado. Por conta dessa coincidência (o Britto escrever no mesmo dia em que resolvi reler alguns dos seus poemas), deu-se o seguinte diálogo (que só me trouxe alegrias): escreve Paulo Sabino:

 

“Querido, que coincidência feliz!

Estou exatamente AGORA com o ‘Metalíngua’, relendo algumas coisas, e topei com uma dúvida que me ronda há algum tempo. No (lindíssimo!) ‘Tese sobre nada’, no penúltimo verso do poema você escreve:

‘ou ainda estrevania em relação a betoneira‘.

Se não for abuso, o que significa estrevania? É um neologismo? Já catei os radicais da palavra & não consigo fazer nenhuma associação (rs)… O poema é lindo, eu o adoro, mas essa palavrinha me persegue a cabeça (rs)…

Abraço imenso, poeta!”

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Abaixo, a resposta do poeta Alexandre Brito:

 

“risos.
que legal, Paulo!
um bom leitor é isso.
‘Sabino’ da vida.  
busca a pormenoridade
mesmo mínima.

pois, ‘ESTREVANIA’
é pura invenção.
mancha sonora, letra, sílaba
palavra
q nada nomina.

parabéns, amigo!
um detalhe despercebido pela totalidade dos leitores
mas que não escapou a ti
e tua curiosidade
artística.

grande abraço!”

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uma tese sobre “nada”: uma caligrafia que, no fundo, não comunica, uma caligrafia que, no fundo, não significa: uma caligrafia do imaginário, uma caligrafia que só existe na imaginação, caligrafia que se reproduz mediante caracteres simbólicos & metáforas encerrados em si mesmos, caracteres simbólicos & metáforas que não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos.

porém, mesmo a caligrafia do imaginário com os caracteres simbólicos & as metáforas encerrados em si mesmos, sem o auxílio de referências outras que não as referências que guarda de si mesma, essa caligrafia, ao acolher ecos & reverberações sígnicas não mensuráveis, ao abrigar ecos & reverberações de signos lingüísticos que não podem ser mensurados, medidos, alcançados, mantém um sentido — nas feições dos seus signos, no gesto sempre transfigurado das suas metáforas.

uma caligrafia do imaginário em que os seus caracteres simbólicos não se relacionem com nada, caracteres cujos significados não se conectam a nada, caracteres que vivem independentemente as suas significações.

assim, uma escritura em ruptura (pois tal escritura rompe com a função característica de qualquer escritura, que é a de comunicar), que avança do familiar ao desconhecimento (ininteligível, dado o seu hermetismo), é lavrada (é preparada, é fomentada), no livro secreto das dúvidas (afinal, uma caligrafia do imaginário que não comunica, que não significa, o que deseja? qual a sua função, a sua finalidade? o que dizem os seus caracteres, as suas metáforas?). sem aparente significado especial, desprovida de qualquer relevância imediata (pois tal escritura rompe com a função característica de qualquer escritura, que é a de comunicar), a caligrafia do imaginário articula substâncias medulares, isto é, substâncias essenciais, fundamentais, substâncias que formam a sua forma (a forma da caligrafia do imaginário), exprimindo, por alusão, matéria subliminal potencialmente: transgressiva.

a caligrafia do imaginário, por não ser compreendida (caligrafia que se reproduz mediante caracteres simbólicos & metáforas encerrados em si mesmos, caracteres simbólicos & metáforas que não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos), exprime matéria potencialmente transgressiva, pois a matéria da caligrafia do imaginário transgride, vai além do sentido de quaisquer significações mundanas, existenciais, a caligrafia do imaginário exprime matéria potencialmente transgressiva porque ela é livre para ser o que quiser ser, ela é livre para significar o que quiser significar & com os caracteres simbólicos os mais variados, à margem de quem deseje compreendê-la.

pois esta entidade abstrata, incapacitada de ser trazida à concretude existencial, entidade que se reproduz segundo um código cifrado (onde cada caractere simbólico significa algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere simbólico que compõe a caligrafia do imaginário), esta “quase” impossibilidade (“quase” impossibilidade porque, apesar de todos os paradoxos que impossibilitariam a caligrafia de ser uma caligrafia, a caligrafia existe com seus caracteres simbólicos & suas metáforas, ainda que exista apenas no imaginário), esta entidade abstrata, esta quase impossibilidade, literalmente incapaz de ser definida & determinada com certeza e/ou precisão (dado o seu hermetismo), propaga-se, alastra-se, para além dos mapas, tábuas & notações pré-estabelecidas conceitual & esteticamente, quer por intangível, intocável, impalpável, que seja, quer por outro qualquer motivo.

a questão é que, numa caligrafia do imaginário (onde cada caractere simbólico significa algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere simbólico que compõe a caligrafia), as palavras — os caracteres simbólicos — que compõem tal caligrafia não possuem relação alguma, nem relação de similitude nem de oposição:

pedra em relação a ventania, por exemplo:

na nossa caligrafia, pedra & ventania são caracteres simbólicos — palavras — que representam elementos diametralmente opostos (a pedra, material sólido, e ventania, ar atmosférico), possuem uma relação (ambos, pedra & ventania, são caracteres simbólicos que representam elementos naturais formados por componentes inteiramente opostos: elemento material da natureza X elemento imaterial da natureza).

numa caligrafia do imaginário, os caracteres que significariam pedra, ou ventania, ou água, ou fogo, ou negro, ou branco, habitam o âmago de uma mesma incógnita: pois os caracteres simbólicos & metáforas da caligrafia do imaginário não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos (todo caractere simbólico da caligrafia do imaginário significa, comunica, algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere da mesma caligrafia).

uma caligrafia do imaginário: uma caligrafia que não comunica, que não significa, uma entidade abstrata, uma quase impossibilidade: mais um dos tantos delírios de quem revira linguagens — como nós, poetas.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metalíngua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)

 

 

TESE SOBRE NADA


                             “… escrever nem sempre é trilhar terreno inexplorado
                             pode ser ladainha repetindo indo indo indo
                             um requentado”.
                                                                   Alexandre Brito

 

 

uma caligrafia do imaginário
se reproduz segundo um código cifrado
em que se representam as idéias mediante caracteres simbólicos
metáforas consecutivas consideradas organicamente
nas constelações a que pertencem
sem auxílio de referências outras que não elas mesmas
mas, ao acolher ecos e reverberações sígnicas não mensuráveis
mantém um sentido, nas feições, no gesto
sempre transfigurado

assim uma escritura em ruptura
que avança do familiar ao desconhecimento
é lavrada no livro secreto das dúvidas
e, sem aparente significado especial
desprovida de qualquer relevância imediata
apenas e tão somente
articula substâncias essenciais medulares
exprimindo, por alusão, matéria subliminal
potencialmente transgressiva

pois esta entidade abstrata
esta quase impossibilidade
literalmente incapaz de ser definida
e determinada com certeza e/ou precisão
propaga-se, conceitual e esteticamente
quer por intangível que seja
quer por outro qualquer motivo
para além dos mapas tábuas e notações pré-estabelecidas
onde por exemplo, pedra em relação a ventania
harpia em relação a fósforo
ou ainda estrevania em relação a betoneira
habitam o âmago de uma mesma incógnita

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LISBOA
8 de novembro de 2012

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sonhei, um dia, que estava em portugal, por um dia, à toa, num carnaval em lisboa.
 
um carnaval em lisboa: meu sonho voa além da poesia & encontra “o poeta” pessoalmente, meu sonho voa & encontra o poeta em: pessoa.
 
(gosto do pessoa na pessoa.)
 
no sonho, num carnaval em lisboa, a lua míngua, a lua decresce, a lua declina, pouco iluminando a noite, mas a lusitana língua acende a chama, acende o fogo; a lua míngua e, enquanto a lua míngua, pouco iluminando, a lusitana língua chama a palavra que acende, a lusitana língua chama a palavra que inflama, a lusitana língua chama a palavra que arde: chama, fogo, flama.
 
a língua lusitana acende a sua chama, iluminando a noite, clareando o breu, e, acendendo a sua chama, a palavra luzia, a palavra brilhava, luzia a linguagem na via pública, em plena rua, em forma de música (era carnaval em lisboa!), a palavra brilhava, a palavra luzia, em forma de marchinha, como esta aqui, de joão de barro, também conhecido por braguinha:
 
Anda, Luzia
Pega um pandeiro e vem pro carnaval
Anda, Luzia
Que essa tristeza lhe faz muito mal
 
em forma de música, na via pública, a palavra luzia: luzia-das-lusíadas-luzias.
 
a palavra luzia, a linguagem brilhava, nas tantas possibilidades de jogos sonoros & sintáticos.
 
sonhei que estava, um dia, em portugal, à toa, num carnaval em lisboa…
 
e seja o sonho que for, um dia, acorda-se dele. eu acordei.
 
pois bem. num belo dia, um amigo, em lisboa, pergunta o que quero de lisboa.
 
“nada”, respondo, não quero senão o que não vem nos postais, isto é: só quero o que não pode vir junto aos postais, só quero o que não pode ser aprisionado em fotos, mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz e, ainda assim (agora & sempre), mesmo postais de lugares onde nunca fui feliz, eu quis (a felicidade).
 
respondo ao meu amigo que não quero, de lisboa, senão o que lisboa não dá, o que ela guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo.
 
quero isso (a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo), mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
 
vê esses rapazes & moças de olhos azuis, meu amigo? são holandeses. vê esses deuses & essas flores azuis, meu amigo? são azulejos. como trazê-los? como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses rapazes & moças holandeses de olhos azuis, como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses deuses & essas flores azuis de azulejos?
 
de nada valem os antiquários (as lojas de antiguidades); quando voltamos de lisboa, tudo o que trazemos (dos antiquários), percebemos, está partido, está quebrado, tudo o que trazemos vem faltando um pedaço: o pedaço faltoso: o que lisboa guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo nem nas peças dos antiquários.
 
por isso, respondo ao meu amigo, não vale a pena trazer nada, que daí, de lisboa, só trazemos, sem dar conta, o que nos parte, o que nos corta, mal fechamos a mala (no momento do adeus), mal abrimos a porta (no momento do adeus), saudosos de lisboa ainda em lisboa.
 
fechamos mal a mala (de saída), abrimos mal a porta (de saída): por isso, parte-se de lisboa e, no partir, parte de nós, em lisboa, permanece. parte-se de lisboa e, no entanto, parte de nós, em lisboa, prevalece.
 
(em mim, agora & sempre, permanece & prevalece a língua lusitana.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Sentimental. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
UMA GAIVOTA VIESSE
 
 
O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz
 
e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,
 
quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?
 
De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,
 
o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.
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(autor: Moraes Moreira.)
 
 
 
SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL
 
 
Sonhei que estava, um dia
Em Portugal
À toa
Num carnaval
Em Lisboa
Meu sonho voa
Além da poesia
E encontra o Poeta em pessoa
 
A lua míngua
E a língua
Lusitana
Acende a chama
E a palavra luzia
Na via
Pública
E em forma de
Música:
Luzia-das-Lusíadas-luzias
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)
 

FEITO UM BOLERO: A CANÇÃO PARA ME ENTENDER
6 de novembro de 2012

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no bolso esquerdo,  no bolso do lado esquerdo do peito, levo uma tristeza que se agita, andorinha, lépida & pequenina, quando escrevo.

pois, quando escrevo, agita-se a andorinha chamada tristeza, lépida & pequenina, e, com ela, agitam-se algumas saudades, alguns dissabores, quando escrevo.
 
no entanto, juro, os senhores devem perceber, sou alegre & rio tanto & mais sempre que me atrevo. e, nesse quesito, considero-me bem atrevido.
 
amo. e amo sempre, esperançoso, reincidente abelha, insistente & repetitiva abelha (animal que trabalha incansavelmente, com cuidado, esmero & atenção), amo industrioso, amo caprichado, esmerado, amo & tenho trabalho (ainda que, no fim das contas, prazeroso).
 
dos abraços, rápidos marinheiros, marinheiros que chegam & partem logo (visto o breve tempo de um abraço), deles (dos abraços) ficam, no ar, algumas formas breves: um revoar de plumas, um revoar de travesseiros, um revoar de formas breves & leves & confortáveis. mas o peso deles (dos abraços), o peso que eles (os abraços) adquirem dentro de nós, é de chumbo & sal.
 
no vivenciar o mundo, minucioso, perco a exatidão do mundo. no vivenciar o mundo, detalhista, perco a precisão, perco a clareza, perco a nitidez do mundo, pois, no vivenciá-lo, percebe-se que o mundo são dúvidas, incertezas, caminhos possíveis, escolhas. no vivenciar o mundo, percebe-se que o mundo, sobretudo, é errância. ninguém sabe ao certo o que nos aguarda ao dobrar a próxima esquina.
 
em meus olhos desatentos, guardo apenas imprevistas surpresas de janela, guardo, em meus olhos distraídos, apenas inesperadas surpresas de quem assiste ao passar da vida (não somente como um ator social, não somente como um ser atuante, mas também como um espectador distanciado) & uma inocência de menino à espera, grávido de sonhos, de vontades, menino grávido de vida.
 
menino grávido de vida, decreto que, hoje, o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje, que os cabelos brancos do poeta sejam prata, metal precioso, as rugas, rios de muitas águas, cada poro do poeta seja um lago. hoje, que sejam potáveis & frescas as águas oferecidas pela fonte poética.
 
hoje, que beijem leve, longamente o poeta; hoje, que passeiem pelo corpo do poeta como um parque (de diversões), fonte de prazeres a quem dele se sirva.
 
hoje foi decretado que o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje o poeta vestirá aquele riso grande & inocente.
 
hoje o poeta vai provar algodão-doce, mel rosado, beber chuva passageira sentado a uma mesa na calçada.
 
hoje o poeta será tanto & tantas vezes (feliz) que, dele, hão de dizer, penalizados: “é criança ainda, ou bolero”.
 
hão de dizer, sentindo pena, que hoje o poeta é criança ainda, hão de dizer que hoje o poeta é inocente, fantasioso, onírico, cheio de energia para traquinices, ou hão de dizer que hoje o poeta é feito um bolero: ritmo de origem espanhola, chegou à américa latina por cuba & é dedicado àqueles que amam com despudor, é dedicado àqueles que amam livres de recatos & amarras, que amam sem nenhuma vergonha de dizer, com todas as sílabas, seus sentimentos.
 
hoje o poeta é feito um bolero: a canção para bem entendê-lo: ritmo dedicado àqueles que amam despudoradamente, ritmo dedicado ao amor livre de recatos & amarras.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Olhos de cadela. autora: Ana Mariano. editora: L&PM Editores.)
 
 
 
CANÇÃO PARA ME ENTENDER
 
 
No bolso esquerdo, levo uma tristeza
que se agita, andorinha, quando escrevo.
No entanto, juro, sou alegre e rio
tanto e mais, sempre que me atrevo.
 
No amor, dizem, sou incongruente.
Mas amo. Amo sempre, esperançosa,
reincidente abelha, amo industriosa,
em dias alternados, amo insistente.
 
Dos abraços, rápidos marinheiros,
ficam no ar algumas formas breves,
um revoar de plumas, travesseiros.
Mas é de chumbo e sal o peso deles.
 
A exatidão do mundo perco, minuciosa.
Guardo apenas, em meus olhos desatentos,
imprevistas surpresas de janela
e essa inocência de menina à espera.
 
 
 
FEITO UM BOLERO
 
 
Que meus cabelos brancos hoje sejam prata,
as rugas, rios de muitas águas,
cada poro meu seja um lago.
Que me beijem leve, longamente
e passeiem meu corpo como um parque.
Hoje meu poema será festa, feriado comemorativo.
Vestirei aquele riso grande e inocente.
Vou provar algodão-doce, mel rosado,
beber chuva passageira sentada a uma mesa na calçada.
Hoje serei tanto e tantas vezes
que de mim hão de dizer, penalizados:
é criança ainda ou bolero.

VIAJAR
25 de maio de 2012

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viajar?

para viajar basta existir.

 pois a vida, por si só, é já uma grande viagem.
 
pensar a existência, os seus mistérios, e pensar em tudo que está aí, aqui, e pensar em como tudo veio parar aí, aqui, é uma grande viagem.
 
vou de dia para dia como de estação para estação (as tão lindas viagens de trem caminho afora…), no comboio do meu corpo, ou no comboio do meu destino (no conjunto de acontecimentos que se postam à minha frente caminho afora…), debruçado sobre as ruas & as praças, sobre os gestos & os rostos, sempre iguais & sempre diferentes (as ruas & praças, os gestos & rostos: sempre iguais, porque a rua, por exemplo, existe sempre com o mesmo nome, o mesmo trajeto, a mesma largura & tamanho, assim como uma pessoa, que terá o mesmo nome sempre e que, de si, será por toda a vida prisioneira; porém, ao mesmo tempo que são iguais, são diferentes, porque, a cada momento, uma hora, um dia, um mês, um ano. tudo muda, o tempo todo, no mundo. é sempre um outro segundo, é sempre uma outra hora, é sempre um outro dia), como, afinal, as paisagens são (sempre iguais & sempre diferentes).
 
se imagino, vejo. se uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu imaginar, eu visualizo, isto é, se imagino uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu vejo a árvore, ou a casa, ou a província. a casa, ou a província, ou a árvore, existe na nossa memória.
 
portanto, se imagino, vejo.
 
que mais faço eu, assim sendo, senão viajar? só a fraqueza extrema da imaginação (só alguém que não imagine) justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. as paisagens são o que sentimos ao vê-las. uma pessoa pode passar por um caminho e nele não enxergar nada de muito interessante. uma outra pessoa pode passar pelo mesmo caminho, observando todo o entorno e, por ele, encantar-se: as formas das nuvens no céu, a estética das árvores no parque, as silhuetas das montanhas à frente, o vôo do pássaro que risca a manhã.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. na realidade, o mundo é o que pensamos dele; o mundo é o conceito que criamos para ele.
 
o mundo é o que dele enxergamos. no fundo, somos nós quem criamos as paisagens que nos cercam.
 
por isso, se as imagino, as crio; se as crio, se crio as paisagens na minha imaginação, elas são; se são, vejo-as como vejo outras paisagens dispostas caminho afora.
 
para que viajar? em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos (norte & sul), onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo & gênero das minhas sensações?
 
em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos, ou em casa, ou caminhando na orla (beira-mar), onde estaria eu senão encerrado em meu corpo, preso à minha visão & às sensações despertadas ante o que vejo?
 
a vida é o que fazemos dela.
 
adoro viajar, conhecer novos lugares, o cotidiano de pessoas outras. viajar contribui na apreensão que faço da vida.
 
mas não acho que quem viaje (fisicamente, deslocando-se de um lugar a outro), necessariamente, aprenda ou apreenda mais da vida. viajar ajuda a confabular a trama/o drama feita/o de acasos absurdos & continuidades previsíveis. sim, viajar ajuda. mas é preciso querer ser ajudado.
 
a vida é o que fazemos dela. as viagens são os viajantes.
 
uma pessoa pode olhar uma paisagem & esta nada lhe dizer. uma outra pessoa olha a mesma paisagem & sente-se encantada com o que a vista avista.
 
o que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
 
somos nós os inventores das paisagens que nos cercam.
 
para o bem viver, vivamos em prol de paisagens que nos animem o ser, lutemos por elas.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Livro do desassossego. autor: Bernardo Soares, heterônimo de: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
451.
 
 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
 
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
 
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. 

UM POUCO DE SILÊNCIO
4 de maio de 2012

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nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações.

é indispensável, em tempos modernos, circular, estar enturmado. quem não corre com a manada, quem não se apressa com a multidão inquieta, praticamente nem existe. se não se cuidar, botam numa jaula: um animal estranho.

ficar sossegado é perigoso. porque sossegar significa recolher-se em algum lugar (ou em casa, ou dentro de si mesmo), ação que propicia um contato mais fundo com quem — ou o que — somos, ato que ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.

ficar sossegado: recolher-se (ou em casa, ou dentro de si): ouvir a voz do silêncio.

o silêncio nos assusta por retumbar, por ressoar, no vazio (no oco, no desabitado, no desértico, no árido) dentro de nós. quando em silêncio, quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas, as fendas, por onde nos espiam coisas incômodas & mal resolvidas, ou enxergamos outro ângulo de nós mesmos.

em silêncio, um contato mais fundo com quem — ou o que — somos: “quem é esse que afinal sou eu? quais seus desejos & medos, seus projetos & sonhos?”

no susto que essa idéia provoca, a de tocar nas coisas incômodas & mal resolvidas, queremos ruído, almejamos ruídos, muitos ruídos, certa poluição sonora, a fim de que os ruídos nos distraiam & nos distanciem das coisas incômodas & mal resolvidas, coisas que, muitas vezes, não queremos perceber porque a percepção destas incita mudanças, e mudar coisas incômodas & mal resolvidas não é fácil, não…

silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe deus que desconserto, que desarranjo, que desordem, que estrago nosso…

com medo de ver quem — ou o que — somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras. com medo de ver, adia-se o defrontamento com nossa alma sem afetações, sem os maneirismos que não correspondem, sem as armaduras que nos tornam inacessíveis, que nos deixam fora do alcance de nós mesmos.

porém contudo todavia, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre — em si & no outro — regiões antes não imaginadas, questões fascinantes & não necessariamente ruins.

no processo do autoconhecimento (processo que requer quietude, sossego, silêncio), questões são reafirmadas; há o prazer do reencontro com questões que alegram & animam o ser de ser & estar.

a quietude pode ser como a chuva que, atentos ao ar, observamos chegar: intensa & lenta, tornando tudo singularmente novo.

nela, na quietude, a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tarefas, aos amores.

(aquietar-se é preciso, viver não é preciso…)

então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, o mar que quebra na areia, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos & muito além da música dos sentimentos: o grito do silêncio. sua voz inaudita, voz de vazio, voz oca, voz que possibilita o diálogo entre tantas vozes outras, vozes que surgem do (aparente) vazio dentro de nós, e que retumbam, e que ressoam, vozes que se reafirmam satisfeitas, vozes que pedem mudanças, vozes que precisam ser encaradas & resolvidas se necessário.

ouvir a voz do silêncio: a pedra, toda exterioridade, um silêncio absoluto defronte para o mar: ouvir o que sua voz tem a nos ventar.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Pensar é transgredir. autora: Lya Luft. editora: Record.)

 

UM POUCO DE SILÊNCIO

 

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade. Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo — ou em trilhas determinadas — feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez nos que examina sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não se arrumou ninguém — como se amizade ou amor se “arrumasse” em loja. Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só, ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando. Enfim, livre!

Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa é sempre porque está abandonada: ninguém a quer.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia e antidepressivo? Criança que não brinca ou salta nem participa de atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos em casa e ligamos a televisão antes de largar a bolsa ou pasta. Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem — ou o que — somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre — em si e no outro — regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:

— Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

AOS DESILUDIDOS DO AMOR
2 de março de 2012

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sempre sempre sempre digo:
 
carlos drummond de andrade é deus.
 
não. mais que deus.
 
por sobre. acima:
 
um sobredeus.
 
aos senhores, vídeo com a magistral (eu a adoro, morro de paixão!) fernandinha torres interpretando a obra-prima do mestre:
 
necrológio dos desiludidos do amor.
 
o poema gira em torno da ilusão que a desilusão gera no peito de quem se mata por amor na esperança de que a pessoa amada sofra os remorsos do ato suicida & viva, dessa maneira, a história antes deixada para trás.
 
com boa dose de ironia, drummond atenta à inutilidade do ato, pois, com ou sem morte, a vida segue o seu destino & as pessoas, os seus rumos, inclusive a pessoa a quem tanto se queria (a imagem de que se utiliza o poeta, ao final do poema, para tratar da inuitilidade do suicídio, é fantástica!).
 
num outro poema seu intitulado não se mate, drummond ratifica esta sua posição:
 
(trecho)
 
 
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
 
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão. 
 
 
não morram o amor, vivam-no! 
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Antologia poética. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.) 
 
 
 
NECROLÓGIO DOS
DESILUDIDOS DO AMOR
 
 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
 
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
 
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…
 
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
 
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
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(do site: Youtube. Fernanda Torres interpreta o poema Necrológio dos desiludidos do amor, de Carlos Drummond de Andrade.)
 

FUTUROS AMANTES
8 de dezembro de 2011

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só,
 
de frente para o mar,
 
ouvindo o seu lento & duradouro canto,
 
observando o seu sempre movimento de chegada & partida,
 
sou levado a pensamentos imprevisíveis.
 
de olhos liqüefeitos, de repente, não mais que de repente, estes versos à boca:
 
“não se afobe, não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar em silêncio”.
 
carregava uma tristeza. não pensava em outro amor. e esses versos me fizeram despertar para um sentimento gostoso, confortável, de apaziguamento.
 
como que dizendo a mim:
 
“paulo sabino,
 
“não se afobe, não, que nada é para ‘já’, não se afobe, não, que nada é exatamente para ‘agora’, para ‘este instante’. na vida, existe a espera; as coisas não estão dispostas no mundo ao meu bel-prazer, as coisas não estão dispostas no mundo ao bel-prazer de ninguém.
 
“muito menos o amor.
 
“por isso,
 
“não se afobe, não, paulo sabino, que nada é para ‘já’. 
 
“o amor, este não tem pressa, ele pode esperar; esperar, por exemplo, num fundo de armário, esperar, por exemplo, na posta-restante (‘indicação que se escreve no envelope de uma carta para significar que ela deve permanecer na repartição do correio até que a reclamem’ — dicionário aurélio), o amor pode esperar milênios & milênios, no ar, sem ser captado, em silêncio absoluto.
 
“milênios & milênios no ar: passado tanto tempo, criando a distância existente entre os antigos impérios & os dias atuais, passado tanto tempo, viajo, imagino, suponho: o rio de janeiro sendo invadido por este mar, que agora miro, e transformando-se numa cidade submersa, feito a lendária ilha de atlântida. por sobre a cidade do rio submersa em mar, novas civilizações. mais tempo passado. os escafandristas do futuro, então, virão explorar a minha casa, a casa de todos que habitavam a cidade submersa, os escafandristas do futuro virão explorar minha casa, meu quarto, minhas coisas, minha alma, desvãos…
 
“os escafandristas do futuro levarão aos sábios futuros todo o material recolhido nas expedições, e esses sábios, em vão, tentarão decifrar: o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos — vestígios de estranha civilização, civilização com os seus pertences até então milênios & milênios no ar, sem serem captados.
 
“os vestígios resgatados da estranha civilização (fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos) perdurarão nas civilizações futuras, assim como perduram diversos textos & poemas de impérios antigos na civilização que hoje se vivencia.
 
“já que as coisas, de alguma forma, podem perdurar milênios & milênios no ar, não se afobe, não, paulo sabino, que nada, no mundo, é para logo, é para já.
 
“amores (as suas histórias), estes serão sempre amáveis, amores serão sempre encantadores, sempre afáveis, sempre lisonjeiros, amores serão sempre merecedores de amor, amores serão sempre dignos de serem amados, e, por essa característica que os amores contêm (a de serem sempre amáveis), futuros amantes de civilizações futuras, quiçá, futuros amantes de civilizações futuras, talvez, amar-se-ão, sem saber nem sequer suspeitar, com o amor que eu, um dia, através de cartas, poemas, textos variados, deixei para os que amo.
 
“é, paulo sabino, não se afobe, não, mantenha-se sereno, tranqüilo, que nada é para já…”
 
beijo todos!                                                                                                                                                                   
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(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
FUTUROS AMANTES
 
 
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
 
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
 
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
 
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
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(do site: Youtube. canção: Futuros amantes. autor & intérprete: Chico Buarque.)
 

PALAVRAS DE ALÉM-MAR & OUTRAS INUTILIDADES
28 de outubro de 2011

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benvindos,
 
a seguir, palavras que me chegaram de além-mar, provindas de terra lusitana, das terras do poeta fernando pessoa.
 
palavras que muito me alegram & muito me estimulam a continuar o trabalho que desenvolvo com a poesia neste espaço, no “prosa em poema”. palavras que me contentam, palavras que gostaria de dividir com os senhores freqüentadores do local, pelo gosto de coisa boa que elas possuem. 
 
palavras do professor português joão manuel brito sousa:
 
 
PAULO, você me encanta pela desordem que utiliza na ordem da sua forma de escrever poesia. Você é Vinicius de Moraes no seu melhor, é Paul Éluard, diria mesmo que a sua poesia ensina-me a viver, coisa que ainda não aprendi, e quando acabar este comentário vou escrever isso mesmo: VIVER, nas cadeiras da sala de jantar, nas janelas do quarto, na estante do escritório, nas costas do carteiro que está a tocar à porta, em todo o lado escreverei, “APRENDA A VIVER COM PAULO SABINO”. Porque este modelo de escrever poesia e de viver ninguém conhece. Só você. Parabéns. Abraço. JBS.
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dormir dormir dormir & acordar num outro mundo, despertar um outro alguém: alguém como paul éluard, o “poeta da liberdade”, alguém como vinicius de moraes, o GRANDE “poetinha” de todos nós, sentimentais do brasil (rs).
 
dormiria um milênio inteiro, feliz, sem lembrar quem fui, o que fiz.
 
porém, a vigília, a falta de sono, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, sonhar por dentro de palavras que brilham, que iluminam, que queimam, a página branca sobre a qual estão; a  vigília, a insônia, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, palavras que velam, que escondem, que encobrem, esperanças vãs, esperanças sem valor, inúteis, descartáveis, como a brasa que brilha & ilumina & queima, mas que brilha & ilumina & queima dentro de um cinzeiro, sem, portanto, finalidade ou utilidade.  
 
assim, sigo sem sono, acordado por “ela”, atento a “ela”, seguro de que sua finalidade sem fins (lucrativos) é o seu maior ganho, certo de que “ela”, a “poesia”, é a inutilidade (um objeto sem finalidades definidas) mais útil que conheço.
 
poesia:
 
sua natureza é selvagem, indomável, natureza que não se pode captar inteira:
 
brasa, em página branca, que brilha queima ilumina: 
 
a lógica desavergonhada de um animal no cio.
 
(salve a sua vida na minha!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metalíngua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)
 
 
 
dormir dormir e dormir
e acordar num outro mundo
sem pressa ou dinheiro
nem políticos
sem mim
eu seria um outro
alguém com a juventude de Iessiênin
a perna esquerda quebrada de Quintana
e a lógica desavergonhada de um animal no cio
 
quem sabe um poeta bissexto!?
 
dormiria um milênio inteiro
e acordaria com o grito das pedras.
feliz. sem lembrar quem fui o que fiz
 
mas que vigília malfadada
me permite apenas sonhar
por dentro de palavras acesas por dentro
a velar esperanças vãs como brasa no cinzeiro

O LEGADO DA TRAVESSIA
13 de outubro de 2011

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madrugada.
 
viajante que sou, homem dado às nuances do mundo, às observações do entorno,
 
parto sem norte, parto sem traçar direção, deixando que o caminho fale por mim, no pouco mar da aurora que nos cabe, mar pouco porque escassas as águas desta nossa vida, vida tão breve, tão curta.
 
viajante que sou, parto, avante, lerda ave, parto, pássaro vagaroso (vagaroso porque sigo a minha rota de olho no meu entorno), fugindo do tempo que não me deixa dele fugir.
 
lerda ave, pássaro vagaroso, o meu sentido, o meu norte, é somente a viagem: nem partida, nem retorno: só o vôo, breve, vôo de uma existência riscando a tarde. 
 
viajo, lerda ave, viajo, senhor das velas, senhor do sextante (instrumento que permite medir, a bordo de um navio, a altura dos astros e suas distâncias angulares), viajo, senhor das estrelas. e, no percurso, o que me falta é chegar, coisa que não almejo, pois o bom da viagem é justamente a estrada, que vamos construindo passo a passo, no dia-a-dia, dia-a-dia que passa como passa o passarinho, dia-a-dia que passa como passam o sonho & o desespero. 
 
a hora, descarnada, a hora, etérea, não lembra, não tarda, não falha: a hora passa. ela nomeia a todos, convoca os deuses (à lida da vida), e, sem demora, vira a página.
 
hora passada, página virada, assunto encerrado, capítulo escrito & deixado para trás, capítulo que não mais pode ser relido.
 
frente ao tamanho do mar existencial, as águas que temos a percorrer são parcas. é pequeno & breve o destino do seu sonho, e do meu.
 
portanto, se pequeno & breve o destino dos nossos sonhos, trilhemos o caminho na certeza de que fazemos o melhor por nós. 
 
este é o único legado nosso à posteridade: mostrar-lhe o quanto tudo pode ser melhor se, de fato, fazemos o melhor por nós.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
MADRUGADA
 
 
Viajante
parto
no pouco mar
desta aurora
 
Parto
sem norte
lerda ave
fugindo do tempo
 
 
 
AVE
 
 
Nem partida
nem retorno
o voo breve
riscando a tarde
 
 
 
TRAVESSIA
 
 
Nesta nau
trago imagens
e a brisa
que me sopra
 
Viajo
senhor das velas
do sextante
e das estrelas
      Só me falta
      chegar
 
 
 
DO TEMPO
 
Para José Mindlin
 
 
Hora descarnada
não lembra
não tarda
hora rasa
nomeia a todos
convoca os deuses
e sem demora
vira a página
 
 
 
LEGADO
 
 
Não há dor
partilhável
nem lamento
que se ouça
 
É pequeno
o destino
do teu sonho
e do meu
 
Se alguém
te viu passar
se o caminho
te pertence
    segue
e sorri

O ESTUDANTE EMPÍRICO: CONTEMPLA O MUNDO & A NOITE
27 de setembro de 2011

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eu, estudante empírico, estudante que experimenta & observa, fecho o livro. e contemplo.
 
a contemplação, a observação, do entorno, daquilo onde somos & estamos.
 
a história humana nos mostra que o conhecimento é fruto da observação & experimentação do mundo.
 
eis o globo: o planisfério terrestre, o planisfério celeste, o horizonte, redondo, a ilusão dos firmamentos (dos céus, do que enxergamos deles aqui da terra), a ilusão dos firmamentos (de tudo aquilo que usamos de sustentação, de fundamento, alicerce, aos nossos conhecimentos), e a nossa existência, em meio a tudo…
 
eis o compasso, o esquadro, que traçam, projetam, linhas & desenhos, caminhos exatos, eis a balança, eis a pirâmide, o cone, o cilindro, o cubo, eis o peso, a forma, o volume, a proporção, as equivalências, das coisas no mundo.
 
e o nosso itinerário, sem régua, compasso ou esquadro, caminhos inexatos, sem uma forma precisa, sem que saibamos ao certo muitas coisas no mundo.
 
saem os mistérios das suas caixas: desenrola-se o mapa do esqueleto, com os ossos & seus nomes; o mapa do corpo, com suas veias & artérias, vasos que se ramificam e formam tipos de galhos, árvores, e o sangue, de cor azul na página, desenhando sua floresta; o mapa do corpo, com seus órgãos diversos & suas funções diferenciadas, além de enigmáticas: os órgãos são como esfinges certeiras, e certeiras porque, ainda que enigmáticas, cumprem o seu trabalho em prol do funcionamento harmônico do organismo.
 
hoje, os dinossauros são carros de triunfo, enormes, pesados, suntuosos, reduzidos à armação (ao esqueleto). enquanto isso, no olho profundo do microscópio, a célula se anuncia, e anuncia a vida, o início, alfa, o surgimento.
 
e o nosso destino…
 
(será que, um dia, o mesmo destino dos dinossauros? será que, um dia, a humanidade reduzida à sua armação?…)
 
o professor escreve no quadro: alfa & ômega.
 
alfa & ômega: respectivamente, a primeira & a última letras do alfabeto grego clássico, letras que, simbolicamente, representam o princípio & o fim, isto é, a totalidade das coisas, a sua durabilidade.
 
o todo. o eterno.
 
alfa & ômega: o cristianismo associa a figura de jesus às letras gregas, simbolizando a eternidade de cristo, que: está no começo de tudo (alfa) & tudo acompanha, até o fim do mundo (ômega).
 
alfa & ômega: o todo. o eterno. o universo.
 
a luz de sírius, estrela mais brilhante no céu, ainda lança, com seu brilho & as histórias sobre seu brilho, escadas em contínua cascata.
 
lentamente, subo (as escadas lançadas por sírius), fecho os olhos e lanço-me no espaço & na sua imensa escuridão, onde cabem todos os mistérios do universo, e sonho saber o que não se sabe simplesmente acordado.
 
simplesmente acordado, e atento, não basta para saber o que não se sabe.
 
o mundo fala uma língua muda, que a nada responde:
 
o alfa (o princípio) & o ômega (o fim): de onde? para onde? a que propósito? com que finalidade? alguma? será?
 
silêncio…
 
grande aula, a do silêncio.
 
ensina-nos a ver de longe a vida, sem interrogá-la.
 
(a resposta está além dos deuses: https://prosaempoema.wordpress.com/2011/06/21/aniversario-35-primaveras/.)
 
assim como a do silêncio,
 
grande aula, a da noite.
 
a noite: uma escuridão tão envolvente, parece um exercício de morte:
 
tudo vai desaparecendo (sem a luz artificial para clareá-la). desaparecemos dos outros, e desaparecemos de nós.
 
a noite: a escuridão: o sono que nos assalta e que, como a noite, nos envolve num exercício de morte.
 
o sono é um tipo de noite que nos assalta & envolve.
 
apenas respiramos. basta cortar esse último fio, fio que nos mantém conectados, fio da respiração, e o tear que somos (tantas as tramas urdidas com os fios da existência) se imobiliza.
 
a noite esconde a terra, o céu, a casa, os rostos dos senhores.
 
quando de noite, quando no sono, em que entranha me animo? onde se enrola o novelo da minha memória, em que cofre fica trancafiado?…
 
(nossas asas estão docemente fechadas e nossos olhos moram no pensamento, longe da realidade mundana que os circunda.)
 
cada um tem a sua noite. cada coisa.
 
o dia é um bailarino com sinos & espelhos: a dançar, chamando a atenção de todos para si, balançando os sinos para alardear-se, e refletindo a vida viva, em todos os cantos, nos seus espelhos.
 
de repente: acordamos. de repente: interrompemos a treva onde aprendíamos, com os sonhos, lembranças; e somos, de repente, uns falsos acordados, porque, ainda que acordados, continuamos a sonhar, fincamos pés no reino das ilusões.
 
a vida: um palco de ilusões sobrepostas.
 
que, nesse palco, saibamos bem representar os papéis que nos cabem, e que tais papéis nos levem, sempre, ao encontro de um feliz final.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia completa — volume II. autora: Cecília Meireles. organização: Antonio Carlos Secchin. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
O ESTUDANTE EMPÍRICO
 
 
Eu, estudante empírico,
fecho o livro e contemplo.
 
Eis o globo, o planisfério terrestre,
o planisfério celeste,
o redondo horizonte, a ilusão dos firmamentos.
 
E a nossa existência.
 
Eis o compasso, o esquadro,
a balança, a pirâmide, 
o cone, o cilindro, o cubo,
o peso, a forma, a proporção, as equivalências.
 
E o nosso itinerário.
 
Saem das suas caixas os mistérios:
desenrola-se o mapa dos ossos, com seus nomes;
o sangue desenha sua floresta azul;
cada órgão cumpre um trabalho enigmático:
estamos repletos de esfinges certeiras.
 
E o nosso corpo.
 
E os dinossauros são como carros de triunfo,
reduzidos à armação;
e no olho profundo do microscópio
a célula se anuncia.
 
E o nosso destino.
 
O professor escreve no quadro o Alfa e o Ômega.
 
A luz de Sírius ainda lança escadas em contínua cascata.
E lentamente subo e fecho os olhos
e sonho saber o que não se sabe
simplesmente acordado.
 
Grande aula, a do silêncio.
 
 
 
A NOITE
 
 
A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.
 
Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.
 
A noite esconde a terra, o céu, a casa,
os vossos rostos.
 
Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?
 
Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.
 
Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.
 
O dia é um bailarino com sinos e espelhos.
 
Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.