COMEÇA O ANO — NADA COMEÇA: TUDO CONTINUA — EM BUSCA DOS DIREITOS À VIDA
5 de janeiro de 2017

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(Fim de 2016)

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(Início de 2017)

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(Mas nada começa: tudo continua)
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costumamos dizer: no dia primeiro de janeiro, começa o ano.

porém, nada começa: tudo continua.

onde estamos, que lugar do mundo ocupamos, que vemos só passar?…

costumamos dizer: a idade passa. o tempo passa. a vida passa. quando, em verdade, somos nós, seres humanos, quem passamos.

somos nós, seres humanos, quem passamos, porque somos nós os seres transitórios, breves, finitos, na rota das nossas viagens no escuro.

o dia muda, lento, no amplo ar; a água nua flui, múrmura (murmurante), em sombras.

o dia, as suas mudanças, o amplo ar, a água nua que flui em sombras: todas essas coisas vêm de longe; só nosso vê-las, só nosso ver essas coisas, teve começar.

em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo (quanto mais mergulhamos na busca do começo do universo, ou mesmo do planeta terra, menos alcançamos tal “começo”, pois ninguém, nenhum de nós, esteve na gênese do mundo para afirmar categoricamente como foi que tudo começou) & o começo também é ausência (já que nunca alcançamos o começo do universo, ou mesmo do planeta terra, tal “começo” faz-se ausência aos nossos olhos & conhecimento). em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo & ausência.

portanto, nenhum ano começa. todo ano é pura eternidade. tudo continua. agora, amanhã, sempre: a mesma eterna idade. a eternidade é o precipício, é o abismo, é o fundo inexplorável, de deus sobre o momento nosso de cada dia vivenciado.

e tudo é o mesmo sendo sempre diferente: na curva do amplo céu, o dia esfria, o dia finda, para a chegada da noite & posterior retorno do dia; a água corre mais múrmura — mais murmurante — & sombria no esfriar do dia.

nada começa: tudo continua & é o mesmo — sendo sempre diferente: e verbo (e palavra, e discurso) o pensamento, como sempre foi desde que começamos a habitar este mundo.

o mundo é mudo. precisamos do verbo, isto é, precisamos do pensamento, da palavra, do discurso, para poder nele — no mundo — habitar.

e precisamos também respeitar o direito à vida de todos que habitamos este planeta. precisamos respeitar as diferenças, respeitar as individualidades, respeitar as vontades. precisamos viver & deixar viver.

que este ano/momento nos venha menos árduo & mais apto a grandes & belas realizações.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia [1918 — 1930]. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

COMEÇA HOJE O ANO

 

Nada começa: tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

[1-1-1923]
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(do livro: Poeta não tem idade. autor: Moraes Moreira. editora: Numa.)

 

 

CORDEL DOS DIREITOS HUMANOS

 

Há mais de sessenta anos
A grande declaração
Um dia foi proclamada,
Para cumprir os seus planos
Percebe cada nação
Que a luta é cerrada

Tivemos algum avanço
Na dança desses processos
Mudanças a passos lentos,
Mas não teremos descanso
Diante dos retrocessos
Até que soprem bons ventos

Desejos e utopias
Sonhos que não têm idade
Anseios que são antigos
Trafegam por estas vias
Lições de humanidade
Dispostas em seus artigos

Respeito e dignidade
Buscando em todos os pleitos
Nascemos livres, iguais
Nas mãos da fraternidade
Assim por Deus fomos feitos
Moldando o barro da paz

E temos capacidades
Pra gozar sem distinção,
E na condição que for,
Direitos e liberdades
De raça e religião
De sexo, língua e cor

Acima de tudo, a vida,
Que seja ela um troféu
Uma conquista incessante
E nunca submetida
A um tratamento cruel,
Desumano ou degradante

Cientes dos seus deveres
Perante a lei sendo iguais
Mesmo que a todo custo,
Que tenham todos os seres
Diante dos tribunais
O julgamento mais justo,

Que venham lá desses templos
As decisões que respondem
Com força e autoridade,
Que sirvam, sim, como exemplos
Para aqueles que se escondem
Nas sombras da impunidade

Queremos todos os elos
Formando a grande corrente
Da solidariedade,
Rumos assim paralelos
Queremos já, é urgente
A nova sociedade

Que, enfim, sentimentos novos
Formando laços estreitos
Estabeleçam a paz,
Guiando todos os povos
À luz dos nossos direitos
Humanos e universais!

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AO NOSSO AMOR, UMA ETERNA ESTRÉIA
19 de outubro de 2016

paulo-sabino-jurema-armond

(Há pouco tempo, indo votar — ela, já desobrigada.)

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(A figa, antes do meu pai, agora minha.)
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“PAULO SABINO, meu irmão,

Que lindo o seu poema para a ‘nossa mãe’! Desejo para a ‘CABOCLA JUREMA’ uma longa e boa vida, alegria e… Axé! Muito Axé! Com abraços, MARTINHO DA VILA.”

(Martinho da Vila — cantor & compositor)

 

 

Que alegria! Vê-la completar o seu septuagésimo quarto ano novo (74) lúcida, recém-recuperada de um problema no cérebro.

Em junho, há exatos 4 meses, me perguntava como seria este dia para ela & para mim, com o medo de que ela ainda estivesse doente.

Escrevi o texto que segue em itálico para amigos bem no início do mês de julho:

 

Queridos & Queridas,

Há quase 2 meses, a minha mãe, peça fundamental da minha existência, a grande responsável pelo meu amor à literatura e, mais especificamente, à poesia, a minha cabocla Jurema Armond, não anda bem da saúde.

Estamos na luta para diagnosticar o que, há quase 2 meses, vem causando nela uma fraqueza grande nas pernas & nos braços (precisa de ajuda para absolutamente tudo: para levantar, sentar, deitar, comer, tomar banho) & uns desnorteios de tempo & espaço (agora há pouco tive que consolá-la, ela estava aos prantos, desejando chegar em casa, chegar no lugar de onde ela não sai há quase 2 meses, não contando as saídas para consultas médicas & exames).

Tem sido bem difícil para mim. Sou filho único, meu pai já não está mais entre nós, e sou eu só a tomar as decisões sobre a saúde da minha cabocla, a gerir a casa & as contas. Cansaço emocional & físico imensos.

Hoje, procurando travessas & potes aqui em casa, a fim de organizar a cozinha para a pessoa que me ajudará com a casa duas vezes na semana, me deparei com esta figa de madeira do meu pai, de cuja existência nem mais me lembrava. Chorei tanto ao vê-la, ao tocá-la, tudo tão simbólico neste momento — encontrar na estante da sala uma figa, e que era do meu pai, de quem, pela sensibilidade & humor ímpar, sinto tanta falta, inda mais num momento como este…

Agora ela está na minha mesa de trabalho, acompanhada das minhas outras pequenas preciosidades. Está, na mesa, exatamente de frente para mim.

Tomara que esta figa, antes do meu pai, agora minha, me traga a sorte & o axé necessários na melhoria desta situação.

E conto com as preces & orações & energia positiva de quem acredita em preces & orações & energia positiva. Incluam a minha cabocla Jurema Armond em seus pedidos de saúde & recuperação. Torçam comigo.

E vamos que vamos. A vida urge, o tempo não pára.

 

Depois de muitos medos, muitas incertezas, muitas dificuldades, muitas lágrimas, e muitos exames, no início de agosto conseguimos o diagnóstico & desde então ela só faz melhorar.

O poema que segue, eu o escrevi para ela há muitos anos. Mais do que nunca, faz todo o sentido publicá-lo hoje, 19 de outubro, em homenagem à minha cabocla.

Mais do que nunca, depois deste mau tempo que atravessamos, o sol da saúde desponta com a sua luz & o seu calor, mostrando-nos que a vida renova-se a cada instante, que, por isso, a vida é uma eterna estréia. Nunca sabemos que momento da trama nos aguarda no próximo capítulo; o script/roteiro é escrito no decorrer de cada cena.  Com isso, o amor também faz-se & refaz-se a cada vivência nossa.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, eu só posso desejar que o céu aberto de dias azuis permaneça límpido, sem mudanças tão bruscas.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, a conclusão de que, aqui, o amor existe — firme, forte, em riste.

Graças!

Feliz aniversário! Feliz 74 primaveras vencidas!

Beijo todos & especialmente a minha cabocla Jurema Armond!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ESTRÉIA

 

te  escrevo  porque

te  mereço,

porque  és  diva,

a  dama  divina

—  mulher  maravilha

da  minha  ilha

cercada  de  carinhos

por  todos  os  lados —.

todos  os  cafunés,  todas  as  lágrimas  e  desabafos

é  onde  me  acabo  em  ti.

por  ti  meu  riso  ri,

por  isso  minha  prece,

minha  missa.

minha  oração  se  aquece

em  teus  escaninhos,  teus  desalinhos,  teus  achados.

assim  é  que  te  amasso,

te  acho,

te  cato.

porque  humana  sem  desacato.

eu  te  amo  e  é  outra  estréia,

sem  vida  histérica,

sem  amor  estéril.

pelo  contrário,  é  amor  de  império,

o  carinho  sem  enterro  e  cemitério,

a  poesia  livre  de  impropério.

és  o  meu  hemisfério,

o  meu  norte,

os  versos  sem  corte.

eu  te  amo  e  não  há  miséria,

há  beleza,  há  estética

—  revelação, reverberação

que  insiste

em  mostrar  ao  mundo  triste

que,  aqui,  o amor  existe:

firme

forte

em  riste —.

LICENÇA!
5 de maio de 2015

Paulo Sabino_Sarau Lgo das Neves_Março 2015

(Paulo Sabino, na leitura de poemas, num dos saraus que vem organizando com amigos.)
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licença, que eu vou cantar, porque cantar é uma bênção.

cantar, isto é, dizer poesia, isto é, escrever poesia, isto é, escrever sobre poesia: uma grande dádiva, um grande presente da vida.

digo & repito: a poesia afia, atiça, aguça, agita, minhas sensibilidade & inteligência. além de ser lugar onde as palavras podem receber os mais arriscados & belos manejos lingüísticos.

eu peço licença para cantar: quem se julga & se pensa capaz de vibrar o canto, assim, sem pedir licença, saiba que a voz é sentença de prender ou libertar, e quando vai pelo ar pode trazer recompensa mas também pode atrasar: o poder atribuído às palavras, de fazer o bem ou de fazer o mal, o poder atribuído às palavras, de materializar alguns pedidos feitos com a voz, sejam pedidos bons ou ruins. a voz, o canto, se dão através da vibração das cordas vocais. antes, é imprescindível vibrar. a voz, o canto, se fazem de vibrações. cantar é vibrar bem ou vibrar mal para alguém ou alguma coisa.

licença, que eu vou cantar, porque cantar é uma bênção.

o canto na imensidão, o canto lançado no ar, é ação & movimento (a ação de cantar os versos, o movimento inerente no dizer as palavras), é força em deslocamento, criação, reprodução: é grão plantado no chão, brotando como alimento, é centelha no momento que se torna combustão. sem dúvida, o verso é o que pode lançar mundos no mundo, é o mais saboroso & nutritivo alimento anímico. poesia é a arte que trabalha, sobretudo, com deslocamentos de linguagem nos seus mais variados sentidos, a fim de que a linguagem alcance & aponte caminhos, atalhos & desvios os mais sortidos; a fim de que afiem, aticem, agucem, agitem, minhas sensibilidade & inteligência.

o canto na imensidão, o canto lançado no ar: mensageiro, guardião, senhor dos quatro elementos, senhor de tudo que vibra (o canto é vibração pura), me dê seu consentimento para eu cantar nesta função: na função de louvá-lo por toda beleza que vejo no canto, por toda beleza que absorvo, respiro, inspiro, e que me inspira, me cativa, me arrebata.

licença, sempre que cantar, porque cantar é uma bênção.

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Nei Lopes. livro: Poétnica. editora: Mórula Editorial.)

 

 

LICENÇA!

 

Licença, que eu vou cantar
Porque cantar é uma bênção
E quem se julga e se pensa
Capaz de o canto vibrar
Assim, sem pedir licença
Saiba que a voz é sentença
De prender ou libertar
E quando vai pelo ar
Pode trazer recompensa
Mas também pode atrasar.
Licença, que eu vou cantar
Porque cantar é uma bênção.

O canto na imensidão
É ação e movimento,
É força em deslocamento
Criação, reprodução.
É grão plantado no chão
Brotando como alimento,
É centelha no momento
Que se torna combustão.
Mensageiro, guardião
Senhor dos quatro elementos
Me dê seu consentimento
Pra eu cantar nesta função.

PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA
22 de abril de 2015

Areia & Mar
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o homem, para viver por entre as coisas, antes, precisa pensar as coisas.

o homem, para viver por entre as coisas, precisa nomeá-las, ordená-las, classificá-las, conceituá-las, a fim de que o mundo não lhe seja um completo caos.

o mundo é mudo. o grão de areia não se diz grão de areia, o lago não se diz lago, o mar não se diz mar, o tempo não se sabe tempo: as coisas, no mundo, apenas estão, as coisas apenas são, sem questionar, sem perguntar, sem pressupor, as coisas apenas seguem o seu caminho de coisas.

lagos & rios & mares & pedras não se pensam “fundo” ou “raso”, “grande” ou “pequeno”, “belo” ou “feio”, “rápido” ou “devagar”, “seco” ou “molhado”: somos nós quem pensamos as coisas desse modo, somos nós quem precisamos conceituar, classificar, categorizar, as coisas no mundo mudo, na tentativa de apreendê-las, de ordená-las, de compreendê-las.

o grão de areia ter caído no parapeito da janela é uma aventura nossa, aventura de quem assistiu à queda, aventura de quem imaginou a cena, e não de quem a vivenciou (o grão de areia): para ele é o mesmo que ter caído em qualquer coisa, sem a certeza de já ter caído, ou de ainda estar caindo.

da janela avista-se uma bela paisagem, mas a paisagem não vê a si mesma. existe, neste mundo, sem cor & sem forma, sem som, sem cheiro, sem dor (“cor”, “forma”, “som”, “cheiro”, “dor”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

o fundo do lago não possui fundo, nem margem as suas margens, e sua água, nem molhada nem seca (“fundo”, “superfície”, “margem”, “meio”, “molhado”, “seco”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

nem singular nem plural a onda que murmureja surda ao seu próprio murmúrio, ao redor de pedras nem grandes nem pequenas (“singular”, “plural”, “murmúrio”, “silêncio”, “grande”, “pequeno”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

e tudo isso por debaixo de um céu, por natureza, inceleste, no qual o sol se põe, na verdade, não se pondo, e se oculta, não se ocultando, atrás de uma nuvem insciente, nuvem que oculta o sol sem a consciência de ocultá-lo (“celeste”, “terreno”, “aquático”, “nascente”, “poente”, “ocultar”, “revelar”: conceitos que criamos para as coisas no mundo, na tentativa de apreendê-las, apreendê-las a fim de vivenciá-las).

o vento varre a nuvem, onde o sol se ocultava, sem outra razão que a de ventar.

passa um segundo. dois segundos. três segundos. mas são três segundos somente nossos, porque o tempo não se sabe tempo (“passado”, “presente”, “futuro”, “ontem”, “hoje”, “amanhã”, “dia”, “mês”, “ano”: conceitos sem os quais o bicho homem não conseguiria fazer valer a sua existência no mundo).

“o tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes”: a sentença é só um símile nosso, a sentença é só uma metáfora, criada à nossa imagem & semelhança: uma personagem inventada (o tempo mensageiro), a sua pressa imposta (o tempo é sempre o mesmo a passar, não corre nem desacelera), e a notícia inumana (o tempo não é mensageiro de coisa alguma nem tampouco carrega notícia — ele não nos fala, ele não nos escuta, ele não nos enxerga: alheio a tudo & todos).

o tempo passa, parado no tempo, para que passemos, transitórios & perecíveis.

o mundo é mudo. e a experiência humana, um grande delírio detido em palavras.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Wislawa Szymborska. tradução: Regina Przybycien. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA

 

Nós o chamamos de grão de areia.
Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.
Dispensa um nome
geral, particular
passageiro, permanente,
errado ou apropriado.

De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.
Não se sente olhado nem tocado.
E ter caído no parapeito da janela
é uma aventura nossa, não dele.
Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa
sem a certeza de já ter caído,
ou de ainda estar caindo.

Da janela há uma bela vista para o lago,
mas a vista não vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.

Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água.
Nem singular nem plural a onda
que murmureja surda ao seu próprio murmúrio
ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.

E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,
no qual o sol se põe na verdade não se pondo
e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem
…………………………………………………………………..[insciente.
O vento a varre sem outra razão
que a de ventar.

Passa um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Mas são três segundos somente nossos.

O tempo correu como um mensageiro com notícias
…………………………………………………………………..[urgentes.
Mas isso é só um símile nosso.
Uma personagem inventada, a sua pressa imposta
e a notícia inumana.

INVADE-ME, Ó VERSO, E A SUA ÁUREA AURORA
17 de março de 2015

Pássaros_Amanhecer
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vem, ó verso, invade-me, toma meu espírito de assalto, põe os teus olhares sobre a minha arte, deixa-me cantar-te, ó verso, dá-me astúcia & dons a fim de elaborar-te.

ó verso, vem sustentar-me com a tua carne, de palavras, metros (metro: medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso) & sons, ó verso, vem confortar-me com teus ares bons. traze-me as sinapses capazes de tudo, capazes de realizar as mais belas proezas em verso (sinapse: local de contato entre os neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra), traze-me, ó verso, os tais tons da felicidade, tons que só a tessitura da tua carne, feita de palavras, metros & sons, é possível de trazer.

(metro: medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso: o primeiro poema da seleção conta com versos de 5 sílabas, também chamados de redondilha menor.)

vem, ó verso, invade-me, toma meu espírito de assalto, põe os teus olhares sobre a minha arte, deixa-me cantar-te, ó verso, dá-me astúcia & dons a fim de elaborar-te: e é assim, dando espaço ao verso na minha vida, que um pássaro festeja a áurea aurora, um pássaro festeja o amanhecer dourado, radiante, em mim, agora. um instante raro, um instante caro, um instante de puro amor.

tudo lá fora, no mundo, a passar, e aqui, dentro de mim, o pensar se cora, o pensamento ganha um colorido, de amor tão claro.

para erato, a lira & o verso imploro (erato: na mitologia grega, uma das nove musas, filha, como todas as suas irmãs, de zeus & mnemósine, a musa da poesia lírica, particularmente a de temática amorosa).

servo do verso (verso & servo formam-se das mesmas letras), e servo canoro, servo melodioso, servo que procura cantar bem, cantar acertado, cantar no tom, moro em ritmos para erigir a voz que adquirira, moro em ritmos para erguer a voz que alcançara, voz poética que procura, acima de tudo, o verso limpo, o verso bom.

que a poesia nunca me falte à boca & que eu sempre possa comparti-la como pão, como o mais nutritivo & saboroso alimento anímico.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antípodas tropicais. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)

 

 

VEM, Ó VERSO, INVADE-ME

 

Vem, ó verso, invade-me,
Põe os teus olhares
Sobre a minha Arte,
Deixa-me cantar-te,
Dá-me astúcias e dons.

Ó, vem sustentar-me
Com a tua carne
De metros e sons,
Ó, vem confortar-me,
Nesta tensa tarde,

Com teus ares bons,
Traze-me as sinapses
De tudo capazes,
Traze-me os tais tons
Da felicidade.

 

 

A ÁUREA AURORA
Para Gal Oppido

 

Festeja um pássaro
A áurea aurora
Em mim, agora.
Que instante raro!

Tudo lá fora
A passar, o
Pensar tão claro
De amor se cora.

Pra Erato a lira
E o verso imploro.
Servo canoro,

Em ritmos moro,
Pra erigir a
Voz que adquirira.

REINAUGURAÇÃO
26 de dezembro de 2014

Fogos de artifício sobre o mar______________________________________________________

entre o gasto dezembro, o dezembro desgastado, o dezembro usado, o dezembro que encerra o fim de um ciclo de doze meses, e o florido janeiro, o janeiro em flor, o janeiro repleto de desejos, o janeiro que inaugura o início de um ciclo de doze meses, entre a desmitificação (trazida pelo ano que finda, já gasto) & a expectativa (trazida pelo ano que começa, florido), tornamos a acreditar num futuro melhor, voltamos a ser bons meninos, e, como bons meninos, reclamamos a graça dos presentes coloridos, reivindicamos a dádiva dos presentes desejados.

nossa idade — velho ou moço — pouco importa.

importa é nos sentirmos vivos & alvoroçados mais uma vez, uma vez que ânimo & boa disposição são mais que necessários se se deseja enfrentar a cara feia do mundo cruel, importa é nos sentirmos revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos, a beleza irretocável que vem dos gestos lhanos, dos gestos sinceros, dos gestos puros, dos gestos verdadeiros, e revestidos do profundo instinto de subsistir, de perdurar, de continuar a existir, enquanto as coisas em redor se derretem & somem como nuvens errantes no universo estável, enquanto as coisas em redor findam & somem — como as coisas têm de findar & sumir.

prosseguimos. reinauguramos. abrimos olhos gulosos a um sol diferente — prenhe de desejos luminosos — que nos acorda para os descobrimentos (“o futuro a deus pertence”, diz o dito popular).

esta é a magia do tempo, esta é a colheita particular, a colheita de cada um, a magia & a colheita que se exprimem no cálido abraço & no beijo comungante da virada do ano, a magia & a colheita que se exprimem no acreditar na vida & na doação de vivê-la em perpétua procura & perpétua criação: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

assim, desse modo, já não somos apenas finitos & sós: somos uma fraternidade, somos um território, somos um país (tamanha força creditamos em nós & no outro), que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro & desenvolve na luz o seu frágil, o seu delicado, o seu sensível, projeto de felicidade.

flui a vida como água, pois, como água, a vida se renova, a vida passa & não volta: assim como água, é sempre outra a vida a passar.

se a vida me foge, se de mim a vida parece afastar-se, afago-a em cada esperança nova: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

sigamos bem. sigamos juntos.

um feliz 2015!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

FLUI A VIDA COMO ÁGUA

 

Flui a vida como água,
como água se renova.
Se a vida me foge, afago-a
em cada esperança nova.

 

 

REINAUGURAÇÃO

 

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

TRATO DE VIAJANTE: AMANHÃ AO AMANHÃ
16 de dezembro de 2014

Arpoador_Alvorada

(Das pedras do Arpoador, o sol a leste, por volta das seis da manhã.)
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não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

por isso não deixo para amanhã o que posso fazer hoje.

pois amanhã é o amanhã. como diz o dito popular: o futuro a deus pertence.

o importante, portanto, é viver o hoje. quero a preparação do amanhã pelo dia de hoje. vivendo o hoje intensamente, dia após dia, o futuro, inevitavelmente, resultará também em tempo intensamente vivido. a conquista do hoje é a conquista de amanhã.

o “não” é o preparo do “sim”. o “não” é a capacitação, é a aptidão, é a confecção, é a fabricação, do “sim”. dizer “não”, hoje, para muitas coisas, significa, no fundo, dizer “sim” para muitas outras que, no futuro, resultarão em ganhos.

o “não” é o preparo do “sim”. o “hoje” é o preparo do “amanhã”.

quando jovem, isto é, antes, no passado, normalmente as nossas preces, os nossos desejos, eram sempre para o amanhã. projetamos, quando jovem, muito do nosso bem-estar existencial, da nossa alegria de vida, da nossa satisfação íntima, no futuro. e o hoje, isto é, o tempo que era vivido, o presente à época, era uma dança de possíveis, era uma movimentação em prol de algumas possibilidades que nos permitia a idade tenra. as preces, os desejos, ao invés de voltados ao presente, estavam voltados ao futuro.

hoje, tempo presente, homem adulto, não consigo pensar no amanhã, tão cheio de ameaças, tão cheio de intimidações, tão cheio de atemorizações, é o hoje, tão cheio de descrenças & medos. a minha atenção, hoje, é voltada às conquistas de se viver bem o instante que se dá agora, já, neste momento.

tenho frio nesses dias de inverno, dias cheios de ameaças, de intimidações, de atemorizações.

qual a conquista do presente a vida me reserva? um novo poema? uma viagem desejada? um encontro feliz?

qual o saber no amanhã meu dia revelará?

a essas perguntas, hoje, não tenho as respostas. não as tenho e, ainda que quisesse, não as teria.

como, do caminho, só temos os passos, e o futuro a deus pertence (diz o dito popular), proponho um trato de viajante, um acordo de quem está nesta grande viagem que é a vida: ir & voltar para nunca mais.

ir sempre adiante & permitir-se um único retorno: a volta para “nunca mais”, o regresso contínuo & ininterrupto para a certeza de que a vida é feita de partidas, é feita de perdas (a cada passo dado, um a menos na estrada), e de que, por conseguinte, vamos para nunca mais voltar.

chorar o choro do desprezo, o choro do descaso, do desapreço, da indiferença (a vida é perda: a cada passo dado, um a menos na estrada), e instalar, e instaurar, a fatalidade dos desafios (fatalidade difícil de encarar porque traz inseguranças & medos), instalar a fatalidade — dos desafios — por entre as vias & vieses trilhafora.

chamar pelo nome de deus de pouco adianta. na verdade, acho que de nada adianta.

despossuídos, desapossados, destituídos (pois nada se leva deste mundo), mantendo a pose de que possuímos amparo divino, de que possuímos amparo vindo dos céus, de que possuímos amparo logo do espaço escuro mudo, onde nem som se propaga.

e a pose que tentamos manter, isto é, a postura, a afetação, que tentamos sustentar, não diz nada, não diz o que somos (a imensa diferença entre o que parecemos ou pensamos ser & o que realmente somos), se é que, depois de tanta pose, tanta postura, tanta afetação, ainda sobra espaço para o eu, para o que somos verdadeiramente.

não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

sigamos bem. sigamos juntos.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Rastros. autora: Vera Casa Nova. editora: 7Letras.)

 

 

AMANHÃ

 

Não deixo para amanhã
O que posso fazer hoje.
Pois amanhã é o amanhã
Quero a preparação do amanhã
Pelo dia de hoje.
A conquista do hoje
É a conquista de amanhã.

 

O não é o preparo do sim.

 

Quando eu era jovem
Minhas preces eram sempre para o amanhã.
E o hoje era uma dança de possíveis.
Hoje, não consigo pensar no amanhã
Tão cheio de ameaças é o hoje
Tão cheio de descrenças e medos.
Tenho frio nesses dias de inverno
Qual a conquista do presente me reserva a vida?
Qual o saber no amanhã revelará meu dia?

 

 

TRATO DE VIAJANTE

 

Ir e voltar para nunca mais
Refazer caminhos
E gritar
Chorar o choro do desprezo
E instalar a fatalidade
Por entre as vias e os vieses.
Chamar pelo nome de deus
De pouco adianta.
Despossuídos, mantendo a pose.
E tua pose não diz mais nada,
Nem o que tu és,
Se é que ainda és um eu.

WAVE
6 de maio de 2014

Barco a vela

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para Péricles Cavalcanti, pelo seu aniversário hoje

 

wave: palavra da língua inglesa que significa: onda: eis, aqui, a minha grande onda:

gasto muitos cardumes de versos compondo músicas para a vida: gasto gestos louvando a vida: gasto vida por ela (pela vida): e faz sentido o gasto, o pasto, o boi, o homem: plantios diversos: faz sentido uma série de gastos que promove o bem-estar existencial: plantios diversos: o aconchego da pessoa amada, a comida cheirosa posta à mesa, o encontro com o mar, a luz de um dia outonal, o sorriso dos amigos, a leitura de poemas.

temos vida em cada cova que nos cava a vida, ou que cavamos na vida, com o passar do tempo, pois, em cada cova, uma experiência que marca mas que passa, a fim de que uma outra chegue: em cada cova escavada, seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais, a renovação da vida que nos vê passar trilhafora.

gasto dias poemando a vida, homenageando-a, celebrando-a: punheta adolescente: prazer aprendiz, gozo gostoso, vontade alegre de permanecer dentro da vida, de pertencer a ela, apesar dos pesares.

em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta (seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais), minha poesia de navio, de barco, minha poesia itinerante, errática, minha poesia destinada a navegar sempre; em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta, minha poesia vela, cuida, zela.

em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta (seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais), minha poesia de navio, de barco, minha poesia “vela”, minha poesia peça de tecido usada para a propulsão eólica da embarcação em que sigo singrando os mares da vida, eu, o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Euteamo e suas estréias. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

 

WAVE

 

Gasto muitos cardumes de versos
compondo músicas pra vida
Gasto gestos louvando a vida
Gasto vida por ela
e faz sentido o gasto
o pasto
os bois
o homem
plantios diversos.
Temos vida em cada cova
Cada uma
se renova
pra nos ver passar.

Gasto dias poemando a vida
homenageando-a
celebrando-a
punheta adolescente

Em nome dela
minha poesia
de navio
de barco
minha poesia vela.

DESEJO INCONTIDO: O AMOR & O TEMPO
12 de março de 2014

RM 1

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para r.m.

 

no amor, nada, além do amor, importa.

o tempo não faz a menor diferença: voa ou se arrasta, dependendo, única & exclusivamente, da maré do amor.

o meu amor, eu o deixei fisicamente no domingo passado. hoje, quarta-feira. nem três dias ainda completos. a saudade, a vontade, o desejo, tudo me leva a crer que eu o deixei numa estação longínqua, para uma viagem, há meses atrás.

a urgência de amor é tamanha que tudo o que se quer é tê-lo fisicamente o máximo de vezes, tudo o que se quer é a sua cara limpa, lavada, banhada em luz, abrilhantando o ambiente, tudo o que se quer é sua presença feita de boca, cheiros, toques, olhares, sussurros & prazeres, a todo o instante, sem preocupações com o tempo que corre para fora do seu círculo.

o meu amor é uma preciosidade sem fim em tão pouco tempo…

mas o que, de fato, importa?

o amor não mede tempo: a ele, tempo é nada.

pois, no amor, nada, além do amor, importa.

ao amor, “não existe mais concessão: eu só digo sim mesmo quando digo não”.

beijo todos!
paulo sabino.
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(Autor: Paulo Sabino.)

 

 

DESEJO INCONTIDO

 

Ser o seu colorido
Arder em febre de amor descomedido
Ferir a noite taciturna
E repousar sobre a rosa noturna

BALADA DO LADO SEM LUZ
13 de abril de 2011

Vela acesa & caderno_Escuro

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um mundo que assassina.

a árvore seca, onde, satisfeitos, nos sentamos.

o mundo da sombra: caverna escondida, onde a luz da vida foi quase apagada.

o mundo da sombra: região do escuro, do coração duro, da alma abalada…

hoje eu canto a balada, hoje eu canto a canção, do lado sem luz.

o lado sem luz: feito de subterrâneos gelados do eterno esperar, esperar pelo amor, pelo pão, pela paz, pela libertação.

é preciso criar a aurora. fazer raiar um novo dia. é preciso navegar, é preciso des-cobrir um outro dia, um outro sol, um sol mais claro, mais luminoso.

aquele que vive do lado sem luz, ouça:

o meu canto é a confirmação da promessa que diz: esperança haverá enquanto houver um canto mais feliz.

um canto mais feliz: como eu gosto de cantar. como eu prefiro cantar. como eu costumo cantar.

(um canto mais feliz: que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

BALADA DO LADO SEM LUZ

 

O mundo da sombra
Caverna escondida
Onde a luz da vida
Foi quase apagada
O mundo da sombra
Região do escuro
Do coração duro
Da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão
Pela libertação
Pela paz, pelo ar
Pelo mar
Navegar, descobrir
Outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão abalado, a balada abalada
Do lado sem luz
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Pássaro proibido. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Balada do lado sem luz. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)