É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): OS VÍDEOS III
29 de setembro de 2015

Paulo Sabino_10 de Setembro 2015

(Paulo Sabino)

Claufe Rodrigues_10 Setembro 2015

(Claufe Rodrigues)

Mauro Sta Cecília_10 Setembro 2015

(Mauro Sta Cecília)
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Aos interessados, mais 6 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Nos vídeos que seguem, os participantes do segundo dia do projeto, 10/09, os poetas Claufe Rodrigues & Mauro Sta Cecília. Ambos recitam poemas da própria autoria.

Eu recito, no meu primeiro vídeo, um poema de um dos meus grandes conselheiros na poesia, o imprescindível Armando Freitas Filho, e no meu segundo vídeo recito um poema que descobri ter virado canção há pouco tempo, poema do querido amigo (participante da 1ª edição deste projeto) Antonio Cicero.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita A mão que escreve, poema de Armando Freitas Filho.)

 

(Armando Freitas Filho)

A mão que escreve
na mesa burocrática
não pode sonhar e
escrava, se arrasta
no deserto, ao rés do chão
através de resmas e lesmas
a léguas de qualquer relva
e só serve minutas
adendos e remendos
tudo em formato ofício
em papel-timbrado
enquanto o poema, ao longe
tenta, em cada entrelinha
levantar voo, a cabeça
como uma águia
feito uma onda.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita Consegui, poema de Antonio Cicero.)

 

CONSEGUI  (Antonio Cicero)

eis o que consegui:
tudo estava partido e então
juntei tudo em ti

toda minha fortuna
quase nada tudo muitas coisas
numa

só:
eu quis correr esse risco antes de virar
pó:

juntar tudo em ti:
toda joia todo pen drive todo cisco
tudo o que ganhei tudo o que perdi

meu corpo minha cabeça meu livro meu disco
meu pânico meu tônico
meu endereço
eletrônico

meu número meu nome meu endereço
físico
meu túmulo meu berço

aquela aurora este crepúsculo
o mar o sol a noite a ilha
o meu opúsculo

meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

meu continente meu conteúdo
e além de todo o mundo
também tudo o que é imundo tudo

o medo e a esperança
algo que fica
algo que dança

o que sei o que ignoro
o que rio
e o que choro

toda paixão
todo meu ver
todo meu não

tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti ______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Como reconhecer um poeta, poema de sua autoria.)

 

COMO RECONHECER UM POETA  (Claufe Rodrigues)

Nem todo sujeito estabanado é poeta

mas com certeza todo poeta é um ser estabanado.

Se senta sempre do lado errado

tropeça na peça mais cara da mobília

se bobear beija a mãe, a vó e a filha

está sempre em guerra com a braguilha

bebe cachaça  na taça de vinho

corteja a mulher do vizinho

sonha com um ninho de gatas

louras, ruivas e mulatas

mas acorda sempre sozinho.

O poeta só não é um desastre

…………quando escreve, quando fala,

……………………quando escala os altos cumes

……………………………….da língua.

Ali ele é o perito, o eleito,

o cara perfeito que toda sogra quer ter na família.

Até o rabisco é risco calculado

compasso de música, exato

como o símbolo do infinito.

Nas altas esferas, o poeta doma todas as feras,

domina a intensidade de cada grito.

Captura, em essência,

o que dizem as nuvens,

quando chovem no cio.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Todo poema, de sua autoria, que, depois de publicado em livro, foi rebatizado pelo poeta amazonense Thiago de Mello com o título Floresta.)

 

FLORESTA  (Claufe Rodrigues)

Todo poema grita

cada palavra é um pedido de socorro

na gruta infinita da boca

E há um adeus em qualquer sílaba

uma floresta

em festa

queimando dentro de nós.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Ela, poema de sua autoria.)

 

ELA  (Mauro Sta Cecília)

A mulher loura, em pé no ponto
de ônibus, tira da bolsa o esmalte
vermelho e faz as unhas da mão
enquanto o ônibus não chega.

Ela não vai descansar.
A palavra descanso não faz
parte do dicionário de sua vida.
Ela pode algum dia atingir
quase o limite de suas forças.
Mas ela dorme, recupera as
forças e segue em frente.
E esquece a palavra cansaço.
Porque há muitos jovens que
já nasceram cansados e andam
cansados o dia inteiro. E porque
depois há toda a eternidade
que é um tempo que nem passa
pela sua cabeça.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Por você, poema de sua autoria. Participação [guitarra]: Julio Santa Cecília.)

 

POR VOCÊ  (Mauro Sta Cecília)

por você, eu limparia os trilhos do metrô
eu iria a pé do Rio a Salvador
por você, eu roubaria uma velhinha
eu dançaria tango no teto da cozinha
por você, eu adoraria a disciplina japonesa
eu aprenderia a fazer cara de surpresa
por você, eu viajaria a prazo pro inferno
eu tomaria banho gelado no inverno
por você, eu hoje até deixaria de beber
eu enfrentaria um lutador de caratê
por você, eu ficaria rico em um mês
eu dormiria de meia pra virar burguês
por você, eu só sentiria essa febre
eu conseguiria até ficar alegre
por você, eu viveria em greve de fome
eu mudaria a grafia do meu nome
por você, eu pintaria o céu todo de vermelho
eu teria mais herdeiros que um coelho
por você, eu aceitaria a vida como ela é
eu desejaria todo dia a mesma mulher
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Puro êxtase. artista & intérprete: Barão Vermelho. canção: Por você. música: Roberto Frejat / Maurício Barros. poema: Mauro Sta Cecília. gravadora: WEA.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): OS VÍDEOS II
22 de setembro de 2015

Paulo Sabino_Ocupação Poética 2ª Edição 09 Set 2015

(Paulo Sabino)

Luis Turiba_Ocupação Poética_9 Set 2015

(Luis Turiba)

Cristiano Menezes_Ocupação Poética_9 Set 2015

(Cristiano Menezes)
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Aos senhores, 6 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Nos vídeos que seguem, os participantes do primeiro dia do projeto, 09/09, os poetas Luis Turiba & Cristiano Menezes. Ambos recitam poemas da própria autoria.

Eu recito, no meu primeiro vídeo, um poema da minha autoria, e no meu segundo recito um poema que amo, do poeta paulista Fabrício Corsaletti, e faço um convite a todos: para o sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), que comando com a participação efetiva de grandes amigos, e que, de fato, como anuncia o vídeo, ocorrerá nesta quinta-feira (24/09), a concentração no largo a partir das 19h & as leituras a partir das 20h30. Teremos a honra das participações, nesse sarau, das feras que integram esta publicação! Oba!

Na próxima postagem, vídeos com os poetas do segundo dia do projeto, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues.

Divirtam-se com estes!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Paulo Sabino recita A certeza de uma incerteza, poema de sua autoria.)

 

A CERTEZA DE UMA INCERTEZA  (Paulo Sabino)

Hoje, que a noite pulsa tranqüila
Dentro do meu quarto,
Busco a pacacidade de coisa nenhuma, inerte, inanimada,
Por sentimentos de cores apagadas.
Este sol que mina em mim,
Propagando-se por todo o resto,
Faz-me sentir a necessidade inútil
Ao mundo, à humanidade —
Sou incapaz de evitar catástrofes
Nem, ao menos, de dar por elas.
Compreendo, mais do que nunca,
Que a vida é e sempre será
Uma parte do desconhecido,
Assentada em tudo que resta e rasteja.
A certeza de uma incerteza
Insolúvel, o ponto com nó.
Portanto, almejar a viagem
De poder debruçar à janela,
Condutor-passageiro fervoroso,
Do caminho a ser vislumbrado.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Paulo Sabino recita Seu nome, poema de Fabrício Corsaletti.)

 

SEU NOME  (Fabrício Corsaletti)

se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho no suspiro final balbuciarei o seu
…………………………………………………………………..[nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o
…………………………………………………………………… [seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso
…………………………………..[haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito
……………………………………………….[bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da
…………………….[guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma
………………………………………….[música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina
……………………………………………[teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe”
…………………………………………………[em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em
……………………………………………………..[vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o
……………………………………..[termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela
………………………………………….[primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o
……………………………………………………………[seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares
……………………………………..[de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o
……………………………………………..[infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se
………………………………………………….[tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no
…………………………………………………………….[seu nome
cabala é uma palavra linda mas não chega aos pés do seu
…………………………………………………………………….[nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do
………………………………………………………………..seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu
……………………………………………………………………[nome
não posso ser fascista se não quero impor aos outros o seu
…………………………………………………………………… [nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu
…………………………………………………………………… [nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu
…………………………………………………………………… [nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a
………………………………………………..[esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado
………………………………………………..ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida mas isso não tem nada a ver com o
………………………………………………………………..seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu
…………………………………………………………………….nome
talvez eu não seja um poeta à altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer
……………………………………………[explicitamente o seu nome
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Luis Turiba recita Ábsono, poema de sua autoria.)

 

ÁBSONO  (Luis Turiba)

sambo espalhafatosamente
para dentro como quem não quer nada
sambo parado
no espaço do meu corpo
com minhas vísceras
meus testículos
meus intestinos
minhas moléculas
minhas cartilagens
minhas células em permanente renovação rumo à morte
meus glóbulos brancos vermelhos desbotados
meus neurônios
minha aura vital
minhas correntes sanguíneas
no trânsito intenso e interno das veias e vácuos
sambo com meus buracos
descalço, nu como nasci
meio preso meio solto
ábsono e absorto
quase com sono
sambo meio grogue
minha apoteose
é iogue
de mãos no bolso
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Luis Turiba recita Ou a gente…, poema de sua autoria.)

 

OU A GENTE…  (Luis Turiba)

Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting

Uma metade passa fome
Outra metade faz regime

Minha vida é uma novela
Minha casa um tele-cine

No meu quarto tem uma cama
Que às vezes vira um ringue

Quem não sabe cala a boca
Quem não conhece só finge

Você só pensa em tarô
Mas meu caso é com I-Ching

O teu corpo é escultura
Minha alma sua vitrine

Uns preferem a linha reta
Outros vão pelo suingue

No amor somos sinceros
Na morte somos esfinges

Ainda me mando pros ares
Vou montado no estilingue

A vida não dá replay
Aproveite e não se vingue

Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Cristiano Menezes recita Palavras, poema de sua autoria.)

 

PALAVRAS  (Cristiano Menezes)

Que não nos faltem as palavras
palavras faladas
ou no papel
palavras ao léu
palavras
contato

Palavras sem tato
palavras claras
fanhas
loucas
ou roucas

Palavras aflitas
palavras medidas
palavras soltas
nas línguas ferinas
ou afogadas no batom
de bocas carnudas

Palavras confete,
desnudas
envoltas em serpentinas
palavras purpurina
na festa da carne

Palavras sapecas
atrevidas
cintilando
nas rimas do meu samba na avenida

Palavras signos
do código que nos decifra
alegorias dos enredos
marolas do rio
que me leva ao mar

São as palavras que me fazem amar
ou brigar

Palavras excitam
palavras hesitam
e me lançam
como flecha
nos corações desavisados

Palavras
que não nos faltem as palavras
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Cristiano Menezes relata um ocorrido entre ele & o poeta amazonense Thiago de Mello. Depois, recita Trilha, poema de sua autoria.)

 

TRILHA  (Cristiano Menezes)

O que será que há
depois daquela curva

O que será
ao fim deste caminho
que se oferece
e me instiga
a seguir
passo a passo
hesitante
atento ao estalo
de cada galho
em que piso
neste caminho
que se estende
entre verdes
e esperanças

O que será
ali à frente
quando vira
parece que desce
não sei pra onde
e mais adiante
segue morro acima

O que será que há
depois daquela ladeira

Onde vai dar este caminho
que agora vejo
não tem volta
este caminho
que não conheço
mas a cada passo
enfim percebo
é meu este caminho.

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

A PALAVRA (2)
18 de setembro de 2012

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a palavra desconfia do poeta como o amante da pessoa amada.

 
tanto a palavra quanto o amante se presumem atraiçoados (a palavra, atraiçoada pelo poeta; o amante, atraiçoado por quem ama).
 
tanto a palavra quanto o amante, por conta da sensação de atraiçoamento, sentem-se inseguros, medrosos do destino que lhes darão (a palavra: medrosa do destino que lhe dará o poeta; o amante: medroso do destino que lhe dará a pessoa amada), temerosos do chão por onde os levam (a palavra: temerosa do chão por onde o poeta a leva; o amante: temeroso do chão por onde a pessoa amada o leva), quando, no fundo no fundo, palavra & amante é que são infiéis. 
 
infiéis, porque tanto a palavra quanto o amante sabem ser tantos dentro de um só… tanto a palavra quanto o amante, repletos de desejos, repletos de vontades multifacetadas, repletos de segundas & terceiras intenções, de delírios, alucinações.
 
(palavra: forma imprecisa que ninguém distingue: nem peixe nem saltimbanco: significações múltiplas.)
 
estrelada, cheia de luz, a palavra se insinua, a palavra me deslumbra, a palavra me comove, mas, quando quero (re)tê-la, ela se esquiva — arisca, arredia, intratável. esquiva que é, a palavra mal permite um toque, a palavra mal permite uma aproximação, e, inefável (indescritível), me espia, impenetrável.
 
(palavra: muito mais arredia que um peixe. em cardumes, sem que eu consiga capturá-la a tempo, a palavra escapa pelos dedos.)
 
a palavra: impenetrável, arredia. porém, apresenta-se tanto mais pura quanto mais esquiva (quanto mais pensada, mais árdua a procura pela palavra; contudo, quando encontrada, a palavra se dá mais nítida, mais pura em folha de papel, a palavra se dá iluminada, a palavra se dá estrelada).
 
a palavra: um mistério (para mim): ainda não consegui, eu que leio poetas todos os dias, encontrar a “medida universal” (medida que poderia ser aplicada a todo & qualquer poeta), a “fita métrica mágica”, para aferir (para medir, para avaliar) quem é grande, quem é maior ou menor poeta.
 
menor por quê? por que maior?
 
os que somos: somos poetas, e ponto.
 
cada leitor é quem sabe os que lhe chegam mais perto do peito, do ser, da fronte.
 
não sei se os meus prediletos são pequenos ou são grandes. sei só que são bem-amados. e são bem-amados porque só gosto do que me comove, só me comove o que entendo.
 
quem me freqüenta de blog ou de vida, o que, de certa maneira, vem a dar no mesmo, sabe que não padeço da feia enfermidade (esta doença social) da falsa modéstia.
 
o arqueiro, até pela sombra que faz a flecha, antes mesmo de alçá-la em vôo, sabe se ela vai dar, ou não, lá no alvo.
 
o coração do cientista bate mais forte quando olha a proveta (tubo de ensaio: vaso de vidro em forma de tubo cilíndrico, fechado em uma das extremidades, em que se fazem experiências em laboratório) & a vê florescendo dos seus experimentos.
 
o artista sabe quando a sua apresentação não está à altura das suas capacidades.
 
e o poeta sabe se a beleza fez o milagre do poema. 
 
(não padeço da feia enfermidade — esta doença social — da falsa modéstia.)
 
o poeta deve ser, sempre, o seu primeiro leitor & crítico. 
 
tudo que escrevo, antes, passa pelo meu crivo, passa pela minha avaliação. eu, paulo sabino, preciso gostar, eu, paulo sabino, preciso admirar — antes de qualquer outra pessoa — os textos que escrevo, porque só assim os considero válidos à publicação.
 
até hoje palavras me amedrontam.
 
(há de se ter audácia, há de se ter coragem, para adentrar o reino das palavras.)
 
certas palavras, impenetráveis, áridas, por mais que me afaste delas, parece que mofam (que zombam) de mim. parece que certas palavras mofam de mim porque, por mais que me afaste delas (áridas, impenetráveis), a distância que desejo delas nem sempre é alcançada, e elas, por mais que eu não queira, elas (as palavras áridas, duras, impenetráveis) me alcançam.
 
no entanto, por sorte, sou adorado por tantas outras palavras. 
 
ainda bem que muitas gostam de minha boca. e amanhecem cantando no meu peito.
 
a palavra: a (grande) chave do mundo.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: De uma vez por todas. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)
 
 
 
A PALAVRA DESCONFIA
 
 
A palavra desconfia do poeta
como a mulher do homem.
Ambas se presumem atraiçoadas.
Inseguras, medrosas do destino
que lhes darão, do chão por onde as levam,
quando elas é que são as infiéis;
sabem ser tantas dentro de uma só.
Estrelada, a palavra se insinua,
me deslumbra, mas quando quero tê-la,
ela se esquiva, mal permite a pele
e inefável me espia impenetrável.
 
 
 
PALAVRA PERTO DO PEITO
 
 
Ainda não consegui, eu que leio
poetas todos os dias,
encontrar a medida universal,
a fita métrica mágica,
para aferir quem é grande, quem é maior
                ou menor.
Menor, por quê? Por que maior?
Somos poetas, os que somos.
 
Cada leitor é quem sabe
os que lhe chegam mais perto
do peito, do ser, da fronte.
Não sei se os meus prediletos
“Eu plantei um pé de sono
brotaram vinte roseiras” *
(só gosto do que me comove,
só me comove o que entendo)
são pequenos ou são grandes.
Sei só que são bem-amados.
 
Quem me freqüenta de livro
ou de vida, o que afinal
vem a dar no mesmo, sabe
que não padeço da feia
enfermidade da falsa
modéstia.
 
                            O arqueiro, até
pela sombra azul da flecha,
sabe que vai dar lá no alvo.
O coração do cientista
bate mais forte quando olha
a proveta florescendo.
Sabe o artista se a beleza
fez o milagre do poema.
 
Até hoje palavras me amedrontam.
Certas delas, impenetráveis, áridas,
por mais que delas me afaste,
parece que mofam de mim.
Ainda bem que muitas gostam de minha
                boca,
amanhecem cantando no meu peito.
______________________________
 
* Versos de Drummond.

ANO-NOVO
29 de dezembro de 2010

benvindos,
 
o tempo é o grande milagre da vida do homem no mundo.
 
sem ele, onde a nossa existência?
 
sem ele, onde ser?
 
sem ele, onde estar?
 
é, sem sombra de dúvida, o deusupremo.
 
o tempo não tem começo nem fim, mas está vivo, animal respirando imenso em tudo o que a gente quer, sonha & realiza.
 
nada perdura na vida, a não ser o próprio tempo: finge que passa, mas fica.
 
imutável, modifica.
 
(alma do tempo é a mudança.)
 
o tempo é o sol do milagre:
 
o tempo, sol do milagre que é a existência, sol do milagre (que é a existência) porque, como o astro-rei, que possibilita a existência de vida neste planeta azul, o tempo é quem possibilita o ser de ser & de estar no mundo.
 
e ele, o tempo, chega na claridão de cada manhã.
 
manhã de primeiro de janeiro: manhã toda especial:
 
como é grande o dom da encantação do calendário!
 
a aurora deste dia é diferente: finge que não finge que é a mesma de todo & qualquer dia.
 
todavia, a questão de “fingir que não finge”, nesse caso, não pode ser com o dia; não pode ser o dia a fingir que não finge. não:
 
ainda que cada dia seja um, ainda que cada dia não seja igual a nenhum outro, pois que sempre um diferente dia, sucede que não é somente o dia que muda, que se renova e se transforma. sou eu mesmo quem mudo. sou eu mesmo quem não sou mais o mesmo, que, como o dia, me renovo e me transformo.
 
manhã de primeiro de janeiro: sou eu quem me começo; em primeiro de janeiro sou eu quem estou no amanhecer da própria vida, que chega limpa, de vestido novo, composto de retalhos da memória, vida que chega com os cabelos molhados de esperanças, vida que chega pedindo o meu amor profundamente, enquanto uma vontade de servir se inaugura, cantando no meu peito.
 
(o tempo está em nosso peito, clamando nas coronárias! atenção ao compasso do coração!)
 
uma ótima passagem de ano para TODOS!
 
um 2011 repleto dos três “esses”: Saúde  Sorte  Sucesso!
 
beijo GRANDE!
paulo sabino.
 
(dia 29 de dezembro, às 7h30 da manhã, já estarei com os meus pés rumo à estrada que me levará ao local onde eu & GRANDES amigos ficaremos durante a passagem do ano. lá, perto do meu amante maior, o mar, não há acesso à internet. portanto, até 2011, prezados! a partir do dia 03 de janeiro estamos na área!)
______________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)
 
 
O ALFANJE DO TEMPO    para Antonio Faria
 
O tempo é o grande milagre
da vida do homem no mundo.
Não tem começo nem fim.
Mas está vivo, animal
respirando imenso em tudo
que a gente quer, sonha e faz.
 
O tempo que já passou
te conta como vai ser
o tempo que vai chegar.
Tudo leva a sua marca,
de pétala ou de ferrão.
Tudo traz o seu condão:
a criança correndo, o rio
passando, a rosa se abrindo,
a lágrima da alegria,
o silêncio da amargura,
a luz mansa da ternura,
o sol negro da pobreza.
 
O tempo é o nada que é nada.
O tempo é o tudo que é tudo,
o tudo que vira nada,
o nada virando amor.
O amor inventando estrelas,
a mais linda se apagou
na fronte da moça amada.
 
O tempo está no teu peito
clamando nas coronárias,
mas se esconde nas funduras
dos neurônios quando sonhas.
Está no fogo e no orvalho,
fermenta o pão que não chega,
arde o forno da esperança.
 
Alma do tempo é a mudança
que come o que vai mudando
e depois dorme sonhando
disfarçado de memória.
 
Nada perdura na vida,
a não ser o próprio tempo,
finge que passa, mas fica.
Imutável, modifica.
 
O tempo é o sol do milagre.
Cuidado, ele está chegando
na claridão da manhã.
A noite inteira ficou
no seu passo, te esperando,
de espreita em teu próprio sono.
Vem vindo para comer
na palma da tua mão.
Trata bem dele, aproveita,
enquanto há tempo, o que o tempo
permite ao teu coração.
 
Quem sabe ele vem trazendo
um alfanje? Ninguém sabe.
Pode ser uma canção.
 
 
ANO-NOVO
 
Primeiro de janeiro, como é grande
o dom de encantação do calendário!
Não é somente um ano que começa.
A aurora deste dia é diferente,
faz de conta que não está fingindo
que é a mesma de todo e qualquer dia
e já carrega a noite dentro dela.
Sucede que não é somente o dia.
Sou eu mesmo que já não me pareço,
que já não sou quem sou, que me começo.
Estou no amanhecer da própria vida
chegando limpa, de vestido novo
e feito de retalhos da memória,
os cabelos molhados de esperanças,
a candura do olhar enfeitiçado,
pedindo o meu amor profundamente,
enquanto uma vontade de servir
se inaugura cantando no meu peito.

FAZ ESCURO MAS EU CANTO
4 de setembro de 2009

bacanas, 

estes versos estão guardados há um tempo, esperando, acredito, o momento oportuno para a chegada. eis que este momento, ao meu ver, chegou. 

e chegou por conta da partida de duas GRANDES amigas, numa missão muito bonita. foram para o interior do estado do amazonas trabalhar em unidades de preservação da floresta, a fim de diminuir os impactos ambientais causados pela mão humana. passaram num concurso público e, agora, cada uma é chefe de uma das unidades de conservação existentes.

mulheres lindas, guerreiras, que batalham pelos seus espaços, correm atrás do que almejam, com mente e coração voltados para o melhor da vida: assim como o poeta que lhes segue, poeta nascido entre rebojos, oriundo das terras barrentas e dos rios de água negra transparente, onde se encontram gabi scelza, a minha “príncipa” (eu sou o seu “princeso” – rs), e rachel acosta, um dos seres mais bons que conheço, de uma bondade que respira inocência. minhas meninas, meus jasmins, que a jornada que se inicia agora seja tão saborosa, tão acolhedora e tão benéfica quanto vocês! o preto está aqui, sempre que precisarem! lembrem-se: a nossa família não é metafísica

thiago de mello é um poeta que canta tudo quanto cabe num canto: o amor, a dor, a morte, o seu povo — povo de rios e seringais, de lendas e cirandas, povo sofrido —. não é à toa que o livro “faz escuro mas eu canto” seja aberto por linhas de pablo neruda (poeta chileno igualmente apaixonado por sua terra, seu povo, por temas ligados ao amor e à finitude da existência), a respeito da amizade que os une e da apaixonada obra do poeta amazonense.

o que me comove muitíssimo na seleção que aqui se apresenta é a carga sentimental depositada nos versos. eu, sobretudo um homem de arroubos sentimentais (rs), não deixaria de me emocionar. 

 o canto de thiago de mello é o canto que promove bem-estar: “a coisa tá preta”, “a situação é complicada”, tá feio, tá escuro, mas, mesmo no escuro, sigo cantando. porque, acredito mesmo, semear o canto bom, o canto do amor, da justiça, pode trazer, pelo menos ajudar a trazer, a luz que iluminará muitos dos nossos breus.  

apreciem sem moderação!  

beijo arejado, são, em todos!

o preto.

__________________________

(todos os poemas extraídos do livro Faz escuro mas eu canto, de Thiago de Mello, editora Bertrand Brasil)  

 

 
Os estatutos do homem
 
ARTIGO I.
 
Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que, de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.
 
ARTIGO II.
 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
ARTIGO III.
 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
ARTIGO IV.
 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
 
PARÁGRAFO ÚNICO:
 
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
 
ARTIGO V.
 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
 
ARTIGO VI.
 
Fica estabelecida, durante os séculos da vida,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
ARTIGO VII.
 
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
 
ARTIGO VIII.
 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
sabendo que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
 
ARTIGO IX.
 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.
 
ARTIGO X.
 
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
 
ARTIGO XI.
 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
 
ARTIGO XII.
 
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
 
PARÁGRAFO ÚNICO:
 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
 
ARTIGO XIII.
 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
 
ARTIGO FINAL.
 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
 
A vida verdadeira
 
Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
 
Vida que não se guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.
 
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.
 
Vem da terra dos barrancos
o jeito doce e violento
da minha vida: esse gosto
da água negra transparente.
 
A vida vai no meu peito,
mas é quem vai me levando:
tição ardente velando,
girassol na escuridão.
 
Carrego um grito que cresce
cada vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
 
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centros da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
pelo estremecer dos verdes
e sabe ler os recados
que chegam na asa do vento.
Mas sabe também o tempo
da febre e o gosto da fome.
 
Nas águas da minha infância
perdi o medo entre os rebojos.
Por isso avanço cantando.
 
Estou no centro do rio,
estou no meio da praça.
Piso firme no meu chão,
sei que estou no meu lugar,
como a panela no fogo
e a estrela na escuridão.
 
O que passou não conta?, indagarão
as bocas desprovidas.
 
Não deixa de valer nunca.
O que passou ensina
com sua garra e seu mel.
 
Por isso é que agora vou assim
no meu caminho. Publicamente andando.
 
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.
 
Aqui tenho a minha vida:
feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
e que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau
e fazia da colheita
uma ilha de bom socorro.
 
Feita à imagem do menino
mas à semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
de valente esperança e rebeldia.
 
Vida, casa encantada,
onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
cheirando a manga e jasmim.
Que me sejas deslumbrada
como ternura de moça
rolando sobre o capim.
 
Vida, toalha limpa,
vida posta na mesa,
vida brasa vigilante,
vida pedra e espuma,
alçapão de amapolas,
o sol dentro do mar,
estrume e rosa do amor:
a vida.
 
Há que merecê-la.
 
O pão de cada dia
 
Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção
construída no trabalho.
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.
 
Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.
 
Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece,
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.
 
A fruta aberta
 
Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.
 
Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.
 
Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com a tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.
 
Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.
 
Janela do amor imperfeito
 
Alta esquina no céu, tua janela
surge da sombra e a sombra faz dourada.
Já não me sinto só defronte dela,
me chega doce o fel da madrugada.
 
Atrás dela te estendes alva e em sonho
me levas desamado sem saber
que mais amor te invento e que te ponho
sobre o corpo um lençol de amanhecer.
 
Doce é saber que dormes leve e pura,
depois da dura e fatigante lida
que a vida já te deu. Mas é doçura
 
que sabe a sal no mar azul do peito
onde o amor sofre a pena malferida
de ser tão grande e ser tão imperfeito.
 
A aprendizagem amarga
  
Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.
 
Força é saber amar, perto e distante,
com o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.
 
Botão de rosa
 
Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
                Germinando
no silêncio.
                Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.
 
Cantiga quase de roda
 
Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras.)
Mãos dadas aos homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância
— então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas — mas sempre
de amor ou
de amigo.
 
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo
derrama, derrama
na fronte dos homens. 
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
 
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
— senão ficam ocos,
senão endoidecem.
 
E então ele segue
cantando de bosques,
de rosas e de anjos,
de anéis e cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
 
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce,
cantigas que façam
os homens mais crianças
 
EPITÁFIO
 
O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração.
 
Notícia da manhã
 
Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormido.
E aos dormidos — e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração —
a todos que não a viram
contarei desta manhã
— manhã é céu derramado
é cristal de claridão —
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar — na cidade.
 
Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu)
 
Amorosa e transparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos, sobre as casas,
sobre os homens, sobre o mar.
Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino; o meu,
que é cheio de escuridões).
 
Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
está no quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-céus.
(Há muita, muita manhã
no menino; e um pouco em mim.)
 
A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.
 
A manhã é geral.
 
As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
— ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos;
aos desgraçados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai levantando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
 
E de repente a manhã
— manhã é céu derramado,
é claridão, claridão —
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.