SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 3º CICLO: JULIANA LINHARES, MIHAY, HELIO MOULIN E SALGADO MARANHÃO — MÃE DA MANHÃ (GILBERTO GIL)
18 de abril de 2017

(Os participantes desta 3ª etapa do projeto: em pé, Juliana Linhares e Salgado Maranhão; sentados, Helio Moulin e Miray junto ao Guilherme Araújo e à Gal Costa — Foto: Rafael Millon)
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“Bravo, Paulo Sabino. Aqueceram-me o coração sua desenvoltura e alta voltagem poética. Grato. Abs. RCAlbin”.

(Ricardo Cravo Albin — musicólogo & membro da Academia Carioca de Letras — ACL)

 

“Que massa que o Helinho vai tocar contigo [Mihay]! Adorei.”

(Tulipa Ruiz — cantora e compositora)

 

 

Alô Alô! Alegria Alegria!

Aqui para anunciar os participantes da 3ª etapa de encontros do projeto “Somos Tropicália”, em homenagem aos 50 anos do movimento que chacoalhou a música popular brasileira. O projeto vem reunindo, desde fevereiro, mensalmente, artistas da nova geração da nossa música, para a releitura das canções tropicalistas, com poetas consagrados, para a leitura de textos/poemas de bossa tropicalista.

Para esta edição de abril, o imenso prazer de receber só feras: a atriz e cantora Juliana Linhares (cantora e integrante da banda “Pietá” e do projeto “Iara Ira”, ao lado das cantoras Júlia Vargas e Duda Brack), o cantor, compositor e videomaker Mihay (o Mihay já cantou com o Chico César, excursionou com o João Donato, e tem, no seu segundo disco, participação da Tulipa Ruiz, Mariana Aydar, do Robertinho Silva, Kassin, e do próprio João Donato, entre outros), o instrumentista-violonista Helio Moulin (o Hélio é filho do monstro violonista e guitarrista da música popular brasileira e do jazz Helio Delmiro, que tocou com Elis Regina, Clara Nunes, Milton Nascimento, a diva da música norte-americana Sarah Vaughan, entre outros), e o poeta vencedor do prêmio Jabuti de poesia (o mais importante prêmio literário, pelo seu belíssimo livro “Ópera de nãos”) Salgado Maranhão.

Tudo divino-maravilhoso! Certeza de mais noites lindas para a música e para a poesia! E toda essa maravilhosidade “di grátis”!

Depois deste texto sobre o “Somos Tropicália”, um poema-canção que não é tropicalista porém foi composto por um mestre tropicalista e cantado pela musa tropicalista — Gilberto Gil e Gal Costa. Isso porque a Juliana Linhares, que é a grande cantora e intérprete que terei o prazer e a honra de receber no projeto, no espetáculo “Iara Ira”, canta com a Julia Vargas e a Duda Brack o poema-canção da publicação, poema-canção que é o meu preferido do álbum em que foi lançado, “O sorriso do gato de Alice”, da Gal. A Juliana, a Julia e a Duda abrem o “Iara Ira” com este poema-canção.

Sobre o “Somos Tropicália”: espalhem a notícia! Compartilhem a boa nova!

Esperamos todas e todos!

 

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Juliana Linhares, Mihay, Helio Moulin e Salgado Maranhão / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 26/04 (4ª-feira) e 27/04 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre

Link do evento no Facebook: http://www.facebook.com/events/1881892262099199/
Página do projeto no Facebook: http://www.facebook.com/somostropicalia/
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(Extraído do livro “Gil — todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, editora Companhia das Letras.)

 

para Gal Costa & Juliana Linhares

 

 

gilberto gil fez este poema-canção para gal costa, que foi dedicado à mãe da cantora, mariah costa penna, amiga do poeta-compositor & que havia morrido há pouco tempo.

a perda de uma pessoa que muito se ama, a que mais se ama, a grande amiga, aquela que sentimos ser a única pessoa a fazer absolutamente tudo & qualquer coisa para o bem-estar da cria, dos filhos: uma dor profunda, uma tristeza abissal, o recolhimento, o luto, a escuridão.

meu canto em momentos de escuridão é o meu grande amparo. minha voz é meu amparo em momentos difíceis.

minha voz, que é um aro de luz da manhã, que é um aro de luz que nasce do dia, voz solar, iluminada, voz brilhante, num momento de dor, de perda de alguém tão caro, a minha voz brota na gruta da dor.

mãe da manhã, mãe do raiar do dia, mãe da luz nascente do dia, mãe maria, mãe de todos nós, eu faria de tudo pra conservar vosso amor.

uma espécie de súplica, de pedido, à mãe da manhã, à mãe do raiar do dia, à mãe da luz nascente do dia, à mãe maria, à mãe de todos nós: pra conservar vosso amor, mãe da manhã, eu faria de tudo — a cada ano, eu faria uma romaria, eu faria uma oferenda, eu faria uma prenda, eu daria a vós uma flor. faria uma romaria, uma oferenda, uma prenda, daria uma flor — tudo para conservar o amor da mãe da manhã.

assim, na minha existência, a cada instante, teria direito a um grão, a um momento, a um pedaço, de alegria — e todos os grãos de alegria, por conservar o amor da mãe da manhã, seriam lembranças do vosso amor, lembranças do amor que a mãe da manhã me dedica.

santa virgem maria — mãe maria, mãe de todos nós —, vós que sois mãe do filho daquele que nos permite o nascer do dia, vós que sois mãe do filho daquele que nos possibilita a vida, daquele que nos determina a morte, santa virgem maria, mãe da manhã, mãe da luz, mãe solar: abençoai minha voz, meu cantar.

na escuridão da nostalgia causada pela perda de alguém que muito se ama, pela perda de alguém que nos é tão importante, tão caro, dai-nos a luz do luar.

na noite, na escuridão, na dor, na perda, no momento difícil: luz, sempre. seja qual for: solar ou lunar: luz, quero luz.

mãe da manhã, que assim seja.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Gil — Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

MÃE DA MANHÃ

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia

Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: O sorriso do gato de Alice. gravadora: BMG Ariola. artista e intérprete: Gal Costa. canção: Mãe da manhã. autor: Gilberto Gil.)

AO NOSSO AMOR, UMA ETERNA ESTRÉIA
19 de outubro de 2016

paulo-sabino-jurema-armond

(Há pouco tempo, indo votar — ela, já desobrigada.)

figa

(A figa, antes do meu pai, agora minha.)
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“PAULO SABINO, meu irmão,

Que lindo o seu poema para a ‘nossa mãe’! Desejo para a ‘CABOCLA JUREMA’ uma longa e boa vida, alegria e… Axé! Muito Axé! Com abraços, MARTINHO DA VILA.”

(Martinho da Vila — cantor & compositor)

 

 

Que alegria! Vê-la completar o seu septuagésimo quarto ano novo (74) lúcida, recém-recuperada de um problema no cérebro.

Em junho, há exatos 4 meses, me perguntava como seria este dia para ela & para mim, com o medo de que ela ainda estivesse doente.

Escrevi o texto que segue em itálico para amigos bem no início do mês de julho:

 

Queridos & Queridas,

Há quase 2 meses, a minha mãe, peça fundamental da minha existência, a grande responsável pelo meu amor à literatura e, mais especificamente, à poesia, a minha cabocla Jurema Armond, não anda bem da saúde.

Estamos na luta para diagnosticar o que, há quase 2 meses, vem causando nela uma fraqueza grande nas pernas & nos braços (precisa de ajuda para absolutamente tudo: para levantar, sentar, deitar, comer, tomar banho) & uns desnorteios de tempo & espaço (agora há pouco tive que consolá-la, ela estava aos prantos, desejando chegar em casa, chegar no lugar de onde ela não sai há quase 2 meses, não contando as saídas para consultas médicas & exames).

Tem sido bem difícil para mim. Sou filho único, meu pai já não está mais entre nós, e sou eu só a tomar as decisões sobre a saúde da minha cabocla, a gerir a casa & as contas. Cansaço emocional & físico imensos.

Hoje, procurando travessas & potes aqui em casa, a fim de organizar a cozinha para a pessoa que me ajudará com a casa duas vezes na semana, me deparei com esta figa de madeira do meu pai, de cuja existência nem mais me lembrava. Chorei tanto ao vê-la, ao tocá-la, tudo tão simbólico neste momento — encontrar na estante da sala uma figa, e que era do meu pai, de quem, pela sensibilidade & humor ímpar, sinto tanta falta, inda mais num momento como este…

Agora ela está na minha mesa de trabalho, acompanhada das minhas outras pequenas preciosidades. Está, na mesa, exatamente de frente para mim.

Tomara que esta figa, antes do meu pai, agora minha, me traga a sorte & o axé necessários na melhoria desta situação.

E conto com as preces & orações & energia positiva de quem acredita em preces & orações & energia positiva. Incluam a minha cabocla Jurema Armond em seus pedidos de saúde & recuperação. Torçam comigo.

E vamos que vamos. A vida urge, o tempo não pára.

 

Depois de muitos medos, muitas incertezas, muitas dificuldades, muitas lágrimas, e muitos exames, no início de agosto conseguimos o diagnóstico & desde então ela só faz melhorar.

O poema que segue, eu o escrevi para ela há muitos anos. Mais do que nunca, faz todo o sentido publicá-lo hoje, 19 de outubro, em homenagem à minha cabocla.

Mais do que nunca, depois deste mau tempo que atravessamos, o sol da saúde desponta com a sua luz & o seu calor, mostrando-nos que a vida renova-se a cada instante, que, por isso, a vida é uma eterna estréia. Nunca sabemos que momento da trama nos aguarda no próximo capítulo; o script/roteiro é escrito no decorrer de cada cena.  Com isso, o amor também faz-se & refaz-se a cada vivência nossa.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, eu só posso desejar que o céu aberto de dias azuis permaneça límpido, sem mudanças tão bruscas.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, a conclusão de que, aqui, o amor existe — firme, forte, em riste.

Graças!

Feliz aniversário! Feliz 74 primaveras vencidas!

Beijo todos & especialmente a minha cabocla Jurema Armond!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ESTRÉIA

 

te  escrevo  porque

te  mereço,

porque  és  diva,

a  dama  divina

—  mulher  maravilha

da  minha  ilha

cercada  de  carinhos

por  todos  os  lados —.

todos  os  cafunés,  todas  as  lágrimas  e  desabafos

é  onde  me  acabo  em  ti.

por  ti  meu  riso  ri,

por  isso  minha  prece,

minha  missa.

minha  oração  se  aquece

em  teus  escaninhos,  teus  desalinhos,  teus  achados.

assim  é  que  te  amasso,

te  acho,

te  cato.

porque  humana  sem  desacato.

eu  te  amo  e  é  outra  estréia,

sem  vida  histérica,

sem  amor  estéril.

pelo  contrário,  é  amor  de  império,

o  carinho  sem  enterro  e  cemitério,

a  poesia  livre  de  impropério.

és  o  meu  hemisfério,

o  meu  norte,

os  versos  sem  corte.

eu  te  amo  e  não  há  miséria,

há  beleza,  há  estética

—  revelação, reverberação

que  insiste

em  mostrar  ao  mundo  triste

que,  aqui,  o amor  existe:

firme

forte

em  riste —.

PASSARINHÃO
30 de setembro de 2016

gaviao

(Gavião)
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O texto abaixo, em negrito & entre aspas, foi escrito pelo querido xará Paulo Almeida:

 

“O ‘Coletivo Chama’ nos convocou [Mais e Melhores Produções e Marketing, empresa do Paulo Almeida] para cuidar do lançamento do seu primeiro CD ‘Todo Mundo é Bom’. Um trabalho muito potente e com várias possibilidades de leitura. São muitos os recortes e muitos os motivos para ficarmos atentos a esse trabalho.

Tarefa difícil abrir caminhos para um trabalho tão profundo e tão bem produzido.

Lancei uma ideia maluca, que foi prontamente comprada por todos do coletivo que estavam naquela reunião: que convidássemos compositores, atores, literatos, editores, poetas, músicos, para uma audição aleatória de uma das faixas do CD seguidas de comentários sobre o que ouviram. Essas audições e comentários seriam filmados.

Convocamos um timaço para registrar suas impressões. Para nosso espanto, a maioria aceitou sem pestanejar.

Assim, temos comentários faixa a faixa de um disco muito saboroso.”

 

Deixo pra vocês o vídeo do qual participei, vídeo da faixa “Passarinhão”, falando sobre a faixa com um timaço (honra & alegria): com a atriz Clarice Niskier, com o pianista & compositor André Mehmari, com o professor de música da UniRio Josimar Carneiro, com a cantora Áurea Martins & com o cantor & multi-instrumentista Domenico Lancellotti.

Vale o play pra ouvir a faixa & pros comentários!
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Passarinhão: além do diálogo que o poeta-compositor mantém com o gavião, que ronda a sua localidade, assombra o seu quintal, o gavião, no poema-canção, é a personificação/personalização de um sentimento ruim, de um mau agouro, que sobrevoa o ser do poeta-compositor: passa, gavião; não arranha o coração do poeta-compositor; não assombra o seu quintal.

Passa, gavião. Por que tu, passarinhão, te aninhaste debaixo do pensamento do poeta-compositor, dentro de alguma dor do poeta-compositor, com teu rumor de rapina & teu silêncio de tumor, teu silêncio de algo que mata por dentro?, passarinhão ávido pra atiçar um sofrimento no poeta-compositor.

Sai, sai, passarinhão. Faz favor, tem compaixão.

O ovo gorado do passarinhão já agourou o poeta-compositor. O canto triste do gavião calou de dor a voz do poeta-compositor. Acabou que tu, passarinhão, ficaste mais vivo que a vida do próprio poeta-compositor, e o medo de viver, de amar, empalhou o poeta-compositor. Acabou que tu, gavião, penetraste o pesadelo do poeta-compositor, pássaro-invasor.

Passarinhão, larga o poeta-compositor & segue a trilha do acauã, abandone o quintal do poeta-compositor, para que a manhã rebrilhe na sua casa-ser.

Sai, sai, volta, não. Passa, passa, gavião, a fim de o poeta-compositor alcançar a sua redenção, a sua proteção, a sua salvação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. artista: Coletivo Chama. álbum: Todo mundo é bom. canção: Passarinhão. música: Thiago Thiago de Mello. letra: Thiago Amud. comentários: Paulo Sabino, Domenico Lancellotti, Áurea Martins, André Mehmari, Josimar Carneiro, Clarice Niskier.)

 

PASSARINHÃO   (Thiago Amud)

Passa, passa, gavião
Todo mundo é bom e mau
Não me arranha o coração
Não assombra meu quintal
Passo-preto, passado que não passou
Que tambor te encantou?
Que ato, que palavra oculta te perpetuou?
O teu olho vazado me divisou
Tua venta ventou
Teu bico bicou bem o músculo que atrofiou
Por que te aninhaste debaixo do meu pensamento
Dentro de alguma dor
Com teu rumor de rapina e teu silêncio de tumor
Ávido pra me atiçar um sofrimento?
Sai, sai, passarinhão
Bacurau mudou de tom
Faz favor, tem compaixão
Todo mundo é mau e bom
Passo-preto, espantalho não te espantou
Tiro não te matou
Que crime dormido em meu sangue te maravilhou?
O teu ovo gorado já me agourou
Teu canto me calou
Ficaste vivo mais que a vida, o medo me empalhou
Por qual razão desconhecida botaste tocaia?
Praga ou desamor?
Tu que és metade uma harpia, metade és um estupor
Tu que penetraste o meu pesadelo, meu invasor
Passa noite, passa arribação
Passa a terçã
Passa, passa, gavião
Me larga e segue a trilha do acauã
Que a manhã rebrilha
Sai, sai, volta não
Passa, passa, gavião
Redondilha, redenção

40 ANOS: CORAÇÃO NA BOCA, PEITO ABERTO — VOU SANGRANDO
24 de junho de 2016

Ocupação Poética_3ª edição 20

Ocupação Poética_4 edição_79

Ocupação Poética 2

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o fim de uma década, da década de 30, para o início de outra, da década de 40.

40 anos para chegar até aqui, para chegar onde cheguei.

e afirmo a quem me lê: começaria tudo outra vez se preciso fosse. a chama em meu peito ainda queima. saiba: nada foi em vão: nenhuma das tristes emoções, nenhuma das alegres emoções. 40 anos: nada foi em vão.

certamente foram necessárias todas as vivências para que o paulo sabino resultasse neste que aqui se apresenta depois de vencidas 40 primaveras.

40 primaveras: a fé no que virá & a alegria de poder olhar pra trás & ver que voltaria a viver neste imenso salão que foi & é a minha existência & seus acontecimentos.

neste imenso salão que foi & é a minha existência, a grande estrela, a musa maior, foi & é a poesia.

a experiência poética, para mim, é uma experiência existencial.

lendo poesia, interpretando os jogos semânticos criados nos, e entre os, versos, reinvento o homem que sou, e, reinventando-me, promulgo a minha constante atualização como homem, ao me perceber humano & mortal a cada ato, ao me perceber ser pensante & atuante na vida; é disso que vem a poesia.

pelo tanto que a poesia comporta, por tudo que a poesia pode, porque a poesia reinventa o homem em sua trajetória, a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

pois que a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele; não damos conta de tanto & criamos a poesia, os mitos & as lendas, que acabam por recriar o mundo.

em última instância: a experiência humana é experiência poética, é o modo que temos, que descobrimos, que inventamos, de viver, de experimentar, o mundo que nos cerca.

a poesia é uma condição — e condenação — do homem.

reinventando-me, a poesia me reafirma homem, mortal/ transitório/ inacabado, me reafirma ser pensante & pulsante entre as coisas.

sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.

por ser o verso aquele que pode lançar mundos no mundo, a minha voz, a minha garganta, está sempre à disposição do canto que a poesia contém.

a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele: por isso faço da minha vida a minha melhor poesia.

vida & poesia, poesia & vida: duas coisas, em mim, entrelaçadas, unas, entremeadas: duas coisas que, dentro de mim, não podem ter fim: vida & poesia, poesia & vida: dois azuis no mesmo azul — meu horizonte sem nuvem nem monte.

quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis, aqui, neste espaço, uma pessoa se entregando.

coração na boca, peito aberto — vou sangrando: são as lutas desta nossa vida que eu estou cantando: as belezas & as vilezas, as claridades & as escuridões, o caminho aberto & o muro armado.

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta (força que carrego nas cordas vocais por cantar a vida, por cantar a poesia), tudo o que você ouvir, esteja certa de que estarei vivendo.

veja o brilho dos meus olhos & o tremor nas minhas mãos quando estou no palco do teatro, dizendo poesia, isto é, dizendo a vida através da poesia.

e se eu chorar & o sal — das lágrimas — molhar o meu sorriso, sorriso que sustento na boca com o pranto do olhar, não se espante; ao invés de espantar-se com o meu sorriso alinhado ao meu pranto, cante, que o teu canto é minha força pra cantar, que o canto de quem canta comigo é de onde extraio a minha força & vontade & coragem de cantar o meu canto: canto de vida — que é o canto da poesia.

40 primaveras vencidas & eu não me arrependo de nada nas 40 voltas em torno do sol: começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor.

em mim o eterno é música (a música dos versos de um poema, a música dos versos de um poema-canção) & amor (pelo céu, pelo mar, pelo sol, pela pessoa, pela pedra, pelo bicho, pelo mato: pela vida).

eu deixar de cantar (o canto da poesia) ou deixar de gostar de você (vida): não há nada, no mundo, que possa fazer.

não há nada no mundo — nem nunca haverá.

em mim, o eterno é música & amor.

que venham mais 40 primaveras!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do álbum: De volta ao começo. artista: Gonzaguinha. autor dos versos: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

 

 

SANGRANDO

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa
Se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: De volta ao começo. artista & intérprete: Gonzaguinha. canção: Sangrando. autor: Gonzaguinha. citação da canção: Começaria tudo outra vez. autor: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

NO JARDIM BOTÂNICO
7 de maio de 2015

Jardim Botânico_Rio de Janeiro

(Foto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.)
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“Oi querido Paulo, adorei seu entusiasmado texto! Que bom! Obrigado. Viva seu Blog!”  (Péricles Cavalcanti)

 

tantas coisas lindas, exuberantes, para ver, para sentir, para tocar, num jardim botânico, numa tarde de sol (bichos, plantas, cores, sons, formas, odores, texturas), tantas coisas acesas aos sentidos… no entanto, quando a palavra ilumina, seja no lugar que for, a palavra realmente pode ser a coisa mais bonita entre outras tantas coisas bonitas.

“a consciência é uma lanterna que a solidão acende no anoitecer, pra gente ver que nem tudo é treva, que pode haver sentido em viver”.

o poeta leu a frase supracitada, frase iluminista, iluminada, no meio-dia quente de uma trilha, entre um refrigerante & um piquenique, no jardim botânico de brasília.

a frase supracitada estava escrita numa placa ao léu, a esmo, no sol a pino, no meio-dia quente, e, embaixo da frase, tinha uma assinatura da madame de estaël (madame de staël foi uma intelectual francesa, escritora & ensaísta, do final do século XVIII – início do século XIX, que acreditava nos ideais do iluminismo francês & os propagava em suas obras).

o poeta confessa não ter lido mais nada desta autora, porém nunca mais esqueceu a frase, pois ela foi a coisa mais bonita que o poeta viu ali — no jardim botânico.

tantas coisas lindas, exuberantes, para ver, para sentir, para tocar, num jardim botânico, mas quando a palavra ilumina, seja no lugar que for, a palavra realmente pode ser a coisa mais bonita entre outras tantas coisas bonitas: “a consciência é uma lanterna que a solidão acende no anoitecer, pra gente ver que nem tudo é treva, que pode haver sentido em viver”.

que frase linda de se ler num jardim botânico! uma grande luz entre luzes!

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Péricles Cavalcanti.)

 

 

NO JARDIM BOTÂNICO

 

A consciência é uma lanterna
que a solidão acende no anoitecer
pra gente ver que nem tudo é treva
que pode haver sentido em viver

Li essa frase iluminista
no meio-dia quente de uma trilha
entre um refrigerante e um piquenique
no Jardim Botânico de Brasília

Estava escrita numa placa
no sol-a-pino assim ao léu
e tinha uma assinatura embaixo
da Madame de Staël

Não li mais nada desta autora
mas nunca mais eu me esqueci
pois foi a coisa mais bonita
que eu vi ali
que eu vi ali
que eu vi ali

no Jardim Botânico
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(do site: Soundcloud. canção: No Jardim Botânico. autor & intérprete: Péricles Cavalcanti.)

MONTANHA-RUSSA
14 de abril de 2015

Montanha-russa
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a vida é um sobe & desce constante, os seus altos & baixos, ladeiras contínuas, uma gangorra sentimental, montanha-russa vertiginosa: em alguns momentos da descida, a impressão de que o carrinho descarrilhou, perdendo o seu curso & mergulhando num fosso sem fim: fossa funda, agonia atroz.

todavia, num dado momento do mergulho no breu, a percepção de que os trilhos sempre estiveram por debaixo do carrinho, só não estavam à vista (o fosso é um escuro absoluto), e, como em toda montanha-russa, em determinado trecho, a trajetória ganha de volta a sua ascensão. o carrinho, mais uma vez, e aos poucos, ganha fôlego & força & é impulsionado ao topo.

à montanha-russa que me cabe, caibam sempre subidas & descidas, altos & baixos.

é o que está certo.

e que o carrinho, nas descidas ainda por vir percurso afora, nunca descarrilhe, sempre esteja apto às alturas.

é o que está certo.

a vida gosta de quem gosta da vida.

(eu sou um que gosta.)

beijos todos!
paulo sabino.
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(Do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

57.

 

ninguém está a salvo da tristeza
no horizonte nuvens negras
ventos anunciam confusão
mesmo na alma mais ensolarada
nem o rei do que quer que seja
do alto do seu trono de alegria
servos devotados
em fazê-lo sorrir cinco vezes por dia
nem o mestre mais desapegado
quando vê está triste
como um corvo num galho seco
contra o céu cinza

 

58.

 

ainda menino
se descobre lá dentro
o guerreiro
pra lutar contra o destino
armado de escudo e uma espada
dentro do corpo franzino
segue valente
enfrentando o que vier pela frente
o menino cresce
fica homem
e tudo que chorou
e tudo que sorriu
numa conta de subtração
vai dizer a sua sorte
mas a morte só vem
quando um tiro certeiro
derruba não o homem
mas o guerreiro

“CARNELEVAMEN”
13 de fevereiro de 2015

Paulo Sabino_Boitatá Cortejo_Carnaval 2015

(Cortejo do Cordão do Boitatá — 08/02/2015.)
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e eis que, na cidade do rio de janeiro, cidade de cariocas, já é tempo de folia momesca, ainda que a folia momesca, oficialmente, comece no sábado.

blocos de rua, confete, serpentina & purpurina espalhados pelo chão: eis que o tempo das fantasias chegou.

o tempo das fantasias chegou: é carnaval: não me diga mais quem é você: amanhã tudo volta ao normal: as diferenças existentes, hoje, não importam: hoje, eu sou da maneira que você me quer, seja você quem for.

o tempo das fantasias chegou: as fantasias mais revelam que escondem: fantasiados, sentimo-nos livres para realizar desejos encobertos: o que fica guardado durante o ano inteiro, no carnaval, revela-se, ganha destaque, e tudo através das fantasias.

o tempo das fantasias chegou: eu quero saber o seu jogo: eu quero morrer no seu bloco: eu quero me arder no seu fogo.

o tempo das fantasias chegou: deixe a festa acabar: deixe o barco correr: deixe o dia raiar.

(revelamo-nos mais nas fantasias do que na realidade pura & dura.)

(a realidade pura & dura é quem nos põe as máscaras, máscaras utilizadas todos os dias, no convívio social.)

que esta alegria fugaz, que esta ofegante epidemia, que se chama carnaval, encha os nossos corações de força, a fim de seguirmos bem nas nossas andanças, apesar dos pesares, mesmo com todos os dissabores que nos reserva a vida.

que, passado o carnaval, sigamos tomados de uma vertigem que conclame um mundo melhor, menos violento & virulento, para todos nós.

divirtam-se!
até a volta!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras — origens e curiosidades da língua portuguesa. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

CARNAVAL  do italiano carnevale. Primitivamente designava a terça-feira gorda, a partir da qual a Igreja passava a suprimir o uso da carne. Outros estudiosos veem na expressão latina carne, vale (carne, adeus) o étimo mais coerente. Mas carnelevamen, também do latim (prazeres da carne), antes das tristezas e continências da Quaresma, também é uma explicação plausível. Antes de o Carnaval ser a festa que é, chamava-se entrudo (do latim introitu, entrada), porque aqueles três dias são a porta de entrada para a Quaresma. Era pouco mais do que o ato inocente de uns jogarem água nos outros. Bem que muitos estavam precisando de água, pois a higiene pessoal e caseira era deficitária no Brasil de nossos dois Pedros príncipes, que também participavam da folia.

 

 

CARIOCA  do tupi kari’oka, pela composição kara, de kara’iwa, caraíba, homem branco, e oka, casa, casa de branco. A moradia do português, de pedra e cal, foi uma novidade para os índios. As primeiras construções que deram tal qualificação ao habitante do Rio de Janeiro foram erguidas na praia do Flamengo, em 1503, ao lado de um rio que nascia na Tijuca, mas que recebeu também o nome de Carioca. O Largo da Carioca tem este nome porque as águas do rio chegavam ali, no chafariz. Carioca passou a denominar o habitante do município do Rio de Janeiro, e fluminense o do estado. Carioca designa também um tipo de café expresso.
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(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NOITE DOS MASCARADOS

 

Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo

Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Chico Buarque de Hollanda — volume 2. artista & intérprete: Chico Buarque. participação especial: Os 3 Morais. canção: Noite dos mascarados. autor: Chico Buarque. gravadora: Som Livre.)

TRATO DE VIAJANTE: AMANHÃ AO AMANHÃ
16 de dezembro de 2014

Arpoador_Alvorada

(Das pedras do Arpoador, o sol a leste, por volta das seis da manhã.)
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não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

por isso não deixo para amanhã o que posso fazer hoje.

pois amanhã é o amanhã. como diz o dito popular: o futuro a deus pertence.

o importante, portanto, é viver o hoje. quero a preparação do amanhã pelo dia de hoje. vivendo o hoje intensamente, dia após dia, o futuro, inevitavelmente, resultará também em tempo intensamente vivido. a conquista do hoje é a conquista de amanhã.

o “não” é o preparo do “sim”. o “não” é a capacitação, é a aptidão, é a confecção, é a fabricação, do “sim”. dizer “não”, hoje, para muitas coisas, significa, no fundo, dizer “sim” para muitas outras que, no futuro, resultarão em ganhos.

o “não” é o preparo do “sim”. o “hoje” é o preparo do “amanhã”.

quando jovem, isto é, antes, no passado, normalmente as nossas preces, os nossos desejos, eram sempre para o amanhã. projetamos, quando jovem, muito do nosso bem-estar existencial, da nossa alegria de vida, da nossa satisfação íntima, no futuro. e o hoje, isto é, o tempo que era vivido, o presente à época, era uma dança de possíveis, era uma movimentação em prol de algumas possibilidades que nos permitia a idade tenra. as preces, os desejos, ao invés de voltados ao presente, estavam voltados ao futuro.

hoje, tempo presente, homem adulto, não consigo pensar no amanhã, tão cheio de ameaças, tão cheio de intimidações, tão cheio de atemorizações, é o hoje, tão cheio de descrenças & medos. a minha atenção, hoje, é voltada às conquistas de se viver bem o instante que se dá agora, já, neste momento.

tenho frio nesses dias de inverno, dias cheios de ameaças, de intimidações, de atemorizações.

qual a conquista do presente a vida me reserva? um novo poema? uma viagem desejada? um encontro feliz?

qual o saber no amanhã meu dia revelará?

a essas perguntas, hoje, não tenho as respostas. não as tenho e, ainda que quisesse, não as teria.

como, do caminho, só temos os passos, e o futuro a deus pertence (diz o dito popular), proponho um trato de viajante, um acordo de quem está nesta grande viagem que é a vida: ir & voltar para nunca mais.

ir sempre adiante & permitir-se um único retorno: a volta para “nunca mais”, o regresso contínuo & ininterrupto para a certeza de que a vida é feita de partidas, é feita de perdas (a cada passo dado, um a menos na estrada), e de que, por conseguinte, vamos para nunca mais voltar.

chorar o choro do desprezo, o choro do descaso, do desapreço, da indiferença (a vida é perda: a cada passo dado, um a menos na estrada), e instalar, e instaurar, a fatalidade dos desafios (fatalidade difícil de encarar porque traz inseguranças & medos), instalar a fatalidade — dos desafios — por entre as vias & vieses trilhafora.

chamar pelo nome de deus de pouco adianta. na verdade, acho que de nada adianta.

despossuídos, desapossados, destituídos (pois nada se leva deste mundo), mantendo a pose de que possuímos amparo divino, de que possuímos amparo vindo dos céus, de que possuímos amparo logo do espaço escuro mudo, onde nem som se propaga.

e a pose que tentamos manter, isto é, a postura, a afetação, que tentamos sustentar, não diz nada, não diz o que somos (a imensa diferença entre o que parecemos ou pensamos ser & o que realmente somos), se é que, depois de tanta pose, tanta postura, tanta afetação, ainda sobra espaço para o eu, para o que somos verdadeiramente.

não deixo para amanhã o que posso fazer hoje. pois a vida só se dá no presente. as vivências só podemos vivenciá-las no hoje, no agora, no já.

o passado ficou para trás. o futuro ainda não chegou. sendo assim o tempo, que tempo nos resta para viver? respondo: exclusivamente, unicamente, o tempo presente.

sigamos bem. sigamos juntos.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Rastros. autora: Vera Casa Nova. editora: 7Letras.)

 

 

AMANHÃ

 

Não deixo para amanhã
O que posso fazer hoje.
Pois amanhã é o amanhã
Quero a preparação do amanhã
Pelo dia de hoje.
A conquista do hoje
É a conquista de amanhã.

 

O não é o preparo do sim.

 

Quando eu era jovem
Minhas preces eram sempre para o amanhã.
E o hoje era uma dança de possíveis.
Hoje, não consigo pensar no amanhã
Tão cheio de ameaças é o hoje
Tão cheio de descrenças e medos.
Tenho frio nesses dias de inverno
Qual a conquista do presente me reserva a vida?
Qual o saber no amanhã revelará meu dia?

 

 

TRATO DE VIAJANTE

 

Ir e voltar para nunca mais
Refazer caminhos
E gritar
Chorar o choro do desprezo
E instalar a fatalidade
Por entre as vias e os vieses.
Chamar pelo nome de deus
De pouco adianta.
Despossuídos, mantendo a pose.
E tua pose não diz mais nada,
Nem o que tu és,
Se é que ainda és um eu.

INDÍCIO: O PARADEIRO DO POETA
9 de dezembro de 2014

Coração_Árvore_Tronco

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na noite acesa de um luar certeiro, de um luar altaneiro, o paradeiro do poeta foi a velha mesa de onde foi presa, de onde foi a caça, quando aventureiro do primeiro amor que lhe deu tristeza.

de uma beleza de não ter parceiro, de uma beleza sem par, beleza ímpar, única, o candeeiro branco da princesa (candeeiro: no brasil colonial, chapéu de três pontas, também chamado tricórnio) causou surpresa, espanto, pasmo, ao poeta violeiro, que se deu inteiramente à boniteza da princesa & seu candeeiro branco.

sendo, o poeta, cavaleiro de sua princesa, alteza do seu reino amoroso, o poeta pôs, no tinteiro, a pena com firmeza, e, com presteza, foi o mensageiro de sua alteza, que é o seu amor.

findo, com delicadeza, o roteiro em versos, o poeta deixa, na velha mesa (de onde foi a presa, de onde foi a caça), um verso brasileiro que, no fim das contas, resulta em homenagem ao cancioneiro & à língua portuguesa.

pois, ainda que o poeta desejasse secreta a sua paixão por sua alteza, paixão nenhuma nunca foi secreta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais oculta que ela tenha estado, nasce uma luz quando a paixão se projeta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: no tronco velho da árvore, um coração cavado; dentro dele, a ponta de uma seta. um simples nome escrito ali, dentro ou próximo ao coração, completa o antigo indício de um apaixonado.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais que a alma queira ser discreta, o coração quer ser desmascarado: a luz da paixão, do amor, confunde o peito iluminado, iluminado pela luz de um candeeiro, pela luz de um lampião, que vai dentro.

o amor não deixa vida alguma quieta, sossegada: há sempre um arroubo, um desvario, um disparate, a ser cometido.

para o amor não há muitas escolhas: ou morre dele quem ficar calado, abafando-o, sufocando-o, reprimindo-o, ou vive dele quem virar poeta, confessando-o, declarando-o, louvando-o, em versos.

(paulo sabino escolheu viver dele.)

beijo todos!
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(do livro: Sonetos sentimentais pra violão e orquestra. autor: Paulo César Pinheiro. editora: 7Letras.)

 

 

PARADEIRO

 

Na noite acesa
De um luar certeiro
Meu paradeiro
Foi a velha mesa
De onde fui presa
Quando aventureiro
Do amor primeiro
Que me deu tristeza.

De uma beleza
De não ter parceiro
O candeeiro
Branco da Princesa
Causou surpresa
A esse violeiro
Que deu-se inteiro
À sua boniteza.

De Sua Alteza
Sendo cavaleiro
Pus no tinteiro
A pena com firmeza
E com presteza
Fui seu mensageiro.

Findo o roteiro
E com delicadeza
Deixo na mesa
Um verso brasileiro
Ao Cancioneiro
E à Língua Portuguesa.

 

 

INDÍCIO

 

No tronco velho um coração cavado
E dentro dele a ponta de uma seta.
Um simples nome escrito ali completa
O antigo indício de um apaixonado.

Paixão nenhuma nunca foi secreta.
Tem sempre um rastro que vai ser achado.
Por mais oculta que ela tenha estado
Nasce uma luz quando ela se projeta.

A luz confunde o peito iluminado.
Por mais que a alma queira ser discreta
O coração quer ser desmascarado.

O amor não deixa vida alguma quieta.
Ou morre dele quem ficar calado
Ou vive dele quem virar poeta.

MEU PAI, MEU DRÃO
2 de dezembro de 2010

Sprout growing out of concrete

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pai,

meu genuíno drão,

o meu grão da dor do amor,

pai, meu drão,

com você & a vida aprendi:

o amor da gente é como um grão, uma semente que tem que germinar plantada nalgum lugar em mim, ressuscitada das boas memórias que carrego.

pai, meu drão,

eu choro um tanto a sua falta, eu sei, mas saiba: não penso na separação (não encerro o nosso diálogo), não despedaço o coração. sigo os seus ensinamentos de cuidados, cuidados de quem como pai, de quem como drão.

pai, meu drão,

o verdadeiro amor estende-se infinito — imenso monolito a nossa arquitetura.

quem, na vida, poderá fazer este amor morrer?

(nossa caminhadura: dura caminhada pela estrada escura, uma cama de tatame — caminha dura — pela vida afora.)

pai, meu drão,

os meninos são todos sãos.

todos.

o que acontece, eu sei, você sabe, não é resultado de código genético raivoso.

os meninos são todos sãos.

os pecados são todos dos que não têm motivos para roubar, para fraudar, para maltratar.

um mundo tão colérico, tão empedernido, tão truculento, eis a resposta dos meninos a ele.

sabemos, meu pai, meu drão, que somos resultado do que recebemos. se se recebe amor, como recebi de você & da nossa cabocla, a resposta é esta aqui, é a minha.

se se recebe pedrada & brutalidade, nada mais normal, mais pertinente, mais são, do que a resposta dada pelos meninos, também embrutecidos, também empedernidos, também truculentos.

sabemos que os meninos são todos sãos.

deus sabe a confissão dos meninos: não há o que perdoar. há de haver mais compaixão, há de haver mais entendimento de toda a situação.

meu pai, meu drão,

por isso há de haver mais compaixão.

meu pai, meu drão,

o nosso amor é como um grão:

morrenasce: trigo.
vivemorre: pão.

drão…

(meu pai, meu drão: nascido em 1º de dezembro de 1942, devolvido ao chão em 16 de outubro de 2004.)

(o poema-canção que segue, do poeta-compositor gilberto gil, foi escrito por conta do fim do relacionamento com a sua mulher à época, sandra gadelha, também conhecida pelo apelido “sandrão”, de onde foi extraída a partícula “drão”, modo carinhoso com o qual gil passou a chamá-la.)
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

DRÃO

 

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Prenda minha. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Drão. autor: Gilberto Gil. gravadora: Polygram.)