MUNDO CRUEL
19 de novembro de 2014

Céu & árvore_PB

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desce desse galho em que te escondes, desce desse galho que te proíbe aproximação, desce desse galho em que te colocas por causa do medo de viver a vida & sofrer por conseqüência.

cai desse céu sem ninguém, cai desse céu que te proíbe aproximação, cai desse céu vazio, inabitado, árido, cai desse céu onde não vês luz nem horizontes — onde não vês nada além.

pára de ficar rolando o tempo, pára de ficar retardando, postergando, protelando, adiando, o tempo, pára de ficar deixando para depois o que se tem a viver no tempo presente, hoje. pára de ficar lamentando & alimentando dentro — do teu ser — a ferida do tormento, a ferida da angústia, da agonia, da tristeza.

também sei, também conheço, a dor de que te poupas, a dor que evitas viver — sim, o mundo é cruel: guerra, fome, miséria, doença, preconceito, injustiça, ódio, inveja, exploração, violência, mentira.

sim, o mundo é cruel. mas eu te pergunto: no mundo cruel, com que roupas vais contracenar o teu papel? vais contracenar o teu papel, vais viver a vida que é tua, intransferível, com as vestes do tormento ou com as vestes do bem-estar?

porque, queira ou não queira, o mundo é cruel desde que o mundo é mundo, a vida é perda desde que a vida é vida (a cada passo dado, um a menos na estrada), e isso é uma realidade que nos atinge a todos, seres de carne, osso & coração, desde os primórdios dos tempos.

assim sendo (sendo o mundo cruel desde que o mundo é mundo, sendo a vida perda desde que a vida é vida), por que temer o mundo, a vida, e abdicar do mundo, da vida, se, adiando ou não as vivências do mundo, da vida, a dor, que é inerente à condição existencial, consegue alcançar-te mesmo no galho em que te escondes, mesmo nesse céu sem ninguém?

pára de ficar rolando o tempo, pára de ficar retardando, postergando, protelando, adiando, o tempo, pára de ficar deixando para depois o que se tem a viver no tempo presente, hoje. pára de ficar lamentando & alimentando dentro — do teu ser — a ferida do tormento, a ferida da angústia, da agonia, da tristeza.

sim, o mundo é cruel: o destino armou, para ti, uma rede cuja trama resultou numa cilada má. e tu, ressentido, atormentado, entristecido, fizeste, da cilada má, da trama & a rede que o destino armou para ti, a cama, o chão & a parede do teu próprio quarto de dormir.

tu fizeste o teu próprio quarto de dormir com a rede cuja trama resultou numa cilada má.

(já é hora de trocar a cama, o chão & a parede do teu próprio quarto de dormir, já é hora de uma reforma no ambiente.)

pára de ficar rolando o tempo, pára de ficar retardando, postergando, protelando, adiando, o tempo, pára de ficar deixando para depois o que se tem a viver no tempo presente, hoje. pára de ficar lamentando & alimentando dentro — do teu ser — a ferida do tormento, a ferida da angústia, da agonia, da tristeza.

já não há o que resguardar. já não há do que te resguardares. já não há com que te resguardares. não tens ninguém, evitas o mundo, a vida, estás só no galho, no céu. enfim, joga a tua carta, pois, no jogo do mundo, da vida, tua carta vale muito pouco. joga a tua carta antes de arder o ocaso, antes de queimar o poente, antes de ter fim o verão, antes da entrada das estações mais frias, antes que seja tarde demais.

enfim. não vou prosseguir nesta toada, não continuarei nesta cantiga, dizendo-te as coisas que te digo. não vou insistir, dizer mais nada.

deixa que te diga o vento & sua fala muda, deixa que te diga o vento & a toada inaudível do tempo a passar no compasso do teu coração.

(pára de ficar rolando o tempo, pára de ficar retardando, postergando, protelando, adiando, o tempo, pára de ficar deixando para depois o que se tem a viver no tempo presente, hoje. pára de ficar lamentando & alimentando dentro — do teu ser — a ferida do tormento, a ferida da angústia, da agonia, da tristeza.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Sem receita — ensaios e canções. autor: José Miguel Wisnik. editora: Publifolha.)

 

 

MUNDO CRUEL

 

desce desse galho em que te escondes
cai desse céu sem ninguém
onde não vês luz nem horizontes
onde não vês nada além

pára de ficar rolando o tempo
lamentando e alimentando dentro
a ferida do tormento

também sei a dor de que te poupas
sim, o mundo é cruel
mas eu te pergunto, com que roupas
vais contracenar o teu papel?

pára de ficar rolando o tempo
lamentando e alimentando dentro
a ferida do tormento

da cilada má da trama e a rede
que o destino armou pra ti
tu fizeste a cama o chão e a parede
do teu próprio quarto de dormir

pára de ficar rolando o tempo
lamentando e alimentando dentro
a ferida do tormento

já não há o quê, de quê, com quê
que te resguarde
joga a tua carta enfim
antes do ocaso arder antes que tarde
antes do verão ter fim

não vou prosseguir nesta toada
não vou insistir dizer mais nada
deixa que te diga o vento

(pára de ficar rolando o tempo
lamentando e alimentando dentro
a ferida do tormento)
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mais simples. intérprete & artista: Zizi Possi. canção: Mundo cruel. compositor: José Miguel Wisnik. gravadora: PolyGram.)

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AS APARÊNCIAS ENGANAM
11 de novembro de 2013

Fogo & Gelo

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(Esta é uma das coisas mais lindas que a música popular poderia ter feito por mim, por nós. E, nesta fase, tudo muito à flor da pele, é assim: coloco para escutar, e choro choro choro – rs.)
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As aparências enganam os que odeiam & os que amam: pois o amor & o ódio se tocam em suas extremidades: um amor, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento: oceano sem água.

O ódio, em caso de amor, só existe porque, no fundo do ser, existe algum sentimento resguardado pelo outro.

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na fogueira das paixões: os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.

Se a combustão os persegue, as labaredas & as brasas são o alimento (aquilo que faz viver), o veneno (aquilo que faz morrer), o pão, o vinho seco (a bebida quente, que aquece & inebria, e que é, ao mesmo tempo, rascante): a recordação dos tempos idos de comunhão, dos tempos idos de união feliz — sonhos vividos de conviver…

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na geleira das paixões: os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser: não há mais forma de se aquecer… não há mais tempo de se esquentar… não há mais nada pra se fazer senão chorar sob o cobertor…

As aparências enganam os que gelam & os que inflamam: porque o fogo & o gelo se irmanam no outono das paixões: o outono das paixões: tempo de recolhimento, tempo de quietude, tempo de reestruturação do ser: pensar & repensar o relacionamento vivenciado, pensar & repensar se o relacionamento vivenciado vale a pena, e, caso não valha mais, aprontar-se para o porvir: os corações cortam lenha e, depois, se preparam para outro inverno.

Mas, apesar dos pesares, o verão que os unira — que unira os corações agora separados — ainda vive & transpira ali (ainda vive & transpira dentro do ser, na recordação dos tempos idos de comunhão, nos sonhos vividos de conviver): nos corpos juntos, na lareira; na reticente primavera, primavera — estação da floração, do renascimento — ainda hesitante; no insistente perfume de alguma coisa — que não sabemos & não podemos definir ao certo — chamada:

AMOR.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Tunai / Sérgio Natureza.)

 

 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
Não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e depois
Não há nada que os degele
Se a neve cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
Se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e depois
Se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos, na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Elis, essa mulher. artista & intérprete: Elis Regina. canção: As aparências enganam. autores da canção: Tunai / Sérgio Natureza. gravadora: WEA Music.)

CHUVA DE VERÃO
13 de março de 2013

Rio de Janeiro alagadoRio de Janeiro alagado 02

(A cidade do Rio de Janeiro, a mais cara cidade do país & uma das mais caras cidades do mundo, em dias de chuva de verão: a pergunta que não quer calar: quem é que vai pagar por isso?…)
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às quatro da tarde, na floresta da tijuca, floresta cravada nas montanhas que cortam o rio de janeiro, a terra se entrega para a chuva & a terra segrega, separa, aparta, humores túmidos, a terra segrega, separa, aparta, às plantas, o alimento de que precisam para estarem firmes, fortes, a terra segrega, separa, aparta, para as plantas os humores túmidos, os líqüidos encorpados, com que se alimentam, a fim de manterem-se firmes & fortes em sua jornada estática.

a chuva a penetra, penetra a terra, segregando os seus humores túmidos, segregando os seus líqüidos encorpados de alimentos que servem às plantas.

as samambaias & os jatobás se regozijam com o acalanto das águas.

as flores-da-paixão (que são as flores do maracujá), lindíssimas, se abrem de contentamento.

a chuva na floresta: uma bênção do céu.

mas, não longe dali, da floresta, mais abaixo, na cidade que é cortada pelas montanhas, as calhas os rufos os bueiros & as sarjetas, indiferentes a humores & encantos, as calhas os rufos os bueiros & as sarjetas, impassíveis aos líqüidos encorpados da terra & aos encantos florais, se preparam para o trabalho sujo.

o trabalho sujo: o lixo espalhado pelas ruas & calçadas da cidade mais a rede de esgotos & de escoamento da água pluvial deficientes, que já não atendem às demandas urbanas dos dias de hoje, resultam nas célebres enchentes & alagamentos que assolam a cidade nos dias de verão.

entra ano, sai ano, entram prefeito & governador, saem prefeito & governador, e a cidade continua com os mesmíssimos problemas de enchentes & alagamentos provocados pelo calor excessivo dos dias de verão.

à tarde, no fim do dia, depois da cidade “fritar” num sol de mais de 40 graus, um toró desaba & transforma a vida do residente num imenso transtorno. pessoas morrem levadas pela força das correntezas dos rios-ruas, pessoas morrem eletrocutadas, pessoas perdem suas casas em desabamentos, pessoas presas nos engarrafamentos.

a cidade, em termos de serviços, não presta em muitos vários aspectos. e a cidade, mesmo não prestando em termos de serviços sob vários aspectos, é a mais cara do país & das mais caras do mundo. morar, comer, beber, ir a um espetáculo, pegar um cinema, tudo no rio de janeiro, hoje em dia, custa “os olhos da cara”. cidade que será sede de copa do mundo, de olimpíadas, cidade que, por ser a capital do estado, recebe (recebia) já os royalties do petróleo (com a descoberta & exploração do petróleo na camada pré-sal), cidade que vem recebendo cada vez mais turistas, em suma: uma cidade com capital financeiro, com investimentos, e, no entanto: uma cidade que não cuida dos seus calçamentos, que não cuida da qualidade das suas ruas, que não cuida da sua rede de esgotos, que não cuida do seu sistema de escoamento da água pluvial, que não dá a mínima atenção para os desiquilíbrios ambientais causados na região, uma cidade com tanto investimento financeiro & que não investe nos serviços oferecidos. a negligência parte dos gestores oficiais da cidade.

pode-se perguntar: mas a população da cidade não é deseducada, a população da cidade não joga lixo nas ruas, nas praias? sim, a população da cidade é deseducada, joga lixo nas ruas, nas praias, contribui com as enchentes & os alagamentos (afinal, o entupimento de bueiros acontece pelo excesso de lixo jogado nas ruas pelos transeuntes). mas isso, em parte, é responsabilidade dos gestores oficiais da cidade. não existe nenhuma política SÉRIA para a manutenção da cidade limpa ATRAVÉS DE um trabalho DEDICADO à educação da população residente. no estado do rio de janeiro, há alguns anos atrás, a cidade de cabo frio foi eleita a quinta cidade mais limpa do brasil. conseguiu o título porque os gestores oficiais do município apostaram numa política SÉRIA de educação da população quanto a lixo nas ruas. é impressionante: seja no centro, seja em bairro pobre, seja em bairro nobre, nas praias, em cabo frio não se vê detrito nas vias públicas, na orla marítima. 

sabe-se que as condições climáticas do planeta estão mudando muito rapidamente. a cada ano, a terra aumenta um tanto a sua temperatura, e esse aumento da temperatura — gerando, conseqüentemente, mais calor — contribui, entre outras coisas, para chuvas de verão (aqui no rio de janeiro) cada vez mais intensas, chuvas de verão (aqui no rio de janeiro) cada vez mais volumosas.

(uma cidade que não cuida dos seus calçamentos, que não cuida da qualidade das suas ruas, que não cuida da sua rede de esgotos, que não cuida do seu sistema de escoamento da água pluvial, que não dá a mínima atenção para os desiquilíbrios ambientais causados na região, e que é, em termos de serviços, a mais cara do país…)

uma cidade com tanto investimento financeiro & que não investe nos serviços oferecidos…

cuidar da cidade do rio de janeiro, para que não mais ocorram enchentes & alagamentos, para que as calhas os rufos os bueiros & as sarjetas não mais tenham que se preparar para o trabalho sujo, é deixá-la em harmonia com os humores & encantos que a chuva leva à terra ao penetrá-la & tê-la sua. 

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Enquanto velo teu sono. autor: Adalberto Müller. editora: 7Letras.)

 

 

CHUVA DE VERÃO

 

Às quatro da tarde
a terra se entrega para a chuva
e segrega humores túmidos.
A chuva a penetra.

As samambaias e os jatobás
se regozijam
com o acalanto das gotas.

As flores-da-paixão se abrem
de contentamento.

Mas
                  não longe dali
as calhas os rufos os bueiros e as sarjetas
indiferentes a humores e encantos
se preparam para o trabalho sujo.