SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — MÃEANA, BEM GIL & JORGE SALOMÃO — O EVENTO: FOTOS & VÍDEO
22 de fevereiro de 2017

(Fotos de divulgação: Elena Moccagatta)

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(Fotos de divulgação dos convidados-participantes: Jorge Salomão, Bem Gil & Mãeana)

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(A iluminação para o projeto — Foto: Rafael Millon)

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(Casa cheia, público quente — Foto: Paulo Sabino)

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(A primeira noite do projeto: Bem Gil, Mãeana & Jorge Salomão — Foto: Thereza Eugênia)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Mãeana — Foto: Elena Moccagatta)

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(Bem Gil — Foto: Elena Moccagatta)

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(Jorge Salomão — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Bem Gil, Paulo Sabino, Rafael Millon, Mãeana & Jorge Salomão — Foto: Elena Moccagatta)
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Gente querida: a estréia do projeto “Somos Tropicália – 50 anos do movimento”, sexta-feira (17/02), no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, foi um axé, um arraso, maravilha total! Ficamos todos muito felizes e surpresos com a noite, porque, muito sinceramente, esperávamos que fosse bonita mas não a lindeza que foi.

Casa lotada, público quente, participativo e emocionado. Os convidados/ participantes fizeram um show pra ninguém botar defeito!

Alegria imensa pensar que nesta quinta-feira (23/02) tem mais Mãeana, Bem Gil e o poeta Jorge Salomão!

Agradecer demais a todos os envolvidos nesta empreitada: ao Alessandro Boschini a sua luz linda & delicada, ao músico & compositor George Israel a aparelhagem de som, ao Vitor Kruter o registro audiovisual, à Elena Moccagatta o registro fotográfico, e ao Gabinete de Leitura Guilherme Araújo o apoio por abrigar o projeto.

Vem geral na quinta-feira (23/02) porque tá valendo muito!

De presente aos interessados, videozinho, de 3 minutinhos, da estréia do projeto “Somos Tropicália – 50 anos do movimento”, com trechos da noite e depoimentos dos convidados participantes (Mãeana, Bem Gil e Jorge Salomão) e dos coordenadores e curadores (Rafael Millon e Paulo Sabino).

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Mãena, Bem Gil e Jorge Salomão / Pocket-show e leitura de poesias
Dia 23/02 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre

Venham!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Somos Tropicália. participantes: Mãeana, Bem Gil & Jorge Salomão. local: Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. data: 17/02/2017. imagens & edição: Vitor Kruter. coordenação & curadoria do projeto: Rafael Millon & Paulo Sabino.)

LEITURA DRAMATIZADA — “BOCA DE OURO” (NELSON RODRIGUES) — FOTOS, VÍDEO & TRECHO
2 de novembro de 2016

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(Casa lotada, público quente)

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(Simone Vidal, Vanessa Gerbelli Ceroni & Andre Martins)

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(Juliana Martins)

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(Gustavo Ottoni)

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(Thiago Lacerda)

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(Thiago Lacerda & Paulo Sabino)

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(Juliana Martins, Thiago Lacerda & Paulo Sabino)

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(Stella de Paula, Juliana Martins, Thiago Lacerda, Vanessa Gerbelli Ceroni, Gustavo Ottoni, Paulo Sabino, Rose Abdallah & Elvis Fidelle)

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(Da esquerda pra direita, de pé: Rose Firmino, Simone Vidal, Vanessa Gerbelli Ceroni, Juliana Martins, Stella de Paula, Thiago Lacerda, Paulo Sabino, Rose Abdallah, Rafael Millon & Gustavo Ottoni / Da esquerda pra direita, embaixo: Elvis Fidelle, Eduarda Senise, Andre Martins & Enildo Dellatorre)
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Gente,

Que delícia a noite de segunda-feira, 31/10, quanta magia, quanta coisa linda recebida!

Casa lotada, pessoas em pé, público quente, na minha estréia no teatro, fazendo a leitura dramatizada da peça “Boca de Ouro”, do genial Nelson Rodrigues, na companhia dos grandes & generosos atores Thiago Lacerda (como o “Boca de Ouro”), Gustavo Ottoni (como o “repórter Caveirinha”), Juliana Martins (como a “dona Guigui”), Vanessa Gerbelli Ceroni (como a “grã fina Maria Luísa”) & este que vos escreve (como o “preto”), a convite do grupo de teatro “Queridos de Guilherme” & da diretora Rose Abdallah.

Muitíssimo obrigado! Rose amada, agora fui mordido pelo vírus do teatro & quero mais! Responsabilidade sua! Mais & mais leituras, mais & mais personagens!

Ainda sob o estado de “graça” que o palco, o teatro, é capaz de proporcionar.

Acima, algumas fotos da noite. Abaixo, um vídeo, com trechos da leitura, realizada no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, e, ao final, depoimento dos convidados — Vanessa Gerbelli Ceroni, Thiago Lacerda, Juliana Martins, Gustavo Ottoni & Paulo Sabino — sobre a participação neste lindíssimo projeto. Abaixo do vídeo, o trecho da peça relativo à minha participação.

Espero estar com todos — convidados + “Queridos de Guilherme” — em breve! Valeu! Foi bom demais!

Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. trechos da leitura dramatizada da peça: Boca de Ouro. autor: Nelson Rodrigues. diretora da leitura: Rose Abdallah. elenco: Queridos de Guilherme. convidados & depoimentos: Vanessa Gerbelli Ceroni, Thiago Lacerda, Juliana Martins, Gustavo Ottoni, Paulo Sabino. local: Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Data: 31/10/2016. imagens, edição & direção do vídeo: Vitor Kruter.)


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(trecho da peça: Boca de Ouro. autor: Nelson Rodrigues.)

 

 

BOCA DE OURO — Preto, tu me conhece?

PRETO — Conheço, sim, senhor!

BOCA DE OURO — Como é meu nome, preto?

PRETO — Vossa Senhoria é o “Boca de Ouro”, sim, senhor!

BOCA DE OURO — E que mais?

PRETO — O povo também diz que “Boca de Ouro” paga o caixão dos pobres!

BOCA DE OURO — Escuta, negro sem-vergonha! Eu vim aqui porque… eu não sei, eu nunca “sub” quem foi a minha mãe… Por isso, diziam que eu não nasci de mulher… Está ouvindo, preto?

PRETO — Sim, senhor!

BOCA DE OURO — Até que ontem, o Zezinho. Tu conhece o Zezinho?

PRETO — O da perna dura?

BOCA DE OURO — O da perna dura. Zezinho, que é vidente, médium vidente, o Zezinho me disse que tu viste minha mãe! Negro, tu viu a minha mãe?

PRETO — Eu?

BOCA DE OURO — Tu!

PRETO — Vi.

BOCA DE OURO — Viu. Agora diz: e como era? Bonita?

PRETO — Alegre!

BOCA DE OURO — Magra?

PRETO — Gorda!

BOCA DE OURO — Gorda! Diz o resto. Conta tudo. Tudinho. Muito gorda?

PRETO — Teve bexiga!

BOCA DE OURO — Ah, a minha mãe tinha o rosto picado de bexiga?

PRETO — Picadinho! Suava muito! Era gorda e suava muito, sim, senhor!

BOCA DE OURO — Tu viu minha mãe rindo, preto?

PRETO — Gostava de uma boa pândega!

BOCA DE OURO — E ria, minha mãe ria, não ria?

PRETO — Ria!

BOCA DE OURO — E, depois, ficava triste, negro?

PRETO — Alegre!

BOCA DE OURO — Preto, que fim levou minha mãe?

PRETO — A falecida morreu!

BOCA DE OURO — Morreu?

PRETO — Riu até morrer, morreu tão alegre!

BOCA DE OURO — E os bacanas foram ao enterro?

PRETO — Só de Jacarezinho, fui eu, o Biguá e o “Cabeça de Ovo”!

BOCA DE OURO — Toma, negro!

PRETO — Quinhentão!

PRETO — “Seu” “Boca de Ouro”!

BOCA DE OURO — Fala.

PRETO — Quando eu morrer, o distinto paga um cachão legal pra o negro?

BOCA DE OURO — Tu é vivo!

PRETO — Negro quer ser enterrado nu como um santo…

MANIFESTO
11 de outubro de 2016

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(Jorge Salomão — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Paulo Sabino & Jorge Salomão)

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“SUBLIME !!! VIVA Paulo Sabino !!! Vc falou lindamente !!! Que respiração, que inflexão em cada curva / brincadeira do texto, que tempo maravilhoso de dizer cada frase !!! ESPETACULAR !!!”

(Jorge Salomão)

 

 

Aos interessados, um vídeo onde este que vos escreve declama uma prosa poética das mais lindas, que tomei para mim: texto intitulado “Manifesto”, do poeta, letrista & agitador cultural, além de querido amigo, Jorge Salomão.

No texto, o Jorge aponta as tantas razões de haver poesia no mundo. E alerta: se não for para causar o que dizem as linhas, a poesia não vale a pena, não vale a existência, não vale a leitura.

E eu sei dizer que este texto aqui vale a audição!

Logo abaixo do vídeo, a prosa poética na íntegra.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. texto: Manifesto. autor: Jorge Salomão. leitura: Paulo Sabino. data: 05/10/2016.)

 

(do livro: Sonoro. autor: Jorge Salomão. editora: Gryphus.)

 

 

MANIFESTO

 

os poetas devem existir para glorificar o melhor e o pior da vida.
para agitar, para mexer, para escandalizar com a ordem estabelecida das coisas, para instaurar novas.
para deflagrar, para revolucionar conceitos do que é belo, do ético, do social, do cultural.
se não for para isso não vale a pena a poesia.
para insuflar mudanças, para quebrar barreiras, para derrubar preconceitos, para espalhar luzes, para abrir caminhos, para queimar o que não presta, o que empata o aparecimento do novo.
se não for para isso não vale a pena a poesia.
um papel branco solto de um dos maiores edifícios do mundo, ao vento, ao ar do universo.
o que é poesia? ela é alimento, estrada, cama, mesa, o um, os muitos.
um pássaro voando de um lado para o outro.
um homem errante entre sons urbanos.
para mexer com a linguagem, para gerar atalhos, para provocar, para tonificar o sentido das palavras, para inflexionar o moderno, para ser a bomba-relógio no coração do mundo, para ser a sensação do explosivo, do mais caótico, do zero etc.
borboletas brancas numa área pútrida.
para rasgar os céus das coisas, para ser gente entre bichos, para trafegar entre as estações, para transformar o cotidiano, o possível e o impossível de tudo.
para elevar, para levantar, para fazer alianças vanguardistas, experimentais.
para cuspir sobre o lixo do hoje, para armar pontes, gerar poentes, para ser estraçalhadora, para não ser conformada com as estruturas atuais do pensamento.
para remexer na terra, para ser estourada, para ser o coração na garganta gritante.
para não ser cego com as injustiças, as desigualdades, o hoje.
para adiantar o tempo, para danificar o vácuo do presente.
se não for para isso, de que serve a poesia?
para dar informações, sinais.
para ser a pedra no sapato do não-pensamento, para ser performances entre surdos, para ser o berro entre montanhas.
para espalhar sua chama, para instaurar uma outra ótica geral, o gozo entre lerdos e impotentes, a humanidade entre homens, o desespero, a lama entre os dentes da civilização, para a podridão vir à tona, a ruptura entre as horas lentas do convencional, o choque, o estampido, a luz verão varando as trevas do tempo cariado de utopias.
para ser som, lapidação.
para martelar nas mesmas teclas do saber, para espantar a ignorância, para ser simples no desenrolar dos fios, para ser antenada, para ser desbloqueada, para ser plugada no que aparecer, para ser as cores vivas no estalo das descobertas.
para ser límpida, para ser maior, para ser universal.
para ser tudo, enquanto tudo, para fazer.
para ser poesia, senão não vale a pena.
para ser interrogação, para gerar apreensões, para ser maria-chiquinha na cabeça dos otários, para ser maria-sem-vergonha no jardim dos caretas.
para acelerar o normal, para provocar o riso, a galhofa, a respiração livre.
para ser silêncio entre ritmos, para ser dança entre e dentro das palavras.
para falar bastante, para ter algo a dizer.
para não colaborar com a cristalização e brutalização da sensibilidade do homem contemporâneo.
para ser reveladora, mesmo no que está mais escondido.
para ser um nó difícil de desatar, um portão de entradas sem portão.
para ser como a visão das estrelas a olho nu.
para ser como portas se abrindo infinitamente.
a poesia deve nos colocar à deriva.
deve nos tirar a sonolência, deve nos manter aceso.
por entre a grama no cimento entre paralelepípedos.
para nos alertar dos perigos a todo instante.

PASSARINHÃO
30 de setembro de 2016

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(Gavião)
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O texto abaixo, em negrito & entre aspas, foi escrito pelo querido xará Paulo Almeida:

 

“O ‘Coletivo Chama’ nos convocou [Mais e Melhores Produções e Marketing, empresa do Paulo Almeida] para cuidar do lançamento do seu primeiro CD ‘Todo Mundo é Bom’. Um trabalho muito potente e com várias possibilidades de leitura. São muitos os recortes e muitos os motivos para ficarmos atentos a esse trabalho.

Tarefa difícil abrir caminhos para um trabalho tão profundo e tão bem produzido.

Lancei uma ideia maluca, que foi prontamente comprada por todos do coletivo que estavam naquela reunião: que convidássemos compositores, atores, literatos, editores, poetas, músicos, para uma audição aleatória de uma das faixas do CD seguidas de comentários sobre o que ouviram. Essas audições e comentários seriam filmados.

Convocamos um timaço para registrar suas impressões. Para nosso espanto, a maioria aceitou sem pestanejar.

Assim, temos comentários faixa a faixa de um disco muito saboroso.”

 

Deixo pra vocês o vídeo do qual participei, vídeo da faixa “Passarinhão”, falando sobre a faixa com um timaço (honra & alegria): com a atriz Clarice Niskier, com o pianista & compositor André Mehmari, com o professor de música da UniRio Josimar Carneiro, com a cantora Áurea Martins & com o cantor & multi-instrumentista Domenico Lancellotti.

Vale o play pra ouvir a faixa & pros comentários!
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Passarinhão: além do diálogo que o poeta-compositor mantém com o gavião, que ronda a sua localidade, assombra o seu quintal, o gavião, no poema-canção, é a personificação/personalização de um sentimento ruim, de um mau agouro, que sobrevoa o ser do poeta-compositor: passa, gavião; não arranha o coração do poeta-compositor; não assombra o seu quintal.

Passa, gavião. Por que tu, passarinhão, te aninhaste debaixo do pensamento do poeta-compositor, dentro de alguma dor do poeta-compositor, com teu rumor de rapina & teu silêncio de tumor, teu silêncio de algo que mata por dentro?, passarinhão ávido pra atiçar um sofrimento no poeta-compositor.

Sai, sai, passarinhão. Faz favor, tem compaixão.

O ovo gorado do passarinhão já agourou o poeta-compositor. O canto triste do gavião calou de dor a voz do poeta-compositor. Acabou que tu, passarinhão, ficaste mais vivo que a vida do próprio poeta-compositor, e o medo de viver, de amar, empalhou o poeta-compositor. Acabou que tu, gavião, penetraste o pesadelo do poeta-compositor, pássaro-invasor.

Passarinhão, larga o poeta-compositor & segue a trilha do acauã, abandone o quintal do poeta-compositor, para que a manhã rebrilhe na sua casa-ser.

Sai, sai, volta, não. Passa, passa, gavião, a fim de o poeta-compositor alcançar a sua redenção, a sua proteção, a sua salvação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. artista: Coletivo Chama. álbum: Todo mundo é bom. canção: Passarinhão. música: Thiago Thiago de Mello. letra: Thiago Amud. comentários: Paulo Sabino, Domenico Lancellotti, Áurea Martins, André Mehmari, Josimar Carneiro, Clarice Niskier.)

 

PASSARINHÃO   (Thiago Amud)

Passa, passa, gavião
Todo mundo é bom e mau
Não me arranha o coração
Não assombra meu quintal
Passo-preto, passado que não passou
Que tambor te encantou?
Que ato, que palavra oculta te perpetuou?
O teu olho vazado me divisou
Tua venta ventou
Teu bico bicou bem o músculo que atrofiou
Por que te aninhaste debaixo do meu pensamento
Dentro de alguma dor
Com teu rumor de rapina e teu silêncio de tumor
Ávido pra me atiçar um sofrimento?
Sai, sai, passarinhão
Bacurau mudou de tom
Faz favor, tem compaixão
Todo mundo é mau e bom
Passo-preto, espantalho não te espantou
Tiro não te matou
Que crime dormido em meu sangue te maravilhou?
O teu ovo gorado já me agourou
Teu canto me calou
Ficaste vivo mais que a vida, o medo me empalhou
Por qual razão desconhecida botaste tocaia?
Praga ou desamor?
Tu que és metade uma harpia, metade és um estupor
Tu que penetraste o meu pesadelo, meu invasor
Passa noite, passa arribação
Passa a terçã
Passa, passa, gavião
Me larga e segue a trilha do acauã
Que a manhã rebrilha
Sai, sai, volta não
Passa, passa, gavião
Redondilha, redenção

CRISTIANO MENEZES: POETA DE PRIMEIRA GRANDEZA, PESSOA DE PRIMEIRA LINHA
5 de setembro de 2016

Cristiano Menezes & Paulo Sabino

(Cristiano Menezes & Paulo Sabino)

Cristiano Menezes

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(A dedicatória para o meu exemplar de “Guardanapos”, livro de Cristiano Menezes)

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(Cristiano Menezes no projeto “Ocupação Poética”, coordenado por Paulo Sabino)
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Uma notícia tristíssima, que me deixou atônito desde recebida. Desde a notícia, querendo escrever sobre o acontecido, mas cadê palavra para começar? Pela falta, começo pelo início: quinta-feira, primeiro de setembro (01/09/2016), faleceu o querido amigo & grande poeta CRISTIANO MENEZES.

Cristiano Menezes: poeta de primeira grandeza, pessoa de primeira linha.

Eu, desde que conheci o Cristiano Menezes, através de outro grande poeta & querido amigo, Luis Turiba, apaixonei-me de imediato: por sua limpidez de alma, por sua bondade, por sua generosidade, por sua cordialidade, por seu carisma, por sua inteligência. Uma pessoa absolutamente apaixonante por tudo absolutamente. Honra & prazer poder conhecê-lo & trabalhar com o Cris, tê-lo como PARTE VIVA da história do projeto que coordeno, o Ocupação Poética (no dia em que o Cris fez o projeto ao lado do Luis Turiba, 9 de setembro, era aniversário dele & fizemos, no teatro Cândido Mendes, uma grande festa, digna do aniversariante).

Ele internou para operar & um dia antes da operação, falamo-nos. Prometi-lhe uma visita assim que ele deixasse o hospital. Não deu… Um nó na garganta, um choro preso no peito.

A notícia me bateu feito porrada pesada & inesperada. Imagine uma porrada numa situação inimaginável, que de tão inimaginável, de tão inesperada, até agora, não se entende de onde veio o soco. Esta é a sensação que me resta neste momento.

Como homenagem, três poemas do poeta + o vídeo de encerramento da sua noite no projeto que coordeno, o Ocupação Poética, noite linda, onde o Cris comemorou o seu aniversário — que está chegando, 9 de setembro.

Parabéns por tudo, Cris! Saúdo a sua existência!

Poeta de primeira grandeza, pessoa de primeira linha.

Nunca, por mim, os ensinamentos dos seus versos, da sua poética, serão esquecidos: sempre comigo mesmo, pois a jornada que é a vida é de cada um, a jornada que é a vida é intransferível, é inadiável, sem cordão que me proteja (do cordão, só a marca no umbigo), solto no mundo, solto para o próximo passo, livre para saborear os acontecimentos, senhor de mim, senhor dos meus desejos, senhor das minhas vontades, sempre pronto a conhecer, a desvendar, o novo, o inédito, sempre mantendo-me único, ímpar, longe do que se repita, do que seja mera cópia.

Ser genuíno, ser Paulo Sabino, como Cristiano Menezes foi genuinamente Cristiano Menezes.

(E que nunca se apague, que seja perene o endereço da origem do afeto, que nos faz sentir & merecer o calor dos apreços.)

Salve o poeta & amigo!

Tenho certeza de que os deuses & as musas estão em festa por receber poeta do seu quilate & pessoa da sua grandeza.

Saudades imensas, Cris. Sempre.

Saravá!

Beijo todos e, especialmente, o Cris.
Paulo Sabino.
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(do livro: Guardanapos. autor: Cristiano Menezes. editora: 7Letras.)

 

 

COMIGO MESMO

 

Não tenho mais o cordão
dele só a marca no umbigo
com frio no coração
aprendi o calor dos amigos

Podia ter morrido
junto com tudo o que matei
mas nasci atento
pras coisas que ainda não sei

E assim, a cada novo dia,
sempre dono do meu nariz
vivo o medo e a alegria
de quem está sempre por um triz

Na corda bamba é que se vê quem é
o passo adiante é pra quem está solto
lá embaixo a plateia está de pé
aqui no peito o meu mar revolto

O salto é meu
a mão, do companheiro,
e só quando me lanço
é que me sinto inteiro

Agradeço a carona
mas sou filho de mim mesmo
do norte, do sul
da minha vida a esmo

 

 

AOS MEUS FILHOS

 

Quando nascemos
herdamos o que antes foi feito
línguas canções
ritmos comidas
roupas jeitos

São signos que ficam
porque significam
pontos que se tecem
elos que se multiplicam

E que de nó em nó
haja sempre o novo
de Colombos destemidos
a descobrir o além
dos horizontes presumidos

Este é o desafio
da meada que nos compete
viver a inédita experiência que somos
manter-nos únicos
longe do que se repete

Mas na memória
esteja sempre o cais
de onde partimos
eterno porto
que não veremos jamais

E que nunca se apague
seja o perene endereço
a origem do afeto
que nos faz sentir e merecer
o calor dos apreços

 

 

CURRICULUM VITAE

 

Ginásio no São Bento
e Zé Bonifácio
clássico no Santo Inácio
o que não foi fácil
Cheguei a estudar Direito
mas saí errando por aí…
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Encerramento da noite, por Paulo Sabino, e o Parabéns pra você ao poeta aniversariante Cristiano Menezes.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (3ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA PADILHA, TONICO PEREIRA, LUANA VIEIRA & GERALDO CARNEIRO — ENCERRAMENTO
8 de abril de 2016

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(Maria Padilha)

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(Luana Vieira & Tonico Pereira)

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(Tonico Pereira)

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(Geraldo Carneiro)

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(Com Maria Padilha & Tonico Pereira)

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(Com Luana Vieira)

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(Com Geraldo Carneiro)

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(Os participantes desta 3ª edição do projeto: Vitor Thiré, Luiza Maldonado, Danilo Caymmi, Paulo Sabino, Geraldo Carneiro, Camilla Amado, Maria Padilha, Alice Caymmi, Luana Vieira, Bruce Gomlevsky & Tonico Pereira)
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A quem possa interessar, os 5 últimos vídeos da 3ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 24 de fevereiro (quarta-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Bruce Gomlevsky, Tonico Pereira, Vitor Thiré, Maria Padilha, Camilla Amado, Luiza Maldonado, Luana Vieira, Danilo Caymmi & Alice Caymmi.

Nos vídeos desta publicação, poemas & traduções do grande homenageado da noite, o sofisticado poeta & dramaturgo, além de querido amigo, Geraldo Carneiro. Nos 3 primeiros vídeos, a atriz Maria Padilha recita 3 sonetos do poeta & dramaturgo inglês William Shakespeare, na tradução do Geraldo Carneiro: o “Soneto 76”, o “Soneto 138” & o “Soneto 116”. O último vídeo da atriz, recitando o “Soneto 116”, infelizmente, inicia com um corte na leitura do primeiro verso. O poema, na íntegra, encontra-se logo abaixo do vídeo, à leitura & sua total apreensão. No quarto vídeo, o ator Tonico Pereira & a atriz Luana Vieira, sob a direção de cena do ator & diretor Bruce Gomlevsky, interpretam o poema épico “Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro”, recém-lançado na recém-lançada antologia poética — “Subúrbios da galáxia” — que comemora os quarenta anos de produção literária do grande homenageado da noite, Geraldo Carneiro, poema que narra, de maneira divertida & ao mesmo tempo crítica, a história da formação desta cidade de onde sou natural, São Sebastião do Rio de Janeiro. No quinto & último vídeo desta postagem, encerrando esta edição do projeto, o próprio Geraldo recita um poema do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, originalmente escrito em inglês & traduzido para o português pelo Geraldo Carneiro.

Espero que vocês tenham se divertido com o projeto tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando.

Mais uma vez, o meu muito obrigado a todos os espectadores & participantes!

Agora, espero os senhores na quarta edição do projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), que está chegando (já temos a data definida, o homenageado & diversos participantes confirmados)! Mais à frente, maiores informações sobre a nova edição!

Até já!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Maria Padilha recita o Soneto 76, do poeta & dramaturgo inglês William Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro.)

 

SONETO 76  (William Shakespeare / Tradução: Geraldo Carneiro)

 

Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia,
Tão incapaz de produzir inventos
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas,
E assim vou refazendo o que foi feito
Reinventando as palavras do poema.
………….Como o sol, novo e velho a cada dia,
………….O meu amor rediz o que dizia.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Maria Padilha recita o Soneto 138, do poeta & dramaturgo inglês William Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro.)

 

SONETO 138  (William Shakespeare / Tradução: Geraldo Carneiro)

 

Se minha bem amada diz que jura,
Eu creio, embora saiba que ela mente:
Que ela não me suponha sem cultura
Nas falsas sutilezas dessa gente.
Finjo que ela me considera moço,
Embora ela me saiba já passado.
À falsa lábia dela dou meu endosso:
Suprimo a realidade dos dois lados.
Mas por que ela não diz que é insincera?
Por que eu não digo que sou veterano?
O amor é sábio se parece à vera
E tem horror que alguém lhe conte os anos.
………….Mentimos um ao outro e assim confio
………….Nas mentiras de nossos elogios.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Maria Padilha recita o Soneto 116, do poeta & dramaturgo inglês William Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro.)

 

SONETO 116  (William Shakespeare / Tradução: Geraldo Carneiro)

 

Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
Ou se move e remove em desamor.
Oh, não: o amor é marca mais constante,
Que encara a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do tempo, embora
Sua foice desfigure o lábio e a face.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até seu desenlace.
Se isso é erro meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Tonico Pereira e Luana Vieira interpretam o poema Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro. autor: Geraldo Carneiro. direção de cena: Bruce Gomlevsky.)

 

FABULOSA JORNADA          (Geraldo Carneiro)
AO RIO DE JANEIRO

(rap-rapsódia exaltação)

 

1. De como eu, Brás Fragoso, vim dar
às terras do Brasil, por ordem de el-rei
Dom Sebastião, o Desejado

Rio-verão, pós Eva e Adão, cheguei:
segundo a lenda, os outros navegantes
que por este cenário navegaram
supunham que aqui fosse foz de um rio,
ou chamava-se “rio” a qualquer angra;
e como o mês talvez fosse janeiro,
chamaram o sítio Rio de Janeiro,
futura foz de tanta fantasia.

eu vim com a armada de Estácio de Sá,
fidalgo, primo do Governador,
para tomar o Rio dos franceses
…………heréticos blasfemos protestantes
…………traficantes da Caesalpinia echinata
……………………………………vulgo pau-brasil
…………o ouro original de nossas matas.

como se não bastasse esse pecado,
ainda faziam com nossas nativas
o mesmo que Jacó fez com Raquel
e Davi praticou com Betsabá.

assim se originou minha odisseia:
eu mal sabia das desaventuras
que mudariam todo o meu futuro,
por força de meus sonhos naufragados;
e embora batizado Brás Fragoso,
aqui meu nome, Brás, virou Brasil,
e o Fragoso tornou-se Naufragoso.
mas pra saber dessa aventura inglória,
há que saber, no entanto, a minha história.

 

2. Breve retrospecto das condições
adversas em que encontrei a terra do
Rio de Janeiro

na baía da Guanabara
não havia como apartar o joio do joio
era tamoio ligado com francês
era francês ligado com tamoio

TUDO DOMINADO

os donos do tráfico os traficantes
todo mundo cantando em coro:

(Entra o funk “Tá tudo dominado”,
com a voz processada pelo DJ, misturando
frases em diversas línguas.)

todos os tamoios nas trapaças
……………………dos franceses
colonizados no Forte Coligny
……………………colignyzados
só quem não fazia parte da tramoia
……………………era Arariboia
ex-cacique exilado em Cabo Frio
……………………agora office-tupinamboy
não podia nem desembarcar em Niterói
você não sabe como é que dói.

 

3. De como encontramos no Brasil um
aliado paranormal, sem o qual nossa
vitória seria impossível

felizmente, além da fé e da razão,
tínhamos do nosso lado um super-herói:
o irmão José de Anchieta.

Anchieta, com o perdão da má palavra,
era um jesuíta carne de pescoço,
conversava com os bichos e com as feras,
chamava urubu de meu brother
e papagaio de meu louro,
e quando não tinha homem branco
……………………urubuzando por perto
Anchieta andava sobre as águas
e de vez em quando voava,
voava sobre a terra e sobre o mar,
nunca deixando um português olhar
porque nós, o pessoal de Portugal,
somos mais burros do que São Tomé:
necessitamos ver para não crer.

Anchieta, não contente em escrever
a primeira gramática da língua tupi,
ainda ensinou os índios a dizer
goodbye, arrivederci, hasta la vista
tudo isso no mais perfeito latim.

e quando alguém era inimigo do império
………………………………./ de Portugal,
Anchieta baixava o pau.

graças a ele e aos seus superpoderes,
superamos as tempestades do verão
& no dia primeiro de Março
desembarcamos cá para fundar
entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar
esse projeto de esplendor à beira-mar:
São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

4. De como fizemos o desembarque,
comandados por Estácio de Sá

aqui fincamos nossos estandartes.
e Estácio começou a dizer suas palavras,
“Em nome de el-rei Dom Sebastião”,
etc. e tal,
mas ninguém lhe prestou atenção.
porque vimos, através do olhar de Anchieta,
o espírito de Deus se mover sobre a face
………………………………………………/ das águas.
depois Deus apartando a luz das trevas
depois Deus chamando a luz de Dia
e chamando as trevas de Noite,
e da noite e da manhã fez-se o primeiro dia.

e Deus chamou o firmamento de Céu,
e Deus separou as águas e as terras,
e etc. etc.
e nós, maravilhados, assistindo ao Gênesis
…………no camarote vip na Praia Vermelha.

fomos erguendo a nossa paliçada,
tudo miraculosamente bem,
até que no sexto dia, na hora do descanso,
os tamoios mandaram em cima da gente
uma chuva de flechadas.

Anchieta tentou segurar a rapaziada
dizendo que Deus ia nos proteger,
ia salvar a nossa vida,
mas neguinho já tava careca de levar
………………………………………flecha perdida.

 

5. De como sobrevivi à chuva
de flechadas

um mês depois, o Anchieta se mandou.
e nós aqui, na chuva de flechada,
tomando pau, borduna e cacetada,
comendo o pão que Belzebu amassou.

pensei até em escrever uma epopeia
contando tantos feitos e malfeitos.
mas não achei herói de nenhum lado:
Estácio era um rapaz meio fechado,
e o chefe dos tamoios, Aimberê,
com esse nome, não dava pra escrever.

(Entra uma índia belíssima, com figurino de
Jean-Paul Gautier em versão tropical.)

foi então que encontrei Paraguaçu,
a teteia top model do Baixo Grajaú.
Paraguaçu, falsificada de pai e mãe,
foi trazida aos doze anos do Paraguai,
e aqui, nas praias da Guanabara,
adquiriu a cultura francesa,
conhecia o fleur de rose
o ne me quitte pas
o voulez-vous coucher avec moi.

por obra e graça de Paraguaçu,
eu desisti de ser só português.
e assim me transformei em portugaio,
cruza de português com paraguaio.

 

6. De como fui me adaptando ao
modo de vida da mui leal cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro

e foi assim que eu me tornei mestiço
ou seja, nem isso nem aquilo
imaginei que eu era o poeta Sá de Miranda
só admirando os prodígios do Novo Mundo
fiquei doidão, curtindo a realidade
da mui leal cidade de São Sebastião
só fumando & espiando o movimento
tupinambá de olho na pulseirinha da turista
cunhã na pista oferecendo os balangandãs
tupinambá malhando exibindo o corpão
e eu vendo cada coisa do balacobaco
fumando esse negócio chamado tabaco

achei que tinha chegado ao Paraíso,
pensei em me lembrar de certos versos
que celebravam as graças do universo
mas não lembrei foi xongas, nada não
de tanto que fumei meu baseadão

 

7. De como percebi que as aparências
são enganadoras no Novo Mundo
e desejei sinceramente ter ficado em
Portugal

de repente, acabou-se o que era doce
Paraguaçu, minha deusa paraguaia,
aproximou-se do meu guarda-sol
à sombra das bananeiras em flor e disse:

PARAG.: “Eu queria te comer todinho.”
sorri, sem compreender a ambiguidade
que estava por detrás da fala dela, mas já
escolado na fala local, lhe respondi:

BRÁS: “Não é uma frase muito apropriada
pra uma índia bem-educada, mas eu aprecio
a ideia, tô dentro.”

PARAG.: “Tá dentro é do moquém.”

BRÁS: “Que diabo é moquém? Quem te en-
sinou a falar assim, quem?

PARAG.: “Meus ancestrais, a minha mãe,
a mãe da minha mãe (em francês), mes amis
tupis. Tupãna, Tupã.”

ela então começou a me apalpar.

BRÁS: (gostando) “Não adianta me apalpar,
que eu só gosto mesmo é naquele lugar.”

PARAG.: (sorrindo) “Eu vou ficar só com
as tuas vísceras. Tua cabeça quem vai comer
é Aimberê, depois de te baixar a borduna.
Os curumins vão beber o teu caldinho.”

BRÁS: (com terror) “Paraguaçu, você não pode
fazer uma coisa dessas comigo! Eu sou
teu irmão, teu amásio, teu amigo!”

 

8. De como recorri à Divina Providência,
porque era esta a última providência que 
me restava tomar

eu que ainda era mais ou menos moço
não tinha idade pra virar almoço
filé sem osso alcatra bacalhau
pra um bando de tamoio canibal,
e furibundo dirigi-me aos céus:
“Ora, Senhor, que tanto me maltratas:
Já me trouxestes a este cu do judas,
E, para arrematar, ainda me matas?”

(Ouve-se um estrondo ao fundo.)

então ouviu-se um estrondo de canhão:
chegaram galeões de Portugal!
e eu assisti do morro do Castelo
ao embate o arranca-rabo o xeque-mate
sem saber qual era o bem, qual era o mal.

 

9. De como a minha história chegou ao
juízo final, ou à desgraciosa falta dele

e veio a guerra e veio a destruição
Paraguaçu fugiu com um temiminó
e foi passar o verão em Guarapari
Aimberê, coitado, foi pras cucuias
virou constelação tupinambá
Estácio tomou uma flecha na cara
morreu flechado como nosso padroeiro
São Sebastião do Rio de Janeiro

e vi todas aquelas almas voando
as almas são mais leves do que o ar
se é que há mesmo almas neste mundo
se não as há, talvez haja mais além
onde os pedaços desconexos da vida
onde os pedaços desconexos
onde os pedaços
lá onde a vida se rejubile
e as alegrias passem em desfile
na Marquês de Sapucaí do infinito

só sobrei eu, já meio soçobrado
só eu: a obra e a sobra
todas as minhas nações e encarnações
para sempre aqui
eu era agora carioca
malocado na minha maloca
num muquifo no Cortiço
ou num barraco do Morro da Favela
ex-Brás Fragoso agora apelidado
Brasil Naufragoso
porque minha alma naufragou aqui
aqui fiquei e aqui me edifiquei
e o pior é que gostei
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Geraldo Carneiro recita Quase soneto a quatro mãos, poema escrito originalmente em inglês por João Ubaldo Ribeiro, tradução de Geraldo Carneiro.)

 

(poema escrito originalmente em inglês por: João Ubaldo Ribeiro. tradução: Geraldo Carneiro.)

 

QUASE SONETO A QUATRO MÃOS

 

até a morte eu me atormentarei
pelo que descobri e não encontrei,
pelo que, pascaliano como sou,
eu compreendi e ainda assim maldigo.
sou o idiota mais perfeito, aliás,
por feito mais de carne que de gás.
é esse fado que me leva adiante
num mundo para o qual não sou prestante.
tudo o que tenho as mulheres me deram:
consolação, razão para existir.
benditas, berenices, beneditas,
também sejam benditos meus amigos,
pois gosto deles, tenham longa vida,
e até eu mesmo, que não a mereço,
mas que a observo e sei qual é seu preço.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (3ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: ALICE CAYMMI & DANILO CAYMMI
25 de março de 2016

Ocupação Poética_3ª edição 16

(Alice Caymmi)

Ocupação Poética_3ª edição 17

(Danilo Caymmi)

Ocupação Poética_3ª edição 15

(Danilo & Alice Caymmi)

Alice Caymmi_Aniversário

(No aniversário da Alice, alguns dias atrás)
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A quem desejar, 5 vídeos da 3ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 24 de fevereiro (quarta-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Bruce Gomlevsky, Tonico Pereira, Vitor Thiré, Maria Padilha, Camilla Amado, Luiza Maldonado, Luana Vieira, Danilo Caymmi & Alice Caymmi.

Nos vídeos desta publicação, os versos do grande homenageado da noite, o refinado poeta & dramaturgo, além de querido amigo, Geraldo Carneiro, e um poema-canção do mestre baiano Dorival Caymmi: em 3 vídeos, a cantora & compositora Alice Caymmi recita os poemas “O elogio dos soníferos”, “Conspirações” & “Dissonância”, todos do Geraldo Carneiro. No quarto & último vídeo da artista, ela canta a “Canção da noiva”, do poeta-compositor — seu avô — Dorival Caymmi. No quinto & último vídeo desta postagem, o cantor & compositor Danilo Caymmi, além de falar divertidamente sobre o seu pai no cinema (um verdadeiro “galã russo”), interpreta, juntamente com a Alice, a “Canção do amor rasgado”, nascida da parceria entre o Danilo Caymmi & o Geraldo Carneiro.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Alice Caymmi recita O elogio dos soníferos, poema de Geraldo Carneiro.)

 

O ELOGIO DOS SONÍFEROS  (Geraldo Carneiro)

 

soníferos eu lanço contra as feras

que me devoram a solidez do sono.

a solidão em si não me apavora.

os outros são o inferno, o purgatório

e às vezes são também o paraíso.

não sei do inverno que virá ou não

virá, ainda não formei juízo.

aliás, juízo sempre me faltou

e há de faltar, espero, até a morte,

esse capítulo da história natural,

contra o qual não farei rebelião.

amparo metafísico? não tenho.

invejo o céu, a dança das esferas,

morro de inveja do Ptolomeu,

vagando a salvo nas cosmologias

com Deus no centro, o resto ao seu redor.

não tenho centro, cetro ou direção.

a mim só não me falta coração
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Alice Caymmi recita Conspirações, poema de Geraldo Carneiro.)

 

CONSPIRAÇÕES  (Geraldo Carneiro)

 

alguma coisa se desprende do meu corpo

……………………………………………………..e voa

não cabe na moldura do meu céu.

sou náufrago no firmamento.

o vento da poesia me conduz além de mim

o sol me acende

…………………………….estrelas me suportam

Odisseu nos subúrbios da galáxia.

amor é o que me sabe e o que me sobra

outro castelo que naufraga

como tantos que a força do meu sonho

quis transformar em catedrais.

ilusões? ainda me restam duas dúzias.

conspirações de amor, talvez não mais
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Alice Caymmi recita Dissonância, poema de Geraldo Carneiro.)

 

DISSONÂNCIA  (Geraldo Carneiro)

 

depois do dia em que você morreu

(ou só morreu aqui dentro de mim)

enlouqueci, fiquei fora de si,

exorbitei, gastei exorbitâncias,

as ânsias do passado e do futuro.

em suma, eu me matei ou me morri

depois ressuscitei e recitei

meus paradoxos, minhas paralaxes,

perdi a fé, o centro, o astro rei

os para-lamas da minha sintaxe,

só me restando como contraforte

o dom de me entranhar noutras criaturas

e fabricar fragmentos de poesia,

eu kamikaze de mim mesmo

extravagando a esmo à-toa ao léu

sem direção, sem coração, sem lua

desorbitado para além de mim
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Alice Caymmi canta Canção da noiva, poema-canção de Dorival Caymmi.)

 

CANÇÃO DA NOIVA  (Dorival Caymmi)

 

É tão triste ver partir
Alguém que a gente quer
Com tanto amor
E suportar a agonia
De esperar voltar

Viver olhando o céu e o mar
A incerteza a torturar
A gente fica só
Tão só
A gente fica só
Tão só

É triste esperar…
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Caymmi visita Tom. artistas: Tom Jobim / Dorival Caymmi. canção: Canção da noiva. autor: Dorival Caymmi. intérprete: Stella Caymmi. gravadora: Universal Music.)


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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Danilo Caymmi & Alice Caymmi cantam Canção do amor rasgado, poema-canção de Danilo Caymmi & Geraldo Carneiro.)

 

CANÇÃO DO AMOR RASGADO  (Geraldo Carneiro)

 

Meu amor, te amo

Quantas mil vezes te amo

Mar que se instalou dentro de mim

Meu amor, te quero

Mesmo quando não te quero

Meu céu é quando estás perto de mim

De tanto sonhar com tuas artes

Me dispersei, não sei de mim

Sim, me descobri

Só conheci a solidão

Antes de ter a luz do teu amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Alvear. artista & intérprete: Danilo Caymmi. canção: Canção do amor rasgado. música: Danilo Caymmi. poema: Geraldo Carneiro. gravadora: Biscoito Fino.)

 

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (3ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA
1 de março de 2016

Ocupação Poética_3ª edição 09

(Casa lotada na 3ª edição deste projeto)

Ocupação Poética_3ª edição 02

Ocupação Poética_3ª edição 03

Ocupação Poética_3ª edição 24

(Os participantes desta 3ª edição do projeto: Vitor Thiré, Luiza Maldonado, Danilo Caymmi, Paulo Sabino, Geraldo Carneiro, Camilla Amado, Maria Padilha, Alice Caymmi, Luana Vieira, Bruce Gomlevsky & Tonico Pereira)

Ocupação Poética_3ª edição 20

(Paulo Sabino: lendo poemas & o “MC” — Mestre de Cerimônias — da noite)

Ocupação Poética_3ª edição 19

(O ator & diretor Bruce Gomlevsky)

Ocupação Poética_3ª edição 26

(A atriz Camilla Amado & o homenageado da noite, Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 18

(O ator Vitor Thiré & a atriz Luiza Maldonado em trecho de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 15

(Danilo & Alice Caymmi em dueto de canção nascida da parceria entre Danilo Caymmi & Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 21

(A atriz Maria Padilha interpretando sonetos de Shakespeare na tradução de Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 22

Ocupação Poética_3ª edição 12

(O mestre Tonico Pereira & a atriz Luana Vieira na encenação do poema épico “Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro”, recém-lançado em livro por Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 04

(Com os grandes & queridos Tonico Pereira & Maria Padilha)

Ocupação Poética_3ª edição 07

(Com os diretores artísticos da noite: Bruce Gomlevsky & Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 05

Ocupação Poética_3ª edição 06

(Com o grande homenageado da noite, o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro)

Ocupação Poética_3ª edição 29

(Ao final de tudo, no camarim, Fernandinha Oliveira & Adil Tiscatti, os administradores do teatro Cândido Mendes, e nossos amigos que ajudaram a lotar a sala nesta 3ª edição)
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“Querido Paulo,

Foi uma noite adorável.

Agradeço a você, pela delicadeza, pela compreensão da poesia, pela pluri-competência.

Saiba que você ganhou pelo menos um amigo, talvez muitos outros.

Espero que tenhamos outras oportunidades de saborear noites tão felizes.

Obrigado por tudo e grande abraço,
Geraldo”.

(Geraldo Carneiro)

 

“Foi lindo Paulo Sabino…Tonico Pereira e Geraldinho mais que brilharam… a jovem que contracenou com Tonico também esteve maravilhosa… parabéns para todos pq tudo estava perfeito.

Ah, me esqueci do Danilo… ele é realmente o máximo.”

(Guilherme Zarvos — poeta & fundador do CEP 20.000)

 

“UMA POESIA ENCANTANTE

poesia culta perfumada por tiradas de amor & humor. bem colocada como uma flor na primavera: lírica & prosaica. poesia que surpreende como um drible de Garrincha. nem moderna nem pós: poesia sem nós pra nós que nos faz vestir cada palavra dita e nos impulsiona ao aplauso e ao bem-estar da surpresa inebriante que só a boa poesia causa. poesia charmosa e manhosa de Geraldo Carneiro.

o teatro Cândido Mendes se encheu de gente para o recital ‘Ocupação Póetica’, um sarau organizado por Paulo Sabino, que ganhou um novo e surpreendente formato com vários convidados interpretando poemas do homenageado. seu estilo saboreado em várias e diferentes vozes. entre os convidados, as atrizes Maria Padilha, o cantor Danilo Caymmi e sua filha Alice Caymmi, além do fantástico ator Tonico Pereira que, só de cuecão vermelho, interpretou um texto bufo macunaímico do poeta intitulado ‘Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro’.

uma noite onde a deusa Poesia ganhou um novo status e falou mais alto.

tiramos o chapéu.”

(Luis Turiba — poeta & fundador da revista BRIC-A-BRAC)

 

 

 

Queridos,

Nem sei como iniciar… talvez eu só tenha mesmo que agradecer, agradecer, agradecer & agradecer imensamente, tudo o que a Poesia, minha Musa Eterna, minha Amante Maior, tem trazido à minha vida.

A 3ª edição do projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), como eu pressentia, foi linda, esplendorosa, um desbunde!

Como é de costume quando vivo intensamente um momento regado a rimas & versos, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — o puro sumo do amor, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — amor da cabeça aos pés!

Casa lotada, público quente, participantes pra lá de talentosos & especiais, comemorando os 40 anos de produção literária do grande poeta, tradutor & dramaturgo — hoje também um grande & querido amigo meu — Geraldo Carneiro!

Eu só sei de uma coisa: quanto mais melhor! A idéia é de que a “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), aconteça bimestralmente!

Fernandinha Oliveira, Adil Tiscatti, Rafael Roesler Millon, Geraldinho Carneiro, Bruce Gomlevsky, Tonico Pereira, Vitor Thiré, Maria Padilha, Camilla Amado, Luiza Maldonado, Luana Vieira, Danilo & Alice Caymmi, amigos que foram assistir, público de modo geral, obrigadíssimo por tudo, por toda a beleza que ficou impressa na minha memória & no meu coração.

Temos vídeos das apresentações! Irei, com mais calma & tempo, disponibilizando aos interessados.

Aqui, o vídeo & o poema de abertura desta 3ª edição do projeto & mais um outro poema, que complementa o lido por mim.

Viva a Poesia! Viva a “Ocupação Poética”! Vida longa ao projeto!

Valeu!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Abertura desta ediçãoPaulo Sabino recita Madrigal triste, poema de Geraldo Carneiro.)

 

MADRIGAL TRISTE  (Geraldo Carneiro)

eu sou como o rei de um país ensolarado
e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
& os moluscos da beira-mar
aos 25 anos decaptei
o busto de meu avô ex-monarca
e inaugurei uma nova ordem natural
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas

a preguiça infame
jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
a Leste com o Oceano Atlântico
ao Sul com o Paraíso
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte

tudo isso não me basta
(ai de mim) queria mesmo era colher
o grito pleno da tua alma cheia de tormentos

(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)
______________________________________________________

(do livro: Poesia e prosa — volume único. autor: Charles Baudelaire. poema extraído originalmente do livro: As flores do mal. tradução de “As flores do mal”: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)

 

 

MADRIGAL TRISTE

 

1

Que me importa que saibas tanto?
Sê bela e taciturna! As dores
À face emprestam certo encanto,
Como à campina o rio em pranto;
A tempestade apraz às flores.

Eu te amo mais quando a alegria
Te foge ao rosto acabrunhado;
Quando a alma tens em agonia,
Quando o presente em ti desafia
A hedionda nuvem do passado.

Eu te amo quando em teu olhar
O pranto escorre como sangue;
Ou quando, a mão a te embalar,
A tua angústia ouço aflorar
Como um espasmo quase exangue.

Aspiro, volúpia divina,
Hino profundo e delicioso!
A dor que o teu seio lancina
E que, quando o olhar te ilumina,
Teu coração enche de gozo!

2

Sei que o teu peito, que palpita
À sombra de amores passados,
Qual uma forja ainda crepita,
E que a garganta enfim te habita
Algo do orgulho dos danados;

Mas enquanto, amor, no que sonhas
Do Inferno a imagem não for dada,
E dessas visões tão medonhas,
Em meio a gládios e peçonhas,
De pólvora e ferro animada,

Sempre de todos te escondendo,
Denunciando em tudo a desgraça
E à hora fatal estremecendo,
Não houveres sentido o horrendo
Aperto do asco que te abraça,

Não poderás, rainha e escrava,
Que apenas me amas com pavor,
Nos abismos que a noite escava,
Dizer-me, a voz trêmula e cava:
“Sou tua igual, ó meu Senhor!”

A POESIA É NECESSÁRIA — A VIRGEM INÚTIL
26 de janeiro de 2016

Azul_Ambiente
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“Muito bem! Forte abraço.”

(Antonio Carlos Secchin — poeta, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

tudo é matéria para o poema. tudo interessa & instiga o verso. qualquer assunto. qualquer acontecimento. qualquer pensamento. tudo serve de alimento ao poema. por isso a liberdade total dos versos: o poema não está preso a nada; e não estando preso a nada, pode absolutamente tudo. pois em tudo o poeta enxerga a possibilidade dos versos & o encanto de deus (do sublime, do divino): na moça que passa perante seus olhos, no menino de sunga verde parado em frente à grandeza do mar, na queda de uma folha, no salto de um gato ou na vida pacata & sem grandes arroubos da mulher virgem, que não lhe pertenceu, que não quis entregar-se a você.

ela, a mulher virgem, não foi de ninguém & sabe que não pertence nem a ela mesma, pois a sua vida, como a vida de todos nós, não está propriamente nas suas mãos — não sabemos nunca o que nos guarda o futuro, o que nos aguarda na próxima esquina, não sabemos quando morreremos, não sabemos nada.

a mulher virgem foi criança que não brincou & moça que não namorou. hoje é mulher que não tem desejos. com uma vida pacata & sem grandes arroubos, a mulher virgem será velha sem passado, sua vida é sem histórias para contar — ela só gosta de estar deitada, olhando não sabe pra onde.

a mulher virgem passa horas sem pensar, passa dias sem comer, passa anos sem mexer, no quarto azul que lhe deram. ela nasceu nele, vive nele & nele, talvez, morrerá, se não aparecer aquele que ela sempre esperará sem cansaço, sem tédio, sem prostração, aquele que fará a mulher virgem levantar, andar & pensar (para além do seu quarto azul), aquele que ensinará à mulher virgem o nome de seus pais & das partes do seu corpo, aquele que revelará, a ela, a sua própria vida, o seu próprio mundo.

a mulher virgem espera alguém que talvez não venha mas que ela sabe que existe, porque sabe da própria existência. assim como ela existe, virgem inútil, que nunca fez muito da sua vida, vida sem propósitos & arroubos, por que não existir aquele que a fará levantar & que lhe ensinará? se, no mundo, existe a possibilidade do grande absurdo que é a sua vida, por que não haveria espaço para aquele que ela sempre esperará sem  cansaço?

existir, a mulher virgem sabe que ele existe. porém, ela também sabe que não basta existir; ela sabe que, para além da existência de um & de outro, há de haver a grande magia do encontro.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “A virgem inútil”, poema de Ismael Nery. Em 26/01/2016.)

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(do livro: A poesia é necessária. seleção de poemas: Rubem Braga. autor do poema: Ismael Nery. organização do livro: André Seffrin. editora: Global.)

 

 

A VIRGEM INÚTIL

 

Eu não lhe pertenci porque não quis.
Não fui de ninguém, nem sou minha.
Nasci no dia 9 de julho de 1909
E não sei quando morrerei.
Fui criança que não brincou
E moça que não namorou.
Sou mulher que não tem desejos.
Serei velha sem passado,
Só gosto de estar deitada
Olhando não sei p’ra onde.
Passo horas sem pensar,
Passo dias sem comer,
Passo anos sem mexer
No quarto azul que me deram.
Nasci nele, vivo nele e nele talvez morrerei,
Se não aparecer aquele
Que sempre esperarei sem cansaço,
Que me fará levantar, andar e pensar,
Que me ensinará o nome de meus pais e das partes do meu corpo.
Eu espero alguém que talvez não venha
Mas que sei que existe,
Porque sei que existo.

REINAUGURAÇÃO — VÍDEO
29 de dezembro de 2015

Arpoador manhã & barco

Arpoador Pedras & 2 irmãos Gávea

(Das pedras do Arpoador, a inauguração de mais um dia.)
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“Meu prezado Paulo Sabino,

Gostei de conhecer sua postura de poeta que ama as palavras que emite e nos regala com elas.

O abraço afetuoso da

Nélida Piñon”.

(Nélida Piñon — escritora & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

“Querido Paulo,

Que beleza o poema ‘Reinauguração’ na tua voz!

Confesso que nunca tinha prestado atenção neste poema do Drummond. Você o desentranhou, como diria o Bandeira, dos poemas reunidos e ele brilhou, novo em folha, na tua interpretação.

Tomara que no ano novo você faça muitas descobertas semelhantes e reinaugure muitos versos no céu da poesia brasileira.

Grande abraço, Geraldo”.

(Geraldo Carneiro — poeta, crítico literário & dramaturgo) 

 

 

 

Feliz Ano Novo!
Feliz Ano Todo!

Beijo renovado!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Reinauguração”, poema de Carlos Drummond de Andrade. Em 26/12/2015.)

 

REINAUGURAÇÃO  (Carlos Drummond de Andrade)

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.