OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (15ª EDIÇÃO) — EUCANAÃ FERRAZ & CONVIDADOS
7 de novembro de 2018

(O homenageado desta edição do projeto: o poeta Eucanaã Ferraz)

(Convite)

(Paulo Sabino e Antonio Cicero)

(Eduardo Coelho)

(Bruno Cosentino)

(Capa do livro Hamlet e a lagartixa: uma leitura da poesia de Eucanaã Ferraz, da professora Marlene de Castro Correia)
_________________________________________________________________________________________________________

Gente poética,
 
Encerrando este 2018, a 15ª edição do projeto Ocupação Poética presta a sua homenagem ao super poeta EUCANAÃ FERRAZ! O Eucanaã, além de ser dono de uma obra linda, é responsável pela antologia de poemas “Veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio”, pela reunião de letras das canções do Caetano Veloso, “Letra só”, e da Adriana Calcanhotto, “Pra que é que serve uma canção como essa?”, e pela edição em 2 volumes de toda a obra (música, poesia, prosa e teatro) do Vinicius de Moraes.
 
A noite conta com as participações do poeta, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Antonio Cicero, do cantor e compositor Bruno Cosentino e dos professores Eduardo Coelho e Marlene de Castro Correia. Além da leitura de poemas e apresentação de canções (parcerias do Bruno Cosentino e Eucanaã), haverá o lançamento do livro “Hamlet e a lagartixa: uma leitura da poesia de Eucanaã Ferraz” (editora 7Letras), um ensaio de Marlene de Castro Correia sobre a obra do homenageado.
 
Esperamos vocês!
 
Serviço:
Ocupação Poética – Eucanaã Ferraz e convidados
Com Antonio Cicero, Bruno Cosentino, Eduardo Coelho, Marlene de Castro Correia e Paulo Sabino
12/11 (segunda-feira)
20h
Teatro Cândido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel: (21) 2523-3663
Entrada: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)*
Classificação: 14 anos
 
*Nomes no comentário desta postagem entram na lista-amiga e garantem a meia-entrada (R$ 10,00)
_________________________________________________________________________________________________________

(do livro: Escuta. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

SIMPLES

 

Se você não sai da minha cabeça,
minha cabeça é seu apartamento.
Já você, sendo você, é um chapéu
que uso dentro, como se usa um caroço.
Porque minha cabeça todo o tempo
está em você, suas pernas não saem
da minha cabeça e sinto seus braços
se formarem nos mesmos escaninhos.
Não tenho cabeça para outro assunto,
guarda-chuva chapéu pernas ou versos
que não sejam você. Devia pensar
noutras coisas — alfinetes perdidos,
convicções perdidas praias desertas
ou novas medidas de segurança
para a cena do atirador de facas.
Perdi a cabeça e já não há remédio.
Mas quem havia de a querer no lugar
se seus dedos brotam em meus cabelos?
Você me subiu à cabeça — forças
belezas alegrias me pertencem.
Havia muito sangue na calçada
dizem. Ai, sou um equilibrista em queda
livre. Desempregado. E se giro
por aí com a cabeça no ar
carregando você, minha cabeça
é um balão bailando então. Sim, daqui
a Cordilheira dos Andes é nítida.
Escute, escreverei uma coisa
tão simples assim: você é meu sol.
Porque você me deixa com a cabeça
quente. E sem juízo, imaginando.
Anúncios

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS
16 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

Estrada Real_Diamantina (MG)

(O sertão)
____________________________________________________________________

João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
____________________________________________________________________

(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*******

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

É TUDO AMOR
2 de dezembro de 2014

Samambaia

(É tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança: na foto, uma samambaia, planta preferida do meu pai, o primeiríssimo Paulo Sabino)
_____________________________________________________

se entre nós, no primeiro dia do último mês do ano (01/12), o responsável por trazer à luz da vida este que vos escreve, o primeiríssimo paulo sabino, venceria as suas 72 primaveras.

2014: este ano, exatos 10 anos sem a presença dele.

2014: este ano, exatos 10 anos com a presença dele apenas em mim: no meu gestual, na minha alegria de vida, no meu bom-humor, na delicadeza que busco no trato dispensado aos meus demais irmãos de terra: na minha memória.

2014: há exatos 10 anos, o grande paulo sabino, o primeiríssimo, partia deste mundo para tornar-se uma estrela-guia no meu trajeto noite adentro, estrela-guia na obscuridade em que se projeta a existência.

o que há de melhor, em mim, eu devo a ele. tanto devo, que, hoje, o que, antes, foi uma saudade demasiadamente doída, 10 anos depois da sua partida transfigurou-se em lembranças doces. por vezes melancólicas, porém muito doces na sua composição.

filho de um violonista baiano & de uma catarinense, foi envolvido com a música, especificamente com o samba, desde que me entendo por gente (envolveu-se por 10 anos com uma escola de samba do rio de janeiro).

adorava viajar de carro, adorava passeios ao ar livre (o parque do flamengo foi dos seus cenários prediletos), adorava cinema (foi ele quem me apresentou almodóvar, lá atrás, quando o diretor espanhol nem sonhava com o sucesso que alcançou).

adorava dançar em casa, e se acabava quando eu, fascinado por sua presença alegre, iluminada, punha, na vitrola, determinadas canções que o faziam rodopiar pela casa com o seu sorriso farto, de quem nasceu para a amorosidade.

ele foi um apaixonado pela língua portuguesa & admirava & apostava no meu talento para com as letras, desde que me dedico à poesia & à interpretação de poemas.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança, um traço do seu rosto, o fluido passo de uma dança, uma canção — na vitrola antiga — que foge em meio à bruma.

é tudo amor: é tudo o que há na ponta de uma lança que nos fere como áspera verruma (verruma: instrumento de aço que tem a sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta, usado para abrir furos), pois todos sabemos, como já versejou o poetinha, que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz, todos sabemos que o amor é a coisa mais triste quando perdido, e, quando fere, quando machuca, ninguém mais se apruma, ninguém mais se endireita, nem que o gáudio — nem que a alegria, o contentamento — da vingança — quando perde-se um amor & o sentimento torna-se mágoa — conserte o furo, a ferida, que o amor causou.

o amor é tudo & apenas o que não se alcança, porque não se pode compreender plenamente o amor: nenhuma definição existente sobre o amor consegue conter o que seja o amor em sua plenitude: ao amor cabe o imponderável, ao amor cabe o inexplicável.

o amor é o que, às vezes tão próximo, se esfuma & escorre mais depressa do que a espuma com que as ondas tecem sua trança de água & sal.

o amor é a chaga que, sendo fugaz, sendo efêmera, passageira, perdura & nos dói como um mal que não tem cura.

o amor é tudo isso & um pouco mais: o amor não possui forma, fórmula, cheiro, cor, cara, peso, tamanho. por mais bem escrita a definição, não existe definição que comporte todo o matiz, todo o colorido, que o amor carrega, que o mais nobre dos sentimentos agrega.

mas seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo com admirações tamanhas que do amor & seu abismo não se consiga mais sair.

pai, por tudo, por tanto, esta singela homenagem nesta primeira década sem a sua presença física, com você aceso em mim. uma chama que nunca se extinguirá neste peito. não há vento ou tempestade capaz de apagá-la, não há intempérie capaz de miná-la.

chama eterna, como eterno o meu amor por você.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.

salve o primeiríssimo paulo sabino!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino, o filho.
______________________________________________________

(do livro: Essa música. autor: Ivan Junqueira. editora: Rocco.)

 

 

É TUDO AMOR

 

É tudo amor, e mais coisa nenhuma
de que sequer se guarde uma lembrança,
um traço, o fluido passo de uma dança,
uma canção que foge em meio à bruma.
É tudo o que há na ponta de uma lança
que nos fere como áspera verruma
e, quando fere, ninguém mais se apruma,
nem que o conserte o gáudio da vingança.
É tudo e apenas o que não se alcança,
o que, às vezes tão próximo, se esfuma
e escorre mais depressa do que a espuma
com que tecem as ondas sua trança.
É a chaga que, sendo fugaz, perdura
e nos dói como um mal que não tem cura.

AS BORBOLETAS
24 de setembro de 2014

Borboletas

__________________________________________________________________

Eu vou lhe dar de presente uma coisa.
É assim: borboleta é pétala que voa.

(Clarice Lispector)

 

primavera: segundo o dicionário houaiss: “estação temperada e amena, entre o inverno e o verão. [No hemisfério sul, estende-se do equinócio de setembro (22) ao solstício de dezembro (20); no hemisfério norte, do equinócio de março (21) ao solstício de junho (20).]”

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

a estação das flores é a estação das borboletas.

borboletas: segundo o dicionário aurélio: “designação comum aos insetos lepidópteros diurnos, cujas antenas são clavadas. As larvas das borboletas não tecem casulos, passando o período ninfal sob forma de crisálidas.”

borboletas: insetos diurnos que se alimentam principalmente do néctar das flores & cujo desenvolvimento se caracteriza por quatro fases: o ovo, a lagarta, a pupa (quando em transformação, em metamorfose, dentro da crisálida) & a fase adulta (já borboleta).

sendo o néctar das flores um dos principais alimentos das borboletas, a primavera, estação que se inicia, estação considerada a estação das flores, é, também, a estação das borboletas, bichinhos que, além de flores, gostam do dia.

brancas, azuis, amarelas & pretas: uma profusão de cores soltas no ar: brincam, na luz do dia, as belas borboletas.

soltas no ar, delicadas, levíssimas, qual pétalas a voar, brincam as borboletas, que se misturam, se embaralham, se desordenam, em cores as mais diversas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

enquanto brincam, na luz, as belas borboletas, brancas, azuis, amarelas & pretas, a poesia trata de lhes dar as rimas fantásticas, rimas lúdicas, como a brincadeira das borboletas à luz do dia, para que elas sofram mais uma metamorfose, para que elas se transformem em pura lírica:

borboletas brancas são alegres & francas.

borboletas azuis gostam muito de luz.

as amarelinhas são tão bonitinhas!

e as pretas, então… que escuridão!

enquanto brinca de rima a poesia, metamorfoseando borboletas em pura lírica, brincam, na luz, as belas borboletas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

borboleta: pétala que voa.

que a estação que se inicia (in)vente a todos as belezas que lhe são caras, as belezas que lhe são estimadas, as belezas que reflitam a sua cara, que reflitam o seu rosto: que belas borboletas — brancas, azuis, amarelas & pretas — brinquem à luz do olhar de cada um nesta primavera.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do site: Vinicius de Moraes — Oficial. autor: Vinicius de Moraes.)

 

 

AS BORBOLETAS

 

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então…
Oh, que escuridão!
__________________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Partimpim Dois. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: As borboletas. poema: Vinicius de Moraes. música: Cid Campos. gravadora: Sony-BMG.)

PALAVRAS DE ALÉM-MAR & OUTRAS INUTILIDADES
28 de outubro de 2011

_____________________________________________________________

benvindos,
 
a seguir, palavras que me chegaram de além-mar, provindas de terra lusitana, das terras do poeta fernando pessoa.
 
palavras que muito me alegram & muito me estimulam a continuar o trabalho que desenvolvo com a poesia neste espaço, no “prosa em poema”. palavras que me contentam, palavras que gostaria de dividir com os senhores freqüentadores do local, pelo gosto de coisa boa que elas possuem. 
 
palavras do professor português joão manuel brito sousa:
 
 
PAULO, você me encanta pela desordem que utiliza na ordem da sua forma de escrever poesia. Você é Vinicius de Moraes no seu melhor, é Paul Éluard, diria mesmo que a sua poesia ensina-me a viver, coisa que ainda não aprendi, e quando acabar este comentário vou escrever isso mesmo: VIVER, nas cadeiras da sala de jantar, nas janelas do quarto, na estante do escritório, nas costas do carteiro que está a tocar à porta, em todo o lado escreverei, “APRENDA A VIVER COM PAULO SABINO”. Porque este modelo de escrever poesia e de viver ninguém conhece. Só você. Parabéns. Abraço. JBS.
____________________________________________________________
 
dormir dormir dormir & acordar num outro mundo, despertar um outro alguém: alguém como paul éluard, o “poeta da liberdade”, alguém como vinicius de moraes, o GRANDE “poetinha” de todos nós, sentimentais do brasil (rs).
 
dormiria um milênio inteiro, feliz, sem lembrar quem fui, o que fiz.
 
porém, a vigília, a falta de sono, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, sonhar por dentro de palavras que brilham, que iluminam, que queimam, a página branca sobre a qual estão; a  vigília, a insônia, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, palavras que velam, que escondem, que encobrem, esperanças vãs, esperanças sem valor, inúteis, descartáveis, como a brasa que brilha & ilumina & queima, mas que brilha & ilumina & queima dentro de um cinzeiro, sem, portanto, finalidade ou utilidade.  
 
assim, sigo sem sono, acordado por “ela”, atento a “ela”, seguro de que sua finalidade sem fins (lucrativos) é o seu maior ganho, certo de que “ela”, a “poesia”, é a inutilidade (um objeto sem finalidades definidas) mais útil que conheço.
 
poesia:
 
sua natureza é selvagem, indomável, natureza que não se pode captar inteira:
 
brasa, em página branca, que brilha queima ilumina: 
 
a lógica desavergonhada de um animal no cio.
 
(salve a sua vida na minha!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Metalíngua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)
 
 
 
dormir dormir e dormir
e acordar num outro mundo
sem pressa ou dinheiro
nem políticos
sem mim
eu seria um outro
alguém com a juventude de Iessiênin
a perna esquerda quebrada de Quintana
e a lógica desavergonhada de um animal no cio
 
quem sabe um poeta bissexto!?
 
dormiria um milênio inteiro
e acordaria com o grito das pedras.
feliz. sem lembrar quem fui o que fiz
 
mas que vigília malfadada
me permite apenas sonhar
por dentro de palavras acesas por dentro
a velar esperanças vãs como brasa no cinzeiro

ESTUDO: FÁBRICA DO POEMA
11 de janeiro de 2011

Livros_Paulo Sabino
______________________________________________________

o sonho (o mais caro) dos poetas:

a construção do poema de arquitetura ideal.

a feitura de um poema fantástico, de um poema como um dia claro.

o dia claro, no seu discurso mudo, na sua fala de silêncio, dizendo “nada”, diz “tudo”. pois que o mundo é só exterior; não existem portas que dão para dentro, apenas as que dão para fora. dizendo “nada”, o dia claro diz “tudo”. as coisas às claras, eis o seu discurso. e ponto final.

o sonho dos poetas:

o poema cujo propósito seja o impropositado.

um poema que, a gosto do impropositado, não fosse passível de ser declamado.

o sonho caro dos poetas: dele, do sonho,

acordam.

e, acordando, o sonho-poema, de ideal arquitetura, todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.

acordam, do sonho, os bardos.

e toda a estrutura que compõe a arquitetura do poema ideal — o prédio poético de versos & rimas, as pedras & a cal líricas das palavras — esvoaça como um leve papel, solto à mercê do vento.

o poema, por ser “ideal”, isto é, por ser “do campo das idéias”, é um poema-miragem: existe somente na imaginação.

ao acordarem (os poetas), o poema-miragem se desfaz desconstruído, como se nunca houvera sido.

o transe é tamanho (afinal, trata-se da arquitetura do poema ideal), que os olhos de quem sonha saem chumbados, e os dedos findam estarrecidos.

todos os grandes achados para o poema ideal — metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros —, perdidos, sumidos no sorvedouro da memória.

permanecer à espreita, permanecer à espera do retorno do poema (o mais caro), do poema de arquitetura ideal, não deve adiantar grande coisa (aos bardos).

assim como não deve adiantar grande coisa os bardos afundarem-se no sono, a fim de resgatarem o sonho-poema, nem a simulação de dormirem deveras (simulando dormir porque, na verdade, em alerta, caçadores prontos ao bote assim que ressurgido o poema-presa).

nada adiantaria.

pois a grande questão, aqui, a questão-chave é:

saber sob que máscara retornaria o sonhado caro poema ideal, já que o poema-miragem foi perdido no sorvedouro da memória, foi desconstruído como se nunca houvera sido.

portanto: como sabê-lo?

sob que máscara retornaria o poema idealizado?

(sob que máscara retornaria?…)

é melhor, então, que o poema idealizado fique na paz sine die, isto é, é melhor que o poema idealizado descanse na paz eterna, que o poema idealizado repouse em estância não localizável.

no fundo, o sonho do poema de arquitetura ideal é a música que sopra aos ouvidos dos poetas antes da construção de qualquer poesia: a vontade, o desejo, o sonho, de realizar a grande obra da sua existência. põe-se o bardo a escrever, e rasurar, e reescrever, e burilar, e cavucar, e riscar, até que fiquem a contento os seus versos.

deixar em descanso eterno o sonho-poema.

na frente, em primeiro lugar, antes de tudo & quaisquer coisas: a poesia!

beijo bom em todos!
paulo sabino.
______________________________________________________

(do livro: Poemas esparsos. organização: Eucanaã Ferraz. autor:Vinicius de Moraes. editora: Companhia das Letras.)

 

ESTUDO

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
— Contanto que exprima
O impropositado

E que (o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine die
Ça c’est la musique
Avant la poésie
.
______________________________________________________

(do livro: Algaravias. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou restaurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?
______________________________________________________

(do encarte do cd: A Fábrica do poema. artista: Adriana Calcanhotto. autor dos versos: Waly Salomão. gravadora: Epic.)

 

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-me os dedos estarrecidos.

metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

sob que máscara retornará?
sob que máscara?
______________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A fábrica do poema. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: A fábrica do poema. versos: Waly Salomão. música: Adriana Calcanhotto. gravadora: Epic.)

BARATO TOTAL
4 de janeiro de 2011

queridos & benvindos,

pensando em algum texto para iniciar bem & bonito o ano de 2011 do “prosa em poema”, resolvi publicar este poema-canção, que é um hino ao bem-estar, um hino à vida feliz, coisa que espero para todos.

poema-canção dedicado ao grande barato que é viver quando a gente está contente, como quando neste momento em que estou, contente pelos amigos que tenho, contente pela chegada de um moreno na minha vida, de um moreno que tem sido um grande presente (rs), contente por contar com a poesia na minha trilha.

viver é uma missão árdua. os problemas batem à porta. não é preciso correr atrás deles.

já a felicidade, não. a felicidade é de outra natureza. ela precisa ser buscada, precisa ser alcançada, porque não bate à porta como fazem os problemas.

a vida, as nossas vidas, está presa, amarrada, atada, à cadeia, à prisão, à cela, do pensamento; existimos porque pensamos, porque necessitamos pensar as coisas. rua sem saída. e pensar as coisas dói. é um trabalho sofrido o trabalho de entendimentos, trabalho que nos exige esforços.

por isso, a busca constante pelo bem-estar é um exercício, e um exercício que, ao meu ver, deveria ser praticado por todos.

viver, como já explicitei, é uma barra, é missão árdua.

então, já que, em si, viver é missão árdua, que seja cumprida a missão, ao menos, com um tanto de leveza, com um tanto de maviosidade.

(quando a gente está contente, tudo é facilitado: tanto faz o quente, tanto faz o frio; tanto faz.)

acredito que, se é preciso lutar, batalhar, conquistar, é melhor lutar, batalhar, conquistar, com alegria no peito, com bom humor na alma. a luta não é menor, não é menos desditosa, se for enfrentada com mau humor. se fosse, eu seria o primeiro a bradar aos quatro ventos a importância da vivência mal-humorada.

é claro que reconheço a importância das dores & dissabores, é óbvio que se aprende muitíssimo com eles, e é fato que deles não conseguiríamos afastamento, ainda que tentássemos. a tristeza é crucial & intransferível; a dor ensina.

todavia, concordo com o poetinha quando ele diz: “é melhor ser alegre que ser triste / alegria é a melhor coisa que existe / é assim como a luz no coração”.

esses três versos, do grande poetinha vinicius de moraes, são definitivos na minha vida. ouço-os e me emociono sempre. são uma espécie de lema.

quando a gente está contente, tudo o que dissermos deve fazer BEM.

quando a gente está contente, nada do que comermos deve fazer mal.

quando a gente está contente, nem pensar que está contente a gente quer:

a gente quer é viver!

(e nada mais.)

um ÓTIMO 2011, prezados!

que este ano seja, para todos, um barato total!

beijo IMENSO!
paulo sabino.

(depois dos versos, vídeo com a belíssima interpretação que a cantora zizi possi deu à canção.)
__________________________________________________________________________    

(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

BARATO TOTAL

Lá, lalalalalalalá

Quando a gente tá contente
Tanto faz o quente
Tanto faz o frio
Tanto faz
Que eu me esqueça do meu compromisso
Com isso e aquilo que aconteceu dez minutos 
                                                                                  [atrás

Dez minutos atrás de uma idéia já dão
Pra uma teia de aranha crescer
E prender
Sua vida na cadeia do pensamento
Que de um momento pro outro começa a doer

Lá, lalalalalalalá

Quando a gente tá contente
Gente é gente, gato é gato
Barata pode ser um barato total
Tudo que você disser deve fazer bem
Nada que você comer deve fazer mal

Quando a gente tá contente
Nem pensar que tá contente
Nem pensar que tá contente a gente quer
Nem pensar a gente quer
A gente quer, a gente quer
A gente quer é viver

Lá, lalalalalalalá
__________________________________________________________________________

(vídeo com a canção: Barato Total. autor: Gilberto Gil. intérprete: Zizi Possi.)

SONETO DE ANIVERSÁRIO
24 de junho de 2010

prezados,
 
hoje, 24 de junho, dia de são joão, este que vos escreve vence as suas 34 primaveras.
 
(todo ano, há bastante tempo, ouço, ao acordar, uma canção do caetano — veloso — que fala justamente sobre o santo do dia e sobre a sua festa, a festa que é em sua homenagem, a festa de são joão.) 
 
adoro, como se diz em espanhol, cumprir anos. acho essa expressão muito acertada. porque a vida é uma missão.
 
viver é quase um milagre.
 
viver é um exercício, e envolve uma série de coisas, uma série de relações desenvolvidas com o entorno, entorno sempre multifacetado e multidimensional.
 
muitas atribuições, muitas funções, muitas experiências a serem vivenciadas, a serem desnudadas, a serem re-veladas, muitas atribuições & funções & experiências que nos vão moldando dia-a-dia, mundo afora, alma adentro.
 
este preto aqui, somando as suas experiências, atribuições e funções, sente-se feliz por viver.
 
tenho grandes amigos, pessoas imprescindíveis na minha existência, uma bela família, um lar aconchegante, onde me sinto muitíssimo bem, e histórias boas para contar.
 
e o melhor: por mais que olhemos, e aprendamos, e saibamos, e falemos, a vida possui, em suas nuances tantas, um ineditismo inerente, que nos faz cantar & cantar & cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.
 
acho muito bom saber-me um não-sabedor, acho muito bom perceber que, eternamente, até a morte, inacabado, inconcluso.
 
o inacabado, o inconcluso, é o que nos impulsiona à vida, é o que nos faz desejar a existência.
 
sei que possuo um monte de questões minhas, internas, a serem resolvidas e entendidas, um tanto de características a serem melhoradas e/ou extirpadas, mas isso não impede que eu repita:
 
no ar que eu respiro, eu sinto prazer. eu sinto prazer de ser quem eu sou, sinto prazer de estar onde estou.
 
também sinto saudades, uma espécie de melancolia, e não sou nada saudosista. a alguns essa minha frase pode parecer um paradoxo, um contrasenso, mas não o é.
 
o fato é que, sendo feliz, e eu o sou no hoje, no agora, no já, no neste instante, não há razões maiores para querer o retorno do que já passou. 
 
a todos que compõem a minha vida, que fazem dela o que é, o meu muitíssimo obrigado.
 
re-tenho a plena consciência de que, sem “o outro” (e neste “outro” incluo: pessoas, livros, lugares, artes, mares, céus, rios, flores, florestas & amores, e etc. etc. etc. etc.), o paulo sabino que se lhes apresenta não seria o mesmo paulo sabino.
 
a troca é a grande chave, é o grande negócio.
 
ninguém é muita coisa sem “o outro”.
 
(este meu amor de criatura, ele vê envelhecer, porém não envelhece…)
 
aos senhores, um belo soneto do poetinha maior que tanto admiro, vinicius de moraes.
 
beijo afetuoso em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
 
(a canção do caetano veloso, que religiosamente ouço neste dia, “são joão, xangô menino”, pode ser escutada na página do “youtube” abaixo do poema. é claro que “a voz” que a canta não faltaria à minha festa – rs.)
______________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Nova Antologia Poética. autor: Vinicius de Moraes. organização: Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
SONETO DE ANIVERSÁRIO
 
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
 
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
 
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
 
E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
__________________________________________________________
 
(autor da canção: caetano veloso. cantora: maria bethânia.)
 
 
 

CLARICE ENTREVISTA VINÍCIUS
16 de abril de 2010

(trecho da orelha do livro: Clarice Lispector – Entrevistas.)
 
 
Mais do que uma simples especialidade jornalística, a entrevista é uma verdadeira arte, uma disputa amigável feita de muitas arremetidas e outros tantos recuos, sempre arriscando descambar para a contenda aberta quando o entrevistado sente-se pressionado.
 
O tipo de entrevista realizada por Clarice Lispector, no entanto, não era contaminado por qualquer rasgo de agressividade ou de armadilhas para o entrevistado, sendo, antes, uma agradável conversa, um bate-papo envolvente entre personalidades criativas que se admiravam e se respeitavam. O resultado, com valor de uma verdadeira peça literária, era altamente esclarecedor. Não é de se admirar, pois Clarice não era uma entrevistadora comum, não só em virtude de seu caráter peculiar e distintivo como pelo fato de ela já ser uma escritora consagrada quando iniciou a atividade de entrevistadora. Assim sendo, não seria possível para ela adotar uma pretensa neutralidade jornalística. Sobretudo porque, com freqüência, no entusiasmo da conversa, Clarice acabava emitindo opiniões pessoais e, desta forma, revelando a própria alma ao mesmo tempo que revelava a de seu entrevistado.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
deliciem-se com as linhas a seguir!
 
clarice lispector & vinícius de moraes, juntos, é puro luxo, é luxo só.
 
fartem-se com a riqueza aberta, disposta ao olhar (e ao coração)!
 
beijo grande,
paulo sabino / paulinho.
__________________________________________________________________________
 
(do livro: Clarice Lispector – Entrevistas. perguntas & comentários: Clarice Lispector. organização: Claire Williams. editora: Rocco.)
 
 
 
VINÍCIUS DE MORAES
 
“Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata.”
 
 
 
Mulher, poesia, música
 
 
Vinícius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinícius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres com que você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
 
— Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo.
 
Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
 
— É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.
 
Você já amou desse modo?
 
— Eu só tenho amado desse modo.
 
Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?
 
— Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto “Fidelidade”: “que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.
 
Você sabe que é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
 
— Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não, é ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
 
Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
 
— Às vezes fico mal-humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.
 
Qual é a artista de cinema que você amaria?
 
— Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tenho outro.
 
Fale-me sobre sua música.
 
— Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
 
Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
 
— Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
 
Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
 
— O fato de querer me comunicar tanto.
 
Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?  
 
— Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.
 
Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?
 
— Para mim é a mulher, certamente. 
 
Você quer falar sobre música? Estou escutando.
 
— Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.
— Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
 
Fizemos uma pausa. Ele continuou:
 
— Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…
 
(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:
 
— É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
 
Como é que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência, você que é livre por excelência?
 
— Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo. 
 
Como pessoa, Vinícius, o que é que desejaria alcançar?
 
— Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
 
Quero lhe pedir um favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
 
— Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
 
Clarice
Lispector
 
— Acho lindo teu nome, Clarice.
 
Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve? Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
 
— Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiência de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.
 
Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
 
— Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.
 
Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu.
 
Então telefonei para uma das esposas de Vinícius.
 
Como é que você se sente casada com Vinícius?
 
Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro;
 
— Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.
 
Depois conversei com uma mocinha inteligente:
 
— A música de Vinícius, disse ela, fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela.
 
Você teria um “caso” com ele?
 
— Não, porque apesar de achar Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E “de repente, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
 
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Moraes.

A NOITE ÚLTIMA & DESCONHECIDA
1 de fevereiro de 2010

senhores,
 
o tema tratado pelos poemas que seguem é um tanto indesejoso. e eu entendo que o seja. realmente, a perda não é algo fácil. principalmente quando se trata de uma perda irreversível. é um universo que se vê extinto, fora de órbita, impossibilitado de regresso.
 
é duro perder referência tão importante, tão significativa. eu bem sei (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/12/01/meu-pai-como-vai/).
 
todavia, acho um exagero o modo como é rechaçado tal fato. como se fosse uma desnatureza, um acontecimento extraordinário, incomum. pânico & paúra excessivos da única coisa que se tem certa na existência: o silêncio eterno, a porta por onde se entra e nunca se retorna, a fratricida do amor, o não-espaço: a morte.
 
há homens que, por medo da vida, matam, assassinam a morte. preferem levar uma existência inteira construindo a morada celeste ao invés da morada terrena. esquecem que existe um tempo a ser vivido, a ser usufruído, e se enterram antes da fatídica hora. 
 
vamos aceitá-la, sabendo-a irrevogável, tratando o assunto de modo mais natural; naturalizar a questão nos nossos discursos, torná-la mais palatável. ao final, todos, afinal, vamos para o mesmo não-lugar, onde não mais importarão as nossas preferências.
 
(é preciso ser de vez em quando infeliz.)
 
se pusermos a morte no seu devido lugar, teremos um mundo inteiro para percorrer, sem maiores pertubações & preocupações (preocupações & pertubações, ao meu ver, totalmente desnecessárias).
 
eu aprendi: o dia mais longo do homem dura menos que um relâmpago.
 
portanto: voltemos as nossas preocupações à vida. 
 
eu não quero a morte, só saúde & sorte. entretanto, não me furto da questão.
 
a vocês: o melhor, sempre!
 
por essa razão, por querer o melhor para vocês — e para mim, é claro —, selecionei textos de três GRANDES poetas, que falam desta noite última & desconhecida que, um dia, nos cobrirá a todos.
 
beijo e o desejo de saúde & sorte para nós!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
______________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Réquiem. autor: Lêdo Ivo. editora: Contra Capa.)
 
 
I
 
AQUI ESTOU, À ESPERA DO SILÊNCIO.
 
Diante do estaleiro apodrecido
só vislumbro o estilhaço
que sobrou das iluminações.
Como todas as sobras, ele traz a marca
das coisas escondidas para sempre
ou dos seres sepultados no alto das dunas;
como as letras gravadas a fogo
na anca de um cavalo roubado por um cigano, ou
                                                  um sinal de nascença
no quadril bem-amado.
 
Agora a noite desce para sempre.
Meu olhar fatigado segue a canoa
que se afasta dos manguezais.
Uma luz na restinga. Um caranguejo na lama.
E a vida se evapora com as almas
no céu que não abriga nenhum deus.
Todas as paisagens que vi se esfarelaram
nos postais corroídos. E a unha suja, trajada de negro,
toma o espaço da mão antiga. As portas sucessivas
das docas que armazenavam réstias de cebola e sacos de açúcar
se encolhem na escuridão, reduzidas a uma única porta
refratária ao clarão da aurora.
 
Na Barra de São Miguel, diante do mar,
só agora aprendi:
o dia mais longo do homem
dura menos que um relâmpago.
O tempo não será mais celebrado
entre as constelações.
O céu e a terra vão sumir
na cinza desapontada
dos amanhãs roubados pela morte.
E tudo o que amei se dissolve.
A nuvem escarlate pousa brandamente
entre as casas de taipa e o mar rasgado pelas ondas.
 
Chegou a hora de dizer adeus à água negra
que marulha na treva da laguna
e ao vento planetário que seca os peixes
pendurados nos varais das palhoças
e ao mar caeté que se abriu
diante das falésias de minha pátria perdida.
 
A eternidade passa como o vento.
Só o tempo é eterno. Sempre estive aqui
no meio do meu povo dizimado,
e minhas mãos armaram além das dunas
a dourada fogueira antropofágica
do assombroso festim. Uma noite de cinzas
sucede agora ao clamor e à alegria.
O mar apaga todos os naufrágios
e todo fogo se extingue, todo fogo dourado
se alastra e se apaga no silêncio do mundo.
 
Aqui, no lugar de água e terra dos meus nascimentos sucessivos,
minha sombra vagueia entre os escombros
dos navios perdidos ou sonhados.
E busco em vão, nas águas ofendidas,
a castidade da água clara e intacta
que aflora no mar ao rebentar da aurora
no coração da noite emudecida.
 
Ó porta prometida ao consolo da vida,
após tanta imundície e após tanto esplendor!
Nesta noite final, as fogueiras celestes
queimam toda esperança e sepultam na cinza
os sonhos insensatos das almas terrestres
e o estertor que suprime qualquer paraíso.
 
Na noite crematória, a morte é uma fogueira.
 
 
II
 
ALÉM DO FRIO E DO CALOR
e das baratas impetuosas que se espalham como pétalas
no celeiro abandonado
e dos sinos funerários na manhã da infância
e das luzes oscilantes dos caminhões que atravessam
                                                         lentamente os canaviais
espantando os guaxinins
além das cestas abertas como corolas
para recolher a sobra do dia mutilado pelos ódios e guerras
longe dos ninhos caídos no chão de inverno
e das águas dessas chuvas obstinadas que desaparecem subitamente
                                                          na grande mesa do mar
                                                          rudimentar
e das leves luas límpidas que regem a passagem das curimãs
há um não-lugar que dispensa a súplica e a esperança
e enxota a solenidade e a reverência.
 
Além dos sonhos visitados pelo mar impaciente
e do escuro fétido das cloacas e da claridade solar
em que nos movemos aturdidos
como as moscas estonteadas pelo calor do verão
um não-espaço nos espera. O dia
coleia entre as horas que se abrem para a paisagem como janelas.
O barulho do mundo atinge a orla do mar
e rodeia terraços de sal e traiçoeiros recifes de mariscos e
                                                      lagunas de açúcar.
 
Além da realidade, há outras realidades
que se desdobram como degraus. Nossos passos
sobem e descem a escada, no dia admirável
e na noite branda.
São como sonhos tributários de outros sonhos
ou janelas abertas para o mar.
Não sabemos onde estamos. Não sabemos o que somos.
Nada sabemos, a não ser que há uma noite
pura e vazia à nossa espera. Uma noite intocável
além do fogo e do gelo, e de qualquer esperança.
 
Com a sua mão sinistra a morte esmaga
nossos sonhos de insetos deslumbrados
e entorna a alvura da água contida no vaso
prometido ao desastre de uma flor de estilhaços.
A morte, sempre a morte, a nos importunar
com o seu zumbir de mosca funerária.
______________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Nova Antologia Poética. autor: Vinicius de Moraes. organização: Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
A PARTIDA
 
Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
 
 
A MORTE
 
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
_________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Ficções do Interlúdio/1 – Poemas completos de Alberto Caeiro. autor: Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. editora: Nova Fronteira.)
 
 
XXI
 
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural
 
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
 
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…
 
 
(sem título)
 
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
 
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.