PROPOSTA
20 de abril de 2013

Balões no céu

 

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a proposta:

esquecer a cicuta, esquecer a culpa.

esquecer o gatilho, esquecer o que for preciso (a culpa que atormenta).

esquecer o salto da ponte — para que ir tão longe?

(ir para lugar que, de tão longe, não se pode mais regressar.)

esquecer o gás cianídrico, o gás que sufoca o dia.

(o dia está tão lindo!)

esquecer os ansiolíticos, esquecer os comprimidos que podem levar a um sono eterno, esquecer o que já foi perdido (afinal, a vida é feita de perdas & ganhos, a vida é, também, perder).

esquecer a navalha a faca a adaga a gilete o canivete.

esquecer o edifício mais alto — os nossos vôos devem ser mais altos que o vôo do edifício alto, vôos libertos na imaginação, nos sonhos.

esquecer o trem que passa rápido — as nossas viagens não devem terminar nos trilhos; estes são o início de tudo.

esquecer o mar, o imenso abismo que é o mar — os nossos mergulhos devem ser os mais profundos nas águas da existência.

esquecer o harakiri (ritual suicida, praticado por guerreiros samurais, como forma de expiar & pedir desculpas pelos erros cometidos) — ainda há tanto o que tecer por aqui!, ainda há tantas tramas, histórias tantas, a serem urdidas no pano da vida!

esquecer a gasolina o querosene o álcool — o nosso combustível deve ser o sentimento de mudanças, sentimento que lance fogo àquilo que traz culpa & a (maléfica) sensação de fracasso.

esquecer a pedra no pescoço, as chantagens, o fim do poço.

esquecer o trinta-e-oito & sua bala nada doce, nada saborosa, bala que, posta na boca, sem dissolver em saliva, dispara um sabor de sangue coagulado. (e a porta que abriu jamais se fecha…)

esquecer a forca, a corda no pescoço, esquecer o fogo (que chamusca & machuca).

pensar mais um pouco, um pouco mais…

para, então, com razão, perceber quão distinta (& vibrante & inédita & única & múltipla & sem chances de repetição) é a vida.

a natureza — coloque-a em sua cabeça.

ponha-me em seu coração.

que satisfação seria para mim, algo sem fim!

depois?

bem, depois de esquecer a cicuta, a culpa, o gás cianídrico, os ansiolíticos, a navalha, a faca, a adaga, a gilete, o canivete, a gasolina, o querosene, o álcool, as chantagens, o trinta-e-oito, o fogo, a corda no pescoço, não esquecer que a vida é mais que problemas, não esquecer que a vida é mais que perdas, não esquecer que a vida é mais que fracassos, não esquecer que a vida é também o bicho a flor a criança, e, sobretudo: não esquecer do filme que estreou sábado, para não chegar atrasado!

a vida são quedas. assim sendo:

reconhecer a queda & não desanimar. levantar, sacudir a poeira & dar a volta por cima.

(resistir é preciso se se pensa em tornar mais solidário este nosso mundo cão.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do blog: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, de: Adriano Nunes. autor do poema: Adriano Nunes.)

 

 

PROPOSTA  –  para Pedro Nava

 

Esqueça a cicuta, a culpa
Esqueça o barbante, as coisas de antes
Esqueça o gatilho, o que for preciso
Esqueça o salto da ponte, pra que ir tão longe?
Esqueça o gás cianídrico, o dia está tão lindo!
Esqueça os mesmos ansiolíticos, o que já foi perdido
Esqueça os tantos comprimidos, os perigos do íntimo
Esqueça a estricnina, a malícia da esquina
Esqueça os barbitúricos, os muros do mundo
Esqueça a navalha, a faca, a adaga, a gilete, o canivete
Esqueça o cloreto de potássio
Esqueça o edifício mais alto
Esqueça o trem que passa rápido
Esqueça o mar, o imenso abismo que é o mar
Esqueça o harakiri, ainda há tanto o que tecer por aqui
Esqueça a gasolina, o querosene, o álcool
Esqueça o lance súbito sobre o movimentado asfalto
Esqueça os cumarínicos
Esqueça as descargas elétricas, para que pressa?
Esqueça a pedra no pescoço, as chantagens, o fim do poço
Esqueça o trinta-e-oito
Esqueça a forca, esqueça o fogo
Pense mais um pouco,
Um pouco mais…
Então com razão, perceba
Quão distinta é a vida, a natureza,
Coloque-a em sua cabeça,
Ponha-me em seu coração…
— Que satisfação
Seria para mim,
Algo sem fim! —
Depois? Nós dois e o cosmo
Mergulhados no mais intenso propósito.
Não se esqueça, Não se esqueça
Do filme que estreou sábado,
Para não chegarmos atrasados

UMA ALEGRIA EXCELSA PRA VOCÊ: ABRAÇAÇO, O SHOW
25 de março de 2013

Caetano Veloso_Abraçaço

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O show da nova turnê do Caetano, Abraçaço, realizado sábado (23/03), no Circo Voador (Rio de Janeiro), foi do caralho!

No palco, continua cheio de vigor & disposição. É bom, bonito, feliz, ver o homem velho feito um menino, desferindo suas novas & antigas canções.

O show, vigoroso em sua possança, não esconde o estado emocional atual do poeta-compositor — na verdade, a minha leitura do espetáculo diz que Caetano, no fundo, ainda que intuitivamente, quer demarcar, definir, afirmar, com suas composições, este seu momento.

Não podemos esquecer que dona Canô, mãe & mulher de primordial importância na sua formação (sob todos os aspectos), faleceu há pouquíssimo tempo.

Então, ainda que haja espaço garantido à alegria excelsa (tudo mega-bom, giga-bom, tera-bom!), o espaço à melancolia & tristeza não foi poupado.

Um dos momentos mais emocionantes, ao meu ver, é quando Caetano canta Mãe, pungente canção gravada por Gal Costa em 1978 para o álbum Água viva, canção que soa, diretamente, como uma homenagem à mãe, à falta dela em sua existência. Chorei baixinho, no meu re-canto escuro.

Outro momento muito emocionante (e emocionado) é quando Caetano canta Reconvexo, canção lançada por Bethânia (feita para Bethânia) no seu álbum Memória da pele. Ao entoar o verso: “quem não rezou a novena de dona Canô”, uma lindíssima enxurrada de palmas era lançada ao poeta-compositor.

Um terceiro momento de bastante emoção é quando o poeta-compositor dispara Um índio em homenagem à aldeia Maracanã. Todos nós — o público — estávamos /estamos muito tocados com todo aquele absurdo ocorrido na desocupação do espaço onde moravam os índios da aldeia, bem próximo ao estádio Maracanã, absurdo envolvendo a polícia militar do estado do Rio de Janeiro & sua truculência, tratando a população civil, completamente desarmada, fosse índio, fosse manifestante, fosse pessoa que simplesmente passava na rua, à base de porrada, cacetete & spray de pimenta. Então, quando Caetano entoa Um índio, esse desbunde de poema-canção, dizendo, antes, o que ele disse sobre a aldeia & o Brasil, com aquela lucidez, cantei a música inteira todo arrepiado, embargando a voz.

Caetano, apesar de passar por um momento difícil de perda, apesar da sua tristeza, está feliz com seu canto, eu sei. Esta turnê, de alguma maneira, com a receptividade & o acolhimento dos espectadores, funciona como um afago, um carinho, do público, àquele com quem cantamos tantas lindas & emblemáticas canções. Um abraçaço da platéia. Isso é muito bonito.

Parti para o abraçaço de peito aberto. O público do Circo Voador também. Show memorável para todos os envolvidos.

Caetano segue firme & forte, cravado no centro da minha sensibilidade, como sempre foi, como sempre será.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. editora: Companhia das Letras.)

 

 

MÃE

 

Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses, não
Imensa solidão

Eu sou um rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração

Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tem amor
Cigarras, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor

Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais, nem vou

Meninos, ondas, becos, mãe
E, só porque não estás
És para mim e nada mais
Na boca das manhãs

Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
E nunca chego a ti
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Água viva. artista & intérprete: Gal Costa. canção: Mãe. autor da canção: Caetano Veloso. gravadora: PolyGram.)

QUEREMOS SABER
23 de janeiro de 2013

Conhecer_Enciclopédia

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 desde que o mundo é mundo, uma das formas de se obter conhecimento é através das informações que nos são transmitidas.
 
desde que o homem é homem, ele utiliza-se de linguajares (o gestual, a palavra, a postura corporal) no intuito de transmitir informações aos seus, informações que acabam por gerar conhecimento.
 
a existência, aos nossos olhos miúdos & erráticos, é um grande mistério. não sabemos bem como surgiu a raça humana nem sabemos se o seu surgimento possui alguma razão, algum fundamento, alguma justificativa, ou se se trata apenas da ação do acaso, através de um processo natural & seletivo de bilhões & bilhões de anos. 
 
o ser humano mais desconhece que conhece.
 
talvez por isso, por nossa ignorância atávica, seja tão importante conhecer o pouco que conseguimos conhecer. 
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos pensar mais claramente determinadas coisas.
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos decidir mais claramente determinados posicionamentos.
 
diz o velho dito popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”: aquele que enxerga um tanto mais que os outros possui, a seu favor, o fato de conhecer algo que os outros desconhecem. o fato de conhecer algo que os outros desconhecem delega, a quem possui o conhecimento, o poder de manipular a seu favor — caso deseje — o conhecimento adquirido, obtendo, com isso, vantagens sem que ninguém as perceba. 
 
é importante que saibamos, é importante que conheçamos.
 
algumas das nossas determinações, muitas das nossas decisões, são tomadas a partir de um — suposto — conhecimento.
 
(ser o lobo do lobo do homem.)
 
queremos saber, queremos conhecer, a fim de decisões acertadas não em benefício de um, mas em benefício de todos.
 
queremos saber o que vão fazer com as novas invenções, o que será das pesquisas sobre genética, sobre célula-tronco, sobre remédios para cura de doenças graves. 
 
queremos notícia mais séria, notícia mais de acordo com os estudos feitos & repassados aos cientistas por cientistas, sobre a descoberta da antimatéria & suas implicações, suas conseqüências reais, ao entendimento do universo.
 
(antimatéria: é exatamente o oposto da matéria. a antimatéria é composta por antipartículas assim como a matéria é composta por partículas. há uma especulação considerável na ciência sobre o universo ser constituído, além de matéria, por antimatéria, há uma especulação considerável na ciência sobre lugares no universo constituídos unicamente por antimatéria.) 
 
queremos notícia mais séria sobre o que a ciência descobriu a respeito do universo. porque o conhecimento atua na conquista da emancipação do homem. o conhecimento atua na conquista da independência do homem. o conhecimento atua na conquista da liberdade do homem para pensar & voar alto.
 
a realidade das grandes populações, dos homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, transformar-se-á quando as grandes populações, os homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, conquistarem a sua emancipação, emancipação a ser conquistada através do mesmo conhecimento que forma doutores & cientistas, emancipação a ser conquistada através do acesso aos estudos científicos desenvolvidos pelos grandes cientistas.
 
queremos saber quando vamos ter raio laser mais barato, queremos saber quando a tecnologia (para um melhor viver) será distribuída a todos. 
 
queremos, de fato, um relato, um retrato mais sério, sobre o mistério da luz — luz do disco voador (o que se sabe, de fato, sobre vida em outros planetas, em outras galáxias? por que determinados arquivos da nasa, da agência espacial norte-americana responsável por pesquisas sobre o espaço & pela criação de tecnologias & programas de exploração espacial, são acessíveis a um número restrito de pessoas?).   
 
queremos esclarecimentos, caso haja esclarecimentos, sobre os mistérios que nos rodeiam, para a iluminação do homem, homem carente & sofredor, tão perdido da morada do senhor em suas estúpidas guerras “””santas””” (qualquer tipo de guerra é uma estupidez imensa), tão perdido da morada do senhor em seus egoísmos & suas ambições desenfreadas (uma outra imensa estupidez).
 
queremos viver confiantes no futuro. por isso, por querermos viver confiantes num futuro melhor para todos, faz-se necessário prever qual o itinerário, faz-se preciso saber qual o caminho, da ilusão — a ilusão do poder (aquele que detém a informação detém o conhecimento; detendo o conhecimento, aquele que detém a informação detém o poder, detém a possibilidade, de manipular tal conhecimento em benefício próprio). 
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. 
 
(a gente não quer só comida. a gente quer comida, diversão & arte.)
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. afinal, se foi permitido ao homem conhecer tantas coisas, é melhor que todos saibam o que pode acontecer (acontecer ao mundo futuramente, para que possamos melhor intervir naquilo que consideramos pernicioso & prejudicial à existência saudável da raça humana).
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
todos queremos saber, todos queremos sabedoria, cultura, erudição.
 
(que assim seja.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. autor: Gilberto Gil. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das letras.)
 
 
 
QUEREMOS SABER
 
 
Queremos saber
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
E suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes, dos sertões
 
Queremos saber
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos de fato um relato
Retrato mais sério
Do mistério da luz
Luz do disco-voador
Pra iluminação do homem
Tão carente e sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do Senhor
 
Queremos saber
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário
Prever qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
 
Queremos saber
Queremos saber
Todos queremos saber
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Acústivo MTV. artista & intérprete: Cássia Eller. canção: Queremos saber. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)
 

O IMPÉRIO DA LEI
19 de dezembro de 2012

O império da lei

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O império da lei há de chegar no coração do Pará! O império da lei há de chegar lá!

Quem mata uma pessoa, obviamente, tem que pagar. Porém, tem que pagar ainda mais aquele que mandou matar. Porque, em casos assim, de morte por encomenda, só existe o matador porque há, por detrás do matador, o mandante do crime.

Quem mata & quem manda matar têm que pagar pelo crime cometido.

Brasil de impunidades alarmantes: aqui, mata-se a troco de muito: os políticos que roubam os cofres públicos são responsáveis diretos pela morte das pessoas em postos de saúde & hospitais públicos, pessoas que, pagando os seus impostos & os impostos embutidos nos produtos que consomem, não conseguem ter o devido atendimento & morrem.

Os políticos ladrões são, ao mesmo tempo, matadores & mandantes dos crimes.

A fim de dar um fim nessa triste realidade que nos cerca, ter o olho no olho do jaguar: jaguar: o mesmo que onça-pintada: o maior felino das Américas, também encontrado na região norte do país: ter o olho no olho do jaguar: observar com atenção a maneira do jaguar olhar, observar com atenção o modo que o jaguar tem de mirar aquilo que lhe interessa: maneira de olhar forte, firme, incisiva, sem vacilos, na intenção de analisar calculadamente o objeto observado.

Ter o olho no olho do jaguar para que se possa virar um jaguar: aos olhos confrontantes do jaguar nada escapa, nada foge; o jaguar, por ser o maior felino das Américas, nada teme.

Nós, como cidadãos, deveríamos enfrentar com mais ímpeto as impunidades alarmantes que assolam o Brasil. Precisamos ter o olho no olho do jaguar, precisamos virar jaguar.

O império da lei há de chegar no coração do Pará! O império da lei há de chegar lá!

(No Pará, o império da lei, um dia, parará.)

Lá (no coração do Pará), e aqui, e aí, e ali, e acolá: o império da lei há de chegar no coração do Brasil!

(Que assim seja.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(autor: Caetano Veloso.)

 

 

O IMPÉRIO DA LEI

 

O império da lei há de chegar no coração do Pará
O império da lei há de chegar no coração do Pará
O império da lei há de chegar lá

Quem matou meu amor tem que pagar
E ainda mais quem mandou matar
Ter o olho no olho do jaguar
Virar jaguar

O império da lei há de chegar no coração do Pará

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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Abraçaço. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: O império da lei. letra & música: Caetano Veloso. gravadora: Universal Music.)

A CATEDRAL DA DESORDEM
29 de outubro de 2012

(Na foto, a tela “Omaggio a Ettore e Andromaca”, do grego Georgio De Chirico, considerado um dos precursores do Surrealismo na pintura.)
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aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) investimos contra a alma imortal dos gabinetes & sua personalidade burocrática devidamente penteada & engravatada, a carimbar papéis & assinar ofícios em nome do diretor da corporação.

aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) procuramos por amigos que não sejam sérios: loucos confidentes, imperadores desterrados, cafajestes com hemorróidas & todos que detestam os sonhos incolores (sonhos sem graça, sonhos que cheiram à assepsia hospitalar) da poesia das arcadas (poesia das arcadas: arcadismo: na estética árcade, o artista idealizava a vida no campo e se imaginava pastor em contato com a natureza & somente dela vivendo).
 
 nós (eu & os meus) sabemos muito bem que a ternura de lacinhos (a ternura cheia de afetações, repleta de paparicos ignominiosos) é um luxo protozoário (luxo de merda, de pouca valia, que não presta para nada).
 
a vida possui a sua dose de violência. 
 
há de se ter — alguns momentos suscitam — a sua dose de violência na veia, ingerida num gole só: a sede por violência.
 
sede (todos vós) violentos como uma gastrite! sede (todos vós) coléricos como uma neuralgia!
 
abaixo as borboletas douradas! 
 
olhai (todos vós) o cintilante conteúdo das latrinas! mergulhai (todos vós) no conteúdo rico das latrinas!
 
sim, senhores, é preciso estômago se se deseja ver a vida mais de perto, sem floreios, é preciso estômago se se deseja ver o lado da vida onde não cabem passarinhos árvores rios límpidos a correr, lado onde só caberia a flor se a flor: despetalada. 
 
aqui, na nossa catedral, na nossa matriz, só a desordem nos une: ceticamente barbaramente sexualmente.   
 
a nossa catedral está impregnada, está encharcada, do grande espetáculo do desastre (o grande espetáculo do desastre: a vida nos seus pormenores, onde o final de um enredo, como acontece na maioria das vezes, não é feliz nem fácil a sua trajetória).
 
nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a aurora (claridade que aponta o início da manhã) pelo crepúsculo (período que antecede o fim de algo, momento em que se percebe este fim; declínio, decadência), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o tênis (esporte onde os jogadores se enfrentam em lados opostos, sem se tocarem) pelo box (esporte onde os adversários se enfrentam cara a cara, um tentando derrubar o outro com socos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o poço (buraco, cavado na terra, para se extrair algo do subsolo, em geral água fresca) pela fossa (escavação, ou grande câmara subterrânea, em que são despejados e acumulados dejetos; por extensão de sentido: estado ou condição de quem se encontra deprimido, desalentado, triste), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o futuro (tempo que não chegou, que não se sabe se chegará, e que, portanto, não existe) pelo presente (o único tempo que nos cabe, o hoje, o já, o neste instante, o único tempo ao alcance dos dedos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra as responsabilidades (obrigações chatas & criadas ao aborrecimento) pelas sensações (vivências significativas que mobilizam afetos & emoções), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a mecânica (automática, precisa, invariável) pelo sonho (devaneio, fantasia, quimera), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o regulamento (conjunto de prescrições que determinam a conduta de qualquer instituição ou corpo coletivo) pela compulsão (imposição interna irresistível que leva o indivíduo a realizar determinado ato ou a comportar-se de determinada maneira), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra os arcanjos (anjos pertencentes a uma ordem superior, assexuados, que atuam como mensageiros em missões especiais) pelos querubins homossexuais (anjos da primeira hierarquia, que não pertencentes a uma ordem superior), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a lógica (encadeamento coerente de alguma coisa que obedece a certas convenções ou regras, maneira rigorosa de raciocinar) pela magia (fascínio, feitiço, magnetismo), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o cordeiro (pessoa passiva, inocente, facilmente enganada) pelo lobo (pessoa astuta, esperta, dificilmente enganada), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o céu (lugar distante, paraíso longínquo, inalcançável) pela terra (lugar onde pisamos os pés, onde nos encontramos, lugar que, se possível, fazemos de paraíso), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a religião (que julga, que castra, que pune) pelo sexo (que liberta, que anima, que expurga), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o governo (sistema, que percebemos falido, pelo qual se rege um estado) por uma convenção de cozinheiros (profissionais que, com suas iguarias gastronômicas, não só alimentam o corpo como alimentam a alma de satisfação & prazer).
 
nós (eu & os meus), nesta nossa catedral desordenada, aqui, em meio ao caos que é o próprio viver, investimos & nos manifestamos contra tudo que nos impeça de levar a vida da maneira como a vida é: espontânea, ocasional, surpreendente.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Um estrangeiro na legião — obras reunidas volume 1. autor: Roberto Piva. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)
 
 
 
 
A MÁQUINA DE MATAR O TEMPO
 
 
 
Aqui nós investimos contra a alma imortal dos gabinetes. Procuramos amigos que não sejam sérios: os macumbeiros, os loucos confidentes, imperadores desterrados, freiras surdas, cafajestes com hemorróidas e todos que detestam os sonhos incolores da poesia das Arcadas. Nós sabemos muito bem que a ternura de lacinhos é um luxo protozoário. Sede violentos como uma gastrite. Abaixo as borboletas douradas. Olhai o cintilante conteúdo das latrinas.
 
 
 
 
A CATEDRAL DA DESORDEM
 
 
 
A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: “Como são lindos os olhos deste idiota”. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambreta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes dos eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin Artaud, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas sensações, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por De Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pela invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim Europa pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela Magia, contra as magnólias pelos girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés, contra o meio-dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautrémont.

ACONTECEU: PORTUGAL, MEU AVOZINHO
16 de outubro de 2012

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a língua portuguesa é uma das grandes paixões da minha vida.

  
acho-a linda, sofisticada, elegante, adoro sua sonoridade, as palavras que a moldam.
 
sou, de fato, um seu apaixonado.
 
(a língua é minha pátria. o que penso, o modo de processar as coisas, penso, processo, em português. paulo sabino existe em língua portuguesa. nenhuma pátria me pariu. quem me pariu, e continua parindo, é a língua.)
 
e a herança da língua que tanto me encanta, e que canto tanto, devo a portugal, meu avozinho.
 
só por isso, só pela língua (e por conseqüência: só por camões, por pessoa, por al berto, por eugénio, por sophia, por natália, e por tantos outros), já me é válida a herança portuguesa.
 
o que, hoje, conhecemos como brasil, tem a sua gênese a partir da chegada dos portugueses. portugal, pai do brasil. eu, como filho deste solo, como mais um filho do solo brasileiro, tenho portugal de avô.
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de saudade & de carinho?
 
(ter saudades é viver. e o português é saudades.)
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de pele branca & de pele trigueira — gosto de áfrica & de europa, que é o da gente brasileira?
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
brasil, grande mundo de ternura (& de agrura!), brasil, grande mundo feito da miscigenação de três continentes, de três mundos — tupã, deus, oxalá…
 
foram os portugueses os grandes responsáveis pelo encontro (marcado a ferro fogo luta sangue) dos três continentes no solo que viu nascer este a que chamamos brasil. portugal, pai do brasil, portanto, meu avozinho de carinhos & castigos, meu avozinho de bênçãos & maldições, meu avozinho de amores & açoites.
  
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação entre portugal & o seu filho brasil & os filhos do seu filho brasil é de admiração mútua, entendida a força das suas culturas — no teatro, na dança, na música, na literatura.
 
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação de admiração mútua aconteceu.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) aconteceu com o passar dos anos, com o passar do tempo — só o tempo fez a cama, como em todo grande amor.
 
o amor brasil – portugal foi chegando de mansinho, se espalhou devagarinho, foi ficando até ficar. sem maiores encantamentos — sem um sino para tocar, sem que o chão tivesse estrelas, sem um raio de luar.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) simplesmente: aconteceu.
 
a prova está aqui, nesta publicação: manuel bandeira, um neto ilustre, louvando em versos o seu avozinho de além-mar; também o poeta-compositor péricles cavalcanti & um seu poema-canção, em roupagem de fado, na interpretação da cantora portuguesa cristina branco.
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)
 
 
PORTUGAL, MEU AVOZINHO
 
 
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
 
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
 
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
 
Tu de um lado, e de outro lado
Nós… No meio o mar profun-
                    do…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
 
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes…
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
 
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
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(autor: Péricles Cavalcanti.)
 
 
ACONTECEU
 
 
Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
 
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
 
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
 
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor
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(do site: Youtube. canção: Aconteceu. autor da canção: Péricles Cavalcanti. intérprete: Cristina Branco.)
 

URGENTEMENTE
20 de abril de 2012

 
(Na foto, Tito, o meu Xuxuzinho mais lindo!, de 2 aninhos, uma das tantas belas invenções do amor.)
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diz o dito popular: “quem canta seus males espanta”.
 
se ouvir, ao léu, o rumor de abelhas que sobe à sua garganta, o canto que sobe à sua boca, o zumbido que lhe chega sabe-se lá de que entranha, não pergunte de onde vem, de que fonte, de que boca (interna) ou pedra aberta (dentro do peito).
 
(é para você mesmo o canto que você canta ou simplesmente para ninguém?)
 
(que juventude, que frescor, que jovialidade, morde ainda os seus lábios e o leva a cantar?)

não pergunte, não se preocupe com a resposta, apenas escute:

 
é para você que canta (já que é você mesmo quem o pronuncia). não é para ninguém o en-canto: é para você que o canto canta.
 
portanto, cante sempre!
 
cante a tristeza, cante as mazelas, porque estas fazem parte do percurso, mas, sobretudo, cante o amor, cante a beleza, cante a vida.
 
num mundo como este, onde pessoas nefastas submetem seus semelhantes ao gosto de terra & sangue, é urgente (e faz-se “urgente” porque deve acontecer no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) o amor.
 
é urgente (porque deve existir no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) um barco no mar.
 
é urgente (porque deve ser realizado no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) destruir certas palavras, como “ódio”, “solidão”, “crueldade”, é urgente destruir alguns lamentos, é urgente destruir muitas espadas.
 
é urgente (porque deve ser vivido no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) inventar alegria, é urgente multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas & risos & manhãs claras.
 
pois sobre os nossos ombros fatigados de tantos pesares, cai o silêncio, cai, por sobre os nossos ombros fatigados, a solidão (palavra que deveria ser destruída), nos ombros, cai a inabilidade ao amor, cai a inabilidade à solidariedade, e cai também a luz impura, até doer.
 
é urgente (porque deve ser provado no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) o amor.
 
é urgente (porque deve ser pensado no hoje, no agora, no neste instante, no presente momento) permanecer.
 
e permanecer bem.
 
a fim de que sangre & valha o existir.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. autor: Eugénio de Andrade. editora: Nova Fronteira.)
 
 
NÃO PERGUNTES
 
 
De onde vem? De que fonte
ou boca
ou pedra aberta?
É para ti que canta
ou simplesmente
para ninguém?
 
Que juventude
te morde ainda os lábios?
Que rumor de abelhas
te sobe à garganta?
Não perguntes, escuta:
é para ti que canta.
 
 
 
URGENTEMENTE
 
 
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
 
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
 
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
 
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

CARTA DE AMOR
5 de abril de 2012

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não mexe comigo.
 
não mexe comigo, que eu não ando só.
 
eu não ando só. 
 
não mexe, não.
 
eu tenho zumbi dos palmares, tenho besouro (lenda da capoeira), o chefe dos tupis.
 
sou tupinambá.
 
tenho os erês, caboclo-boiadeiro, mãos-de-cura, morubixabas, cocares, arco-íris, zarabatanas, curare, flechas & altares.
 
tenho a velocidade da luz, o escuro da mata escura, o breu, o silêncio, a espera.
 
(o tempo sempre a meu favor.)
 
todos os pajés em minha companhia.
 
o menino deus brinca & dorme nos meus sonhos, o poeta (português) me contou.
 
não misturo. não me dobro.
 
rainha do mar anda de mãos dadas comigo. me ensina o baile das ondas & canta canta canta para mim.
 
é do ouro de oxum que é feita a armadura que guarda o meu corpo, garante meu sangue, minha garganta. o veneno do mal não acha passagem.
 
me sumo no vento. cavalgo no raio de iansã. giro o mundo. viro, reviro. vôo entre as estrelas.
 
vou além. me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas, durmo na forja de ogum guerreiro.
 
rezo com as três marias no céu.
 
mergulho no calor da lava dos vulcões: corpo vivo de xangô.
 
não ando no breu nem ando na treva.
 
medo não me alcança.
 
no deserto (sozinho, apenas comigo mesmo) me acho.
 
faço cobra morder o rabo. faço escorpião virar pirilampo. 
 
fulminar aquele que é injusto, aquele que maltrata, aquele que transforma a vida nas mazelas a que assistimos no dia-a-dia: 
 
tu, pessoa nefasta! 
 
(eu não provo do seu fel, eu não piso o seu chão, e para onde você for, pessoa nefasta, não leva meu nome, não.)
 
onde vai, “valente”?…
 
você, pessoa nefasta, secou. seus olhos insones secaram. seus olhos não vêem brotar a relva que cresce livre & verde, longe da sua cegueira. seus ouvidos se fecharam a qualquer som. o próprio umbigo é a única coisa que interessa. 
 
tu, pessoa nefasta, estás tão mirrada, que nem o diabo te ambiciona: não tens alma. tu, pessoa nefasta, pessoa que corrompe a vida, pessoa que coloca na boca dos seus semelhantes o gosto de terra & sangue, és o oco do oco do oco do “sem fim” do mundo. um nada.
 
(o que é teu, pessoa nefasta, já está guardado. não sou eu quem vou te dar. é a vida & sua reviravolta ante tantos maus tratos propagados por ti. trata-se da lei da ação & re-ação.)
 
eu posso engolir você, pessoa nefasta, só para cuspir depois.
 
minha fome é matéria que você não alcança: desde o leite do peito de minha mãe, mulher sempre linda & benvinda, até o sem fim dos versos versos versos que brotam no poeta, versos versos versos que brotam em toda poesia.
 
se choro, e quando choro & minha lágrima cai, é para regar o capim que alimenta a vida. chorando, eu refaço as nascentes que você, pessoa nefasta, secou.
 
se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal & sortilégio.
 
vivo de cara para o vento. na chuva. e quero me molhar.
 
sou como a haste fina: qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.
 
não mexe comigo.
 
não mexe comigo, que eu não ando só.
 
eu não ando só. 
 
não mexe, não.
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(Aos senhores, uma das faixas do novo trabalho de Maria Bethânia, diva maior da minha vida, canção do SOFISTICADO poeta-compositor Paulo César Pinheiro & texto — narrado por entre os versos da canção — da própria Bethânia. Esta é a primeira vez que a artista grava, em disco, um texto de sua própria autoria.
 
Me impressiona, sempre & muito, o quanto me vejo traduzido por Bethânia.
 
Deliciem-se com este mimo!
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.)
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(do site: Youtube. canção extraída do álbum: Oásis de Bethânia. artista: Maria Bethânia. gravadora: Biscoito Fino. canção: Carta de amor. autor da canção: Paulo César Pinheiro. autora do texto narrado: Maria Bethânia.)
 

UM FELINO GRÁVIDO DE PALAVRAS
7 de março de 2012

(Paulo Sabino & seu felino enjaulado no peito, grávido de palavras.)_____________________________________________________________

eu,

paulo sabino,

sou um preto.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
negro sou,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmeirais do meu brasil varonil, e também orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, à sombra do quilombo que se tornou o grande símbolo da resistência negra contra a escravidão, orgulhosamente bem-nascido à sombra das tantas lutas que me possibilitam, hoje, preto, ser quem eu sou.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra da chamada grande democracia racial, ocidental, tropical…
 
(isso me faz lembrar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
sou bem um outdoor de preto, body and soul, com a cara para o luar (porque um alucinado pela lua, por suas fases & seu brilho prata), sou bem um outdoor de preto com a cara para o luar, como a noite (minha amante aventurosa) quando alta, sou bem um outdoor de preto (com a cara para o luar) inflando a percussão do peito, inflando a percussão trabalhada pelo músculo oco que me habita, feito um anjo feliz.
 
um anjo feliz. 
 
um livre livro.
 
livro que escreve a sua história ao passo em que vive a sua escrita existencial, a escrita dos fatos, dos acontecimentos. nada já riscado, nada já rabiscado, como quando um quadro-negro atrás de um giz: um quadro negro atrás de um giz é um quadro-negro já riscado, já rabiscado, com linhas já delineadas em sua superfície (que também é o fundo do quadro). livro com suas linhas a serem desenhadas.
 
eu,
 
paulo sabino:
 
um anjo feliz.
 
um livre livro.
 
e também o sangue de outras sagas, o sangue de outras narrativas fecundas em incidentes.
 
e também o brilho de outros breus, o brilho de outras escuridões que necessitaram resplandecer em lágrima, resplandecer em dor, resplandecer em sangue, em solidão, para que eu, paulo sabino, um preto, possa falar, hoje, aos senhores.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor. 
 
(vide o samba, que é a tristeza que balança — e a tristeza tem sempre uma esperança: a de, um dia, não ser mais triste, não…)
 
negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
e vou tocando os passos (avante!), vou tocando ginga (jogo de cintura para com a vida), vou tocando, e, com meu “toque”, vou a deitar sangue (vermelho, sangue-vida, sangue-paixão, sangue-sentimento) nos cruzamentos, vou colorindo a palidez dos que não têm cor (apesar do absurdo, os negros, ainda hoje, por alguns, são chamados de “gente de cor”), vou colorindo a palidez daqueles a quem peço piedade.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um preto,
 
sou um negro,
 
rigorosamente um negro, à sombra dos palmares (como já lhes disse), à sombra da grande democracia/demagogia racial, ocidental:
 
tropicálice!, democracia tropical à base do vinho tinto de sangue (sangue pisado, pisado por mortes sumárias & humilhações sociais), democracia tropical à base do “cale-se!”, à base do “cala boca, porra, que eu não tô a fim de ouvir discurso humanitário!”, democracia tropical à base da sentença de morte promulgada, por exemplo, por arbitrárias (abusivas, despóticas, violentas) milícias civis & do estado, democracia tropical à base de porrada na nuca de malandros pretos.
 
(lembrar: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
mas negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor.
 
mel da própria dor:
 
dentro da jaula do peito, meu coração é um leão faminto, leão ávido a devorar tudo o que vê & encontra pela frente, leão que devassa a madrugada como um felino atento à órbita da urbe, atento ao movimento da cidade capturada pelos sentidos aguçados da fera, e atento à têmpera (ao modo, ao estilo, ao gosto) do tempo, compositor de destinos, tambor de todos os ritmos.
 
meu coração já foi casa de marimbondos (com seus ferrões a postos), já foi covil de serpentes (com seus dentes afiados a postos), já foi um sol sob nuvens (com o mau tempo a postos, tapando o brilho do astro-rei).
 
mas ele, meu coração (um leão faminto que devassa a madrugada), sabe vestir a calma de uma floresta sem pássaros (aparente quietude…), enquanto rosna em sigilo, afiando as garras para o próximo salto…
 
meu coração é uma grande cidade com seus engarrafamentos de concreto, uma grande cidade com suas impossibilidades de circulação, coração entupido, coração repleto do que não consegue espaço para locomoção, e ali fica, inerte. para o que “poderia ter sido” não há portas de emergência, não há saídas possíveis.
 
falharam todos os despachos em prol de saídas ao que “poderia ter sido”. falharam todos os medicamentos.
 
o que “poderia ter sido” permanece estagnado no meu coração como as coisas nos engarrafamentos de concreto de uma grande cidade.
 
o que “poderia ter sido”: estagnado, em estado estacionário, paralisado: no peito aprisionado, feito assombração.
 
como um soldado no front, como um soldado na linha de frente de combate, tenho os meus medos, as minhas inseguranças. tenho medos, inseguranças, de viver determinados perigos existenciais. estes, naturalmente, permanecem enjaulados no peito, não seguem adiante (no front), são postos para fora de combate. 
 
porém,
 
eu,
 
paulo sabino,
 
um preto,
 
acumulo assombramentos e, com eles, também palavras.
 
por sorte — quis a vida — estou grávido de palavras. 
 
estou carregado de palavras. 
 
estou prenhe de todas elas.
 
e contra os engarrafamentos & ressentimentos & envenenamentos que possam surgir:
 
palavras!
 
(elas me salvam de todo mal.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A cor da palavra. autor: Salgado Maranhão. editora: Imago.)
 
 
 
NEGRO SOUL
 
                                   Para Edimilson de Almeida Pereira e Éle Semog
 
 
sou um negro,
orgulhosamente bem-nascido
à sombra dos palmares,
da grandemocracia
racial
ocidental
tropical.
 
sou bem um outdoor
de preto
com a cara pro luar
inflando a percussão
do peito
feito um anjo feliz.
 
sou mais que um quadro-negro
atrás de um giz: um livre livro.
e sangue de outras sagas;
e brilho de outros breus:
quanto mais me matam
mais eu sobrevivo.
 
(negro é feito cana no moedor,
sofre e tira mel da própria dor.)
 
vou tocando passos,
vou tocando ginga,
vou tocando, vou
a deitar sangue
nos cruzamentos,
colorindo a palidez
dos que não têm cor.
 
sou um negro,
rigorosamente um negro,
à sombra dos palmares
da grandemagogia
racial
ocidental
tropicálice!
 
 
 
FELINO
 
 
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto
que devassa a madrugada
como um felino atento
seguindo a órbita da urbe
e a têmpera do tempo.
já foi casa de marimbondos,
já foi covil de serpentes,
já foi um sol sob nuvens.
vez em quando veste a calma
de uma floresta sem pássaros,
enquanto rosna em sigilo,
afiando as garras para o próximo salto.
 
 
 
ESTADO DE ÂNIMO
 
 
meu coração é uma grande cidade
com seus engarrafamentos de concreto.
 
não há portas de emergência
para o que poderia ter sido.
 
falharam todos os despachos.
falharam todos os medicamentos.
 
como um soldado no front
morro de assombração
diante do perigo.  
 
e estou grávido de palavras.

HOMEM COMUM
24 de janeiro de 2012

 
(Na foto, a resistência na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos — SP.)
_____________________________________________________________
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum, de carne & de memória, de osso & esquecimento.
 
ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião, e a vida sopra dentro de mim, pânica, a vida sopra dentro de mim de modo assustador, feito a chama de um maçarico (chama ameaçadora, que pode ferir), e pode, subitamente, cessar. de uma hora a outra, sem aviso prévio, assustadoramente.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou como você, feito de coisas lembradas & esquecidas, rostos & mãos, defuntas alegrias, flores, passarinhos, feito de facho de tarde luminosa, feito de nomes que já nem sei, feito de tudo isso misturado.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum: brasileiro, maior de idade, solteiro, reservista.
 
e não vejo na vida, senhores, nenhum sentido (a vida apresenta-se como um grande & silencioso absurdo do acaso), senão lutarmos juntos por um mundo melhor.
 
determinadas agruras deveriam ser extirpadas do convívio social.
 
a poesia é rara, a poesia é incomum, é extra-ordinária, e não se encontra facilmente vidafora. por isso ela não comove, nem move, o pau-de-arara. ela, a poesia, por sua raridade, por não estar disposta por aí, não comove, nem move, a pobreza, o descaso social, a poesia não comove nem move (para fora da existência) a força mantenedora de todos os dissabores mundanos injustificáveis.
 
por isso, quero falar com os senhores, de homem para homens, apoiar-me em vocês, oferecer-lhes o meu braço, que o tempo é pouco e o latifúndio está aí, matando.
 
que o tempo é pouco e aí estão sabe-se lá quantos braços do “polvo”, braços deste sistema econômico, a nos sugar a vida & a bolsa (contendo o nosso parco & suado dinheiro).
 
homem comum, igual aos senhores, cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
 
sim, sob a pressão do imperialismo: sob a pressão imperiosa exercida por homens como naji nahas, um fraudador que deve milhões em impostos aos cofres públicos, contra cerca de 1.500 famílias da comunidade do pinheirinho, em são josé dos campos (são paulo), que tentam fazer cumprir a “função social da propriedade”, prevista na constituição federal desde 1988 & no estatuto das cidades desde 2001, pressão exercida por um fraudador com o aval & o apoio do estado & sua milícia arbitrária.
 
a sombra do latifúndio mancha a paisagem (de sangue), turva as águas do mar, e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama & fome.
 
mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho, corpos de desejo de uma vida mais justa & ajustada às necessidades de cada um, corpos de sonho & margaridas.
 
após os versos, das coisas mais GENIAIS que já ouvi:
 
a canção “brasil com p”.
 
notem que quase todas as palavras que a compõem iniciam com a letra “p”. digo “quase todas as palavras” porque apenas uma única palavra da canção não inicia com a letra “p”: irmão.
 
irmão. o que somos. o que deveríamos ser.
 
letra forte, direta, crua, na medula.
 
retrato em branco & preto do nosso brasil varonil.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Toda poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
 
HOMEM COMUM
 
 
Sou um homem comum
               de carne e de memória
               de osso e esquecimento.
               Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
               pânica
               feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
                          cessar.
 
Sou como você
                feito de coisas lembradas
                e esquecidas
                 rostos e
                 mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
                 em Pastos-Bons,
                 defuntas alegrias flores passarinhos
                 facho de tarde luminosa
                 nomes que já nem sei
                 bocas bandeiras bananeiras
                                                                          tudo
                  misturado
                                       essa lenha perfumada
                                       que se acende
                                       e me faz caminhar
Sou um homem comum
         brasileiro, maior, casado, reservista,
         e não vejo na vida, amigo,
         nenhum sentido, senão
         lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
          Quero, por isso, falar com você,
          de homem para homem,
          apoiar-me em você
          oferecer-lhe o meu braço
                   que o tempo é pouco
                   e o latifúndio está aí, matando.
 
Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros 
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
                  Homem comum, igual
                  a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
                 A sombra do latifúndio
                 mancha a paisagem,
                 turva as águas do mar
                 e a infância nos volta
                 à boca, amarga,
                 suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
                 comuns
                 e podemos formar uma muralha
                 com nossos corpos de sonho e margaridas.
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(do site: Youtube. canção: Brasil com p. autor & intérprete: GOG.)