OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): EVENTO & VÍDEOS
16 de setembro de 2015

Ocupação Poética_Menezes Turiba Participações

(Na ponta esquerda: Cristiano Menezes & Luis Turiba; ao lado, os convidados dos poetas participantes: Luca Andrade & Fernando Reis.)

Ocupação Poética_Tavinho Paes 1

(Na ponta esquerda, os poetas participantes da primeira noite, 09/09, Cristiano Menezes & Luis Turiba; ao lado, o grande compositor & poeta Tavinho Paes, que estava na platéia, e Paulo Sabino.)

Ocupação Poética_Claufe Mauro Participações

(Do lado esquerdo, o poeta participante Claufe Rodrigues & sua convidada, a escritora & cantora Mônica Montone; do lado direito, o poeta participante Mauro Sta Cecília & seu convidado, o guitarrista & cria Julio Santa Cecília.)

Ocupação Poética_Claufe Mauro Poetas na platéia

(Os poetas participantes da segunda noite, 10/09, Claufe Rodrigues & Mauro Sta Cecília, acompanhados dos seus convidados, mais os poetas participantes do projeto, Cristiano Menezes, que abriu a noite da segunda edição, e Salgado Maranhão, participante da primeira edição.)
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Aos senhores, 4 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Em 3 vídeos, este que vos escreve recita 3 poemas de 3 sofisticados poetas: Waly Salomão, Gilberto Gil & Tavinho Paes. No quarto & último vídeo, o encerramento da primeira noite, que teve direito a “Parabéns pra você” com bolo surpresa para o aniversariante da noite (09/09), o poeta participante Cristiano Menezes.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita Fábrica do poema, poema de Waly Salomão.)

 

FÁBRICA DO POEMA  (Waly Salomão)

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará?
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A fábrica do poema. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: A fábrica do poema. música: Adriana Calcanhotto. poema: Waly Salomão. gravadora: Epic.)

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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita A paz, poema-canção de Gilberto Gil.)

 

A PAZ  (Gilberto Gil)

A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

A paz
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino; a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz

Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos ais
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Unplugged MTV. artista & intérprete: Gilberto Gil. canção: A paz. música: João Donato. versos: Gilberto Gil. gravadora: Warner Music.)

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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Paulo Sabino recita Saudade, poema de Tavinho Paes.)

 

SAUDADE  (Tavinho Paes)

saudade é perfume raro
cheiro de gente
para quem tem faro
sentimento que independe
de consentimento
emoção que nunca é descartável
carta que sente falta do baralho

saudade é chuva
que só chove no molhado
assunto delicado
que não dá para negociar
ninguém leva vantagem
em esquecer
de quem deve lembrar
nem com quem deve sonhar
mas, será que há alguém
que tem coragem de sonhar
com alguém que ama
…e acordar?

neste mundo existem milhões
que nunca disseram a ninguém
EU TE AMO
além de outros zilhões
que nunca ouviram isto de alguém
e mesmo assim
saudade todo mundo tem
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Encerramento da noite, por Paulo Sabino, e o Parabéns pra você ao poeta aniversariante Cristiano Menezes.)

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A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

AGRADECER & ABRAÇAR
13 de janeiro de 2015

Agradecer e abraçar_Maria Bethânia______________________________________________________

Domingo passado (11/01) foi dia de comemorar ao lado dela. Na verdade, foi dia de comemorar de frente para ela.

A grande responsável por me apresentar a arte poética completa, neste 2015, 50 anos de carreira, comprometida, unicamente, com as suas verdades.

Para quem espera, esperava, um espetáculo no estilo “50 anos de carreira & seus grandes sucessos”, a decepção pode ser grande.

Maria Bethânia comemora os seus 50 anos de estrada & canto com mais um grande — e belíssimo! — show, costurando as canções a partir dos assuntos/temas que vai alinhavando em cena. Por isso, como sempre faz, sempre fez, os grandes sucessos entram a fim de dar integridade à espinha dorsal do espetáculo, os grandes sucessos entram a fim de garantir a sustentabilidade necessária aos assuntos/temas abordados.

Não se trata, portanto, de uma compilação desenfreada dos “hits” de carreira: Bethânia não canta “Olhos nos olhos”, não canta “Terezinha”, não canta “Explode coração”, nem “Ronda”, “Sonho meu”, “Negue”, “Mel”, “Anos dourados”, “Grito de alerta”, “Esse cara”, “O lado quente do ser”, “Fera ferida”. Os sucessos que entraram, entraram para compor a linha dramática que norteia o seu show comemorativo, intitulado “Agradecer e abraçar” (título homônimo à canção gravada no álbum “A força que nunca seca”).

A primeira parte do espetáculo — as primeiras canções — revela a sua relação com a carreira de intérprete & cantora: abre com “Eterno em mim”, do mano Caetano (“em mim o eterno é música e amor”), deságua em “Dona do dom”, do Chico César (feita especialmente para ela & por ela gravada no álbum “Maricotinha”), navega, emblemática, por “Começaria tudo outra vez”, do grande amigo Gonzaguinha (“começaria tudo outra vez / se preciso fosse, meu amor”), e segue dando emoção a tudo aquilo que sempre a comoveu no seu percurso artístico, clarificando ao público que muito se orgulha do caminho traçado através das suas escolhas.

Não faltam homenagens à sua terra & à sua gente (“Motriz”), aos seus pais & ao seu povo (“Tudo de novo”), à água, elemento de sua fascinação (“Eu e água”), à viola caipira, uma das suas adorações, ao grande poeta que adoçou a Bahia & a embalou, Dorival Caymmi (“Doce”), à Oxum mais bonita, mãe Menininha do Gantois (“Oração de Mãe Menininha”), e ao amor, é claro, uma das suas facetas mais célebres & festejadas.

Bethânia recita, entre outros, textos de Clarice Lispector, Waly Salomão & Fernando Pessoa, poeta da sua vida.

O auge de “Agradecer e abraçar” é quando, já no final, Bethânia canta a sua versão de “Non, je ne regrete rien”, sucesso na voz de uma das suas divas, a francesa Édith Piaf, acompanhada de uma tradução lindíssima dos versos da canção, cujo mote é o fato de não se arrepender de nada que tenha vivido. A tradução é recitada, como um poema. É tudo tão forte, tão carregado de simbolismo, que os espectadores aplaudem Bethânia de pé ainda no meio da canção. E isso, eu soube, aconteceu também na primeira noite. Arrebatador. (Aqui, me parece que, de alguma forma, Bethânia, discretamente, homenageia Cássia Eller, que, para surpresa de todos à época, gravou “Non, je ne regrete rien” no seu último álbum & que, das mais jovens, das cantoras surgidas na década de 90, é a sua cantora preferida.)

“Agradecer e abraçar” é mais um “depoimento” artístico de uma das grandes vozes deste país.

Mostra que quem nasceu para rainha nunca perde a majestade.

Agradecer & abraçar: ao fim do espetáculo, nada pedi. Só agradeci.

Mentira. Pedi, sim: mais 50 anos de carreira.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: A força que nunca seca. artista: Maria Bethânia. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

 

 

AGRADECER E ABRAÇAR

 

Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar
Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abracei o mar
É festa no céu, é lua cheia, sonhei
Abracei o mar

E na hora marcada “Dona Alvorada” chegou para se banhar
E nada pediu
Cantou pro mar
(E nada pediu)
Conversou com o mar
(E nada pediu)
E o dia sorriu

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar
E nada pedi
Entreguei ao mar
(E nada pedi)
Me molhei no mar
(E nada pedi)
Só agradeci
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A força que nunca seca. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Agradecer e abraçar. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

NO “FLA X FLU”, POESIA: A CASA QUE NÃO É MINHA
22 de outubro de 2014

Chave & Fechadura

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a vida, impreterivelmente, é feita de escolhas.

a fim de alcançar determinado objetivo, muitas vezes, algumas outras possibilidades, possibilidades de outros tantos caminhos, têm de ser deixadas para trás.

escolher é viver. o tempo inteiro, na vida, somos expostos a escolhas, aceitemos ou não. porém, as escolhas, em muitos casos, são inteiramente dispensáveis.

nos casos em que as escolhas são inteiramente dispensáveis & que, mesmo assim, escolhemos, podemos criar, ainda que sem intenção, verdadeiras disputas futebolísticas entre as coisas, onde nos obrigamos a escolher uma delas como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar.

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

costumo dizer isto aqui sempre: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

não seria diferente com as artes: com a arte da palavra, com a arte da música, com a arte do esporte.

portanto, por que escolher:

drummond ou joão cabral? chico ou caetano? anderson silva ou minotauro?

pepê ou rico de souza (dois grandes surfistas brasileiros)? mário de andrade ou oswald de andrade?

pepeu gomes ou armandinho (dois exímios guitarristas)? selton mello ou wagner moura? cartola ou nelson cavaquinho?

nelson piquet ou ayrton senna? clarice lispector ou cecília meireles? paula ou hortênsia (duas feras do basquete)?

mônica ou cebolinha? titãs ou os paralamas do sucesso? joão gilberto ou tom jobim? chacrinha ou sílvio santos? maysa ou elis regina?

antonio cicero ou waly salomão? renato russo ou cazuza? mundo livre s.a. ou nação zumbi?

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

assim como, na vida, algumas coisas se tratam de escolhas, outras coisas, não; há aquelas para as quais não há o poder de escolha, não há opção: trata-se de sina ou maldição, não se pode afirmar ao certo o que seja.

não fui eu quem escolhi a poesia, não fui eu quem optei por ela. foi a poesia quem me escolheu, foi a poesia quem optou por mim. porque não está nas minhas mãos o poder de decidir quando adentrar a casa da poesia. é a poesia quem escolhe a hora da visita do poeta. não é o poeta o responsável pela decisão.

desse modo, a casa da poesia, essa casa não é minha: a casa da poesia pertence somente à poesia.

minha chave, a chave da minha casa, não serve à casa da poesia, não cabe em sua casa. desconheço a fechadura, desconheço o dispositivo de destrancar a sua porta, e, conseqüentemente, desconheço a metragem, o tamanho, da sua sala (até porque a sala de estar muda de metragem, altera de tamanho, a cada visita realizada).

tudo me é estranho, tudo me é diferente, tudo me é irreconhecível, na casa da poesia.

a cada visita, uma nova casa, uma grande surpresa: nunca se sabe o que encontrar na casa: metragem desconhecida, o teto que nada me diz, o ar estranho da cozinha, o quarto que não é meu, a cama em que nunca dormi, um ambiente que causa certo desconforto — não é certamente confortável estar entre as paredes da casa poética, sem saber se tal construção lírica é segura ou se pode desabar a qualquer momento.

essa casa não é minha.

ser poeta não é opção: é sina ou é maldição.

às coisas que não se tratam de sina, de maldição, nem de escolhas (como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar), abrigá-las todas dentro da morada do ser: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

aproveitemos todas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A sombra do faquir. autor: Mauro Sta. Cecília. editora: 7Letras.)

 

 

FLA X FLU

 

Drummond ou João Cabral
Caetano ou Chico
Anderson Silva ou Minotauro
Pepê ou Rico

Mário ou Oswald
Pepeu ou Armandinho
Selton ou Wagner
Cartola ou Nelson Cavaquinho

Piquet ou Senna
Clarice ou Cecília
Paula ou Hortênsia
Mônica ou Cebolinha

Titãs ou Paralamas
João Gilberto ou Tom Jobim
Chacrinha ou Sílvio Santos
Maysa ou Elis

FHC ou Lula
Antonio Cicero ou Waly
Renato Russo ou Cazuza
Mundo Livre ou Nação Zumbi.

Escolhas erguem muros espessos no caminho.

 

 

ESSA CASA NÃO É MINHA

 

Minha chave aqui não cabe
desconheço a fechadura
e a metragem desta sala.
O teto não me diz nada
o ar da cozinha é estranho.
Claro que não é o meu quarto
onde me deparo agora.
Nunca dormi nesta cama,
nem me sinto bem aqui
depois de todos esses anos.

Ser poeta não é opção
é sina ou é maldição.

LENDA DE SÃO JOÃO: O MEU TALISMÃ
24 de junho de 2014

Fogueira de São João

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acorda, joão!

acorda, meu santo! hoje é dia de festa, meu menino!

hoje, 24 de junho, é o seu dia & o meu aniversário. exatas 38 primaveras vencidas.

38 primaveras vencidas & muito a agradecer à vida as oportunidades & chances de amadurecimento, de crescimento, muito a agradecer à vida pelas experiências & andanças trilhafora.

acorda, joão, que eu também quero ser batizado nas águas do rio de janeiro!

êta, menino sapeca, capeta! dispara, espoleta!

êta, menino ladino, porreta, danado, divino!

acorda, são joão, e, no dia da tua festa, faz o menino levado saltar de dentro da velha & do velho enferrujado, faz o menino levado saltar de dentro de todo & qualquer enferrujado, mas não faz muita zoada!

joão dorme seu sono em paz, e, se acorda assustado, nem sei do que é capaz… sei não, com a sua fogueira, fogueira de sua festa, incendeia o mundo, e até o meu coração.

acorda, joão, meu santo menino, que eu também quero contigo brincar!

acorda, meu santo, acorda, são joão xangô menino! (xangô, na mitologia afro-brasileira, é o orixá do fogo & da justiça.)

minha boca saliva porque tenho fome, e essa fome é uma gula voraz que me traz cativo, que me traz preso, amarrado, atrás do genuíno grão da alegria, que destrói o tédio & restaura o sol.

no coração do meu corpo, existe um porta-jóia. dentro dele, um talismã sem par, que anula o mesquinho, o feio & o triste, mas que nunca resiste a quem bem o souber burilar.

minha sede não é qualquer copo d’água que mata. essa sede é uma sede que é sede do próprio mar. e tal sede só se desata se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia.

(o mar, meu amante maior para todo o sempre.)

sonho colher a flor na maré-cheia vasta; eu mergulho & não é ilusão quando volto, triunfante, feliz, com a fronte coroada de sargaço & sal.

coragem grande é poder dizer sim. dizer sim à existência mundana, com todos os dissabores dentro.

e eu digo: sim.

sim, quem, dentre todos vocês, minha sorte quer comigo gozar?

a quem interessar comigo minha sorte gozar: sigamos juntos nesta bela jornada que é a viagem pelos versos.

salve a poesia!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia total. autor: Waly Salomão. editora: Companhia das Letras.)

 

 

LENDA DE SÃO JOÃO

 

Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão
Êta menino sapeca capeta
Dispara espoleta
Êta menino ladino porreta danado divino
Acorda, São João, e faz o menino levado
Saltar de dentro da velha
E do velho enferrujado
Mas não faz muita zuada
João dorme seu sono em paz
E se acorda assustado
Nem sei do que é capaz
Sei não, incendeia o mundo
E até o meu coração
Sapeca mandureba na fogueira
E acabou-se a brincadeira
Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão

 

 

TALISMÃ

 

minha boca saliva porque tenho fome
e essa fome é uma gula voraz
que me traz cativo
atrás do genuíno grão de alegria
que destrói o tédio
e restaura o sol
no coração do meu corpo
um porta-joia existe
dentro dele um talismã sem par
que anula o mesquinho, o feio e o triste
mas que nunca resiste
a quem bem o souber burilar

sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

Minha sede não é qualquer copo d’água que mata
essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
essa sede é uma sede que só se desata
se minha língua passeia
sobre a pele bruta da areia
sonho colher a flor na maré-cheia vasta
eu mergulho e não é ilusão
não, não é ilusão
pois da flor-de-coral
trago no colo a marca
quando volto triunfante
com a fronte coroada de sargaço e sal
sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
6 de novembro de 2013

Banco vazio com folhas secas

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senhores,

há pouco, passei por dois acidentes graves, em seqüência, cada qual com suas peculiaridades.

num acidente, eu vi a cara da morte, e ela estava viva: voltando de belo horizonte para o rio de janeiro, o ônibus em que viajava bateu na traseira de um caminhão parado no acostamento. uma pessoa morreu na hora, três outras ficaram presas nas ferragens, e não sei quantos mais feridos. por sorte, tive apenas um inchaço no polegar direito & dores nas costas devido à batida. nada mais.

no outro acidente, a dor de ser fisicamente freado pela vida: pedalando com o orlando (meu camelo azul da cor do mar), um ciclista, que vinha na direção oposta à minha, ao tentar ultrapassagem, invadiu a contramão (sem que eu tivesse tempo de desviar) & bateu de frente comigo. resultado: por causa do deslocamento de uma parte óssea (curiosamente chamada “capitulo”) & da fratura de um outro osso, tudo no cotovelo esquerdo, tive de operar, para colocar pinos & parafusos, e de imobilizar o braço. um mês imobilizado & depois — pelo menos — mais um mês de fisioterapia.

estou ótimo, graças. por sorte, não foi o braço direito o atingido, afinal sou destro!

no entanto, querendo ou não, a vida me parou, me pôs quieto no meu canto. com isso, tive de encará-la sem meias verdades.

tais acontecimentos mexem, mexeram, comigo. fichas caíram. prioridades subiram.

re-pensar, re-ver, re-fazer, re-tomar.

tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas.

momento de reflexão: dando um tempo para mim. ausente de mim mesmo.

eu estou ausente, porém, no fundo desta ausência, existe a espera de mim mesmo, e esta espera é um outro modo de presença (tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas).

à espera de meu retorno, eu estou em outros objetos. ando em viagem (interna) dando um pouco de minha vida a certos livros & a certos discos, objetos que me esperaram muitos anos.

eu não estou & estou: estou ausente & estou presente, mas presente “em estado de espera”.

eles (os objetos a quem dou um pouco de minha vida) queriam minha linguagem para expressar-se. e eu queria a — linguagem — deles para expressá-los: eis o atroz equívoco: o equívoco primordial: a tentativa de interpretação das coisas, herméticas nelas mesmas, sem explicações ou justificativas sobre o que são & desejam.

angustioso, lamentável (pelo atroz equívoco), vou-me adentrando nestes objetos — e deixando minhas roupas, perdendo as carnes: meu esqueleto vai-se revestindo do material que forma os objetos.

estou-me fazendo livros, discos, palavras, som…

(quantas vezes me converti em outras coisas…)

o processo de transformação, por me achar à espera de mim mesmo, é doloroso & cheio de ternura. podia dar um grito, fazer barulho, chamar a atenção às dores das mudanças.

mas para quê?

à transubstanciação (transformação de uma substância em outra) de nada adiantaria o grito.

com o grito, a transubstanciação se espantaria.

(a transubstanciação: a transformação de uma substância, o paulo sabino, em outra.)

há que guardar silêncio. a fim de pensar, refletir, concentrar.

esperar em silêncio.

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do livro: Pescados vivos. autor: Vicente Huidobro. tradução: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

 

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

 

Eu estou ausente porém no fundo desta ausência
Existe a espera de mim mesmo
E esta espera é outro modo de presença
À espera de meu retorno
Eu estou em outros objetos
Ando em viagem dando um pouco de minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que me esperaram muitos anos

Cansaram-se de esperar-me e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam minha linguagem para expressar-se
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustioso lamentável
Vou-me adentrando nestas plantas
Vou deixando minhas roupas
Vou perdendo as carnes
E meu esqueleto vai-se revestindo de cascas
Estou-me fazendo árvore  Quantas vezes me converti em
………………………………………………………….[outras coisas…
É doloroso e cheio de ternura
Podia dar um grito porém a transubstanciação se espantaria
Há que guardar silêncio  Esperar em silêncio

AMANTE DA ALGAZARRA, MASCARADO AVANÇO
3 de maio de 2011

 
(paulo sabino: um andarilho que avança, mascarado)
_________________________________________________________________________
 
ela desinfla “o mal-estar na civilização”, sobre o qual o médico & psicanalista sigmund freud já discorreu (freud, inclusive, possui um livro homônimo — “o mal-estar na civilização”).
 
ela desinfla todo & qualquer mal-estar.
 
ela prescinde, isto é, ela renuncia, ela despreza, a felicidade dos bem postos na vida, ela prescinde da felicidade dos que alcançam postos altos na vida, a felicidade dos “bem sucedidos”.
 
quanto mais o tédio vital, o tédio de vida, preside, tanto mais eu & ela nos fundimos, eu & ela amalgAmados, e extáticos, crentes da seita dos dervixes, religiosos mulçumanos, andarilhos, que fazem votos de pobreza, humildade & castidade.
 
(peregrino atônito até a morte!)
 
bem & mal & boca & mel & esta voz que deus me deu: nada é igual a ela & eu.
 
e, ela, que papel cumpre?
 
respondo: ela imprime animação descomunal na falange, isto é, ela imprime animação descomunal na legião, imprime animação descomunal na quantidade inumerável das minhas máscaras, das máscaras com as quais me disponho a ser por ela olhado, a ser por ela observado.
 
portanto,
 
não sou eu quem dou coices ferradurados no ar (coices com ferraduras, ferraduras demoradas no ar). é ela, é esta estranha criatura que fez, de mim, o seu encosto.
 
é ela!!!
 
todo mundo sabe: sou uma lisa flor de pessoa, sem espinhos ou asperezas.
 
é ela, é esta amante da balbúrdia (que cavalga encostada ao meu sóbrio ombro) quem dá coices ferradurados no ar.
 
ela: esta estranha criatura se apossou do estojo (caixa que reúne diversos objetos & apetrechos destinados a um uso determinado) da minha figura, desta figura que todos olham, que todos observam, e dela, da minha figura, expeliu o seu estofo, a sua fibra, expeliu aquilo que a forra, aquilo que a reveste (que reveste a estranha criatura).
 
quem corre aberta, desabrochada, sem ceder a concha do ouvido a ninguém que discorde dela, é ela, é esta selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde:
 
é ela, a musa maior, sempre afiada, feito fé cega — faca amolada.
 
beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________________________
 
(do livro: O mel do melhor. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.) 
 
 
 
MASCARADO AVANÇO
 
Ela desinfla o mal-estar
na civilização.
Ela prescinde da felicidade
dos bem postos na vida.
Quanto mais na lida diária
o Tedium Vitae preside
tanto mais
eu e ela nos fundimos extáticos,
crentes da seita dos dervixes girantes.
Eu, com ansiosa solicitude,
agarro qualquer bóia
— destroço seja ou jóia —
e comando o lupanar do lumpesinato da ilusão.
E, ela, que papel cumpre?
Ela imprime descomunal animação
                                                                                    à falange
das minhas máscaras.
 
 
 
AMANTE DA ALGAZARRA
 
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela! ! !
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
 
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe! ! !
Enquanto caminho a pé, pedestre — peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
 
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.

ESTUDO: FÁBRICA DO POEMA
11 de janeiro de 2011

Livros_Paulo Sabino
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o sonho (o mais caro) dos poetas:

a construção do poema de arquitetura ideal.

a feitura de um poema fantástico, de um poema como um dia claro.

o dia claro, no seu discurso mudo, na sua fala de silêncio, dizendo “nada”, diz “tudo”. pois que o mundo é só exterior; não existem portas que dão para dentro, apenas as que dão para fora. dizendo “nada”, o dia claro diz “tudo”. as coisas às claras, eis o seu discurso. e ponto final.

o sonho dos poetas:

o poema cujo propósito seja o impropositado.

um poema que, a gosto do impropositado, não fosse passível de ser declamado.

o sonho caro dos poetas: dele, do sonho,

acordam.

e, acordando, o sonho-poema, de ideal arquitetura, todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.

acordam, do sonho, os bardos.

e toda a estrutura que compõe a arquitetura do poema ideal — o prédio poético de versos & rimas, as pedras & a cal líricas das palavras — esvoaça como um leve papel, solto à mercê do vento.

o poema, por ser “ideal”, isto é, por ser “do campo das idéias”, é um poema-miragem: existe somente na imaginação.

ao acordarem (os poetas), o poema-miragem se desfaz desconstruído, como se nunca houvera sido.

o transe é tamanho (afinal, trata-se da arquitetura do poema ideal), que os olhos de quem sonha saem chumbados, e os dedos findam estarrecidos.

todos os grandes achados para o poema ideal — metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros —, perdidos, sumidos no sorvedouro da memória.

permanecer à espreita, permanecer à espera do retorno do poema (o mais caro), do poema de arquitetura ideal, não deve adiantar grande coisa (aos bardos).

assim como não deve adiantar grande coisa os bardos afundarem-se no sono, a fim de resgatarem o sonho-poema, nem a simulação de dormirem deveras (simulando dormir porque, na verdade, em alerta, caçadores prontos ao bote assim que ressurgido o poema-presa).

nada adiantaria.

pois a grande questão, aqui, a questão-chave é:

saber sob que máscara retornaria o sonhado caro poema ideal, já que o poema-miragem foi perdido no sorvedouro da memória, foi desconstruído como se nunca houvera sido.

portanto: como sabê-lo?

sob que máscara retornaria o poema idealizado?

(sob que máscara retornaria?…)

é melhor, então, que o poema idealizado fique na paz sine die, isto é, é melhor que o poema idealizado descanse na paz eterna, que o poema idealizado repouse em estância não localizável.

no fundo, o sonho do poema de arquitetura ideal é a música que sopra aos ouvidos dos poetas antes da construção de qualquer poesia: a vontade, o desejo, o sonho, de realizar a grande obra da sua existência. põe-se o bardo a escrever, e rasurar, e reescrever, e burilar, e cavucar, e riscar, até que fiquem a contento os seus versos.

deixar em descanso eterno o sonho-poema.

na frente, em primeiro lugar, antes de tudo & quaisquer coisas: a poesia!

beijo bom em todos!
paulo sabino.
______________________________________________________

(do livro: Poemas esparsos. organização: Eucanaã Ferraz. autor:Vinicius de Moraes. editora: Companhia das Letras.)

 

ESTUDO

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
— Contanto que exprima
O impropositado

E que (o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine die
Ça c’est la musique
Avant la poésie
.
______________________________________________________

(do livro: Algaravias. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou restaurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?
______________________________________________________

(do encarte do cd: A Fábrica do poema. artista: Adriana Calcanhotto. autor dos versos: Waly Salomão. gravadora: Epic.)

 

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-me os dedos estarrecidos.

metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

sob que máscara retornará?
sob que máscara?
______________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A fábrica do poema. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: A fábrica do poema. versos: Waly Salomão. música: Adriana Calcanhotto. gravadora: Epic.)

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
___________________________________________________________
 
(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
________________________________
engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!

HOMENAGEM AO WALY
3 de setembro de 2010

se, por um lado,
 
aprecio e admiro joão cabral de melo neto por ele ser um arquiteto cerebral dos versos,
 
por outro,
 
admiro e aprecio os versos que seguem abaixo exatamente pelas faltas de economia e secura. o poeta responsável por eles é o que chamaria de: poeta-enxurrada.
 
seus versos são verdadeiros “jorros” de idéias e imagens que se articulam num dizer indisciplinado e torrencial, caudaloso. o comedimento, decididamente, não é o seu forte. e eu o acho delicioso por isso.
 
waly salomão é uma metralhadora poética. sua verborragia lírica é o grande barato.
 
com ela, o bardo alcança os mais altos efeitos imagéticos, e, com isso, os mais altos efeitos de significados, de idéias, que podem sugerir as linhas.
 
tenho verdadeira loucura pelo waly por esta capacidade: a de ser um manancial de idéias & conexões & constatações & achados, a de ser um furacão do verbo a serviço do desconcerto que aguça a perspicácia.
 
dentro da profusão do linguajar, waly salomão promove o encontro & o convívio harmônico, convívio de bem-querer, entre a academia & as ruas: a fala dos dicionários & a fala das bocas, atreladas, atadas, numa junção ímpar, bela & esperta.
 
alguns o dizem “excêntrico”; outros, “maluco”; outros ainda, “lunático”.
 
“lunático”? nããão, decididamente.
 
waly salomão: the sailormoon, o navegante da lua, o marinheiro deste satélite que parece “uma imensa aspirina / boaindo nua no céu” (da canção da gema, música de caetano veloso e letra de waly salomão), o timoneiro luarento em busca dos deuses & dos tesouros & dos reinos perdidos por entre as palavras.
 
abaixo, a minha singela homenagem a um dos tantos capitães da minha barca literária.
 
ao poeta-pedrada, ao poeta-porrada (“porrada”, tal & qual o lsd blue sky), ao poeta rico em fluência, esbanjador, nada econômico, fica a minha “doce” homenagem e o meu entendimento de que:
 
durante o resto do tempo que me é concedido viver, e na hora H da morte, esteja estampada, na minha face, a legenda: o que amas de verdade permanece, o resto é escória.
 
nada de cortejar a morte nem de perambular pelos cemitérios nem de brindar o luar patético com caveiras repletas de vinho tinto seco, como um poeta gótico e obsoleto.
 
antes, sereno e cabeça dura, insistente, mirar de frente a caveira e as tropas de vermes, sempre em prontidão, sempre em estado de alerta, e gargalhar da irrealidade da morte.
 
gozar gozar & gozar a exuberância órfica das coisas, isto é, gozar gozar & gozar a existência: por sobre a terra, por sob o céu.
 
estejamos preocupados, sempre, em viver o AGORA, em viver o que temos HOJE, que é o PRESENTE. e que este seja, sempre, a atualidade do que é: belo.  
 
e o resto (os compromissos abarrotados de chateações, os seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos), deixemos ao resto!
 
embarquem nesta viagem!
 
beijo carinhoso em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________
 
(do livro: Lábia. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.) 
 
 
POST-MORTEM
 
Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais
mas em sua mente só releva a atualidade do belo.
O passado pode estar abarrotado de chateações
mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes
e amor e gravidez no bojo do macho
e horas infindas deitado nas areias
especulando nuvens
que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.
Um gosto permanecer aqui extasiado
e sem querer comparecer a nenhum vernissage
cansado dos artistas
que dão a seus quadros a última demão de verniz
e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar
e do dernier cri
esquecer os pacotes de encomendas à Amazon Books
e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.
Quase morrer é assim:
uma cada vez mais crescente ojeriza com a “vidinha literária”
de par com a imorredoura memória de certas linhas,
por exemplo,
que durante o resto de tempo que me é concedido viver
e na hora H da morte,
estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.
Rever Piero della Francesca
e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.
E a vista de Delft de Vermeer.
A Barcelona do poeta-clochard-palhaço Joan Brossa.
A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery
e de Frank O’Hara e de ninguém.
 
Sobem fiapos da infância de um tabaréu:
ora eu era
uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas
ora eu era
um acari das locas do Gongogi — rio cheio de baronesas.
Idade do ouro fluvial, plástica, flamante.
Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.
Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula
e os outros todos principais cavaleiros
e as outras todas principais damas
que povoavam as varandas, os pastos, o curral, a balsa, a chácara,
as pedras, os capins e as matas da Coroa Azul raro Balito.
Convive-se com uma criatura sem imaginar de que reino
                                                                                                   provém.
 
Zelar pelo deus Treme-Terra que meu coração devolveu.
Não cortejar a morte.
Não perambular pelos cemitérios
nem brindar o luar patético
com caveiras repletas de vinho tinto seco
como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.
Sereno e cabeça dura — testa ruda
mirar de frente a caveira
e as tropas de vermes de prontidão
(como observo vermes dentro de um pêssego)
mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.
Gozar, gozar e gozar
a exuberância órfica das coisas
em riba da terra
debaixo
do
céu.