OBSESSÃO
12 de junho de 2010

obsessão:
 
compulsão mania atração fixação motivação.
 
obsessão:
 
a doença no homem.
 
no artista, a saúde.
 
(os temas & assuntos & acontecimentos nas peças de nelson rodrigues, os temas & assuntos & situações nos filmes de woody allen & pedro almodóvar, os traços de picasso, os paradoxos em pessoa, a secura & exatidão nos versos de cabral, a porra-louquice lúcida de waly, o suingue nas músicas de benjor, o esmero nos efeitos poéticos das letras de chico buarque, a precisão das notas na voz & no violão de joão gilberto:
 
a tudo isso: obsessão.)
 
ali a ilha nesse mar tão desmedido, ali a luz no escuro inexpressivo: obsessão diária, renitente, recorrente (minha).
 
 
(a obsessão dos poetas: por mais viciantes o cigarro, o sexo, o álcool, viciam, ainda mais: as palavras.)
 
 
beijo bom & carinhoso em vocês,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Belvedere [1971-2007]. autor: Chacal. editora: 7Letras / Cosac Nairfy.)
 
 
OBSESSÃO
 
ali a linha
que atravessa
o labirinto
ali o fio
da meada
interminável
 
obsessão
 
(toda peça
— adultérios, incestos, tabus —
a mesma peça
em nelson
todo poema a mesma pancada
em cabral
toda canção a mesma levada
em benjor)
 
obsessão
 
o cara só pensa nisso
a mina não entra em outra
 
obsessão
 
ali a ilha
nesse mar
tão desmedido
ali a luz
no escuro
inexpressivo
 
obsessão 
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CANTO DE SEREIA
11 de junho de 2010

canto de sereia (1):
 
para livrar-se dele, tapar os ouvidos, os poros do corpo. canto de sereia é canto de feitiço. portanto, fazer do corpo a fortaleza a fim de lutar & resistir.
 
(sempre que penso nisso, me vem a divina & amada & venerada sereia nina simone, cantando: “i put a spell on you/ because you are mine”.)
 
canto de sereia (2):
 
quando o canto chama, & queima por dentro, & ilumina, flor de estufa, flor criada em local fechado, com todo tipo de proteção a quaisquer intempéries do tempo, salta a cerca para luzir no mangue, e, no mangue luzindo, emprenha-se de muitos, fecundiza-se de todos. a vida da flor de estufa, depois da cerca saltada — cerca afora —, passa a ser gerida, guiada, passa a ser conduzida, por vozes de/em si: a câmara de ecos: vozes pretéritas reverberadas, vozes futuras adivinhadas.
 
a obsessão da flor: transformar o eco em narciso: que o eco reverbere e adivinhe o que a flor admira em si.
 
a obsessão da flor: mirar-se e admirar-se de estar sendo (como propala fernando pessoa), tendo, assim, seu senso narcísico. 
 
(sempre que penso nisso, me vem a divina & amada & venerada sereia clarice lispector, entoando: “Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.”)
 
a sereia é essencialmente narcísica. maravilha-se do seu canto, e dá-se, inteira, à vida.
 
que o canto bem cantado da sereia ecoe, e, eco, metamorfoseie-se em: fonte:
 
fonte para sua própria existência.
 
beijo em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Algaravias. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.)
 
 
CANTO DE SEREIA
 
(Primeiro Movimento)
 
Tapar os ouvidos com cera ou chumbo derretido.
Construir uma fortaleza de aço blindado em volta
de si.
O próprio corpo produzir uma resina que feche os
poros,
como o própolis faz nas fendas dos favos de mel.
 
 
CANTO DE SEREIA
 
(Segundo Movimento)
 
A flor de estufa
salta a cerca
para luzir no mangue.
E se emprenha de fulano, sicrano e beltrano.
Sua vida atual reverbera vozes pretéritas,
adivinha vozes futuras.
 
Sua obsessão:
Que Eco se transforme em Narciso,
Que Eco se metamorfoseie em fonte.
 
                                                          1995

AVISO AOS NAVEGANTES — FÉRIAS
2 de junho de 2010

navegantes,
 
este mês de junho, como dito no post anterior, é o meu mês de férias.
 
por conta dos “compromissos recreativos” (rs) o “prosa em poema” não terá postagens tão regulares, como quando possuo um dia-a-dia mais “regular”, mais rotineiro.
 
não saberia dizer a vocês sobre a freqüência, mas este que vos escreve não ficará sem publicar.
 
amanhã pela manhã, dia 3 de junho, quinta-feira, faço uma viagem para o interior do rio, à região serrana, para curtir uma bela festa junina na casa de um grande amigo, cercado de grandes amigos. neste lugar não há muitas possibilidades de conexões com o que está fora do entorno. não há sinal para telefones móveis nem tampouco internet.
 
semana próxima estamos aí.
 
beijo grande em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Lábia. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.)
 
 
UM ANGELUS SILESIUS MIRA O OLHO-D’ÁGUA
 
Por entre avenca e feto e taquarapoca
No seio-limo-musgo da mata ciliar
Corre arregalada a crua matéria-prima essencial
O vero olho da terra é o cristal d’água
E não há no reino mineral
Nenhum poder de pedra que estanque
O jorro das gotinhas
Rasgando as entranhas da terra
Sedentas por ver o sol
Sedentas por ver o sol
Secas por vê-lo
Dourar o campo, o alecrim e a mata
Dourar o vale, a garganta e a serra.
 
                    Córnea, cristalino.
Pupila, íris, pálpebra, retina.
 
Ai, se este olho-d’água
Filtrasse a sentina, a latrina
Do mundo e da minha alma
E o nojo e a náusea e o lodo e a lama lavasse
E o Eco pagão aos meus ouvidos recordasse
Que o olho por onde eu vejo Deus
É o mesmo olho por onde Ele me vê.
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(do livro: A moeda do tempo e outros poemas. autor: Gastão Cruz. editora: Língua Geral.)
 
 
FRAGMENTO
 
Pouco mais poderei fazer que versos
por tua salvação
e é inútil que os faça

VERÃO
22 de dezembro de 2009

queridos,
 
eis que, ontem, às 14h47 (?? — rs), segundo o programa radiofônico “a voz do brasil”, que gosto de ouvir vez por outra, o imperador amarelo irrompeu com suas forjas o horizonte febril da cidade do rio de janeiro.
 
por conta desta chegada ostentosa, magnânima, seguem as linhas que brindam a vinda deste tempo: tempo de estio. hoje, nenhuma nuvem tolda a sua ferraria. azul que extrapola, transborda, por sobre a cidade e o meu olhar.
 
a l u z  a z u l excessiva, que esta invada e penetre os nossos caminhos e alma!
 
beijo terno em todos,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________
 
(do livro: Lábia. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.)
 
 
VERÃO
 
Desde que o Imperador Amarelo
Quebrou a barra do dia
Irrompeu com suas forjas
O horizonte febril
Que uma espada de luz
Serra em prata a água salgada
E miríades de lâminas
Douram e escaldam a areia vítrea.
 
Saltam faíscas do bate-bigorna imperial.
 
Nenhuma nuvem tolda
A ferraria do estio.
 
Azul excessivo solda
Céu e mar.

UM INSTRUMENTO DO MEU PRAZER – WALY SALOMÃO 2
9 de setembro de 2009

 queridos, 

a vida, de fato, é surpreendente.
 
o que me ocorreu é um exemplo mínimo, bobo, singelo, de como não temos, nem podemos ter, total controle sobre o que nos acontece.
 
há um tempo, exatamente na manhã do dia 18 de junho, caminhando para o trabalho, não pensava em poema algum. nada em mente. a noite passada fora maravilhosa, encantada, feliz, e isso era a única coisa que importava.
 
mas a vida… eis o “causo” (rs): fones nos ouvidos, celular ligado em uma estação de rádio fm. de repente, uma chamada. atendo. converso. desligo. volta a estação radiofônica. diz o locutor: “e agora, começamos o bloco com a abelha-rainha, que faz aniversário hoje, maria bethânia.” e me arromba os tímpanos a beleza daquela voz, daquele som emitido por esta espécie de águia nordestina, cantando “mel”, composição do seu mano caetano veloso e do poeta waly salomão, que delineou linhas lindíssimas, emblemáticas na carreira da intérprete. foi dessa canção, inclusive, que recaiu sobre bethânia a alcunha de “abelha-rainha”. abaixo, um trecho da letra:
 
Oh, abelha rainha
Faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo do teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E abarco o sol com a mão 
 
durante a canção, emocionado, assaltou-me, sem mais nem menos, sem que eu tivesse algum tipo de controle sobre a situação, o poema que segue. versos encantados, que tratam do fato de reinventar-se, de reter-se no imponderável, de abrigar-se, sem abrigo, no contínuo movimento de mudar, natural à existência. um grito pela liberdade de seguir rumos, de partir, sem sombras ou vestígios. atracar no presente, remando contra a maré sempre que preciso for. nadar, nadar, nadar, mesmo que se morra na praia antes de alcançar o mar.
 
lembrem-se: criar é desacostumar-se do que se é, do que está, ou seja, é desaceitar o fado fixo, é romper com a mesmice, com a monotonia da vida, e ser arbitrário, isto é: o ser casual, o ser não sujeito a determinadas normatizações / regras / convenções.
 
sejamos sujeitos a esse tipo de trabalho. sejamos sujeitos autônomos.
 
o poema é uma homenagem do waly salomão a ela, à voz que me permeia intensamente, à artista que só contribuiu para o meu amadurecimento em diversos aspectos.
 
é, também, uma homenagem minha a vocês.
 
um beijo em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
___________________
 
SARGAÇOS
  
para Maria Bethânia
 
 
“Fatalismo significa dormir entre salteadores”
Jalâl al-Dîn- al- Rume, poeta sufi
 
 
Criar é não se adequar à vida como ela é,
Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
Que não sobrenadam mais.
Nem ancorar à beira-cais estagnado,
Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.
 
Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.
 
Plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
                                                              espumas e salistres,
                                                               ondas e maresias.
 
Mar de sargaços
 
Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,
                                                   o astrolábio de sete faces,
O zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as
                                                                           cordas,
Os ferros , o júbilo e o luto.
Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu
Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.
 
                                Só e outros poemas
                                                  Soledades
                                                           Solitude, récif, étoile.
 
Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
Parir,
              desvelar,
                           desocultar novos horizontes.
Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.
E, mormente,
                     remar contra a maré numa canoa furada
Somente
              para martelar um padrão estóico-tresloucado
De desaceitar o naufrágio.
Criar é se desacostumar do fado fixo
E ser arbitrário.
                                                 Sendo os remos imateriais
 
                                                 (Remos figurados no ar
                                                  pelos círculos das palavras.)
____________________________________________________
 
(autor: Waly Salomão. livro: Lábia. editora: Rocco)

É MISTER ROUBAR! – WALY SALOMÃO 1
8 de setembro de 2009

moças e rapazes,
 
este poema segue justamente por causa do dia. um dia azul, bonito, com um sol escancarando as cores das paisagens.
 
hoje, pela manhã bem cedo (acordei às 6h30), fui à praia. o mar, lindíssimo, de temperamento calmo, sereno, e de um azul-esverdeado claro, bem limpinho (pelo menos na aparência – rs). céu & mar, mar & montanha: uma manhã tão plena que estes versos me surgiram de pronto.
 
na vida, as coisas perdem-se. a perda compreende parte do processo de viver. e é melhor, para nós, aprendermos a arte de perder com o decurso dos dias. sendo assim, o que realmente nos resta senão a memória das coisas? e, sabemos, a memória é feita, formada, das paisagens que a compõem. portanto, meus queridos, tenham em suas memórias as melhores paisagens. é mister roubá-las, saqueá-las, tê-las bem dentro das suas lembranças. uma vida boa é feita de boas recordações. reparem nas belezas, às vezes às claras, às vezes embutida, das paisagens que nos cercam. a vida, as nossas vidas, frente à grandeza deste nosso mundo, é um átimo. aproveitemos o máximo!
 
e lutemos para que todos, neste planeta, possam ter, em seus dias, lindas paisagens para rememorar.
 
é isto, pessoas: a sagração do dia.
 
lembrem-se: é necessário roubar, saquear, reter em retina.
 
beijo bom e terno.
paulo sabino / paulinho. 
_________________________
 
POESIA HOJE 2 (autor: waly salomão. livro: lábia. editora: rocco)
 
1
 
Serena e sem catástrofe.
Não é difícil aprender a arte de perder.
 
2
 
Arrasta o dia na areia sua rotina normalmente.
Prestação de contas?
Apólice de capitalização?
Central de recados?
Adquirir o Saint-Clair das Ilhas ?
Fuzarca, carnavais e cinzas.
 
3
 
O que existe de valor por aqui exceto a paisagem?
Incontida volúpia de saquear.
É mister roubar. É mister roubar a luz
Que cobre
Montanha e mar.
Roube!

EROS E PSIQUE
21 de agosto de 2009

certa vez, perguntada por um jornalista sobre quem, na sua opinião, é a maior atriz do brasil, fernanda montenegro, uma das maiores, senão a maior atriz do país, respondeu, categórica: maria bethânia.

tenho muito a dizer sobre bethânia, sobre minha mãe e sobre a importância crucial dessas duas mulheres encantadas no meu gosto literário. foi a partir delas, de bethânia e da minha cabocla jurema, que tudo começou. um dia, mais a fundo, farei um texto para homenageá-las, eu sei.

hoje me atenho ao fato de bethânia ser, para mim e para muitos (inclusive para a maioria esmagadora dos poetas), uma das maiores intérpretes da palavra falada.

desde muito cedo, bethânia sentia que a palavra cantada não daria conta do que ambicionava em palco. por isso, tornou-se, talvez, a única (desculpem a minha ignorância, mas, de fato, não conheço nem nunca ouvi falar de outra artista, no mundo, que trabalhasse desta maneira) intérprete de música a levar textos, tanto em poesia quanto em prosa, para os seus espetáculos.

por conseguinte, a cantora é/foi próxima e amiga de grandes escritores: vinicius de moraes, clarice lispector (que inclusive escreveu textos exclusivos para alguns dos seus espetáculos), ferreira gullar, lya luft, waly salomão, arnaldo antunes, antonio cicero, entre tantos outros.

ela é a grande mestre. em 1977, gravou um long-play em estúdio cuja faixa primeira é um dos poemas, na minha humilde opinião, mais lindos do mundo: “eros e psique”, do extraordinário, do maior poeta da língua portuguesa, fernando pessoa. os versos narram o encontro dessas duas frentes, dessas duas forças que compõem e moldam todos nós.

eros, o infante esforçado, rompe o seu caminho, o caminho fadado, predestinado, sem saber que intuito, que razão, possui. a força cega, que segue um chamado sem bem decifrá-lo, a força do sentimento, o amor.

psique, a princesa, a alma, a consciência, que, se espera, espera adormecida o infante, sem nem saber que existe;  e vive, por isso mesmo, num reino distante, para além do muro da estrada.

eros, o infante, alcança psique, a princesa encantada, e desse encontro nasce a descoberta de que, “no fundo”, ele próprio, o infante, é a princesa que dormia.

é o momento, literal, da “tomada da consciência”, do “cair em si”, do “saber-se de si”.

o sentimento ligado à razão. a razão e a sensibilidade, unas.

a minha aposta reside exatamente na mescla dessas duas forças.

na voz de bethânia, com sua interpretação, suas pausas entre versos & palavras, sua dramaticidade, o poema ganha, às claras, a força que concentra e carrega. a primeira vez que ouvi as linhas na sua voz, e as entendi, chorei copiosamente. chorei chorei chorei feito criança que sou (rs).

experimente, quem nunca o fez, ler os versos com a bethânia. é esclarecedor. a intérprete ilumina todas as linhas.

(como caetano veloso, gosto do pessoa na pessoa. injetem-no na veia.)

um beijo nocês tudo,

o preto,

paulinho / paulo sabino.

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EROS E PSIQUE (Fernando Pessoa)
 
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.   
 
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
 
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
 
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
 
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
 
E, se bem seja obscuro
Tudo pela estrada afora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
 
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.