A LUZ DE MIM À LUZ DAS LINGUAGENS

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ao ver o “não” que sai da dor, ao ver o “não” (palavra que nega, palavra que recusa, palavra que rejeita, palavra que impede, palavra que discorda) que sai, que escapa, da dor, ao ver a palavra (o “não”) que escapa da dor (da tristeza, do desgosto, do desprazer), o som da voz, o som que a voz deixa sair, o som que a voz deixa escapar, já vai no “sim” (palavra que consente, palavra que aceita, palavra que concorda, palavra que permite).

ao ver o “não” que sai da dor, o som da voz já vai no “sim”.
 
no tom do céu, não vi mais luz do que no sol que há em mim.
 
a luz do sol que há em mim: forte, intensa, ilumina o som da voz para o “sim”.
 
a luz do sol que há em mim: luz que se projeta, entre tantas coisas, na luz que escapa das formas diversas da linguagem, dos tantos modos de se dar a linguagem.
 
a luz de mim na luz das linguagens (na luz dos seus modos, das suas formas): a luz de mim à luz das linguagens:
 
notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora.
 
hipálage: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “figura sintática e semântica da transposição das relações naturais de dois elementos em uma proposição”: por exemplo: casa de pau, espeto de ferreiro, ao invés do usual, casa de ferreiro, espeto de pau. ou como em notei que o vôo negro da hipálage, que, de acordo com a relação natural dos elementos da frase, seria notei que o vôo da hipálage negra, pois o elemento “cor” (negro/negra) relaciona-se naturalmente com o elemento “hipálage” (que pode ser “negra”, “clara”, “evidente”, “obscura”) & não com o elemento “vôo” (que pode ser “curto”, “longo”, “raso”, “rápido”, “demorado”).
 
notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora.
 
metáfora: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança”: por exemplo: sua fúria de leão aflorou ao ver a cena, para designar uma fúria imensa, das maiores fúrias que se podia ver. ou como em não tinha o mel dos lábios da metáfora, o mel dos lábios para designar a doçura, a meiguice, da metáfora.
 
notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, e mais percebera, se não fora a enálage.
 
enálage: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “transposição da função gramatical própria de um elemento linguístico”: quando um adjetivo é utilizado no lugar de um advérbio ou quando um tempo verbal é utilizado no lugar de um outro tempo verbal mais recomendado: por exemplo: o ônibus atravessou rápido a cidade (rápido é um adjetivo, e adjetivos não acompanham verbos, adjetivos acompanham substantivos; os advérbios, sim, acompanham verbos) ao invés do gramaticalmente mais “correto”, o ônibus atravessou rapidamente a cidade. ou como em e mais notara, e mais percebera, se não fora a enálage: a conjunção subordinada “se”, que indica na frase uma “condição”, não conjuga adequadamente com o pretérito mais-que-perfeito (se não fora a enálage) & sim com o pretérito imperfeito do subjuntivo (se não fosse a enálage).
 
notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, e mais percebera (que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora), se não fora a enálage.
 
e mais notara, se não fosse a anáfora.
 
anáfora: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “repetição de uma palavra ou grupo de palavras no início de duas ou mais frases sucessivas, para enfatizar o termo repetido”: por exemplo: e mais notara, e mais percebera, e mais voara, se não fosse a anáfora. a repetição de “e mais” no início das frases & a repetição do tempo verbal terminado em “ra” formam anáforas.
 
(eu sou o rei das anáforas – rs!)
 
chorei mil mares profundos de hipérbole.
 
hipérbole: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguística”: por exemplo: choveu o oceano atlântico por sobre o rio de janeiro é uma maneira exagerada de dizer que choveu por demais na cidade. ou como em chorei mil mares profundos de hipérbole: chorar “mil mares profundos” é uma maneira exagerada de dizer que “muitas lágrimas foram derramadas”.
 
duas velas cortaram a metonímia.
 
metonímia: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “figura de retórica que consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação objetiva, de contiguidade [de proximidade], material ou conceitual, com o conteúdo ou o referente ocasionalmente pensado”: por exemplo: leio guimarães rosa, folheio adélia prado. na verdade, o que é lido é um dos livros do escritor guimarães rosa & não o escritor propriamente; o que é folheado é um dos livros da escritora adélia prado & não a escritora propriamente. assim como em duas velas cortaram a metonímia: não foram “duas velas que cortaram”, mas “duas embarcações a vela cortaram a metonímia”.
 
chorei mil mares profundos de hipérbole, duas velas cortaram a metonímia, e o pé da catacrese já marchava no compasso bem toante da rima.
 
catacrese: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “metáfora já absorvida no uso comum da língua, de emprego tão corrente que não é mais tomada como tal, e que serve para suprir a falta de uma palavra específica que designe determinada coisa”: por exemplo: braços da poltrona. dentes do serrote. asas do avião. da catacrese.
 
a floresta anímica (floresta da alma) verteu prantos, mas nós entramos dentro do pleonasmo.
 
pleonasmo: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “redundância de termos no âmbito das palavras”: por exemplo: sair para fora. repetir outra vez. subir para cima. entrar para dentro.
 
nós entramos dentro do pleonasmo
 
e ‘stamos em pleno oceano de aférese…  
 
aférese: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “processo de mudança linguística que consiste na supressão de fonema(s) no princípio do vocábulo”: por exemplo: de menina formou-se mina. de você formou-se . de estamos formou-se ‘stamos.
 
vai-se um expletivo, outro & outro mais…
 
expletivo: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “elemento de caráter estilístico usado por puro realce”: por exemplo: a partícula “se” em acabou-se o que era doce. a palavra “só” em veja o que aconteceu. a partícula “se” & a palavra “mais” em vai-se um expletivo, outro & outro mais.
 
os poetas somos muito silépticos.
 
siléptico: relativo a silepse: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “figura pela qual a concordância das palavras na frase se faz logicamente, pelo significado, e não de acordo com as regras da gramática”: por exemplo: os cariocas não gostamos de dia nublado. seguindo as regras gramaticais, “cariocas” (3ª pessoa do plural) não concorda com o verbo “ser” na 1ª pessoa do plural (somos). no caso em questão, os cariocas não gostamos, o interlocutor fala dos cariocas (eles — cariocas — 3ª pessoa do plural) porém inclui-se no grupo ao flexionar o verbo na 1ª pessoa do plural (nós somos, eu + eles, cariocas). assim como em os poetas somos muito silépticos: o interlocutor fala dos poetas (os poetas — eles — 3ª pessoa do plural) mas inclui-se no grupo ao conjugar o verbo “ser” na 1ª pessoa do plural (nós somos, eu + eles, poetas).
 
os poetas, nós somos muito silépticos; quebramos regras gramaticais, criamos palavras, expandimos significados, deslocamos a linguagem do seu uso corriqueiro, cotidiano.
 
mas enquanto eles, os poetas, somos muito silépticos, os poemas, elípticos demais.
 
elíptico: relativo a elipse: na língua portuguesa, segundo o dicionário houaiss, “supressão de um termo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto linguístico ou pela situação”: por exemplo: joão disse preferir viajar no feriado. já maria, ficar em casa lendo livros:subentende-se, pelo contexto, que maria prefere, no feriado, ficar em casa. assim como em eles, os poetas, somos muito silépticos, mas os poemas, [eles são] elípticos demais: subentende-se, pelo contexto, que elípticos demais são os poemas.
 
aqui, aos senhores, uma viagem por diversos modos da linguagem; as múltiplas linguagens dentro da linguagem:
 
na viagem por diversos modos da linguagem, notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara se não fora a enálage, e mais voara se não fosse a anáfora.
 
na viagem por diversos modos da linguagem, chorei mil mares profundos de hipérbole; duas velas cortaram a metonímia; e o pé da catacrese já marchava no compasso bem toante da rima.
 
na viagem por diversos modos da linguagem, verteu prantos a anímica floresta e, para nos livrarmos da chuva-pranto vertida pela floresta da alma, nós entramos dentro do pleonasmo & ‘stamos em pleno oceano de aférese…
 
na viagem por diversos modos da linguagem, vai-se um expletivo, outro & outro mais…
 
na viagem por diversos modos da linguagem, os poetas, nós somos muito silépticos, mas os poemas, elípticos demais.
 
na viagem por diversos modos da linguagem, a luz do sol que há em mim a brilhar à luz das linguagens.
 
(as tantas linguagens dentro da linguagem…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todos os ventos. autor: Antonio Carlos Secchin. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
LUZ
                                                                                                       
                                                                                                            A Ivo Barroso
                                     
 
                          Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon coeur.
                                                                                                
                                                                                                                 (Racine)
 
 
 
ao ver
o não
que sai
da dor
 
o som
da voz
já vai
no sim
 
no tom 
do céu
não vi
mais luz
 
do que
no sol
que há
em mim  
 
 
 
 
 
LINGUAGENS
                                                                      
                                                                          A José Carlos Santos de Azevedo
 
 
 
Notei que o vôo negro da hipálage
não tinha o mel dos lábios da metáfora,
e mais notara, se não fora a enálage,
e mais voara, se não fosse a anáfora.
 
Chorei mil mares profundos de hipérbole,
duas velas cortaram a metonímia,
e o pé da catacrese já marchava
no compasso bem toante dessa rima.
 
Verteu prantos a anímica floresta,
mas nós entramos dentro do pleonasmo,
‘stamos em pleno oceano desta aférese…
 
Vai-se um expletivo, outro e outro mais…
Os poetas, nós somos muito silépticos;
mas os poemas, elípticos demais.
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