A CATEDRAL DA DESORDEM

(Na foto, a tela “Omaggio a Ettore e Andromaca”, do grego Georgio De Chirico, considerado um dos precursores do Surrealismo na pintura.)
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aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) investimos contra a alma imortal dos gabinetes & sua personalidade burocrática devidamente penteada & engravatada, a carimbar papéis & assinar ofícios em nome do diretor da corporação.

aqui (por entre a vida boêmia da cidade), nós (eu & os meus) procuramos por amigos que não sejam sérios: loucos confidentes, imperadores desterrados, cafajestes com hemorróidas & todos que detestam os sonhos incolores (sonhos sem graça, sonhos que cheiram à assepsia hospitalar) da poesia das arcadas (poesia das arcadas: arcadismo: na estética árcade, o artista idealizava a vida no campo e se imaginava pastor em contato com a natureza & somente dela vivendo).
 
 nós (eu & os meus) sabemos muito bem que a ternura de lacinhos (a ternura cheia de afetações, repleta de paparicos ignominiosos) é um luxo protozoário (luxo de merda, de pouca valia, que não presta para nada).
 
a vida possui a sua dose de violência. 
 
há de se ter — alguns momentos suscitam — a sua dose de violência na veia, ingerida num gole só: a sede por violência.
 
sede (todos vós) violentos como uma gastrite! sede (todos vós) coléricos como uma neuralgia!
 
abaixo as borboletas douradas! 
 
olhai (todos vós) o cintilante conteúdo das latrinas! mergulhai (todos vós) no conteúdo rico das latrinas!
 
sim, senhores, é preciso estômago se se deseja ver a vida mais de perto, sem floreios, é preciso estômago se se deseja ver o lado da vida onde não cabem passarinhos árvores rios límpidos a correr, lado onde só caberia a flor se a flor: despetalada. 
 
aqui, na nossa catedral, na nossa matriz, só a desordem nos une: ceticamente barbaramente sexualmente.   
 
a nossa catedral está impregnada, está encharcada, do grande espetáculo do desastre (o grande espetáculo do desastre: a vida nos seus pormenores, onde o final de um enredo, como acontece na maioria das vezes, não é feliz nem fácil a sua trajetória).
 
nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a aurora (claridade que aponta o início da manhã) pelo crepúsculo (período que antecede o fim de algo, momento em que se percebe este fim; declínio, decadência), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o tênis (esporte onde os jogadores se enfrentam em lados opostos, sem se tocarem) pelo box (esporte onde os adversários se enfrentam cara a cara, um tentando derrubar o outro com socos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o poço (buraco, cavado na terra, para se extrair algo do subsolo, em geral água fresca) pela fossa (escavação, ou grande câmara subterrânea, em que são despejados e acumulados dejetos; por extensão de sentido: estado ou condição de quem se encontra deprimido, desalentado, triste), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o futuro (tempo que não chegou, que não se sabe se chegará, e que, portanto, não existe) pelo presente (o único tempo que nos cabe, o hoje, o já, o neste instante, o único tempo ao alcance dos dedos), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra as responsabilidades (obrigações chatas & criadas ao aborrecimento) pelas sensações (vivências significativas que mobilizam afetos & emoções), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a mecânica (automática, precisa, invariável) pelo sonho (devaneio, fantasia, quimera), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o regulamento (conjunto de prescrições que determinam a conduta de qualquer instituição ou corpo coletivo) pela compulsão (imposição interna irresistível que leva o indivíduo a realizar determinado ato ou a comportar-se de determinada maneira), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra os arcanjos (anjos pertencentes a uma ordem superior, assexuados, que atuam como mensageiros em missões especiais) pelos querubins homossexuais (anjos da primeira hierarquia, que não pertencentes a uma ordem superior), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a lógica (encadeamento coerente de alguma coisa que obedece a certas convenções ou regras, maneira rigorosa de raciocinar) pela magia (fascínio, feitiço, magnetismo), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o cordeiro (pessoa passiva, inocente, facilmente enganada) pelo lobo (pessoa astuta, esperta, dificilmente enganada), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o céu (lugar distante, paraíso longínquo, inalcançável) pela terra (lugar onde pisamos os pés, onde nos encontramos, lugar que, se possível, fazemos de paraíso), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra a religião (que julga, que castra, que pune) pelo sexo (que liberta, que anima, que expurga), nós (eu & os meus) investimos & nos manifestamos contra o governo (sistema, que percebemos falido, pelo qual se rege um estado) por uma convenção de cozinheiros (profissionais que, com suas iguarias gastronômicas, não só alimentam o corpo como alimentam a alma de satisfação & prazer).
 
nós (eu & os meus), nesta nossa catedral desordenada, aqui, em meio ao caos que é o próprio viver, investimos & nos manifestamos contra tudo que nos impeça de levar a vida da maneira como a vida é: espontânea, ocasional, surpreendente.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Um estrangeiro na legião — obras reunidas volume 1. autor: Roberto Piva. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)
 
 
 
 
A MÁQUINA DE MATAR O TEMPO
 
 
 
Aqui nós investimos contra a alma imortal dos gabinetes. Procuramos amigos que não sejam sérios: os macumbeiros, os loucos confidentes, imperadores desterrados, freiras surdas, cafajestes com hemorróidas e todos que detestam os sonhos incolores da poesia das Arcadas. Nós sabemos muito bem que a ternura de lacinhos é um luxo protozoário. Sede violentos como uma gastrite. Abaixo as borboletas douradas. Olhai o cintilante conteúdo das latrinas.
 
 
 
 
A CATEDRAL DA DESORDEM
 
 
 
A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: “Como são lindos os olhos deste idiota”. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambreta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes dos eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin Artaud, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas sensações, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por De Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pela invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim Europa pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela Magia, contra as magnólias pelos girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés, contra o meio-dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautrémont.
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