INVERNO

(Há algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei, naquele dia mesmo, o leão que sempre cavalguei?…)
____________________________________________________________

o mais feliz pela sua partida, o mais feliz por pensar que você ia embora.

no dia  em que fui mais feliz, eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir.

você, espelhando, no olhar, um avião, e eu feliz por isso. você, espelhando a partida no olhar, você, espelhando a viagem no olhar, e eu feliz por isso.

de lá pra cá (desde o dia em que vi um avião se espelhar no seu olhar, passado algum tempo), não sei… não sei se tão feliz como antes…

de lá pra cá, não sei… caminho ao longo do canal; pensativo, faço longas cartas pra ninguém; e o inverno, no leblon, é quase glacial. inverno rigoroso, de ventos fortes & frios…

há algo que jamais, nesse meio tempo, se esclareceu:

onde foi (em que parte) exatamente que larguei, naquele dia mesmo (no dia em que fui mais feliz, vendo um avião se espelhar no seu olhar, até sumir), o leão que sempre cavalguei?

há algo que jamais se esclareceu:

em que parte daquele dia larguei o leão que sempre cavalguei?…

o leão que sempre cavalguei:

eu, capaz de domar uma fera, o rei dos animais, um leão. eu, capaz de cavalgar um leão, arisco, violento, solitário.

naquele dia mesmo (no dia em que vi um avião se espelhar no seu olhar, até sumir, no dia em que fui mais feliz), onde foi exatamente que larguei o leão que sempre cavalguei?…

(esse acontecimento, esse “algo”, a mim, jamais se esclareceu.)

lá mesmo (lá no dia em que fui mais feliz, lá no dia em que larguei, perdido, o leão que sempre cavalguei) também esqueci que o destino — destino que tracei por sobre o leão que cavalguei — sempre me quis só. sempre só, no deserto, num local ermo (somente eu & o leão, bicho arisco, intratável), sem saudades, sem remorsos, no deserto, só, sem amarras (sem cabos ou cordas ou correntes), barco embriagado ao mar, barco extasiado, barco embebedado, do mar, barco que deseja só viajar, sem amarras, barco que só almeja o mar & o livre navegar.

por isso, por ser um barco embriagado ao mar, não sei o que (ou quem), em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra, um instante, por nós dois.

não sei o que (ou quem), em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra por nós dois: o céu na terra: o paraíso ao alcance dos dedos: o dia que o céu reuniu-se à terra (um instante) por nós dois.

porque, afinal, no dia em que fui mais feliz eu vi, nos seus olhos, a sua viagem, a sua partida — sim, eu, cujo destino sempre quis só, no deserto, sem saudades, sem remorsos, só, sem amarras, barco embriagado ao mar.

por isso, não sei o que, em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra, um instante, por nós dois, pouco antes do ocidente se assombrar, pouco antes do ocidente tornar-se sombreado, pouco antes do ocidente tornar-se menos luminoso, menos claro: um inverno quase glacial.

(no dia em que fui mais feliz… de lá pra cá, não sei… o leão que sempre cavalguei, cadê?…)

beijo todos!
paulo sabino.

____________________________________________________________

(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

INVERNO                                                    (para Suzana Morais)

 

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.

____________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do cd: A fábrica do poema. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: Inverno. versos: Antonio Cicero. música: Adriana Calcanhotto. gravadora: Epic Records.)

Anúncios

4 Respostas

  1. seu blog é maravilhoso, Paulo…
    há algo nesta música, especialmente, que clama para ser explicitado, e você a complementou de uma forma muito intrínseca.
    obrigada!
    beijos.

    • Obrigadíssimo pelas palavras generosas, querida Shenivar!

      Espero a sua visita outras vezes. Sempre digo que a poesia é a casa de todos que desejem nela se abrigar.

      Beijo grande!

  2. Muto massa essa interpretação, um pouco diferente do que eu imaginei, mas viajei no que diz a música “traduzida”. Obrigado pela ajuda!!

    • Maravilha, Leo! Bom saber que você curtiu a postagem! Espero mais visitas suas à página! Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: