OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: DANI ORNELLAS, MAÍRA FREITAS & WAGNER CINELLI

Ocupação Poética_4 edição_59

(Dani Ornellas)

Ocupação Poética_4 edição_52

(Maíra Freitas)

Ocupação Poética_4 edição_53

(Wagner Cinelli)
______________________________________________________

Aos interessados, 5 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o querido & simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: nos 2 primeiros vídeos, apresento a atriz Dani Ornellas, que lê um trecho do livro em homenagem a Duas Barras, cidade natal do Martinho; nos 2 vídeos seguintes, a pianista, cantora & compositora Maíra Freitas canta “Alô Noel”, poema-canção de Cláudio Jorge, e lê um trecho do livro em homenagem a Vila Isabel; e no quinto & último vídeo, o desembargador, músico & compositor Wagner Cinelli lê um trecho do livro em homenagem ao primeiro grande poeta da Vila Isabel, Noel Rosa, além de contar histórias divertidíssimas da sua família, que esteve próxima do Noel.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são grandes paixões na vida do Martinho da Vila: a sua cidade natal, Duas Barras; o bairro de Vila Isabel; e o primeiro grande poeta da Vila, Noel Rosa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino apresenta a atriz Dani OrnellasDani Ornellas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

A vida dos bibarrenses, qualitativo de quem é de Duas Barras, anda sempre calma como as águas dos rios limítrofes, Rezende e Negro. O tranquilo município da região serrana do Rio de Janeiro tem como bons vizinhos Cordeiro, Cantagalo, Bom Jardim, Nova Friburgo, Carmo e Sumidouro. É a terra de Josuel Wermelingerthal Ferreira, bairrista de quatro costados, como gostava de se definir orgulhosamente.

Eu não sabia, mas descobri que “quatro costados” é uma expressão portuguesa referente à legitimidade, e concluí que pode dizer que é de quatro costados qualquer pessoa que tem orgulho do que é. Assim se sentem os meus conterrâneos de todos os cantos, de Monnerat, segundo distrito, onde fui registrado, à Fazenda do Campo; de Holofote à Vargem Grande; da Rancharia à Fazenda das Flores; do lugarejo da Queda do Tadeu ao da Cachoeira Alta.

(…)

Gostava muito de acompanhar procissões. As que mais apreciava eram as que tinham a participação da banda de música, como as da Ressurreição de Jesus e a de Nossa Senhora da Conceição.

A marcha religiosa mais bonita era a da Ressurreição, que transitava por todas as ruas da cidade. Nas janelas, os moradores estendiam toalhas e outros panos coloridos. Caminhavam até a casa do secretário de Cultura, que tinha um quintal vasto, e ali era rezada uma missa campal com cânticos alegres.

Aqui vale um insight: são fundamentais em pequenas cidades um padre carismático e um secretário de Cultura atuante e festeiro. O prefeito deve ser franco, cordial e se fazer presente em tudo. Dos batizados aos casamentos, dos nascimentos aos velórios. E o delegado tem de ser sorridente e cordial.

Em noite de plenilúnio, daquelas em que o clarão do encantador corpo celeste provoca sombra nos corpos terráqueos, o interessante espaço do mirante Vale Encantado, há poucos quilômetros do centro bibarrense, estava lotado. Zaguinha, arrendatário da lanchonete, de violão em punho entoava serestas, sem uso do microfone. Todos paravam de conversar para ouvi-lo interpretar “Noite cheia de estrelas”, de Cândido das Neves, e muitos o acompanhavam:

 

Noite alta, céu risonho/ A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata/ Qual uma chuva de prata/
De raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas/ O teu cantor
Revelando à lua airosa/ A história dolorosa desse amor
Lua…

Manda a tua luz prateada/ Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos/ Sufocá-los com os meus beijos
Canto…
E a mulher que eu amo tanto/ Não me escuta, está
dormindo
Canto e por fim/ Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
Entre a neblina se escondeu
Lá no alto a lua esquiva/ Está no céu tão pensativa
As estrelas tão serenas/ Qual dilúvio de falenas/
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente/ Para escutar
O teu nome entre as endechas
E as dolorosas queixas/ Ao luar
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maíra Freitas canta Alô Noel, de Cláudio Jorge. Maíra Freitas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

Alô Noel
Eu vou cantando o meu samba
E fazendo na vida o meu melhor papel
Bem feliz eu sonho
Ter uma vida tranquila
E morar numa vila
Em Vila Isabel

Pode ser em qualquer rua
Ou na praça Barão de Drummond
E até mesmo num barraco
Naquele macaco do meu coração
Na Teodoro da Silva
Lá nas Torres Homem ou na Souza Franco

Mas a Vinte e Oito é que é o biscoito
Pra ir pro Maraca caminhando a pé
Desfilar de azul e branco
E beber na Visconde de Abaeté

 

Morar no Rio foi uma realização pessoal. Encantado pela cidade, apaixonou-se por Vila Isabel. Gostava de história e foi logo se informar sobre a Barão de Drummond, que deu nome à antiga praça Sete.

É a principal praça do bairro, cujo nome foi dado em homenagem à data da instalação do gabinete do primeiro-ministro visconde do Rio Branco (7 de março de 1871), responsável pela elaboração da Lei do Ventre Livre, a qual determinava a libertação dos nascidos de mães escravas. Emocionou-se ao saber que o boulevard Vinte e Oito de Setembro foi assim denominado em homenagem à data em que foi assinada a Lei do Ventre Livre pela regente princesa Isabel, em 1871. Boulevard origina-se do francês e significa um tipo de via de trânsito, geralmente larga, com muitas pistas, ou dividida em dois sentidos. É nesse logradouro que fica a quadra da Unidos de Vila Isabel, onde assistiu a muitos ensaios, conquistou amizades… Fez muitos amigos na vila onde foi residir, na rua Teodoro da Silva, assim batizada em homenagem a Antonio Teodoro da Silva, que assinou a Lei Áurea com a princesa Isabel.
_____________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Wagner Cinelli lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Violão ele aprendeu inicialmente com um irmão que dominava categoricamente o instrumento. Estudou também com os métodos de violão publicados nos jornais de modinha. Frequentava os saraus caseiros de Vila Isabel e ouvia com curiosa atenção os músicos que acompanhavam os seresteiros. Pode-se dizer que era um músico de ouvido. Como solista fazia uns acordes difíceis, que parecem errados, mas não são. Noel foi um autodidata e tornou-se um excelente violonista acompanhador. Participou de vários grupos musicais, inclusive o importante Bando de Tangarás, formado por Braguinha, Alvinho, Henrique Brito e Almirante. Tinha muito ritmo, tirava diferentes acordes. Por isso os grandes artistas da época gostavam de serem acompanhados por ele. Era o preferido do Francisco Alves, o mais famoso.

Ele também fez sucesso como cantor. Não era dotado de uma grande voz, mas tinha muito suingue. Participava de shows com os grandes cantores, inclusive fez dupla com Chico Alves, “O Rei da Voz”. O sucesso dele nos palcos não era pela voz, mas pelos trejeitos, pela atração pessoal e pelo repertório que apresentava, composto exclusivamente por composições próprias. As mais apreciadas pelo público eram as bem-humoradas, como “Conversa de botequim”, que cantava quase declamando, como se estivesse conversando com um garçom:

 

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Telefone ao menos uma vez
Para três, quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom, me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: